A amizade é a única engrenagem que nunca enferruja
Quando o passaporte de Viriato começa a vibrar numa manhã de sábado, não há tempo a perder. Com Flocky à frente — o cão rafeiro de pelo cor de cor-sem-nome e orelhas que nunca chegaram a acordo — e os amigos Léo, Bruno Cabumba e Tobias do Ui, os cinco saltam para dentro do passaporte mágico e aterram no Jurássico.
À espera deles está Arrebotes Bacolão — o Tiranossauro Rex mais aterrador do Mesozóico. E também o mais envergonhado porque, não se sabe há quantos milhares de anos, não consegue lavar os dentes. Os braços são simplesmente pequenos demais.
Quando três dinossauros mecânicos aparecem para estragar o encontro, o grupo de Viriato descobre que uma bolada certeira, uma corrida urgente, uma resmunguice bem colocada e uma cauda com pontaria valem mais do que qualquer garra robótica.
_Uma aventura onde se aprende que pedir ajuda não é fraqueza, é o começo de uma amizade. Também se aprende a usar o que se tem e descobre-se o que acontece quando se faz um amigo onde se esperava encontrar um monstro _
CAPÍTULO 1 — O Quarto das Maravilhas e o Chamamento
Viriato não era um rapaz de grandes posses, mas era um rapaz de grandes tesouros. No seu quarto, que cheirava invariavelmente a lápis de cor afiados, sapatilhas que tinham visto demasiada lama e ao pelo ligeiramente húmido de Flocky, as prateleiras não guardavam troféus de ouro, mas sim objetos que contavam o que o mundo escondia de quem não sabia olhar.
Tinha particular gosto numa coleção de caricas que o avô lhe tinha legado. Estavam organizadas não por marca de refrigerante, mas por "grau de dignidade". As caricas de metal dourado eram os generais; as que tinham perdido a tinta em batalhas contra o alcatrão do recreio eram os veteranos de guerra; e havia uma carica de uma laranjada esquecida dos anos 80 que Viriato guardava numa caixa de veludo, porque acreditava que ela continha o segredo das bolhas eternas.
Mas, acima de todas as caricas, acima do frasco com areia do deserto que brilhava quando a lua batia no vidro, e acima da réplica de um barco feita inteiramente com palitos, fósforos e outros pauzitos, estava o Passaporte. O seu tesouro verdadeiro. Mágico.
Era um passaporte vermelho escuro, de uma cor que lembrava o vinho que o avô Mário por vezes bebia. As bordas estavam tão gastas que pareciam feitas de um tecido antigo, e o brasão na capa já não mostrava um país, mas sim um símbolo que mudava conforme a luz: ora parecia uma bússola, ora uma chave, ora um par de orelhas de cão.
Viriato estava deitado na cama, com as pernas para o ar apoiadas na parede, uma posição que ele jurava que ajudava o sangue a chegar às ideias mais difíceis. Naquela manhã de sábado, o sol entrava em feixes de luz carregados de poeira dourada, e Viriato folheava o Passaporte com a reverência de um monge.
Cada carimbo naquela caderneta era uma história e uma cicatriz de felicidade.
— Olha para este, Flocky — disse Viriato, apontando para um carimbo cor de laranja vibrante. — O Elefante de Três Trombas. Lembras-te? Na Savana de Cristal?
Flocky, que estava enrolado no tapete numa posição que lembrava um biscoito mal cozido, abriu um olho. O seu pelo, de uma cor que Viriato definia como "cor-de-café-com-leite-mas-com-demasiado-leite-e-talvez-um-pouco-de-pó", era um mapa de rafeirice pura. As suas orelhas, como sempre, estavam em desacordo diplomático: a direita apontava para a cozinha, na esperança de ouvir o som de um frigorífico a abrir, enquanto a esquerda estava dobrada sobre o olho, como uma pala de pirata.
Flocky soltou um suspiro profundo. Lembrar-se da Savana de Cristal era lembrar-se de como o seu próprio latido tinha ecoado em três tons diferentes devido à atmosfera rica em hélio daquele lugar. Foi divertido, sim, mas ele quase tinha ficado sem fôlego a perseguir borboletas que voavam à velocidade de aviões a jato.
— E este aqui? — Viriato passou a página para o carimbo de um polvo azul-marinho com sete tentáculos. — O Capitão Sete-Pés. Ele não era um polvo qualquer, Flocky. Era um cartógrafo das fossas abissais. Passámos três dias a ajudá-lo a encontrar a sua caneta de tinta permanente que tinha caído numa fenda vulcânica. Lembras-te do cheiro a enxofre e a peixe frito?
Flocky bateu com a cauda no chão duas vezes. Era o seu sinal para "Sim, lembro-me, agora deixa-me dormir porque o pequeno-almoço foi há três horas e eu já estou a entrar em modo de reserva de energia".
Naquela manhã de sábado, Viriato estava deitado na cama a contar os carimbos pela enésima vez, como quem conta estrelas por teimosia. De repente, o Passaporte não se limitou a ser um livro de recordações. Ele ganhou vida.
Começou com um formigueiro nas pontas dos dedos de Viriato. Depois, uma vibração subtil, como se um enxame de abelhas estivesse a tentar sair de dentro do papel. A vibração intensificou-se, transformando-se num batimento rítmico, um "bum-bum, bum-bum" que parecia o coração da própria Terra a bater.
— Flocky! — Viriato saltou da cama, quase derrubando a sua pirâmide de caricas. — Está a acontecer!
O Flocky estava com aquela expressão que os cães têm quando pressentem algo importante mas preferem esperar para ver se é mesmo necessário levantar-se. Mas quando ouviu Viriato gritar o seu nome, as orelhas dispararam na mesma direção pela primeira vez em meses: para cima. O cão levantou-se dum salto, as patas a escorregarem no soalho encerado antes de conseguir tração. Aproximou-se do Passaporte, que agora flutuava a alguns centímetros das mãos de Viriato, emitindo uma luz dourada que cheirava a erva fresca e a tempestade iminente.
A última página em branco começou a preencher-se. Não era um carimbo normal. Era uma imagem que se formava como se alguém estivesse a pintar com luz por detrás do papel. Apareceram fetos gigantes, vulcões a fumegar no horizonte e a silhueta de algo tão grande que a página parecia pequena demais para o conter.
— É um carimbo ao contrário — sussurrou Viriato, os olhos brilhando. — Isto significa que não somos nós que vamos a algum sítio: é um sítio que nos vem buscar. Alguém, em algum lugar do tempo, decidiu que nós somos a resposta para um problema.
Viriato correu para a janela e escancarou-a. O ar fresco da manhã entrou, mas para ele, o ar já cheirava a Jurássico.
— LÉO! BRUNO! TOBIAS! — gritou ele, com pulmões de quem está a convocar um exército. — LARGUEM OS COMANDOS, ESQUEÇAM O LEITE COM CHOCOLATE! TEMOS UMA ANOMALIA DE NÍVEL CINCO!
Houve um silêncio no bairro. Depois, uma janela abriu-se três casas ao lado. Era o Léo. Ele estava com o capuz da camisola metido até aos olhos e segurava um espanador como se fosse uma espada laser.
— Viriato! São nove da manhã de um sábado! — protestou o Léo. — Eu estava a meio de uma operação de limpeza de aranhas no meu teto. Elas estão a planear uma invasão, eu sinto-o!
— Léo, as tuas aranhas podem esperar! O Passaporte está a vibrar na frequência do verde-antigo!
A cabeça do Bruno Cabumba apareceu na janela de baixo. Ele estava a fazer girar uma bola de ténis no dedo, com aquela calma irritante de quem consegue resolver um cubo de Rubik de olhos vendados.
— Verde-antigo? — perguntou Bruno, parando a bola. — Isso significa que o tempo está a ficar espesso. Interessante.
E, por fim, o Tobias do Ui apareceu no meio da rua, vindo de lado nenhum, já vestido com o seu equipamento completo de guarda-redes, incluindo as luvas almofadadas que faziam as suas mãos parecerem pães de forma gigantes.
— UI! — gritou ele, saltando por cima de qualquer coisa e tropeçando na soleira da porta com a desenvoltura de quem faz isso de propósito — Estou bem! — anunciou do chão, levantando um polegar — Eu senti a vibração nos meus joelhos! É para mergulhar para que lado, Viriato? Para a esquerda ou para a direita?
— Para o meio, Tobias! — respondeu Viriato. — Venham para aqui agora! O portal não vai ficar aberto para sempre e eu não quero ir para o Jurássico sem alguém que saiba fazer um nó de correr e alguém que tenha medo de aranhas para nos avisar se houver perigo!
— Eu não sou um detetor de aranhas! — gritou Léo, enquanto já corria em direção à casa de Viriato. — Sou um especialista em segurança doméstica!
Cinco minutos depois, o "gangue do passaporte" estava reunido no quarto. O ambiente era de eletricidade pura. O Passaporte, agora sobre a secretária, era uma janela aberta para um mundo que não deveria existir há milhões de anos. O verde que aparecia cheirava, mesmo através da janela de papel, a terra molhada e a alguma coisa enorme que ainda não se via mas que se sentia no ar como um trovão que ainda não chegou.
— Ouviram o que eu disse — afirmou Viriato, assumindo a sua pose de capitão. — Tragam os vossos melhores dias e deixem as reclamações no tapete da entrada. O que vamos encontrar lá dentro pode ser grande, pode ser perigoso e, quase de certeza, vai precisar de uma boa dose de lata e amizade. Estamos juntos?
— Se houver aranhas de oito metros, eu demito-me — disse Léo, embora já estivesse a verificar se os cordões das sapatilhas estavam bem apertados.
— As minhas mãos estão prontas — disse Bruno, guardando a bola de ténis no bolso lateral das calças.
— UI! Ou é golo ou é defesa! — exclamou Tobias, batendo com as luvas uma na outra, levantando uma pequena nuvem de pó.
Flocky, aos pés deles, soltou um latido curto e autoritário. Ele era o único que adivinhava que, no Jurássico, o verdadeiro perigo não eram as garras, mas sim o que acontecia quando o coração de um dinossauro se sentia sozinho.
CAPÍTULO 2 — O Salto para o Verde
Atravessar um portal criado por um passaporte mágico não é como passar por uma porta normal. Não há dobradiças, não há maçaneta, nem há a segurança de saber que o outro lado é o corredor lá de casa.
Quando Viriato deu o sinal e o grupo avançou, a sensação foi a de ser engolido por uma melodia. As cores do quarto começaram a derreter. O azul das paredes e o castanho das estantes transformaram-se num turbilhão de verde e amarelo. O som do trânsito lá fora e do rádio da vizinha foi substituído por um silêncio pesado, que depois deu lugar a um som profundo, como o de uma orquestra de violoncelos a tocar debaixo de água.
— Segurem-se uns aos outros! — gritou Viriato, embora a sua voz soasse a quilómetros de distância.
Léo agarrou-se à mochila de Viriato com tanta força que os seus nós dos dedos ficaram brancos. Tobias tentou fazer um mergulho de guarda-redes para dentro da luz, mas acabou por ser puxado por uma força que parecia vinda do centro da Terra. Flocky, por sua vez, flutuava com uma calma invejável, as quatro patas a remar no ar como se estivesse a praticar um novo estilo de natação canina.
Então, o "estalo".
Foi um som seco, como o de um ramo a quebrar, e de repente a gravidade voltou a funcionar com uma vontade redobrada. O grupo aterrou num monte de folhas que eram tão grandes como cobertores de cama e tão macias como veludo húmido.
— Estamos vivos? — perguntou Léo, a voz abafada pelo capuz. — Alguém conte os braços. Eu acho que tenho um a mais.
— É o meu pé, Léo — disse Bruno, levantando-se e limpando o pó de uma lagarta azul néon que passeava pela sua perna. — E sim, estamos vivos. Mas não estamos no bairro.
Viriato foi o último a levantar-se. Ele segurava o Passaporte, que agora estava frio ao toque, a luz dourada tendo-se recolhido para dentro das páginas. Ele olhou em volta e o que viu fê-lo esquecer todas as palavras que tinha aprendido na escola.
Eles estavam numa catedral de verde.
As árvores, que alguém chamaria mais tarde de "fetos-do-céu", erguiam-se a centenas de metros, com troncos escamosos que pareciam cobertos por armaduras de cavaleiros gigantes. As copas eram tão densas que a luz do sol chegava ao chão filtrada, criando um ambiente de penumbra mágica, onde cada raio de luz parecia um pilar sólido de pólen e mistério.
O ar parecia mais grosso. Mais antigo. Tinha um cheiro a terra virgem, a resina de pinheiro e a algo eléctrico, como o cheiro que fica no ar depois de um relâmpago. Parecia que estavam a respirar dentro de um livro muito, muito velho. Era o cheiro do tempo antes de ser inventado o relógio.
— Isto é... — começou Tobias, tirando as luvas para sentir a textura de uma folha próxima. — UI! Isto é enorme! Olhem para aquela libelinha!
Uma libelinha do tamanho de um falcão passou por cima deles, as suas asas transparentes produzindo um zumbido que fazia o peito de Viriato vibrar. Ela tinha olhos que brilhavam como joias facetadas e um corpo que parecia feito de safira polida.
— Segundo os meus cálculos isto não é o nosso bairro — disse Bruno, tirando a bola de ténis e deixando-a cair. Ela não ressaltou; foi engolida pela vegetação rasteira que parecia ter vida própria. — A humidade aqui é de 95%, a gravidade parece ligeiramente diferente e o perigo de sermos esmagados por qualquer coisa que decida sentar-se em cima de nós é de... bem, é bastante alto.
As plantas tinham o tamanho de prédios. E o chão tremia, muito levemente, como se alguém no fundo do mundo estivesse a dar passos.
Flocky farejou o ar durante vinte segundos. Depois sentou-se. Depois voltou a farejar. Depois olhou para Viriato com a expressão de quem já percebeu tudo mas está a guardar para o momento certo.
— Ótimo — resmungou Léo, que já estava a verificar se por baixo das folhas gigantes não havia aranhas com dentes. — Viemos parar a um jardim que se esqueceu de parar de crescer. Viriato, o que é que o Passaporte indica?
— Jurássico — disse Viriato, com uma voz que tentava ser calma e ficou ali a meio do caminho, entre o espanto e o sorriso. — Estamos no Jurássico.
Abriu a última página. O carimbo que se estava a formar não era estático. Ele vibrava e apontava na direção de uma montanha ao longe, que tinha o formato de um dente partido e que libertava uma coluna fina de fumo azul.
— Temos de caminhar — disse Viriato. — O carimbo mostra que o que nos chamou está à nossa espera. E, pelo tamanho da pegada que acabei de ver ali à frente, ele não deve ser do tipo que gosta de esperar muito tempo.
Eles começaram a avançar pela selva. Cada passo era uma descoberta. Encontraram flores que se fechavam quando ouviam o som de uma voz e fungos que brilhavam com uma luz violeta quando Flocky lhes passava perto com a cauda.
O que eles não sabiam é que, entre as sombras de metal que começavam a infiltrar-se nos limites daquele paraíso verde, olhos vermelhos e mecânicos já os seguiam. Ali, a anomalia não era apenas o Viriato e os seus amigos. A verdadeira anomalia estava a chegar, carregada de ferrugem e más intenções.
— Ouviram isto? — perguntou Léo, parando de repente.
— O quê? — perguntou Tobias. — Eu só oiço o meu estômago a reclamar do pequeno-almoço que não tomámos.
— Não — disse Léo, a voz tremendo um pouco. — Não era um bicho. Era um som de... engrenagens. Como se o mato estivesse a ranger.
Flocky rosnou baixinho, um som gutural que Viriato conhecia bem. Era o rosnado de "há algo aqui que não pertence à natureza".
— Fiquem juntos — ordenou Viriato, a mão firme sobre o Passaporte. — O Jurássico é antigo, mas o que quer que tenha feito aquele barulho parece ser muito, muito moderno.
CAPÍTULO 3 — O Monstro com Olfato Húmido
O rugido que rasgou o ar minutos depois não foi um som de engrenagens. Foi algo orgânico, colossal e desesperado. O som viajou pela terra, fazendo com que o lodo sob os pés dos rapazes saltasse e os pequenos répteis que rastejavam nos troncos desaparecessem num piscar de olhos.
— UI! — gritou Tobias, caindo de rabo numa poça de lama que cheirava a ovos podres e mistério. — Esse foi dos grandes!
— Não foi apenas grande — disse Bruno, ajudando Tobias a levantar-se com uma mão enquanto com a outra segurava o equilíbrio. — Foi um rugido de 120 decibéis. Isso é o equivalente a estar ao lado de uma turbina de avião, se os aviões tivessem cordas vocais de aço.
À frente deles, a vegetação abriu-se como se estivesse a ser cortada por uma faca invisível. E lá estava ele.
Arrebotes Bacolão era uma montanha de carne e escamas. O seu corpo, coberto por uma pele que parecia couro envelhecido pelo sol de milénios, tinha tons de terra e musgo. A cabeça era enorme, um bloco de osso e músculo onde sobressaíam olhos cor de âmbar, profundos e líquidos, que agora pareciam fixos nos rapazes com uma intensidade inquietante. Aquela era uma visão que deveria meter medo. E, de facto, meteu.
Léo agarrou no braço de Bruno. Bruno agarrou no braço de Léo. Tobias do Ui posicionou-se em posição de defesa, de pernas abertas, os braços estendidos, com uma expressão de concentração total que seria intimidante se os joelhos não lhe tremessem tanto que até se ouviam. Flocky colocou-se à frente de Viriato e cresceu três centímetros de porte, que é o que os cães fazem quando decidem que são maiores do que são.
Viriato ficou parado, a olhar para o Tiranossauro Rex, e o Tiranossauro Rex ficou parado, a olhar para Viriato.
A mandíbula de Arrebotes, capaz de esmagar troncos de árvores como se fossem palitos, estava entreaberta, revelando dentes que eram, cada um deles, do tamanho de um punhal de combate. Mas havia algo de errado. O T-Rex não avançou. Ele não rugiu outra vez. Em vez disso, sentou-se sobre as patas traseiras, um movimento que provocou um pequeno terramoto local, e soltou um som que nenhum dos rapazes esperava ouvir de um predador de topo.
Foi um fungar. Um fungar húmido, ruidoso e, inegavelmente, triste. Soava a uma espécie de choro envergonhado.
— Estás... estás a chorar? — Viriato deu um passo à frente, ignorando o puxão de pânico que Léo deu na sua camisola.
O T-Rex olhou para Viriato. Uma lágrima do tamanho de uma bola de futebol escorreu pelo seu focinho escamoso e caiu no chão, criando uma pequena cratera.
— Não estou a chorar — disse Arrebotes Bacolão. A sua voz era como o som de duas placas tectónicas a roçarem uma na outra, mas com a suavidade de um sussurro. — É o meu olfato que está húmido. Tenho... sensibilidades nasais. Poeiras de fetos, sabem como é.
— Claro — disse Viriato, com a seriedade de quem está a lidar com um paciente muito, muito grande. — Nós compreendemos perfeitamente.
— Mentira! — soluçou o T-Rex, e o vento provocado pelo seu soluço quase atirou o Léo para trás. — Eu estou a chorar! Sou o Tiranossauro mais triste de todo o Mesozóico! Olhem para mim! Sou enorme! Sou supostamente o terror das planícies! E no entanto...
Ele tentou levar os seus pequenos braços à cara para limpar os olhos. As suas mãos, com dois dedos terminados em garras afiadas, ficaram a meio caminho do peito, agitando-se inutilmente no ar.
Tentou cruzar os braços. Não conseguiu, porque os seus braços eram do tamanho de salsichas de churrasco e não chegavam a lado nenhum útil. Esse facto pareceu tornar as coisas piores.
— Vêem? — perguntou Arrebotes, com uma voz carregada de auto-comiseração. — Estes braços! São uma piada evolutiva! Servem para quê? Para nada! Não consigo abraçar um amigo, não consigo coçar as costas e, o pior de tudo... não consigo lavar os dentes!
Houve um silêncio pesado. O grupo olhou para a mandíbula de Arrebotes. De facto, entre as fendas dos dentes monumentais, viam-se restos de fibras vegetais, pedaços de carne de há uma semana e algo que parecia ser uma libelinha fossilizada. O cheiro que emanava daquela boca era uma mistura de pântano esquecido e lixeira municipal.
— Doem-me — continuou o dinossauro, baixando a cabeça até ficar à altura dos rapazes. O seu hálito era tão forte que o Tobias teve de pôr as luvas de guarda-redes à frente do nariz para não desmaiar. — Sinto pontadas. E os outros dinossauros... eles gozam comigo. Chamam-me "Bafo-de-Lodo". Dizem que eu não sou um caçador, mas sim um evento biológico perigoso.
Léo, que até ali estava escondido atrás do Bruno, sentiu uma súbita onda de empatia. Ele sabia o que era ser gozado por algo que não se consegue controlar.
— Isso é horrível — disse Léo, saindo de trás do amigo. — As pessoas... quero dizer, os dinossauros podem ser muito cruéis.
— São! — exclamou Arrebotes. — No outro dia, um Velociraptor passou por mim a correr e atirou-me com um fruto qualquer enquanto gritava: "Vai lavar essa gruta!". Eu tentei apanhá-lo, mas ele era tão pequeno e rápido... e eu só conseguia pensar em como o meu hálito estava a murchar as flores à minha volta.
Viriato olhou para o Passaporte. Ele estava a brilhar com uma luz azul-clara, a cor da cura e da amizade. Ele sabia que o carimbo não os tinha trazido ali apenas para verem um T-Rex; tinha-os trazido para resolverem uma crise. Existencial e ambiental.
— Como te chamas? — perguntou Viriato.
— Arrebotes Bacolão — disse o Tiranossauro Rex, com uma dignidade que desafiava as circunstâncias.
— Arrebotes — disse Viriato, colocando a mão na pele rugosa e quente da pata do dinossauro. — O meu nome é Viriato. Estes são o Léo, o Bruno Cabumba
e o Tobias. E este é o Flocky. Nós não viemos do teu tempo, mas viemos com uma missão. E eu acho que a nossa missão hoje é devolver-te o teu sorriso.
— O meu sorriso? — perguntou Arrebotes, esperançoso. — Vocês conseguem fazer isso? Sem me espetarem com lanças ou tentarem fugir aos gritos?
— Nós somos especialistas em problemas impossíveis — afirmou Viriato. — Bruno, o que é que temos no inventário que possa ajudar um T-Rex com gengivite?

CAPÍTULO 4 — Engenharia Dentária Jurássica
A mochila de Viriato era famosa, entre os amigos, por ter sempre exatamente aquilo que era preciso no momento errado. Ou aquilo que parecia errado até se perceber que era mesmo o que era preciso. Bruno Cabumba, que tinha a mente de um arquiteto e as mãos de um relojoeiro, espalhou o conteúdo sobre uma pedra plana que servia de mesa improvisada.
— Vejamos — disse Bruno, analisando os objetos com um olho clínico:
A - Um pincel que o Viriato usava para limpar o passaporte quando ficava com tinta de carimbo nos cantos;
B - Uma garrafa de água com hortelã-pimenta que o avô lhe tinha dado para "quando precisares de acordar de um susto";
C - Um rolo de corda que estava ali desde não se sabia quando;
D - Um bocado de pão com mant… Nnhac! O Flocky nem deixou chegar ao fim a descrição do que era;
E - Quatro peças grandes de lego;
F - Um rebuçado amarelo;
G - Uma bola de lixo variado: pêlos de Flocky, cotão, migalhas, tudo envolvido em manteiga e restos de várias pastilhas;
Analisado o material, jogado um jogo de pedra-papel-tesoura para ver quem ficava com o rebuçado, engendraram um plano para ajudar o triste T-Rex. O plano surgiu do Bruno Cabumba, que tinha aquele tipo de inteligência prática que não precisa de muito tempo para funcionar.
— Atamos o pincel à cauda — murmurou Bruno, a girar a bola de ténis com dois dedos enquanto pensava, como se as mãos pensassem por conta própria. — A cauda chega à boca. O Arrebotes só tem de a agitar. Nós tratamos da menta e da água.
— Muito bem. Arrebotes, preciso que te deites. Precisamos de acesso total à cavidade oral sem o risco de sermos teletransportados por um espirro acidental.
O T-Rex obedeceu com uma docilidade que teria feito qualquer paleontólogo cair de joelhos em choque. Ele esticou-se no chão da selva, a cabeça apoiada num tronco caído. A sua boca aberta era do tamanho de uma pequena garagem.
Mas uma pequena dúvida surgiu-lhe no espírito — Pensar isso — disse Arrebotes, olhando para a própria cauda com uma expressão de descoberta que uma criatura tão antiga não deveria ter — ou é de génio ou uma vergonha: então eu vou meter o rabo na boca!?
— Ambas as coisas são possíveis em simultâneo — disse Léo, que neste ponto específico tinha razão: o plano era genial mas um bocadinho vergonhoso.
— Operação Dentes-Limpos, fase um! — anunciou Viriato.
A operação levou vinte minutos. Dar quatro nós, resolver dois desentendimentos sobre o quanto se devia esticar a corda… até uma intervenção decisiva de Bruno, que atou tudo de uma forma que ficou firme e certa sem que ninguém conseguisse explicar muito bem porquê e o pincel lá ficou fixado à cauda.
— Agora, Arrebotes — instruiu Bruno. — Precisas de usar a tua cauda como se fosse uma escova de dentes motorizada. Movimentos circulares, percebes?
Tobias do Ui posicionou-se de um lado, com a garrafa de água de hortelã-pimenta, em posição de lançamento. Léo ficou do outro lado a dar indicações, que era o papel que melhor lhe servia porque envolvia não ter de fazer nada de arriscado.
— Quando eu der o sinal, Tobias! — gritou Viriato. — Lanças a água com precisão! Não podemos desperdiçar nem uma gota daquela menta!
— UI! Deixa comigo! — exclamou Tobias. — Eu já treinei a pontaria a atirar garrafas de água aos árbitros... quero dizer, aos baldes de lixo no recreio!
— E se aparecer uma aranha? — perguntou Léo.
— Não vai aparecer nenhuma aranha.
— No Jurássico? Tens a certeza?
— Léo!
— Sim?
De repente todos saltaram, assustados. Ouvira-se um barulho horrendo, que parecia vindo das entranhas dum monstro. Mas não tinha sido o Arrebotes, porque este estava também assustado a tentar perceber a origem da ameaça…
Até que todos os olhares pousaram no Tobias. Ele segurava a garrafa da água mentolada e limpava os cantos da boca com as costas da mão. Com um ar de doidivanas, disse — O qu’é que foi? Bebi um bocadinho e arrotei. Qual é o problema?
O Arrebotes Bacolão, recuperado do susto, virou-se para o Viriato e segredou — O que é que disseste que ele era?
— Guarda-redes.
— Ah… Ainda bem que aqui no Jurássico não temos bichos desses.
O Viriato retomou o comando das operações e contou:
— 1, 2, 3, JÁ!
A operação começou. Foi um espetáculo de coordenação improvável. Arrebotes agitava a cauda com uma precisão surpreendente, o pincel batendo ritmicamente contra os dentes colossais. Tobias lançava jatos de água de hortelã nos momentos certos, criando uma espuma aromática que começou a neutralizar o cheiro a pântano.
Viriato, por sua vez, tinha a tarefa mais difícil: o Controlo de Pragas. Com um ramo comprido, ele ia retirando os pequenos restos de comida que a escovagem libertava.
— Aranha! — gritava Léo a cada trinta segundos. — Não, espera, é apenas uma unha de brontossauro velho. Falso alarme!
Flocky não estava parado. Ele corria à volta da cabeça de Arrebotes, dando latidos de incentivo que pareciam ajudar o dinossauro a manter a boca aberta sem se cansar.
Passada meia hora, a transformação era inacreditável. Os dentes de Arrebotes Bacolão, antes amarelados e cobertos de detritos, agora brilhavam com um branco perlado sob a luz filtrada da selva. O hálito de hortelã-pimenta espalhou-se por centenas de metros, fazendo com que alguns insetos jurássicos, habituados ao cheiro a podridão, batessem em retirada, confusos.
Arrebotes fechou a boca e saboreou a sensação. Ele passou a língua pelos dentes.
— Está... está fresco — sussurrou ele, os olhos de âmbar brilhando de alegria. — Sinto-me... leve! Sinto-me capaz de rugir sem pedir desculpa ao mundo!
— E deves rugir! — disse Viriato. — Um T-Rex com dentes limpos é um T-Rex que impõe respeito!
Flocky farejou os dentes do Bacolão, avaliou, e abanou o rabo com aprovação. As orelhas foram as duas para o mesmo lado, o que era raro, e significava que a situação era mesmo boa.
Arrebotes Bacolão sorriu. Era um sorriso de Tiranossauro Rex, o que significa que era uma vista que exigia alguma preparação prévia, mas dentro das circunstâncias era inegavelmente um sorriso.
Levantou-se, as suas escamas estalando com o movimento. Ele olhou para os rapazes com uma gratidão que as palavras mal conseguiam expressar. Ele tentou, mais uma vez, abraçá-los com os seus pequenos braços, mas desta vez, em vez de ficar triste, ele riu-se.
— Vocês são anomalias fantásticas! — exclamou ele. — Se algum dia precisarem de alguém para assustar os vossos inimigos ou para alcançar algo numa prateleira muito alta... contem comigo!
Mas o momento de celebração foi interrompido por um som que gelou o sangue de todos.
Não foi um rugido. Não foi o vento. Foi o som de metal a bater contra metal, um "clang-clang" rítmico e impiedoso que vinha da direção da montanha de fumo azul.
CAPÍTULO 5 — Sombras de Ferro na Selva
O ambiente na selva mudou instantaneamente. Os pássaros primitivos pararam de cantar e até o vento pareceu prender a respiração. Das sombras entre os fetos gigantes, surgiram eles.
Eram três criaturas que pareciam pesadelos feitos de sucata. Tinham a forma de dinossauros, de tamanho médio, mas onde deveria haver pele e músculo, havia placas de ferro ferrugento, engrenagens expostas e fios que soltavam faíscas azuis. No lugar dos olhos, tinham lentes vermelhas que giravam, emitindo um som de digitalização constante. No lugar das patas tinham lagartas de tanque.
Eram os Guardas do Tempo.
No peito de cada um, uma placa de bronze dizia: UNIDADE DE RECUPERAÇÃO Nº 1, 2 e 3.
— ANOMALIA BIOLÓGICA DETETADA — disse o número um, com uma voz que parecia uma gaveta cheia de pregos a ser sacudida. — PRESENÇA DE ENTIDADES ORGÂNICAS FORA DO PERÍODO. POSSE ILEGAL DE PASSAPORTE MÁGICO. DEVOLUÇÃO IMEDIATA PARA INCINERAÇÃO.
— Incineração?! — gritou Tobias, escondendo-se atrás da perna de Arrebotes. — UI! Isso é muito pior que reciclagem!
Arrebotes Bacolão rosnou, e desta vez o som fez as placas de metal dos robôs vibrarem perigosamente. Mas os robôs não recuaram. Eles não tinham medo. Eles tinham apenas algoritmos.
— Afastem-se, pedaços de lixo! — disse o T-Rex. — Estes são meus amigos. E no Jurássico, quem mexe com os amigos do Arrebotes, acaba como... bem, acaba muito mal!
— Afastem-se, broncamontes de lata! — gritou Tobias do Ui, saltando de um lado para o outro como se estivesse a aquecer para uma final da Taça.
— Eles pertencem ao Grande Mundo do Ferro — explicou Arrebotes aos rapazes, sem tirar os olhos dos robôs. — Querem extinguir tudo o que respira para transformar o mundo numa oficina gigante. O chefe deles é o Penico Automático. Ele era um Carnotauro normal, até que encontrou o "Veneno Negro".
— O "Veneno Negro"? — perguntou Viriato.
Arrebotes usou a sua pata enorme para escavar um pouco o chão. Lá estava ele: um pedaço de metal branco, retorcido, com um símbolo que Viriato nunca tinha visto: um relógio de areia atravessado por um raio.
— Isto caiu do céu há muito tempo — disse Arrebotes. — Trazia dois homens maus que roubaram passaportes a crianças. O Penico bebeu o que saía das asas desse pássaro de ferro, o "Veneno Negro", e ficou... diferente. Ficou mau. Ficou mecânico, com o coração de ferro e a alma cheia de ferrugem. Ele odeia passaportes porque foi um que trouxe o pássaro de metal que quase o matou.
Viriato pegou no pedaço de metal. Estava frio, mas parecia pulsar com uma energia negativa. Ele olhou para o Passaporte na sua mão. O Passaporte estava a vibrar com uma luz vermelha de alarme.
— O avião... — disse Viriato, lembrando-se, sem saber como, de uma história que nunca tinha ouvido — Os criminosos roubaram passaportes mágicos a crianças e abriram-nos sem saber o que faziam.
— Eles não querem apenas o Passaporte — percebeu Viriato. — Eles querem apagar a nossa história. Querem que o mundo se esqueça de que a amizade é mais forte que o ferro.
— ALVO IDENTIFICADO — repetiu o robô número dois. Das suas costas, saiu um braço mecânico fino, terminado numa garra que parecia um bico de abutre. — PROCEDER À EXTRACÇÃO DO OBJECTO. ENTREGUEM O OBJECTO OU SERÃO PROCESSADOS COMO RESÍDUOS.
O robô avançou, as suas lagartas de metal esmagando as flores jurássicas com uma indiferença cruel.
Tobias inclinou-se para Viriato, o suor a escorrer-lhe por baixo das luvas.
— Viriato, estes gajos não parecem estar a brincar. E aquele braço metálico está muito interessado na tua mochila.
— Pois está — concordou Viriato. — E nós vamos dar-lhes uma lição de como se lida com lixo tecnológico.
— Quero o livro de reclamações! — Exigiu o Tobias, mas desta vez a voz saiu-lhe um bocadinho mais aguda, enquanto o número dois apontava uma luz azul de digitalização diretamente para o peito de Viriato.
— Preparem-se — disse Viriato, sentindo o peso da responsabilidade no peito. — Bruno, Léo, Tobias... Arrebotes. Este não é apenas um jogo de futebol no bairro. Esta é a nossa primeira defesa a sério. E nós não vamos deixar que o metal vença o verde.
Tobias ajustou as luvas. Léo apertou o capuz. Bruno pegou na bola de ténis. Flocky mostrou os dentes.
E a selva, que tinha visto o nascimento da vida, preparava-se agora para ver o primeiro duelo entre o coração e a máquina.

CAPÍTULO 6 — O Penalty do Jurássico
Viriato instruiu o Arrebotes a distrair os robôs para ganhar tempo e engendrar um plano. Então o novo amigo dirigiu-se aos mostrengos com uma conversa confusa e ameaçadora sobre livros de reclamações e os perigos fatais de um bicho chamado "guarda-redes".
Viriato engendrou o plano num instante. Tinha de ser uma jogada de equipa, ou as garras de aço do número dois apanhariam o passaporte antes de eles conseguirem piscar os olhos.
A batalha não começou com um grito, mas com o som estridente de um servo-motor a entrar em sobrecarga. O robô número dois, que parecia ser o coordenador tático do trio mecânico, disparou a sua garra em direção a Viriato. Foi um movimento de uma velocidade desumana, um flash de aço polido que teria apanhado qualquer um desprevenido.
— Bruno, és tu! — gritou o Viriato.
Bruno Cabumba nunca tinha sido apanhado desprevenido: ele não se limitou a ver a garra. Ele viu o ângulo, a trajetória e o momento exato em que o metal ia atingir o alvo. Com um movimento que tinha treinado milhares de vezes no pátio da escola, ele atirou a bola de ténis. Não foi um lançamento qualquer; a bola descreveu um arco perfeito, batendo na lente vermelha do robô com o impacto de uma pequena granada.
O robô recuou, o seu sistema ótico a piscar furiosamente em tons de roxo.
— ERRO DE FOCO — chiou o número dois. — RECALIBRAGEM NECESSÁRIA.
— Agora, Tobias e Léo! — gritou Viriato.
Léo e Tobias correram para os flancos. Léo, impulsionado pelo pânico de ser "incinerado", foi incrivelmente rápido. Enfiou a bola de lixo e as peças de lego nas lagartas do número três. Do outro lado, Tobias usou uma casca de árvore como uma alavanca, encravando-lhe o sistema de transmissão.
O robô caiu pesadamente, as suas engrenagens a rangerem numa nota de protesto agudo.
— TOMA LÁ, BRONCAMONTES! — exclamou Tobias, levantando-se e fazendo uma pequena dança de vitória antes de se lembrar de que ainda faltavam dois.
Mas os Guardas do Tempo não eram fáceis de derrotar. O número um, vendo os seus cúmplices em dificuldades, ativou o modo de Cerco. Das suas laterais saíram pequenos propulsores que o elevaram a alguns centímetros do chão, permitindo-lhe ignorar o terreno irregular da selva. Ele começou a girar, transformando-se num pião de lâminas afiadas.
— Léo! Atrás de ti! — avisou Flocky, com um latido que soava a sirene de aviso.
Léo, que insistia em não querer ser tratado como resíduo, correu como se estivesse a fugir de um enxame de aranhas gigantes. Ele dirigiu-se para uma zona de fetos petrificados, que eram duros como rocha. O robô-pião seguiu-o, cortando a vegetação como se fosse papel.
— Viriato! Ajuda! — gritava Léo, o capuz a esvoaçar.
— Bruno, a corda! — comandou Viriato.
Bruno Cabumba já tinha a corda de nylon na mão. Ele atirou uma extremidade para Viriato e a outra para Tobias. Em segundos, eles tinham uma linha de tensão invisível entre dois troncos de árvores colossais. Léo saltou por cima da corda no último segundo, mas o robô, com a sua inércia mecânica, não conseguiu desviar-se.
ZAPT!
O robô embateu na corda de nylon, que aguentou a pressão por um momento antes de o lançar para trás com a força de uma fisga gigante. O número um voou pela selva, chocando contra um afloramento rochoso com um estrondo que fez cair poeira de carvão das árvores.
Mas o número dois já tinha recuperado. A sua lente estava agora protegida por uma grelha de ferro e o seu braço mecânico tinha sido substituído por uma lança de choque elétrico.
— TENTATIVA DE RESISTÊNCIA BIOLÓGICA ANALISADA — disse o robô, a voz agora mais fria e estável. — RESULTADO: EXTERMINAÇÃO IMEDIATA.
Ele preparou-se para disparar um raio azul em direção ao grupo. Os rapazes recuaram, percebendo que as suas táticas de rua podiam não ser suficientes contra a tecnologia do Mundo de Ferro.
Foi então que o chão tremeu a sério.
Arrebotes Bacolão, que tinha estado a observar os pequenos "anomalias" com admiração, decidiu que era hora de o Jurássico mostrar as suas garras. Ele deu um passo à frente, e cada pata sua ocupava o espaço de um carro pequeno.
— Vocês — disse Arrebotes, e o seu rugido foi tão potente que as lentes do robô começaram a rachar — não percebem nada de limpeza.
O T-Rex girou o seu corpo maciço. A sua cauda, agora com o pincel de limpeza ainda preso mas a brilhar com a humidade da hortelã, descreveu um arco épico. Foi uma varridela total. O impacto atingiu o número dois no peito, arrancando a placa de bronze e enviando a máquina para as nuvens. O número três, que tentava levantar-se, foi esmagado contra o solo, transformando-se num monte de engrenagens sem sentido.
Houve um momento de silêncio absoluto.
Apenas se ouvia o som do óleo a pingar dos restos mecânicos e o arquejar pesado de Arrebotes Bacolão.
— GOLO! — gritou Tobias, atirando as luvas para o ar. — UI! O Arrebotes fez um "Hat-trick"!
Léo saiu de trás do feto petrificado, ainda a tremer, mas com um sorriso de alívio.
— Dentes limpos e robôs destruídos — disse ele. — Acho que foi um bom dia de trabalho.
Flocky aproximou-se do número três, que ainda tentava mover uma garra inutilmente. O cão cheirou o metal quente, soltou um pequeno "woof" de desprezo e, com a dignidade de quem venceu uma guerra, marcou o território na placa de identificação do robô.
Viriato aproximou-se do robô, que ainda emitia um sinal fraco. Ele pegou no pedaço de metal do avião e colocou-o junto à lente partida do monstro mecânico. A luz vermelha piscou uma última vez antes de se apagar, mas no Passaporte, Viriato viu uma imagem rápida: um par de olhos vermelhos gigantes, fixos nele a partir de uma montanha de metal negro.
— O Penico Automático viu-nos — disse Viriato, com gravidade. — Ele sabe quem somos agora.
— Que venha! — exclamou Arrebotes, batendo com a cauda no chão. — Agora tenho amigos que sabem usar cordas e hortelã. Ele não tem hipótese.
CAPÍTULO 7 — O Carimbo que Vale por Mil
A luz no Jurássico estava a mudar para um tom de laranja profundo, a cor de um pôr-do-sol que durava milhões de anos. O Passaporte começou a vibrar novamente, mas desta vez não era um chamamento urgente; era um aviso de que a janela temporal estava prestes a fechar-se.
— Temos de ir — disse Viriato, o tom de voz carregado de uma tristeza que ele não conseguia disfarçar.
O grupo reuniu-se em frente a Arrebotes Bacolão. O gigante olhava para eles com os seus olhos de âmbar, e pela primeira vez, não pareciam olhos de monstro, mas sim olhos de um amigo que tinha medo do silêncio que ia ficar quando eles partissem.
— Eu vou sentir falta do cheiro a menta — disse Arrebotes, baixando o pescoço até os rapazes poderem tocar-lhe no focinho.
— E nós vamos sentir falta da tua varridela de cauda — disse Bruno, dando uma palmada amigável na pele escamosa.
Tobias tirou algo do bolso do seu casaco. Era uma pequena aranha de plástico que ele usava para assustar o Léo, mas que naquele momento lhe parecia o presente perfeito.
— Toma lá, Arrebotes — disse Tobias, colocando o brinquedo numa pequena fenda na pata do dinossauro. — Para te lembrares que as aranhas, às vezes, são apenas plástico. E que os medos podem ser vencidos.
— Obrigado, Pequeno-Gritador — respondeu Arrebotes, com um sussurro de trovão.
Viriato abriu o Passaporte na última página. A luz dourada emanava do papel, criando um círculo de calor à volta do grupo.
— Arrebotes — disse Viriato. — Preciso de uma última coisa. O Passaporte precisa de registar esta amizade. Consegues... carimbar?
O dinossauro olhou para o pequeno livro e depois para a sua pata monumental. Com uma delicadeza que desafiava a física, ele levantou a pata e pousou apenas um dos seus dedos sobre a página aberta.
O resultado foi instantâneo. No papel, apareceu a marca de uma garra de T-Rex, perfeita e nítida, com um fundo cor de terra jurássica e um contorno que brilhava com a cor da esperança. Por cima da marca, as letras douradas formaram as palavras: AMIGO DO PRESIDENTE DA SELVA — ARREBOTES BACOLÃO.
— É o melhor carimbo de todos — disse Viriato, fechando o passaporte com cuidado.
Flocky aproximou-se de Arrebotes e deu-lhe uma lambidela rápida na ponta do focinho. O dinossauro fechou os olhos, apreciando o gesto simples de um animal que, embora pequeno, tinha o coração do mesmo tamanho que o dele.
Léo assoou-se, os olhos cheios de lágrimas. Desculpou-se dizendo que o ar jurássico lhe fazia sentir o nariz cheio de aranhas.
Tobias do Ui estava a olhar para o horizonte com os olhos brilhantes, que também atribuiu às condições atmosféricas. — Alergias… — mentiu ele.
Bruno Cabumba girava a bola de ténis outra vez, mas mais devagar do que era habitual.
— Espero que voltem mais vezes. Vou precisar… — disse Arrebotes Bacolão. E desta vez não era um pedido de um dinossauro a uma anomalia temporal. Era o que um amigo diz a outro amigo quando o tempo se acabou antes de eles quererem.
— Voltaremos — prometeu Viriato, enquanto o portal começava a formar-se no ar, uma janela circular que mostrava o seu quarto desarrumado.
— Estarei à espera — disse Arrebotes. — Com os dentes brilhantes.
Um a um, eles saltaram. Léo primeiro, com um suspiro de alívio. Bruno a seguir, já a pensar sobre os restos dos robôs que ia levar para estudar. Tobias mergulhou com um "UI!" épico, e aterrou numa cambalhota que desta vez saiu limpa sem ser por acidente. Flocky saltou com a mesma elegância de sempre, as orelhas já em desacordo outra vez — a direita para a frente, a esquerda para o lado —, e foi diretamente para o seu lugar aos pés da cama onde se enrolou num círculo perfeito e suspirou, pronto para a soneca que lhe tinham impedido.
Viriato foi o último. Ele olhou uma última vez para Arrebotes Bacolão, que se erguia contra o céu jurássico, um rei que já não estava sozinho. Viriato acenou e atravessou o portal.
CAPÍTULO 8 — De Volta a Casa e o Eco do Futuro
A janela do passaporte abriu-se do outro lado para o quarto de Viriato, que cheirava a bolo e a roupa lavada e a todo o tipo de coisas que cheiram a casa. Cheiros em que só reparamos quando estivemos uns tempos fora.
Os quatro rapazes ficaram parados no meio do quarto, a olhar uns para os outros. Estavam sujos de lama, cheiravam a hortelã-pimenta e tinham folhas gigantes presas às solas das sapatilhas.
— Fizemos mesmo isto? — perguntou Tobias, a voz rouca. — Ou foi o pequeno-almoço que me deu alucinações?
— Era um bocado aterrador — disse Léo, sentado no chão com as costas contra a parede. — O sítio todo. Aqueles robôs. Piores que aranhas.
— Era — concordou Viriato.
— Mas o Arrebotes Bacolão não era.
— Não era.
— Só parecia — disse o Léo. — O que é completamente diferente.
Bruno Cabumba tirou do bolso uma pequena engrenagem de ferro que tinha apanhado do robô número três. A peça ainda emitia um pequeno estalido elétrico.
— Não foi alucinação, Tobias — disse Bruno. — Isto é metal que não pertence ao nosso mundo. É metal que viajou no tempo.
Mas o Tobias do Ui já tinha adormecido no canto do quarto. Estava todo esticado, como se tivesse feito a “Defesa do Ano”. A sonhar, gritou: “Reclamações!”
Léo sentou-se na cadeira da secretária e começou a tirar a lama das sapatilhas.
— Se alguém me disser que as aranhas são perigosas, eu vou rir-me na cara dessa pessoa — afirmou ele. — Eu ajudei um T-Rex a lavar os dentes. O resto do mundo é canja.
Flocky respirava fundo e devagar, as orelhas finalmente em paz, as duas caídas para o mesmo lado.
Viriato caminhou até à mesa de cabeceira e pousou o Passaporte. Ele abriu na página do carimbo de Arrebotes. A marca ainda estava quente, e parecia pulsar levemente com a luz dourada.
— Nós ajudámos um amigo — disse Viriato. — Mas também descobrimos algo perigoso. O Mundo de Ferro... o Penico Automático... eles não vão parar. Eles querem que o tempo seja uma linha reta de engrenagens.
De repente, a luz no quarto pareceu baixar. O Passaporte, sozinho sobre a mesa, abriu-se numa página que Viriato nunca tinha visto. Não era um carimbo. Era uma visão.
No fundo de uma montanha feita de aviões despenhados e tanques de guerra antigos, um Carnotauro gigantesco, com o corpo quase totalmente coberto por placas de titânio e olhos que eram dois faróis de sangue, olhava para uma imagem de Viriato refletida numa poça de óleo negro.
— PEQUENAS ANOMALIAS — disse uma voz que não vinha de lado nenhum, mas que ecoou dentro da cabeça de Viriato como um trovão metálico. — O VERDE VAI MORRER. O FERRO É O DESTINO. EU ESTOU A CHEGAR.
A imagem desapareceu tão depressa como tinha surgido. O Passaporte fechou-se com um baque seco.
— O que foi aquilo? — perguntou Léo, a voz cheia de medo.
— Foi um aviso — disse Viriato, os olhos fixos no livro vermelho. — O Penico Automático não gosta de carimbos. E ele sabe que nós temos o mais importante de todos.
— Bruno, Tobias, Léo — disse Viriato, com uma determinação que parecia ter crescido dez anos naquela tarde. — Preparem-se. O Jurássico foi apenas o aquecimento. O Mundo de Ferro está à nossa espera. E nós vamos precisar de muito mais do que pincéis e hortelã da próxima vez.
Tobias bateu com as luvas de guarda-redes.
— UI! Que venha o Penico ou o que for! — exclamou ele. — Eu estou pronto para defender o tempo todo!
Viriato sorriu. Ele olhou para a sua coleção de caricas na prateleira. Os generais dourados pareciam brilhar com uma nova luz. O mundo era vasto, perigoso e cheio de anomalias, mas enquanto eles tivessem o Passaporte Mágico e, acima de tudo, a amizade uns dos outros, não havia metal no universo capaz de os parar.
Ele apagou a luz do quarto. No escuro, o contorno do Passaporte continuou a brilhar com um fio de luz vermelha e dourada, como uma promessa de que a próxima aventura estava apenas a um batimento de coração de distância. Passou os dedos pelas bordas gastas. Deixou-o na mesa de cabeceira virado para cima, porque os passaportes não devem ficar na gaveta quando ainda há páginas por preencher.
FIM
