Para todos os que já jogaram futebol
(com ou sem regras)
Viriato tem sete anos, uma imaginação gigante e uma missão muito clara: ganhar todos os jogos… ou pelo menos tentar.
Como capitão dos Xutos Cósmicos, a melhor (e mais caótica) equipa de futebol da rua, ele enfrenta desafios que vão muito além da bola — adversários com pés gigantes, colegas que têm medo de aranhas, treinadores com ideias… científicas, e um cão que pode (ou não) influenciar o destino dos jogos.
Quando os Xutos Cósmicos enfrentam os temíveis Arrebenta Canelas, tudo pode acontecer: golos improváveis, estratégias malucas e momentos que ninguém vai esquecer.
Porque às vezes, no futebol — e na vida — o importante não é ganhar.
**_É nunca deixar de jogar.
Bilhete de Identidade
Ficha Técnica do Capitão:
- Idade: 7 anos (mas com mentalidade de explorador de 20).
- Equipamento obrigatório:Capacete de bicicleta (para proteção tática).
- Arma secreta:Passaporte Mágico/Caderno de Expedições (código
indecifrável).
- Ponto fraco:Caracóis (não perguntem porquê).
Antes de mergulharmos nas aventuras do Viriato, vamos conhecer o alvo. Sete anos, dois joelhos cronicamente esfolados e uma imaginação que não cabe na rua onde mora.
É o tipo de miúdo que acorda já a correr, como se o cérebro lhe tivesse mandado uma missão urgente durante a noite. O pequeno-almoço é apenas um obstáculo oficial entre ele e a próxima aventura. Come depressa, mal mastiga, e sai pela porta como um foguetão com ténis.
Para o Viriato, o mundo é um mapa cheio de aventuras. O quintal é uma selva. O telheiro do vizinho é uma fortaleza inimiga que é necessário vigiar ou atacar com batatas; a poça de lama depois da chuva, é claramente um portal para outra dimensão. Tem uma teoria — muito bem fundamentada, segundo ele — de que existe um tesouro enterrado algures no parque. Já escavou em seis sítios diferentes. A câmara municipal ainda não descobriu.
Não conhece a ideia de silêncio voluntário. Faz perguntas em série, sem pausa para resposta: "Porque é que o céu é azul? Os polvos sonham? Se eu saltasse daqui chegava à China? Posso ter um lagarto?" Os adultos ao redor ficam a olhar com aquela expressão de quem está a tentar resolver um problema muito difícil.
Tem um capacete de bicicleta que usa mesmo quando não anda de bicicleta. "Equipamento de proteção tática para missões urbanas", explica com toda a seriedade. Já o usou no supermercado, numa consulta médica e numa festa de anos. A mãe desistiu de comentar.
O seu maior orgulho é um gasto e pesado caderno de capa vermelha, a que chama alternadamente Passaporte Mágico ou Caderno das Expedições. Lá, desenha mapas, regista descobertas, cola penas de pássaro, conchas "raras" e folhas "suspeitas". Também contém carimbos das viagens e aventuras que vai colecionando. A caligrafia é um desafio arqueológico que os estudiosos da escrita egípcia ainda tentam decifrar. Para a generalidade das pessoas, é um caderno velho. Para ele, é um "portal mágico" ou um "arquivo ultrassecreto", consoante a aventura.
Viriato não tem medo de quase nada — exceto de caracóis, mas isso é um assunto fechado e do qual ele não quer falar. Tirando tudo isto, o Viriato é um campeão em (quase) tudo e é o fundador, grande capitão e maior craque da melhor equipa de futebol de cinco da rua dele, os Xutos Cósmicos. Mas, embora deteste perder, Viriato depressa aprendeu que no futebol, tal como na vida, o que importa é jogar, mesmo que se empate ou perca algumas vezes.
Capítulo 1 - O Grande Anúncio
Era uma manhã de sábado com cheiro a relva molhada e a grandeza prestes a acontecer.
Viriato acordou com um salto, como de costume, e antes mesmo de comer o pequeno-almoço já estava no jardim, a driblar um cone de trânsito que tinha "encontrado" na rua (ninguém perguntou como). O Flocky, o seu cão rafeiro de pelo cor de cor-sem-nome e orelhas que nunca chegaram a um acordo sobre para que lado dobrar, corria atrás da bola com a língua de fora e uma expressão de felicidade total.
— Flocky, este sábado jogamos contra os Arrebenta Canelas — disse Viriato, muito sério, enquanto fingia cabecear para uma baliza imaginária. — É o jogo mais importante da nossa vida.
O Flocky latiu uma vez. Concordava.
Quando o Léo chegou, parecia que tinha acabado de lutar contra uma árvore — e perdido. A sua capacidade de atrair desastres era, honestamente, um fenómeno científico que desafiava todas as leis da probabilidade.
— Tropecei num gato — anunciou ele, exibindo um joelho esfolado que parecia um mapa de relevo acidentado.
— Bom dia também — respondeu Viriato.
— Não é bom dia nenhum. Vi uma aranha no caminho. Uma ENORME. Com pelo, Viriato! Com pelo!
— As aranhas não têm pelo, Léo. Isso foi uma alucinação de medo.
— Esta tinha. Eu vi-a a pentear-se. — Léo cruzou os braços, ignorando a lógica. — E, de qualquer maneira, vamos ser esmagados. O Araponga tem pés tamanho 45. Ele não chuta a bola, ele lança-a para a órbita de Júpiter.
Viriato soprou o ar com aquela expressão de capitão que ensaiava ao espelho desde os cinco anos.
— Léo. — Pausa dramática. — Os Xutos Cósmicos nunca perdem.
— Perdemos os últimos três jogos.
— Esses não contam.
— Porquê?
— Por razões cósmicas.
Capítulo 2 — Os Arrebenta Canelas Chegam
Ao meio-dia, o campo estava pronto. "Campo" era uma expressão demasiado generosa para aquele retângulo de relva irregular, onde as linhas tinham sido feitas com restos de giz roubado da escola. A baliza norte não tinha rede; a sul, eram apenas dois paus espetados no chão pelo avô do Benedito, que já não se lembrava bem porque razão os tinha colocado ali.
Os Arrebenta Canelas chegaram em formação, o que era impressionante para miúdos de sete ou oito anos. Na frente vinha o Araponga.
O Araponga era um fenómeno da natureza. Não era particularmente alto nem especialmente rápido. Eram os pés. Os pés do Araponga eram tão grandes que, se os cientistas soubessem da sua existência, teriam estudado aquilo com grande interesse. Usava sapatilhas de tamanho adulto, pois as de criança não lhe serviam. Quando caminhava, o chão parecia tremer. Pelo menos, era isso que o Viriato jurava sentir sempre que o adversário se aproximava.
— Viriato — disse o Araponga, parando em frente ao capitão dos Xutos Cósmicos com um sorriso que pretendia ser ameaçador mas ficava sempre um bocadinho torto. — Hoje esmago-te.
— Olá, Araponga. — Viriato sorriu. — Gosto do teu corte de cabelo.
O Araponga ficou desconfiado. O pai tinha-lhe rapado o cabelo porque tinha apanhado piolhos. Passou a mão pela cabeça.
— Estás a gozar comigo?
— Não. Acho mesmo que te fica bem.
O Araponga não sabia o que fazer com isto. Afastou-se a resmungar, e ficou o resto do aquecimento a tentar perceber se tinha ou não levado um elogio.
O Léo, entretanto, estava agachado a olhar para o chão com uma expressão de terror puro.
— Viriato. Há uma aranha ali.
— Léo, estamos a dois minutos do pontapé de saída.
— É uma aranha mutante, Viriato. Tem, tipo, oito patas e um olhar de quem quer vingança.
— É um bocado de casca de laranja.
Longa pausa. O Léo olhou melhor.
— Ah. — Pausa. — Mas parecia mesmo uma aranha.
Capítulo 3 — O Jogo Começa (Mal)
O árbitro era o avô do Benedito, um senhor de noventa e dois anos, ouvia muito mal e apitava sempre no momento errado. A sua filosofia arbitral era simples: apitava quando se lembrava, e às vezes apitava a meio de uma frase que estava a dizer a alguém.
O jogo começou.
Em cinco minutos, os Arrebenta Canelas marcaram dois golos. O primeiro foi um míssil saído do pé esquerdo do Araponga, que embateu na bola com tal força que o guarda-redes dos Xutos, o Tobias do Ui, foi literalmente catapultado para fora da baliza, aterrando em cima de um monte de lixo que alguém se esqueceu de apanhar. O segundo foi um fenómeno: o Léo tentou intercetar a bola, escorregou numa folha, e a bola desviou-se para dentro da sua própria baliza com uma elegância que seria admirável noutras circunstâncias.
— Isso não conta — disse o Léo, do chão.
— Conta, Léo — disse Viriato, a puxá-lo pelos braços.
— Fui eu a marcar. Quer dizer, não fui eu a marcar, foi a folha.
— Conta.
— A folha devia ser expulsa por conduta antidesportiva!
O Flocky, que assistia ao jogo sentado na linha lateral com a gravidade de um comentador desportivo, emitiu um ganido baixo. Ele sabia ler o jogo melhor do que qualquer humano ali presente. Viu o Araponga preparar-se para o terceiro golo, ajustando os atacadores das sapatilhas 45.
O Flocky levantou-se, sacudiu a poeira do pelo e começou a caminhar lentamente para o centro do campo. Não era uma invasão de campo qualquer. Era uma operação tática.
Capítulo 4 — A Reviravolta Começa (de Forma Muito Estranha)
0-2 ao intervalo. O Araponga estava claramente satisfeito consigo próprio, o que o tornava mais insuportável do que o costume.
— Dói? — perguntou ele ao Viriato, com o sorriso torto.
— O quê?
— Perder.
Viriato encolheu os ombros com uma tranquilidade que era ao mesmo tempo sincera e calculada.
— Ainda falta a segunda parte.
— Com esses jogadores? — O Araponga olhou para a equipa dos Xutos. O Léo estava a tratar do joelho esfolado. O Tobias tinha areia na boca e não sabia como tinha acontecido. O Nuno Barbinhas tinha adormecido encostado ao poste. — Boa sorte.
O Araponga afastou-se, balançando os braços como se estivesse a ensaiar uma celebração de golo que ainda não tinha marcado. E foi então que aconteceu a "Primeira Coisa Inexplicável" do jogo.
O Flocky, que tinha trotado para dentro do relvado, parou exatamente sobre a linha do meio-campo e, com uma precisão cirúrgica, depositou ali uma meia velha, cinzenta e com um cheiro que desafiava as leis da química. Depois, olhou para o Araponga, soltou um bocejo que mais parecia um julgamento e voltou para o seu lugar.
O campo ficou em silêncio. Até o avô do Benedito parou de tentar limpar os óculos.
— O que foi isto? — sussurrou o Léo, a olhar para a meia como se fosse um artefacto alienígena.
— É um amuleto de campo — respondeu Viriato, ajustando o capacete com uma seriedade absoluta. — O Flocky acabou de mudar as leis da física.
— É só uma meia velha, Viriato.
— É uma meia com potencial, Léo. Prepara-te. A segunda parte vai ser épica.
Ninguém tinha uma explicação melhor. A meia ficou ali.
Capítulo 5 — A Segunda Parte e o Caos Glorioso
A segunda parte começou, e o Viriato decidiu que era hora de jogar a sério.
Recebeu a bola no meio-campo, fintou o primeiro defesa com um movimento que ele batizou de "A Finta do Caracol Atropelado" (que consistia basicamente em tropeçar para o lado certo) e rematou com toda a força dos seus sete anos. A bola, fiel ao caos do jogo, beijou o poste com um estrondo metálico e sobrou, caprichosamente, para os pés do Léo.
O Léo olhou para a bola. A bola olhou para o Léo. Era uma relação complicada.
— CHUTA, LÉO! — berrou o Viriato, como se a vida da equipa dependesse daquele milissegundo.
— E se eu falho? — gritou o Léo, aterrorizado.
— E SE TU MARCAS?! — retorquiu o capitão
O Léo fechou os olhos, suspirou como se suspira quando se sabe que não se pode fugir a um castigo e, como um rapaz que aceita o seu destino, chutou.
A bola saiu torta. Muito torta. Fez um arco improvável, bateu numa pedra que, segundo a lenda local, ali estava desde a fundação da rua, ressaltou para a direita, acertou em cheio na canela do Chico Gago — o defesa central dos Arrebenta Canelas — e, num efeito "bola de bilhar" impossível, entrou mansamente na baliza.
Silêncio.
— GOLOOOOOOOOO! — o berro do Viriato ecoou pela rua toda, tão alto que o avô do Benedito deixou cair o apito.
O Viriato correu em direção ao Léo e saltou-lhe para cima com a energia de quem acaba de ganhar a Taça dos Campeões. O Léo, ainda zonzo, foi derrubado pelo abraço e os dois rebolaram pela relva, rindo como se tivessem acabado de descobrir o segredo do universo.
— Entrou? Diz-me que entrou! — perguntou o Léo, ainda com os olhos bem fechados, com medo de que fosse um sonho.
— Entrou, Léo! Entrou a contar! — Viriato levantou-se, apontando para a bola lá dentro da baliza improvisada, com os olhos a brilhar. — Tu acabaste de fazer o golo da reviravolta! O teu nome vai ser gravado na história dos Xutos Cósmicos!
— Mas eu nem vi para onde chutei!
— Não importa! Entrou!
O Léo abriu os olhos devagar. Olhou para a bola. Olhou para os colegas que corriam na sua direção. O choque deu lugar a um sorriso gigante, que lhe ocupava quase metade da cara.
— Eu… eu marquei um golo? — disse ele, num sussurro de pura incredulidade, como se tivesse acabado de descobrir que sabia falar a língua dos pássaros.
O Flocky, lá na linha lateral, deu três saltos de alegria e soltou um latido de aprovação: o amuleto da meia velha tinha funcionado.
2-1. O jogo estava vivo, o caos estava instalado e, pela primeira vez, os Arrebenta Canelas pareciam nervosos. Ainda faltavam dez minutos.
Capítulo 6 — O Pé do Destino
O Araponga estava furioso. E, quando o Araponga se zangava, os seus pés pareciam ganhar vida própria, tornando-se ainda mais gigantescos.
Recebeu a bola no seu meio-campo, afastou dois adversários com uma finta desajeitada e avançou em direção à baliza dos Xutos Cósmicos como um comboio a alta velocidade que se tinha esquecido de travar
Viriato correu para o intercetar, com o capacete de proteção tática a abanar na cabeça. O Araponga avançou, imparável. Os dois foram no mesmo sentido, cada um a tentar chegar à bola primeiro, e foi então que aconteceu a "Segunda Coisa Inexplicável" do jogo.
O Flocky — que, recordemos, estava muito claramente fora do campo — saiu disparado da linha lateral. Não correu para a bola, mas para trás da baliza dos Arrebenta Canelas, onde havia um buraco no chão que só ele conhecia. De lá, saiu uma rã.
Uma rã verde, relativamente grande, que saltou para o campo exatamente milissegundo em que o Araponga ia disparar o seu pontapé de destruição.
O Araponga viu a rã.
O Araponga não tinha medo de rãs — mas ninguém, ninguém, espera um anfíbio num jogo de futebol. O seu pé enorme travou a fundo, ele deu um salto involuntário para o lado, a bola fugiu-lhe do controlo e o remate saiu pela linha de fundo com uma elegância tristonha e patética.
— NÃO VALE! — berrou o Araponga, a saltar num pé só. — Havia uma rã! Uma rã mutante! Fez-me escorregar!
— Fora — disse o avô do Benedito, apitando com a autoridade de quem não ouviu uma única palavra.
— Mas o senhor não percebe? A rã é um jogador ilegal! Ela saltou! Ela bloqueou-me! Obstrução!
— Fora — repetiu o avô do Benedito, que, na verdade, estava a apitar com força só para tentar perceber se o apito ainda tinha a bola de cortiça lá dentro.
O Flocky voltou calmamente para a linha lateral, sentou-se e começou a lamber uma pata com um ar de quem não tem nada a ver com o assunto. A rã desapareceu no meio da relva. Ninguém conseguiu provar nada.
Capítulo 7 — O Golo que Ficou na História
Dois minutos para o fim. 2-1. Os Xutos Cósmicos precisavam de mais um golo.
Viriato recebeu a bola perto da área. Tinha à frente três defesas dos Arrebenta Canelas, o guarda-redes, e o peso da situação.
Respirou fundo.
Olhou para o Léo, que lhe fez um gesto encorajador. Na verdade, era o gesto de alguém a afastar uma aranha imaginária, mas que valeu na mesma.
Olhou para o Flocky, que estava sentado muito direito, com as orelhas para a frente, com aquela expressão de eu acredito em ti que só os cães sabem fazer.
E foi.
Viriato driblou o primeiro defesa com uma finta de corpo que o fez tropeçar nos próprios pés. O segundo tentou fechar o ângulo, mas foi deixado para trás com um toque subtil. O terceiro atirou-se para o chão antes de ser driblado, por precaução, o que foi tecnicamente desnecessário, mas poupou-lhe o orgulho.
À sua frente, restava apenas o guarda-redes. O estádio (ou melhor, a rua) ficou em suspenso. O silêncio era tão denso que se ouvia a respiração ofegante do Araponga lá longe.
E Viriato, em vez de rematar, parou. A bola ficou colada ao seu pé.
O guarda-redes parou também, confuso.
Viriato esperou.
O guarda-redes não sabia o que fazer com isto e começou a recuar, também confuso, até ficar encostado ao próprio poste. Ficou ali, sem saber se atacava ou se rezava.
Viriato não teve pressa. Ajustou o capacete, olhou para o ângulo da baliza e, com a calma de um mestre, chutou a bola. Foi um remate suave, quase um sussurro, que deslizou pela relva e beijou o poste. A bola entrou como se sempre soubesse que ia entrar ali.
2-2. O empate que valia por uma vitória.
Antes que o Araponga pudesse protestar, o apito do avô do Benedito rasgou o ar. Não foi um apito de mestre, foi o apito de quem se lembrou subitamente que tinha comprimidos para tomar àquela hora. Mas para os Xutos Cósmicos, soou como a música mais gloriosa do mundo.
Epílogo — Depois do Jogo
Os Xutos Cósmicos festejaram com a intensidade de quem levanta a Taça do Mundo. Tecnicamente, o marcador dizia empate, mas, na contabilidade secreta dos Xutos, aquilo tinha sido uma vitória épica. E, no futebol de rua, a contabilidade que importa é a do coração.
O Léo estava radiante, com um sorriso que lhe tomava a cara toda.
— Eu marquei um golo — repetia de vez em quando, para ninguém em especial. — Com os olhos fechados.
— Isso é lendário, Léo — respondeu Viriato, com um aceno de cabeça solene. — É o tipo de golo que os historiadores vão ter dificuldade em explicar.
O Araponga foi-se embora a resmungar sobre rãs e conspirações cósmicas, os seus pés enormes levantando pequenas nuvens de poeira a cada passo. Já o ouvíamos a planear a desforra. Os Arrebenta Canelas voltariam, isso era certo.
Mas hoje? Hoje não era o dia deles.
Viriato sentou-se na relva, ao lado do Flocky, e coçou-lhe as orelhas — as duas, porque o Flocky era um cão que prezava a justiça e a igualdade. O cão fechou os olhos, soltando um suspiro de satisfação que parecia dizer: "Missão cumprida, capitão."
— Boa, Flocky — sussurrou Viriato. — A rã foi ideia tua, não foi?
O Flocky abriu um olho, olhou para a meia velha que repousava no centro do campo — um troféu de guerra gloriosamente malcheiroso — e voltou a dormir.
Nunca se soube a verdade. E, para o Viriato, o mistério era a melhor parte. A meia ficou ali, no meio do campo, durante semanas. Para os adultos, era apenas lixo para limpar. Para os Xutos Cósmicos, era um monumento àquele dia em que, contra todas as leis da física e da biologia, eles provaram que, no futebol e na vida, o mais importante não é ganhar.
É nunca, mas mesmo nunca, deixar de jogar.
FIM
(Ou talvez o início da desforra — mas isso é conversa para outro sábado.)
