| ###### Jardim do Mar |
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Elenco
(Ou: Quem É Quem Nesta História, Para Não Haver Confusões Temporais)
Viriato — Nove anos, capitão dos Xutos Cósmicos e detentor do Caderno das Expedições, um objeto que acumula mais poeira cósmica do que anotações úteis. Especialista em liderar equipas em pânico e em aceitar, com um suspiro, que o tempo é "apenas uma sugestão" sempre que a física decide tirar férias.
Pai João — Engenheiro terapêutico (uma área que ninguém na família sabe bem o que é, mas que ele explica com muita calma). A sua cabeça rapada funciona como um farol de tranquilidade (e reflete a luz de dimensões temporais paralelas). Acredita que qualquer anomalia quântica se resolve com um chá, uma lupa e uma teoria sobre "campos gravitacionais paralelos".
Flocky — Cão rafeiro e parceiro de aventuras. Dono de um "sofisticado sistema de comunicação autónomo" (as orelhas) que funciona como radar para fantasmas, sótãos e anomalias temporais. Devido à exposição direta a relógios defeituosos, o seu repertório vocal inclui miados, cacarejos e mugidos, embora ele insista que é apenas um cão com uma crise de identidade sonora.
Léo — Melhor amigo do Viriato e especialista mundial em "pausas horizontais não planeadas" (vulgo: desmaios). Tem um medo terrível de formigas, o que é altamente problemático quando o inimigo está a desmontar formigueiros em tempo real. A sua coragem aparece sempre no pior momento possível, geralmente enquanto está agarrado a uma viga do sótão a chorar lágrimas que sobem para os olhos.
Tobias do Ui — Guarda-redes dos Xutos Cósmicos. A sua alcunha deve-se ao som invariável que emite ao sofrer um golo (ou ao tentar defender bolas invisíveis). Atualmente em fase de treino avançado para defender remates que viajam no tempo, o que o obriga a fazer defesas duplas e a ficar exausto antes de o jogo sequer começar.
Zé Caramelo — Médio criativo e cometa dentário. O seu superpoder é contar piadas que, devido a distorções no continuum espaço-tempo, saem perfeitamente ao contrário, transformando o humor em frustração filosófica. Coleciona "Sorrisos Numerados" para cada nível de perigo (ex: Sorriso Número Treze: Confusão Filosófica; Sorriso Número Catorze: Medo Contido).
Nuno Barbinhas — Defesa lateral e homem dos sete instrumentos. As suas sobrancelhas assimétricas (uma perfeita, a outra parecendo um campo de futebol após um dérbi muito duro) conferem-lhe um ar de suspeita constante, ideal para marcar adversários. Os seus bolsos contêm sempre o objeto exato que não serve para nada, até ser a única salvação (ex: óculos de mergulho, corda, bússola partida, agulhas de tricô).
Sr. Jarbas (O Avô do Benedito) — Árbitro veterano, atualmente a existir num estado intermédio entre a memória afetiva e o pó de sótão. Guarda a Esfera do Ontem e fala por metáforas desportivas sobre a natureza escorregadia do tempo. A sua maior preocupação cósmica parece ser o facto de o seu apito ser "demasiado suave".
Zé Pó (O Gémeo Inverso) — Vilão residente, gémeo ressentido do Sr. Jarbas e autoproclamado "VAR do Destino". Odeia empates com a força de mil sóis e usa óculos de sol em sótãos às escuras para maximizar o seu carisma de supervilão. A sua maior falha estrutural é não perceber que a incerteza é a única coisa que torna os jogos (e a vida) divertidos.
Viriato e o Mistério do Relógio que Andava para Trás
CAPÍTULO 1
O Pacote Sem Carimbo
Setembro chegou à Rua de Cima com pouca delicadeza. O ar já não cheirava a sal e a protetor solar, como em Barranquilha, mas sim a lápis afiados, borrachas novas e àquele tipo específico de ansiedade que só existe nas vésperas do primeiro dia de aulas.
Viriato estava sentado na varanda, com o Caderno das Expedições abert. Analisava pela milionésima vez a tabela classificativa da Liga dos Campeões do Bairro Luso.
— É uma injustiça cósmica — murmurou Viriato, passando a mão pelo cabelo castanho despenteado. — Xutos: 17 pontos. Arrebenta Canelas: 17 pontos. Diferença de golos: zero. Nem mais um, nem menos um. Este empate enerva-me.
Flocky, o parceiro de aventuras, estava deitado aos pés de Viriato. As suas orelhas, aquele sofisticado sistema de comunicação autónomo, assumiram uma posição rara: ambas dobradas para trás, numa expressão de "estou a ouvir algo que tu não ouves, mas não tenho a certeza se quero saber o que é".
— Estás bem, Flocky? — perguntou Viriato.
Flocky soltou um suspiro suspeito, uma espécie de latido abafado. Depois, levantou-se, coçou a orelha esquerda com a pata traseira direita, e foi até à porta da cozinha. Parou. Olhou para Viriato. Olhou para a porta. Voltou a olhar para Viriato.
— Que foi, está aí alguém? — perguntou Viriato.
Nesse momento, a campainha tocou. Não foi o toque normal, trim-trim, mas sim um som grave, profundo, como se a campainha tivesse engolido um sino de catedral e estivesse a tentar digeri-lo.
Viriato foi abrir a porta, já um pouco desconfiado. Não havia ninguém. Apenas um pacote pequeno, embrulhado em papel pardo, colocado no degrau inferior. Não tinha selos. Não tinha morada de envio. Apenas o nome "Xutos" escrito numa caligrafia elegante e tremida, com tinta verde-escura.
Ele pegou no pacote. Era leve, mas vibrava ligeiramente, como um telemóvel no modo silencioso que esquecemos ligado dentro de um casaco.
Por uma fração de segundo, Viriato sentiu um frio estranho no peito. Aquilo devia ser alguma partida do… tentou lembrar-se do nome do avançado dos “Arrebenta Canelas”. O Rui... como era o apelido dele? Trovoada. Claro. Mas a memória demorou um segundo a mais a chegar. Um longo e estranho segundo.
— Pai! — gritou Viriato, entrando em casa. — Temos correspondência misteriosa!
CAPÍTULO 2
O Cão Que Mia
O pai João apareceu da cozinha, secando as mãos num pano. A sua cabeça rapada brilhava sob a luz fluorescente, e os seus olhos revelavam já a curiosidade natural de engenheiro terapêutico: para ele, tudo tinha uma lógica — até o que parecia não ter.
— Misteriosa? — perguntou o pai, ajustando os óculos. — Ou apenas mal endereçada?
— Não tem remetente. E vibra. E... pai, esqueci-me do nome do Rui durante um segundo.
De facto, aquela espécie de zumbido tremeliquento continuava a fazer-se sentir. João franziu a testa. A curiosidade de engenheiro terapêutico deu lugar a uma atenção clínica. Pegou no pacote com a cautela de quem manuseia nitroglicerina ou questões emocionais complexas. Levou-o para a mesa da cozinha. Com uma faca, cortou respeitosamente o fio que prendia o papel. Deteve-se um pouco, na expectativa que a vibração parasse. Não parou.
Dentro, havia uma caixa de veludo vermelho, gasta nos cantos. O pai abriu-a.
Lá dentro repousava um relógio de bolso. Não era um relógio normal. A caixa era de prata oxidada, com gravuras de engrenagens que pareciam mover-se mesmo quando o relógio estava fechado. O mostrador não tinha números, apenas símbolos: uma bola de futebol, uma formiga, uma nuvem de chuva e um ponto de interrogação. E só tinha um ponteiro. Um ponteiro único, fino como uma agulha, que girava lentamente… para a esquerda.
— O ponteiro anda para trás? — surpreendeu-se Viriato. — Os relógios não andam para trás.
— Normalmente, não — concordou o pai, pegando numa lupa. — Mas este parece ser um modelo personalizado. Olha para a inscrição aqui atrás.
Viriato inclinou-se. Gravado na prata, lia-se: "Para quem sabe que o tempo é apenas uma sugestão."
— Quem é que nos envia um relógio defeituoso? — perguntou Viriato.
— Um relógio que anda para trás não está avariado: está a medir uma coisa diferente — esclareceu o pai.
Entretanto, Flocky entrou na cozinha. O cão aproximou-se do relógio, cheirou-o, e então aconteceu o impossível.
Flocky abanou o rabo. Até aqui, tudo normal. Mas depois, emitiu um som. Não foi um latido. Foi um miau. Claro, distinto e inconfundível.
Viriato e o pai João ficaram parados. O silêncio na cozinha era tão denso que se podia cortar com uma faca de manteiga.
— Flocky? — chamou Viriato.
Flocky olhou para eles, confuso. Abriu a boca para ladrar novamente, mas saiu outro miau, seguido de um cacarejar de galinha.
— Isto não é bom — disse o pai, fechando a caixa do relógio com um estalido seco. — O Flocky não mudou de espécie. Mas alguma coisa mudou e tem a ver com o relógio… — magicava já a sua cabeça de cientista amador.
Nesse momento, o telemóvel do João tocou. Era o Léo.
— Viriato! — gritou o Léo, do outro lado da linha, com a voz atropelada pelo pânico. — Vem cá fora! Rápido! As formigas… elas estão a desfazer o formigueiro! Estão a tirar a terra de dentro para fora! E eu juro que vi uma folha a voar do chão e voltar a prender-se ao ramo!
Viriato olhou para o pai. O pai olhou para o relógio. Voltou a abri-lo: o ponteiro tinha acelerado a rotação para a esquerda.
— Guarda o teu Caderno — disse o pai João, com aquela voz calma que usava quando a física deixava de fazer sentido. — E chama o Tobias, o Zé Caramelo e o Nuno. Vamos precisar de toda a equipa. Acho que acabámos de receber o nosso primeiro adversário da temporada. E ele não joga futebol. Joga com o calendário.
CAPÍTULO 3
A Teoria do Caos Formigueiro
O quintal do Léo parecia ter sido invadido por um filme passado ao contrário.
Quando Viriato, acompanhado pelo pai e por Flocky (que agora mugia a cada dez segundos), chegou a casa do melhor amigo, a cena era de delírio puro.
O Léo estava abraçado a uma árvore, com os olhos arregalados por trás dos óculos novos. Apontava para o chão com um dedo trémulo.
— Olhem — sussurrou o Léo. — Olhem bem.
No centro do relvado, o formigueiro habitual não estava a ser construído. Estava a ser desmontado. Centenas de formigas marchavam em fila indiana, saindo dos túneis subterrâneos, cada uma carregando um grão de areia ou um pedaço de migalha, e depositando-os cuidadosamente fora do formigueiro. Estavam já a formar um monte que crescia a olhos vistos. Parecia que estavam a assistir a um documentário sobre formigas a ser rebobinado.
— Elas estão a devolver a terra — disse o Léo, com a voz de quem viu a sua maior fobia tornar-se ainda mais incompreensível. — Porquê? Elas trabalharam tanto para aquilo! Agora vão andar completamente à solta no meu quintal!

— Não são elas que querem — disse uma voz atrás deles.
Era o Nuno Barbinhas. Já trazia os óculos de mergulho pendurados ao pescoço, pronto para qualquer emergência aquática ou temporal. As suas sobrancelhas estavam assimétricas, uma perfeita, a outra parecendo um campo de futebol depois de um jogo muito duro. Nos bolsos dos calções, via-se o contorno de objetos variados: uma bússola partida, duas agulhas de tricô. Também trazia uma corda enrolada à cintura, "porque nunca se sabe quando é preciso puxar, atar, saltar e outros verbos acabados em ar", argumentava ele, com razão.
— O Nuno tem razão — disse o Zé Caramelo, que também se juntou ao grupo. Sorria com o "Sorriso Número Treze: Confusão Filosófica". — Não é só o tempo que está a andar para trás, a lógica também! Eu tentei contar uma piada há bocado. Olhem só: "que empatados! pato diz o um pato para estamos outro?"... Viram? Ninguém achou graça porque não conseguiam perceber qual era a piada. Foi frustrante.
— E onde está o Tobias? — perguntou Viriato, abrindo o Caderno das Expedições para começar a fazer as suas anotações.
— Estou aqui! — respondeu uma voz esbaforida.
O Tobias do Ui surgiu com o equipamento de guarda-redes completo. O seu cansaço devia-se aos exercícios de defesas virtuais que vinha a fazer. Na verdade, o seu esbracejar mais parecia o de um padeiro a nadar de costas do que o de um guarda-redes, mas a intenção é que conta…
De repente, atirou-se para o lado, para o vazio, como se estivesse a defender uma bola invisível. Levantou-se, limpou a relva das luvas e olhou para o nada, confuso.
— Na minha mente, eu vejo que a bola sai da baliza e volta para o pé do avançado! — explicou ele, frustrado. — Estou a praticar. Parece que o tempo vai para trás, por isso tenho de estar preparado para defender a bola duas vezes. Uma quando entra, outra quando sai. É cansativo, mas eficaz.
O pai João observava a cena com atenção clínica. Pegou no relógio de bolso, que continuava a vibrar.
— O problema não é o quintal todo, rapazes — disse o pai, coçando a cabeça. — É o que está perto deste mecanismo. Quanto mais perto estamos do relógio, mais forte é a distorção temporal. Ele funciona como um íman de tempo estragado. O Flocky, que esteve em contacto direto com a caixa, está a sofrer mutações sonoras regressivas. As formigas, sensíveis a vibrações, estão a reverter o trabalho.
— E nós? — O Léo deu um passo atrás, os olhos fixos no relógio. — Vou começar a falar ao contrário? Ou pior: vou esquecer-me de que vou jantar amanhã antes mesmo de almoçar?
— Provavelmente não — disse o Nuno, ajeitando os óculos de mergulho. — Os nossos corpos aguentam melhor, mas a nossa cabeça… a nossa cabeça começa a pregar partidas. Reparem nas sombras.
Todos olharam para o chão. As sombras das árvores não estavam projetadas para oeste, como deveriam estar às quatro da tarde. Estavam para leste, como se o sol estivesse a nascer, embora o céu tivesse aquele tom alaranjado estranho e frio de um final de tarde que se recusa a terminar.
— O relógio não está apenas a andar para trás — disse Viriato, escrevendo rapidamente no Caderno. — Está a puxar a realidade consigo.
— Mas quem é que enviou essa geringonça? — perguntou o Zé Caramelo.
Viriato lembrou-se da inscrição: "Para quem sabe que o tempo é apenas uma sugestão."
— Alguém que quer testar a nossa capacidade de resolver problemas — disse Viriato.
— O professor de matemática!? — interrogou-se o Léo.
— Acho mais provável ser alguém que quer impedir qualquer coisa que está para acontecer… — pensou alto o pai João.
— O jogo de desempate! — gritaram o Tobias e o Viriato.
— O jogo é sábado — disse o Nuno. — Se o tempo continuar assim, a recuar, sábado pode ser ontem. Ou anteontem. Ou nunca.
— Temos de encontrar a origem — disse o pai João. — O relógio é apenas um sintoma. A doença está algures aqui perto. E, considerando que o efeito é mais forte aqui no quintal do Léo…
Todos olharam para o cada vez mais assustado Léo.
— Eu?! — exclamou o Léo. — Eu só tenho medo de formigas! Não percebo nada dessas engenhocas do tempo!
— Não tu, Léo — acalmou-o o João. — Mas algo ou alguém na tua casa… recebeste visitas recentemente?
Flocky, que até então tinha estado a tentar ladrar, mas só conseguia fazer o som de uma porta a ranger, aproximou-se do Léo e esfregou o focinho na sua perna. As suas orelhas moveram-se independentemente: uma apontava para a casa e a outra para o céu.
— Ele diz que a resposta está em cima — traduziu Viriato.
— No telhado? — perguntou o Nuno.
— Não — disse o Léo, empalidecendo. — No sótão. A minha avó deixou lá uma caixa de coisas antigas a semana passada. Disse que eram "memórias que precisavam de ar". Eram cacarecos com que o meu avô se entretinha na oficina, antes de morrer.
Viriato fechou o Caderno das Expedições com determinação.
— Então, é para o sótão que vamos. Equipa, formação de escalada! Flocky, vai à frente a detetar possíveis fantasmas. Tobias, vais a seguir, para o caso de haver coisas a cair do teto. Nuno, traz algo que possa parar mecanismos estranhos. Zé, tenta não contar piadas ao contrário. Léo, tenta não desmaiar.
— Eu não desmaio — protestou o Léo, embora as pernas lhe tremessem. — Eu só… faço pausas horizontais não planeadas.
— Como quiseres — sorriu Viriato. — Vamos salvar o sábado. Antes que ele deixe de existir. Pai, tu vens também, mas sou eu que comando a operação.
O pai, sorrindo, não protestou. Sabia que, quando o filho tinha aquele brilho de aventura nos olhos, seria difícil contrariá-lo.
Enquanto subiam as escadas para o sótão, o relógio do bolso do pai João deu um salto brusco. Ao abri-lo, o ponteiro girou tão depressa para a esquerda que pareceu criar uma pequena brisa. No exterior, um monte de folhas caídas começou a rodopiar e a voar de volta para o ramo.
A aventura tinha começado. E, desta vez, o inimigo não tinha canelas para arrebentar. Tinha segundos, minutos e horas para devorar.
CAPÍTULO 4
O Sótão das Coisas Perdidas e a Esfera do Ontem
O sótão da casa do Léo não era apenas um sótão, mas sim um arquivo de memórias esquecidas e de um pó teimoso. Cheirava a naftalina, a poeira antiga e a um tipo específico de mistério que só existe em lugares onde as coisas vão para desaparecer ou para serem lembradas. Tratava-se de um espaço baixo, com vigas de madeira escura que mais pareciam as costelas de um animal pré-histórico. As janelas redondas, cobertas de teias de aranha, filtravam uma luz alaranjada que nascia de um sol que se recusava a pôr-se.
O Léo evitava olhar diretamente para as janelas, seguindo a sua nova política de "se não vejo as ameaças, as ameaças não me veem". Um tique-taque acelerado, de que não conseguiam perceber a origem, fez com que se encostassem mais uns aos outros.
O Nuno descobriu a razão do susto: um relógio de cuco em cima de uma mesa só com três pernas. O cuco estava recolhido, mas os ponteiros giravam freneticamente para trás, como se tentassem desesperadamente regressar ao momento antes de terem sido fabricados. O Nuno não conseguia desviar o olhar do relógio.
— Aquilo não é mecânico — murmurou ele, a voz técnica falhando por um segundo. — O mecanismo do relógio devia impedir aquele movimento. É como se o tempo estivesse a sofrer um curto-circuito.
Depois de todos terem tropeçado em tralhas diversas, lutado com algumas teias de aranha e espirrado à medida do pó levantado, o Léo bradou:
— Aqui está! — apontando para uma caixa de cartão enorme, marcada com caneta vermelha: COISAS DO AVÔ (NÃO TOCAR / TOCAR SÓ SE FOR IMPORTANTE).
Viriato aproximou-se com cautela. O relógio misterioso no bolso do pai começou a vibrar violentamente, emitindo um zumbido metálico que fazia estremecer os dentes de todos. Flocky, o cão, não rosnou; ele cacarejou baixinho, as patas dianteiras a tentarem escavar o chão de madeira, como se quisesse fugir para baixo da terra.
Viriato preparou-se para abrir a caixa. O ar em redor parecia mais denso, quase líquido. Ele estendeu a mão, mas antes que pudesse tocar no cartão, um som familiar cortou o ar: nhec-nhec, nhec-nhec.
O grupo congelou. No canto mais sombrio, uma cadeira de balanço parecia mover-se sozinha. Porém, à medida que os olhos se foram habituando à penumbra, conseguiram distingui-lo. O Avô do Benedito, o “Sr. Árbitro”. Vestia a mesma camisola de riscas verticais pretas e brancas, que usava quando arbitrava os jogos dos Xutos Cósmicos, mas parecia feito de sombras e pó. Os seus olhos, focados num ponto distante no tempo, não pareciam ver os rapazes.
— Sr. Jarbas!? — perguntou o Zé Caramelo, a voz um fio de medo. Ele conhecia-o bem porque vivia no mesmo prédio.
O velho árbitro não respondeu de imediato. O seu olhar fixou-se na caixa, e só então, com a lentidão de quem desperta de um sonho longo, olhou para o grupo.
Ele levantou-se. Os seus movimentos não pareciam humanos, antes parecia estar a projetar fotogramas de um filme. Deslizou até à caixa e retirou um objeto embrulhado num lenço de seda azul. Era uma meia esfera de cristal. Dentro dela, o que pareciam nuvens minúsculas giravam em sentido contrário a tudo o que era natural.
— O que é isso? — perguntou o Zé Caramelo, começando a testar o "Sorriso Número Catorze: Medo Contido".
— Deixei isto em casa do avô do Léo em 1994 — disse o Sr. Jarbas, a voz parecendo vir de dentro de uma gruta. — Ou talvez em 2030. O tempo é escorregadio, meu jovem. Como sabão nas mãos de um guarda-redes nervoso.
— Isto não é um brinquedo: é a Esfera do Ontem — continuou o Sr. Jarbas a explicar. — É um regulador. Quando eu era mais novo, trabalhei na antiga relojoaria aqui ao fundo da rua, juntamente com o avô do Léo. Quando a relojoaria fechou, o dono deu-nos isto. Disse que servia para "ajustar o ritmo da natureza". Eu achei que era para sincronizar os relógios de pulso. Enganei-me.
— Mas o que é que isso faz? — perguntou o Léo, escondendo-se atrás do Tobias.
— Se a abrirmos, ela devolve as coisas a um estado anterior — disse o Sr. Jarbas. — Mas não de forma ordenada. De forma caótica. Uma vez aberta, o tempo começa a desfazer os nós. Primeiro os pequenos: formigas que desconstroem formigueiros. Depois os médios: folhas que voltam às árvores. Depois os grandes…
— Depois os grandes? — insistiu Viriato.
— Depois, as pessoas começam a esquecer-se do que é essencial. Por exemplo, num jogo de futebol: por que razão se começou a correr? Esquecem-se os golos. Esquecem-se as amizades. As pessoas esquecem-se de quem são. Esquece-se tudo até restar apenas um mundo vazio.
Um silêncio pesado caiu sobre o sótão. Flocky soltou um miado baixo, triste.
— Então, mas como é que se para essa desgraça? — interrogou o Tobias.
— E quem é que enviou o relógio? — juntou o Viriato, recordando-se do seu lapso de memória quando o recebeu.
O Avô do Benedito sorriu, um sorriso triste e cheio de preocupação.
— Eu não enviei nenhum relógio, Viriato. O relógio deve ser apenas um aviso. A esfera é que é a causa. E alguém veio aqui e retirou a outra metade da caixa. Para parar este processo, é necessário unir as duas metades da esfera, de modo a manter o Ontem encerrado. Quanto mais longe e mais tempo as duas metades estiverem uma da outra, mais depressa a regressão do tempo decorrerá.
— Então, mas quem quereria acabar com o presente? — insistiu Viriato.
— Alguém que queira "corrigir" um erro do passado. — Adivinhou o pai João, com preocupação na voz.
— Mas qual erro? — indagou o Nuno, as sobrancelhas mais inquietas que nunca.
— Talvez tudo isto tenha a ver com o empate — sugeriu o árbitro veterano. — O campeonato da Rua de Cima está empatado. Alguém não suporta a incerteza. Alguém quer voltar atrás no tempo e mudar o resultado do último jogo. E talvez até recuar mais no tempo e alterar algo ainda mais antigo. Só que essa pessoa desconhece que o tempo não gosta de ser enganado. Quando tentas forçar o passado para mudar o presente, o tecido da realidade rebenta — explicou ele.
Viriato olhou para o pai João. Este estava pálido.
— O empate? — Viriato sentiu um frio na espinha. — Mas é por causa de um jogo de futebol que o tempo está a colapsar?
Nesse momento, a meia esfera na mão do Sr. Jarbas começou a brilhar com uma luz violeta intensa. As nuvens lá dentro giraram tão depressa que se tornaram um borrão.
— Ela ativou-se — disse o Sr. Jarbas. — A outra metade está perto. Perto o suficiente para nos afetar.
— Mas isto é uma espécie de magia negra! — concluiu o Tobias.
— Magia é apenas ciência que ainda não explicámos — corrigiu o pai João, embora a sua voz tivesse perdido aquela certeza habitual de engenheiro. Ele olhava para a meia esfera com o respeito de quem sabe que algumas equações não têm solução, apenas consequências.
A luz violeta fazia as sombras no sótão dançarem de forma errada. O ar arrefeceu de tal forma que o fôlego de todos se transformou em vapor.
O Flocky latiu. Desta vez, foi um latido normal. Claro. Forte. As suas orelhas apontaram para a janela redonda do sótão. Lá fora, o céu de setembro não estava a escurecer; estava a ser invadido por uma nuvem negra, densa e perfeitamente circular. Subitamente, adquiriu a forma de um apito de árbitro.
Um som agudo, um apito estridente que não vinha do ar, mas de dentro das cabeças deles, ecoou por todo o sótão. A realidade começou a desfazer-se.
— Protejam-se! — gritou o Avô do Benedito. — O jogo está prestes a recomeçar!
CAPÍTULO 5
O Apito no Céu e a Corrida Contra o Relógio
A nuvem em forma de apito não trazia chuva. Trazia som. Um silvo agudo, penetrante, que fazia os dentes doerem e os pensamentos embaralharem-se. Era o som de um árbitro a marcar falta, amplificado por mil altifalantes e ecoado através dos séculos.
— Cobrir os ouvidos! — gritou o pai João.
Mas era tarde demais. O som invadiu o sótão, fazendo as paredes tremerem. O efeito foi imediato e bizarro.
O Tobias do Ui, que estava a proteger a cabeça com os braços, de repente começou a andar para trás. Não porque quisesse, mas porque as suas pernas obedeciam a uma lógica inversa. Ele tentava avançar, mas os seus pés insistiam em recuar.
— UI! — gritou ele, tropeçando numa caixa. — Estou a recuar para o futuro! Ou para o passado? Não sei, mas estou a ficar muito mais baixo!
Viriato olhou para as suas mãos. A pele estava a ficar mais lisa, mais infantil. As cicatrizes nos joelhos, marcas de quedas épicas em campos de terra, estavam a desaparecer. Estavam a recuar no tempo. Se continuassem assim, em poucos minutos seriam bebés de fralda, incapazes de salvar o campeonato.
O Zé Caramelo tentou contar uma piada para aliviar a tensão, mas as palavras saíram ao contrário:
— ?erovrà amu euq otla siam ratlas edop ahnilag euQ… — disse ele, confuso. — Espera. O que é que eu disse?
— Disseste "que galinha pode saltar mais alto que uma árvore ?" ao contrário — traduziu o pai João. — É interessante e estranho. Uma inversão total, letra a letra, do fim para o princípio. É como se alguém tivesse escrito a frase ao contrário num espelho.
— Isso não ajuda! — gritou o Léo, que estava agarrado a uma viga e via as suas próprias lágrimas a subir dos queixos para os olhos. As suas mãos estavam a ficar mais pequenas e, ao mesmo tempo, sentia dores nas costas, tal como a sua avó. — Estamos a ficar mais novos? Ou mais velhos?
O ar começou a ficar mais pesado, quase peganhento. O Nuno Barbinhas, sempre o mais técnico, tentou usar o seu equipamento de mergulho para "nadar" através do ar denso da distorção temporal. Ele movia os braços em braçadas lentas, como se estivesse debaixo de água, tentando chegar perto do Sr. Jarbas.
— O ar está a tornar-se viscoso, como gelatina! — gritou o Nuno, com as sobrancelhas a moverem-se de forma independente.
— Estamos a regredir — confirmou Viriato, com um frio na espinha. — Se continuarmos assim, em vinte minutos seremos bebés de fralda.
— Temos de parar a fonte — disse o pai João, que já apresentava bastantes tufos de cabelo na cabeça lustrosa. — Sr. Jarbas, quem tem acesso à esfera? Quem sabia que ela estava aqui?
O velho árbitro recuou para a cadeira de balanço, que agora rangia num ritmo frenético, como um metrónomo avariado. O seu rosto endureceu.
— Considerando o relógio que vos enviaram e a tentativa de regressar aos ontens já fechados, só consigo pensar numa pessoa. Alguém tão ressentido com o passado que é capaz de tudo para querer mandar no tempo — murmurou ele, a voz quase abafada pelo som infernal da nuvem . — Alguém que sempre achou que o meu apito era demasiado suave.
Viriato sentiu um arrepio. Olhou para o Sr. Jarbas e lembrou-se de alguém: o Zé Pó. Havia um pormenor que o fez recordar-se dele: um fio com um apito de prata antigo que o Zé Pó trazia sempre ao pescoço e que fazia com que ninguém ignorasse as suas ordens ou imprecações. O Zé Pó vivia como um eremita na antiga relojoaria no fim da Rua de Cima. As crianças assustavam-se quando o viam e todos se afastavam dele, que também não se aproximava de ninguém.
— O Zé Pó — disse Viriato. — Ele está a tentar "apitar" o tempo para que o jogo não termine em empate.
— Sim, o meu irmão gémeo — revelou o velho árbitro. — Ele nunca me por, há muito tempo, eu ter arbitrado um jogo em que a equipa dele participou e que terminou empatado. Havia um prémio para a equipa vencedora, que acabou por não ser atribuído devido ao empate. Mais tarde, tentou seguir a carreira de árbitro, mas foi sempre sendo despromovido, porque apitava por tudo e por nada e mostrava cartões a torto e a direito.
De repente, Flocky correu em direção à janela e começou a ladrar excitadamente, como se fosse um cachorro a aprender a usar a voz. Viriato espreitou pela janela. Lá em baixo, na Rua de Cima, uma pequena figura curvada caminhava em direção à antiga relojoaria, agora abandonada. No velho letreiro acima da entrada, lia-se com dificuldade a inscrição: "A Mecânica do Tempo, Lda". O vulto levava nas mãos a outra metade da esfera, vermelha, que brilhava como um farol no crepúsculo. Era o Zé Pó.
Ele olhou para trás. Viriato viu-lhe um sorriso que não chegava aos olhos, pois estes estavam fixos num ponto além do tempo, num lugar onde os empates não existiam.
— Temos de ir lá — disse Viriato. — Agora. Antes que ele desfaça o sábado e tudo o que vem a seguir.
Quando se dirigiram para a escada verificaram que ela já não tinha degraus.
— Mas como é que vamos sair daqui? — perguntou o Tobias, que agora estava a gatinhar porque as pernas tinham decidido que eram braços. — Eu não consigo correr!
O pai João, mantendo a calma de engenheiro terapêutico, abriu a janela.
— Nuno, usa a tua corda! Passa-a pela viga principal!
O Nuno, ainda a "nadar" no ar, lançou a corda com uma precisão cirúrgica. O pai João amarrou-a e atirou a outra ponta para o jardim.
Dito isto, pegou no Flocky, colocou-o debaixo do braço e, com a sua capacidade atlética, pendurou-se na janela e fez um pouco de escalada inversa. A meio da parede, deu um salto felino para o chão. Esticou a corda.
— Vamos fazer uma descida de emergência! — disse o pai. — Rapazes, agarrem-se à corda e deslizem! Sr. Jarbas, tente proteger-se o melhor possível. Assim que pudermos, viremos buscá-lo,
O Léo, aterrorizado, fechou os olhos e agarrou-se à corda. O Tobias, ainda a andar de costas, foi o segundo, aterrando nos ombros do Léo, obrigando-o assim a chegar ao chão. Zé Caramelo foi o terceiro, tentando ainda dizer algo coerente, mas palrando como um bebé. O Nuno, profissional das cordas, desceu num ápice. Viriato desceu por último, aterrando de pé no jardim.
À entrada da antiga relojoaria, o Zé Pó levantou a meia esfera. O céu escureceu ainda mais. O apito soou novamente, mais alto, mais perto. O jogo final tinha começado. E um árbitro ressentido estava prestes a apitar para o fim da realidade.
CAPÍTULO 6
A Oficina das Coisas Que Ainda Não Aconteceram
A escuridão que os envolveu assim que entraram no edifício abandonado não era apenas falta de luz, mas sim uma ausência de tempo. Cheirava a ontem, a pó acumulado e a memórias desbotadas. Mas, num canto particularmente sombrio, o ar mudava. Cheirava a amanhã: um aroma elétrico, semelhante ao ar logo antes de uma trovoada, misturado com o cheiro inconfundível de cadernos novos, daqueles cujas páginas ainda não foram abertas. Era profundamente perturbador, pois o amanhã ainda não tinha chegado e, portanto, não deveria ter cheiro.
Viriato liderava a procissão, a mão firme no Caderno das Expedições. Atrás dele, o Tobias do Ui caminhava de costas, as suas pernas a obedecerem a uma lógica inversa, enquanto tentava manter o equilíbrio. O Nuno Barbinhas segurava a sua bússola partida, observando o ponteiro girar como um pião enlouquecido. O Zé Caramelo tentava contar uma piada para quebrar a tensão, mas as palavras saíam como bolhas de sabão que estouravam antes de chegarem aos ouvidos de alguém.
Depois de habituar os olhos ao breu, descortinava-se uma escada de caracol que conduzia a um piso superior. Dali emanava uma luz amarelada e fraca.
O Léo, apesar de estar a tremer tanto que os seus dentes pareciam castanholas, foi quem parou primeiro. Ele apontou para o teto da relojoaria.
— Olhem… as sombras — sussurrou.
De facto, as sombras projetadas no teto moviam-se ao ritmo do tique-taque de um relógio invisível. O Léo deu um passo à frente, a sua curiosidade vencendo momentaneamente o medo.
— Elas devem estar a marcar o tempo que nos resta.

Chegaram ao topo da escada. Esta desembocava no antigo escritório da relojoaria, o covil do Zé Pó. Havia várias mesas cobertas de mecanismos desarticulados e diversas ferramentas. No ar, flutuavam bolas de futebol antigas, apitos de árbitro a orbitar como satélites e tabelas de classificação de campeonatos passados a rodopiar. O tique-taque que se ouvia parecia vir de um marcador de estádio em miniatura que indicava "17-17", piscando infinitamente. Entre o tique e o taque, ouvia-se o som de um apito estridente a assinalar um penálti qualquer. No centro, sobre uma mesa de madeira carcomida, repousava a meia esfera vermelha.
Ao lado da meia bola de cristal, sentado numa cadeira de baloiço, havia um homem. Ou o que parecia ser um homem. Vestia uma camisola de árbitro, em tudo idêntica à do irmão gémeo. Usava óculos de sol apesar da escuridão do sótão. Numa mão, segurava uma caneta de prata. Na outra, um caderno que brilhava com a mesma luz verde-escura do ponteiro do relógio misterioso que tinham enviado ao Viriato. Ao pescoço, o inconfundível apito de prata.
— Sr. Zé Pó? — indagou Viriato, reconhecendo a postura rígida e a maneira como ele segurava a caneta como se fosse uma arma.
O homem virou-se. Não era exatamente o Zé Pó que estavam habituados a reconhecer. Era o Zé Pó, mas… inverso. O cabelo, que normalmente era grisalho e desgrenhado, estava penteado para trás com uma precisão militar. E o sorriso… o sorriso era um esgar que deixava ver os dentes, mas em que os cantos da boca marcavam uma ameaça. Baixou os óculos escuros. Os olhos eram frios como mármore.
— Ah, os Xutos Cósmicos — disse o Zé Pó Inverso. A sua voz não ecoava; era absorvida pelo ar, como se o som tivesse medo de sair. — Chegam tarde. Ou cedo. Depende da perspetiva temporal. Eu já vos vi sair. E já vos vi chegar. E, num futuro que irei apagar, já vos vi nunca terem existido. É confuso, mas extremamente eficiente.
De facto, ficaram todos com uma expressão de perplexidade total.
O pai João retirou o relógio misterioso do bolso, que agora vibrava ainda mais e emitia um brilho verde fluorescente.
— Suponho que isto seja seu — declarou, mostrando a engenhoca ao Zé Pó.
— Ah, sim. Quis deixar-vos uma pequena lembrança da reposição da ordem. Pedi a um miúdo que andava no parque a correr à toa, para deixar a encomenda no vosso correio. Não podia correr o risco de me verem.
— O miúdo… devia ser o Zé Caganita! — Deduziu o Nuno.
— Hã? Não sei. Só me lembro de o ver a correr em círculos para a esquerda e, quando lhe dei o embrulho, passou a correr para a direita. Mas parecia um desmiolado: em vez de deixar a encomenda na caixa do correio, deixou-a nos degraus. Que desperdício do pacote de gomas que lhe dei…
— Porque roubou a esfera? — perguntou Viriato, dando um passo firme. Flocky, ao seu lado, com as orelhas a girar como hélices, soltou um rosnado que soou como um trovão distante.
— Estou a corrigir um erro — respondeu o Zé Pó, acariciando a meia esfera. — O empate. Dezassete pontos para cada equipa. Zero diferença de golos. É uma aberração cósmica e estatística. Uma mancha na perfeição do universo. O meu irmão, o Jarbas, acha que o futebol é sobre diversão. Eu sei que é sobre ordem. E a ordem exige um vencedor. Claro. Definido. Sem ambiguidades.
E continuou: — O empate é uma falta grave contra o universo, Viriato! Um jogo sem vencedor é como um apito sem som. Eu sou o VAR do destino, e estou a anular o golo da vossa amizade!
— Mas o empate faz parte do jogo! — protestou o Nuno Barbinhas, ajustando as sobrancelhas assimétricas. — A incerteza é o que torna o desporto divertido. Se soubéssemos sempre quem ganha, ninguém jogaria.
O Zé Pó Inverso sorriu, um esgar sem calor.
— Vocês chamam-lhe diversão, eu chamo-lhe caos. Imaginem um mundo onde já sabem o resultado antes de o jogo começar. Sem lágrimas, sem desilusões, sem aquele aperto no estômago quando o árbitro apita. Apenas a perfeição. Não é isso que qualquer jogador quer? — Ele segurou a metade da bola de cristal, e a luz vermelha refletiu-se nos óculos, ocultando os seus olhos. — Eu vou apagar a incerteza. Vou dar-vos um mundo onde o empate é apenas um erro de cálculo que eu já corrigi.
Ele levantou a meia esfera. A luz tornou-se incandescente. As bolas, os apitos e o marcador começaram a girar mais depressa. O som do apito a assinalar uma falta infinita, tornou-se ensurdecedor.
— Estou a rebobinar o último minuto do jogo de desempate que ainda não aconteceu. Vou garantir que os Arrebenta Canelas marcam um golo fantasma. Um golo que nunca foi visto, mas que ficará registado nos livros de história como o momento em que a dúvida morreu.
— Não podes fazer isso! — gritou o Léo, a coragem subitamente a surgir. — Isso vai apagar a nossa amizade! Se ganharmos ou perdermos por trapaça, não vale!
— Vale para mim — disse o Zé Pó. — Porque eu odeio empates. Empates são conversas que não terminam. São filmes sem final. Jogos sem vencedores, sem prémio, são… insatisfatórios.
O Zé Pó Inverso abriu um caixote e retirou dele uma bola de vidro do tamanho de uma bola de futebol. Lançou-a para o ar e ela ficou a rodopiar na mesma órbita das bolas antigas e dos apitos. Dentro dela, via-se o Viriato a chorar, sozinho, num campo vazio.
— É o futuro alternativo. Se eu mudar o passado, a vossa amizade racha. Vão tornar-se estranhos que jogam futebol por obrigação. É o preço da ordem.
Viriato sentiu um aperto no peito, mais forte que qualquer medo. Ver-se sozinho não era o pior; o pior era ver o vazio onde os seus amigos deveriam estar. Viu o fim dos Xutos Cósmicos. Olhou para o Nuno Barbinhas e fez-lhe uma piscadela de olho subtil. O Nuno percebeu de imediato e aproximou-se.
— Nuno — disse Viriato, com a voz baixa e tensa. — Tens alguma coisa nos bolsos que possa servir de projétil?
O Nuno revirou os bolsos freneticamente. Tirou de lá uma palheta de guitarra, uma pena de pavão e... o seu berlinde de aço da sorte. — Isto serve? — sussurrou o Nuno.
— Serve — disse Viriato, os olhos fixos no inimigo. — Tobias, preciso que faças a tua maior defesa.
— Uma defesa? De quê? — perguntou o Tobias, confuso.
— Da nossa verdade — respondeu Viriato.

Viriato pegou no berlinde de aço. O Zé Pó Inverso estava prestes a finalizar o feitiço, a meia esfera vermelha a pulsar como um coração doente. Viriato inspirou fundo, contando os segundos no ritmo do coração dos seus amigos, e lançou o berlinde. Não à meia esfera, mas a um ponto nevrálgico do gémeo ameaçador.
O projétil atingiu o ombro do homem com precisão. O choque não foi físico, foi de interrupção. O Zé Pó vacilou, e por uma fração de segundo, a meia bola de cristal pairou no ar, desprotegida.
— Agora, Tobias! — gritou Viriato.
O Tobias do Ui não calculou a trajetória. Ele simplesmente mergulhou, atravessando camadas de segundos, num voo de guarda-redes que desafiava a própria realidade.
CAPÍTULO 7
A Defesa da Verdade e o Golo do Caos
O Tobias cruzou o ar como se estivesse a enfrentar o penálti mais importante da sua vida. A meia esfera vermelha não era apenas cristal; parecia pulsar com o calor de um sol pequeno e zangado. Quando as suas luvas de guarda-redes colidiram com o objeto, o tempo parou.
— UI! — gritou ele, no momento da defesa.
Não foi um "ui" comum. Foi um som que vibrou nos ossos de todos no sótão, uma nota tão pura que fez com que tudo o que rodopiava no ar caísse como granizo. Tobias aterrou, com o peito ofegante, segurando a meia esfera contra o corpo como se esta fosse a bola que decidiria o campeonato. O remoinho de luz furiosa, nas suas mãos, parou de girar para a esquerda. Imobilizou-se. E, então, começou a rodar para a direita. Lentamente. Depois, mais depressa.
— Não! — gritou o Zé Pó. — Estás a acelerar o tempo! Vais parar o meu retrocesso! Vais envelhecer-nos a todos em segundos!
— Não — disse o pai João, até aí discretamente a um canto, aproximando-se. — Estamos a devolver o tempo ao seu curso natural. O tempo não é uma linha reta. É uma bola. E às vezes, a bola ressalta de formas inesperadas.
Nas mãos do Tobias, a meia bola de cristal começou a emitir uma luz dourada, quente, reconfortante. O cheiro a amanhã desapareceu, substituído pelo cheiro familiar a pó e a madeira velha.
— A esfera desmontada precisa de um ponto fixo no espaço-tempo para continuar a rebobinar! O Tobias, ao fazer a defesa, criou uma âncora de inércia! Ele parou a Esfera do Tempo! — Animou-se o pai João.
O Zé Pó olhou para as suas mãos. O seu uniforme de árbitro perdeu a rigidez. O apito foi perdendo o brilho tornando-se baço como as pratas velhas. O cabelo desgrenhou-se. Os óculos de sol caíram, revelando olhos cansados, tristes, mas humanos.
— Eu só queria… — sussurrou ele. — Eu só queria que houvesse sempre um vencedor. Para que alguém pudesse sempre ficar feliz.
O pai João aproximou-se.
— Sr. Zé Pó, a derrota não é um erro. É uma lição. O senhor não ganhou um desafio há quarenta anos e, desde então, que quer reescrever o resultado. Mas o tempo não é um caderno de caligrafia que se pode apagar com uma borracha.
— Num jogo, normalmente há vencedores — disse Viriato, de forma contida. — Mas há também amigos. E às vezes, empatar significa que ninguém perde. Significa que todos continuam a jogar. Juntos.
O Zé Pó sentou-se numa caixa de cartão, derrotado não pela força, mas pela simplicidade da lógica de Viriato.
Nesse momento, o Sr. Jarbas surgiu no topo da escada. Caminhava com a firmeza de quem acabara de recuperar a sua própria história. A meia esfera que tinha consigo, ajudara-o a reconstituir os degraus do sótão do Léo e a sair de lá. Por outro lado, à medida que se ia aproximando do irmão e da meia esfera que este tinha desviado, os efeitos da regressão do tempo foram-se atenuando.
— Zé, irmão, já chega. A Esfera do Ontem não é para ser usada. É para ser guardada.
— Irmão — disse o gémeo, com a voz cansada. — Desculpa. Eu tinha medo. Medo de que, se não controlássemos o tempo, ele nos escapasse.
— O tempo escapa sempre, Zé — disse o irmão, compreensivo. — É isso que o torna precioso. Se pudéssemos guardá-lo numa prateleira, deixaria de ser tempo. Seria apenas… mobília.
O Avô do Benedito aproximou-se e estendeu a mão. Tobias, ainda ofegante, passou-lhe a meia esfera vermelha. O velho árbitro retirou do bolso a outra metade, a violeta, que parecia agora mais serena. Com um clique metálico, as duas metades encaixaram-se, fundindo-se numa bola transparente que refletia a luz do sótão de forma perfeita.
— Esta esfera vai voltar para a caixa original. Perdi-lhe o rasto porque a tinha deixado em casa do avô do Léo, já não me lembro porquê. E a caixa vai ficar trancada. Desta vez, com uma chave que eu vou engolir. Assim, ninguém a abre sem passar por mim. E, como se vê, eu sou muito mau a lembrar-me de onde guardei as coisas.
Todos riram. Até o Zé Pó esboçou um sorriso torto. Em seguida, soltou um suspiro longo, como se um peso de décadas tivesse saído dos seus ombros.
— O que vamos fazer agora? — perguntou ele, a voz rouca.
— Vamos descer — disse o Sr. Jarbas. — E vamos deixar que o jogo de sábado aconteça como tem de acontecer. Sem interferências.
— Vamos jogar — disse Viriato. — E vai ser divertido, e justo, e incerto. E vai ser nosso.

Enquanto desciam a escada, o ambiente da antiga relojoaria parecia mais tranquilo. Até os mecanismos e as ferramentas pareciam estranhamente arrumados . A tensão tinha-se dissipado, mas a amizade entre os rapazes parecia mais sólida, forjada naquelas horas de caos temporal.
Enquanto os gémeos combinavam quem iria apitar a primeira e a segunda parte do jogo de sábado, já no regresso a casa, o Nuno Barbinhas deu um grito lancinante: a bola de vidro que lhes mostrara o Viriato a chorar e a jogar sozinho, e que ele decidira trazer para estudar, estilhaçara-se nas suas mãos, desfazendo-se em pó.
No entanto, quando olharam para ele, já apresentava um sorriso de orelha a orelha.
— Olhem aqui, altamente! — exclamou ele, abrindo as mãos. Segurava uma bola de futebol novinha em folha, que tinha surgido no lugar do vidro desfeito, como um prémio pela aventura. A bola de vidro que andara a orbitar no escritório da "Mecânica do Tempo" transformara-se na bola que seria a rainha do jogo de desempate.
Viriato sorriu e retirou o Caderno das Expedições do bolso. Na página seguinte à do mistério do relógio que andava para trás, escreveu:
"Hoje aprendi que o tempo não se vence. Vive-se. E que a melhor defesa contra o caos não é a ordem, mas a amizade. E um bom guarda-redes."
Flocky correu à volta deles e começou a saltar, latindo alegremente. As suas orelhas estavam normais, e os seus sons eram, finalmente, apenas latidos de cão.
Enquanto caminhavam para casa, o Zé Caramelo tentou contar uma piada:
— O que é que o árbitro disse ao relógio?
Viriato, Nuno, Tobias e Léo entreolharam-se.
— Não quero ouvir mais nada sobre relógios nem engenhocas do tempo! — reclamou o Léo.
O riso deles ecoou pela Rua de Cima, um som que, pela primeira vez naquele dia, pertencia inteiramente ao presente.
As formigas marchavam para a frente. As folhas caíam e ficavam no chão. E o sábado, glorioso e imprevisível, aguardava pelos Xutos Cósmicos e pelos Arrebenta Canelas, a diversão do jogo a reinar sobre o resultado.