
Cap. 1 - **O Pum que levou Viriato ao espaço
O Passaporte Mágico não era um objeto de sutilezas. Quando uma aventura se aproximava, ele não enviava um convite formal; ele aquecia até quase queimar o bolso do casaco e vibrava com uma frequência que fazia os dentes do Viriato formigarem.
Era uma tarde de quinta-feira. O pai João encontrava-se na sala a reparar um sistema de aquecimento de cabeça rapada que estava a inventar. A Benilde Rodinhas estava estacionada lá fora, a refletir o sol da tarde com a satisfação silenciosa das coisas que sabem que são necessárias. Entretanto, Viriato encontrava-se na casa de banho. Folheava o Passaporte Mágico, que tinha apanhado distraidamente ao sair do quarto.
O Flocky tinha ido com ele. O Flocky ia sempre para a casa de banho porque era o tipo de cão que achava que a amizade não tem lugares proibidos.
— Flocky — disse Viriato. — Podes sair.
As orelhas do Flocky foram para a posição de "não, obrigado, fico aqui".
— A Sério. Podes ir.
O cão suspirou, um som longo e dramático, e apoiou a pata dianteira no pé do Viriato, como se dissesse que a sua presença era um serviço essencial.
— Como quiseres — disse ele, encolhendo os ombros.
O Passaporte estava aberto na página dos carimbos recentes. Viriato olhava para o carimbo de Leocádio, o dromedário, com aquela satisfação de quem revê uma memória boa. A pata enorme, cor de areia.
E então, aconteceu. Não foi uma escolha, nem uma manobra tática. Foi um daqueles eventos biológicos inevitáveis, com uma intensidade que fez as paredes da casa de banho parecerem vibrar em ressonância.
O pum foi considerável. Não o tipo pequeno e discreto. O tipo que soa a alguma coisa e que, no silêncio específico de uma casa de banho, tem uma presença acústica que o Viriato esperava que o pai não tivesse ouvido da sala.
No segundo seguinte, o Passaporte Mágico reagiu àquela onda de choque acústica com uma violência súbita. A última página — aquela que nunca abria — escancarou-se. Uma luz com o brilho gelado da lua cheia explodiu do papel, engolindo o espelho, o lavatório e o Flocky.
— Oh não — disse Viriato.
O Flocky levantou as duas orelhas ao mesmo tempo, que era a posição de alerta máximo.
— Espera — disse Viriato. — Espera, espera…
Viriato sentiu o estômago subir-lhe à garganta, como se estivesse num elevador em queda livre. O som da casa de banho foi substituído por um silêncio tão profundo que ele conseguia ouvir o próprio coração a bater.
E depois, estrelas.
Muitas estrelas. Em todas as direções. Com aquela qualidade de estrelas que só se veem quando não há atmosfera a filtrá-las. Muito nítidas, estáveis, sem o piscar que vemos da Terra, que é apenas a atmosfera a refratar a luz.
Viriato aterrou, sentindo-se estranhamente leve, como se o seu corpo pesasse apenas uma fração do normal. Ao lado dele, o Flocky aterrou com uma elegância sobrenatural, as orelhas imóveis na posição de "isto é novo e não sei bem o que pensar".
Viriato olhou em volta. Crateras. Pedras cinzentas. E, lá no alto, pendurada num céu mais negro que tinta, a Terra — azul, branca e absolutamente indiferente àquela audácia.
— Flocky — murmurou o Viriato, ainda a tentar perceber como é que o seu peso tinha desaparecido. — Pela primeira vez na história, um cão e um rapaz chegaram à Lua por causa de um pum.
As orelhas do Flocky caíram para a posição de "por favor, não me peças para confirmar isso em público".
Viriato olhou para o Passaporte. Estava fechado, mas a última página ainda estava dobrada para dentro, como uma porta que se recusava a fechar completamente. Ele sentiu um arrepio: a Lua parecia estar a sugar algo do objeto, uma energia que fazia o papel vibrar com uma sede estranha.
Abriu o Caderno das Expedições, que trazia sempre no bolso do casaco.
Escreveu no topo da página nova: Lua. Chegámos por acidente. O método de chegada fica em segredo absoluto.
Fechou o caderno e guardou-o.
— E agora — disse ele, a voz a soar estranhamente clara naquele vácuo — vamos ver o que há por aqui.
Cap. 2 - Saltos gigantes e cenouras de olhos amarelos
As consequências da ausência de gravidade eram, descobriu Viriato no momento em que o seu pé deixou o solo, simultaneamente magníficas e completamente ridículas.
O salto mais pequeno levou-o a dois metros de altura. O estômago subiu-lhe à garganta e, por um momento, o chão da Lua pareceu um trampolim gigante feito de nada. Viriato ficou suspenso, a ver o horizonte curvo da Lua, num tempo que era demasiado para ser confortável mas curto demais para elaborar um plano de sobrevivência.
Ao seu lado, o Flocky teve menos sorte. O cão correu três passos e, ao tentar travar, as patas patinaram no pó lunar como se estivesse sobre gelo. Levantou voo, entrando numa órbita baixa particular. As suas orelhas apontavam para baixo, o rabo estava enfiado entre as pernas e as patas moviam-se freneticamente num "pedalar" inútil no ar, com a expressão de quem tomou uma decisão da qual já se arrependeu amargamente.
— Flocky! — gritou Viriato, tentando nadar no ar para o alcançar.
As orelhas do cão apontaram para cima. O Flocky, rodopiando lentamente devido ao movimento das patas, começou a descer em câmara lenta, aterrando com um baque suave e ficando completamente imóvel, como se a gravidade pudesse esquecer-se dele se ele não se mexesse.
— Não corras — avisou Viriato, aterrando ao lado dele com a leveza de uma pena.
A posição das orelhas do Flocky era inequívoca: "Entendido. Nunca mais".
Viriato experimentou caminhar. Cada passo tinha a qualidade de um balão; o corpo ameaçava subir mais do que o planeado, obrigando-o a um esforço constante para se manter ancorado ao solo. Era a coisa mais estranha e divertida que já experimentara — e ele já tinha visto coisas estranhas no Jurássico e em Marraquexe.
Depois do décimo salto, o silêncio absoluto da Lua foi interrompido por um som estranho. Não foi um assobio, mas uma vibração no ar. Uma pedra passou a trinta centímetros da cabeça de Viriato com uma velocidade que, na Terra, seria moderada, mas ali, sem resistência do ar, era um projétil perigoso.
Viriato congelou. O seu coração, que antes batia no ritmo de uma corrida de rua, agora martelava contra as costelas. Ele rodou, o Caderno das Expedições já na mão, pronto a anotar o perigo.
Atrás de uma cratera, a cinquenta metros, havia três formas.
Eram azuis. Eram compridas e afuniladas, mais largas em cima e mais estreitas em baixo, com aquela forma que o cérebro de Viriato demorou dois segundos a identificar porque não era uma forma que os seus olhos esperavam ver a mover-se. Eram cenouras. Cenouras azuis, do tamanho de garrafas de água de litro e meio, com pequenos olhos amarelos e o que pareciam ser braços minúsculos a sair dos lados.
Uma delas tinha na mão outra pedra.
— Hei! — disse Viriato, a voz a soar estranha no vácuo. — Não atirem pedras!
Houve uma pausa.
Houve uma pausa. As cenouras emitiram sons rápidos e percussivos, como grãos de areia a bater em vidro. Depois, olharam umas para as outras. A cenoura do meio, ligeiramente maior, avançou um passo. Parou. Disse algo mais devagar.
Viriato não compreendeu as palavras, mas o ritmo era de pergunta.
— Não vos compreendo — disse ele, começando a esboçar o contorno das criaturas no seu caderno. — Mas não somos inimigos. Aparecemos por acidente. Este é o Flocky. Eu sou o Viriato.
Silêncio de cenoura azul.
Silêncio de cenoura azul. Então, a do meio falou, com uma voz sintética, como se estivesse a reproduzir um áudio de uma cassete antiga. O português era reconhecível, mas com um sotaque de biblioteca poeirenta:
— Vee-ree-ah-to?
— Viriato. Sim.
— Tomatóide?
— Não sei o que é isso — disse Viriato. — Mas não.
As três cenouras trocaram olhares. A do meio deu um passo à frente.
— Blip-Blip — disse, apontando para si. Depois para a mais pequena: — Plop-Plip. — E para a maior: — Blop-Blop.
— Olá — disse Viriato.
O Flocky aproximou-se, farejando o ar. As orelhas estabilizaram na posição de "entidade desconhecida mas provavelmente não perigosa". Blip-Blip farejou também — de uma forma estranha, por toda a superfície — e emitiu um som de surpresa agradável.
— O Flocky aprova — murmurou Viriato, sentindo-se um pouco mais calmo.
Blop-Blop, o maior, inclinou-se para Blip-Blip e disse algo rápido. Blip-Blip respondeu. Plop-Plip, o mais pequeno, não disse nada mas rodou uma vez sobre si próprio, o que no vocabulário cenourítico, viria a descobrir-se, era sinal de concordância.
— Estamos aliados — disse Blip-Blip, em português perfeito, embora com aquela cadência mecânica.
— Como é que falam a minha língua? — perguntou Viriato, estupefacto.
— Aprendemos com o último que caiu aqui — disse Blip-Blip.
— Alguém caiu aqui antes?
— 1969. Três humanos. Dois saíram da cápsula, um ficou dentro. Os que saíram não compreenderam os nossos textos de boas-vindas.
— Que textos?
— Escrevemos «OLHA PARA CÁ» nas pedras — disse Blop-Blop. — Com pedras maiores. Mas eles não olharam para baixo.
— Porque é que não se mostraram? — perguntou Viriato.
— Mostrámos — disse Plop-Plip, pela primeira vez. — Mas eles gritaram e correram.
Havia uma pausa entre eles enquanto Viriato processava isto.
— E aprenderam português como?
— Um deles largou um livro — disse Blip-Blip. — "Como Comunicar com Estrangeiros". Demorámos cinquenta anos a decifrar a fonética. Mas temos tempo.
O Flocky abanou a cauda uma vez. Confirmação.
— Muito bem — disse Viriato, abrindo o Caderno das Expedições numa página em branco. — Então digam-me: o que está a acontecer aqui?
Cap.3 - O lado escuro da Lua (que afinal é o lado certo)
A história que Blip-Blip, Blop-Blop e Plop-Plip contaram tinha a forma das histórias que existem há muito tempo: com um início que ninguém recorda completamente, um meio longo e complicado, e um presente que era urgente.
Os Cenouríticos viviam na Lua há tanto tempo que os registos começavam antes de os registos existirem. Eram criaturas de pedra e ar, literalmente: comiam pedras (de preferência as mais cinzentas, que tinham mais textura) e bebiam ar (as bolsas de gás preso nas crateras, que tinham sabores diferentes consoante a composição). Tinham bossas de cristal lunar nas costas que funcionavam como reservatórios de energia. Eram, quando em paz, completamente doidos de uma forma que era inofensiva e até encantadora: corriam em círculos quando estavam contentes, cantavam em frequências abaixo do audível quando comiam bem, e decoravam as crateras com padrões que qualquer observador externo acharia impossível de interpretar.
Os Tomatóides eram diferentes. Também viviam na Lua. Do outro lado, o lado que a Terra não vê, que os humanos chamam "lado escuro". Os Tomatóides chamavam-lhe o "lado certo", o que dava uma ideia do feitio deles. Eram cinzentos, com forma de tomate: redondos e tinham uma saliência no topo que, na Terra, seria o pedúnculo, mas que nos Tomatóides era uma espécie de antena que usavam para detetar poeira cósmica, que constituía a segunda parte da sua dieta.
A primeira parte da dieta deles? Puré de cenoura.
Isto era, compreende-se, a fonte fundamental do problema.
— Eles comem-vos? — perguntou Viriato, chocado.
— Comem as sementes — corrigiu Blip-Blip, com o tom de quem faz uma distinção importante. — As sementes dos cenourítiquinhos. Cada semente é um futuro Cenourítico. Sem sementes, não há futuros.
— E onde estão as sementes?
— A Rainha Bluminda gera as sementes — disse Blop-Blop. — É a única que pode. As outras cenouras formam o Cesto Real em volta dela, uma câmara de cristal lunar que amplifica a sua energia.
— E os Tomatóides querem raptar a Rainha para que ela não gere sementes — adivinhou Viriato.
— Já a raptaram — disse Plop-Plip.
Silêncio. O Flocky, ao lado de Viriato, soltou um ganido baixo, como se sentisse a gravidade da situação.
— Desde quando? — disse Viriato.
— Desde esta manhã — disse Blip-Blip. — O Tomato Xuxa veio com os seus durante a hora de menor vigilância — que é a hora em que todos comemos pedras e ficamos concentrados no sabor — e levou a Rainha Bluminda para o Cesto Falso que construíram do lado deles.
— E o resto dos Cenouríticos?
— Estão em Assembleia Caótica — disse Blop-Blop.
— O que é isso?
— Quando há uma crise, os Cenouríticos reúnem-se e gritam todos ao mesmo tempo durante uma hora — explicou Blip-Blip. — É um processo de processamento coletivo. Depois de uma hora a gritar juntos, estão prontos para pensar.
— Isso soa como o intervalo da escola quando a campainha avaria! — exclamou Viriato. — E a hora já acabou?
— A hora acabou há vinte minutos. Mas depois ficaram em Assembleia Extra de Lamentações, que é mais uma hora a gritar, mas com mais tristeza.
— E vocês?
Os três cenouríticos olharam uns para os outros.
— Nós saímos — disse Blip-Blip. — Porque estávamos fartos de gritar e queremos fazer alguma coisa.
Viriato ficou a olhar para eles. Três cenouras azuis, jovens, impulsivas, sem plano, mas com a energia específica de quem não aguenta ficar parado enquanto algo mau acontece. Eram exatamente o tipo de aliados que conhecia bem.
— Eu conheço este sentimento — disse ele. — E já aprendi que este sentimento, com o plano certo, pode ser útil.
O Flocky abanou o rabo duas vezes. Concordância ativa.
— Temos de ir ao lado deles — disse Blip-Blip. — Mas não podemos simplesmente ir, porque há guardas.
— Quantos guardas?
— Muitos — respondeu Blop-Blop, com uma seriedade absoluta.
Viriato suspirou, abrindo o seu Caderno das Expedições. — "Muitos" é um número péssimo para um plano de ataque. Quantos, exatamente?
— Mais do que seis — explicou Blip-Blip. — Seis é onde a nossa contagem termina. Depois disso, é só... "muitos". Pode ser sete, pode ser duzentos. É uma questão de perspectiva.
Viriato olhou para o Flocky. O cão soltou um ganido que parecia dizer: "estamos tramados".
Depois olhou para a Lua em volta deles: as crateras, as pedras, o silêncio que não era silêncio mas ausência de ar.
— Aqui está o que precisamos de saber — disse Viriato, anotando as questões no Caderno — Onde está exatamente o Cesto Falso dos Tomatóides? Há uma forma de entrar sem que nos vejam?
— Há — disse Plop-Plip, que era o mais calado dos três mas que quando falava dizia as coisas certas. — A Passagem das Pedras Tortas. Os Tomatóides não passam por lá porque é demasiado estreita para eles. São muito redondos.
— Mas vocês passam?
— Nós passamos. Vocês talvez passem.
Viriato olhou para a página do Caderno das Expedições e anotou: "Tomatóides: Redondos, Antenas-Detetoras, Fracos contra passagens estreitas".
O Flocky olhou para a passagem que Plop-Plip indicava. Cabia. As orelhas foram para a posição de "tenho algumas reservas mas vou na mesma".
— Vamos — disse Viriato.
Cap. 4 - Tomato Xuxa e o plano sem defeitos (que tem muitos)
Tomato Xuxa tinha um plano.
Na sua opinião, era um plano sem defeitos. No entanto, para todos os que trabalhavam para ele, esta era a parte mais preocupante do plano.
— O plano é o seguinte — disse ele, no centro do seu Covil Tomatóide (uma cratera decorada com padrões de poeira que Tomato Xuxa achava elegantes e que todos os outros consideravam apenas confusos). Temos a Rainha Bluminda no Cesto Falso. O Cesto Falso bloqueia a sua frequência geradora. Sem frequência, não há sementes. Sem sementes, daqui a dez gerações lunares, não há mais Cenouríticos. E sem Cenouríticos, esta Lua pertencerá exclusivamente a quem nela sobrar.
— A nós — disse um Tomatóide, com um entusiasmo contido.
— A nós — confirmou Tomato Xuxa, com a satisfação de quem chegou ao fim de um argumento longo.
— E a Rainha? — perguntou outro Tomatóide, nervoso.
— A Rainha fica no Cesto Falso indefinidamente.
— Ela não vai gostar.
— Não vai gostar muito, de facto — disse Tomato Xuxa, gesticulando com desdém. — Mas a Lua não é um lugar onde se vai por gosto. É um lugar onde se fica porque não há onde ir.
A Rainha Bluminda, dentro do Cesto Falso — uma estrutura de pedra e metal lunar que bloqueava as frequências cenouríticas como uma gaiola bloqueia um pássaro —, ouviu isto com a calma de quem tem mais dignidade do que as circunstâncias permitem.
Era uma Rainha azul mais escura do que os Cenouríticos comuns, com a coroa de cristais lunares cintilando com uma luz que o Cesto Falso não conseguia apagar completamente. Enquanto falava, ela movia os dedos com elegância, fazendo com que a poeira à sua volta rodopiasse em padrões hipnóticos, como se a própria Lua lhe obedecesse.
— Tomato Xuxa — disse ela, com uma voz que era de quem não precisa de gritar para ser ouvido.
— Rainha.
— Já fizeste isto antes, de uma forma ou de outra — disse ela. — E os Cenouríticos ainda cá estão.
— Desta vez é diferente — disse Tomato Xuxa.
— É o que dizes sempre.
— Desta vez tenho o Cesto Falso.
— Que foi construído por quem?
— Pelos melhores engenheiros Tomatóides.
— Os mesmos que construíram a ponte sobre a Cratera Onze que colapsou em dois dias?
Tomato Xuxa hesitou, o rosto contorcido numa careta de indignação.
— A ponte não colapsou, ela apenas... reposicionou-se para uma dimensão onde a gravidade é opcional. Foi um teste de engenharia avançada! O Cesto Falso é diferente — reforçou, embora a sua voz traísse uma ponta de dúvida.
— Claro que é — disse a Rainha Bluminda. E ficou calada, com aquela calma de quem sabe que tem tempo e que o tempo, na Lua, tem uma qualidade específica de inevitabilidade.
Do lado de fora do Covil, atrás de uma pedra irregular, cinco cabeças — duas terráqueas e três cenouríticas — espreitavam. O Viriato sentiu o estômago dar um nó. Não era apenas o Cesto Falso que o assustava; era a luz que emanava de dentro dele, uma pulsação fria que parecia estar a sugar a pouca cor das pedras em volta. Ao lado dele, um dos Cenouríticos começou a tremer, a sua pele azulada a tornar-se pálida e baça. A ameaça não era apenas uma teoria; era um vazio que se espalhava. O torneio, o futebol, as regras… tudo parecia minúsculo perante aquela escuridão. O Viriato apertou o seu Passaporte Mágico. Era hora de agir.
Cap. 5 - A Passagem das Pedras Tortas
A Passagem das Pedras Tortas era exatamente o que o nome prometia: um canal entre duas formações de rocha lunar que era mais estreito do que o confortável, mais torto do que o prático, e mais cheio de pedras do que o ideal para quem não fosse uma cenoura.
Blip-Blip passou primeiro, com a velocidade de quem conhece o caminho e não tem dúvidas. Plop-Plip rolou pela maior parte, o método preferido dele para passagens estreitas. Blop-Blop passou de lado, com uma rotação lenta de cenoura a navegar por um espaço apertado.
Viriato foi a seguir. As paredes de rocha lunar pareciam aproximar-se, como se as pedras estivessem a tentar espreitar o que trazia nos bolsos. Mas passou. Com alguma dificuldade nos ombros, que eram mais largos do que os de qualquer cenoura, mas conseguiu atravessar.
O Flocky passou com a elegância inexplicável que os cães têm em terreno difícil — baixando o corpo, dobrando-se, deslizando. As orelhas ficaram para trás durante a parte mais estreita e depois voltaram ao lugar com um abanão decidido.
— Conseguimos — murmurou Viriato, limpando o pó lunar da camisola.
— Os Tomatóides não conseguem — confirmou Blip-Blip. — São demasiado redondos. Tentaram uma vez e dois deles ficaram presos; tiveram de ser retirados com alavancas.
— Que feliz coincidência — disse Viriato, sentindo um arrepio de alívio.
Do outro lado da Passagem, o Covil Tomatóide ficava visível na totalidade. Era uma cratera grande, com paredes altas de pedra cinzenta, decorada com os padrões de poeira que Tomato Xuxa considerava arte e que eram, objetivamente, confusos. Havia guardas: Tomatóides redondos que patrulhavam o perímetro com aquela rigidez de quem recebeu uma instrução e a executa sem pensar.
No centro, visível através de uma abertura, estava o Cesto Falso. Parecia a joia da coroa de um museu, mas num sítio onde, tecnicamente, ninguém deveria estar a guardar nada além de… bem, tomates. Dentro do Cesto Falso — azul escuro, coroa a cintilar — estava a Rainha Bluminda.
— O Cesto tem algum cadeado? — perguntou Viriato, observando o reflexo da luz na coroa.
— Tem uma pedra de fecho — explicou Blop-Blop. — Uma pedra específica que, quando removida do sulco certo, destrava a porta. Os Tomatóides não a removem porque o sulco é na parte de baixo e eles são muito redondos para se dobrarem.
— Mas vocês conseguem.
— Conseguimos. Mas os guardas vêem-nos.
Viriato olhou para o esquema do Covil. Olhou para os guardas. Olhou para o Flocky. E o Flocky, como se soubesse que estava a ser observado com uma pergunta implícita, olhou de volta com as orelhas em ângulos diferentes.
— Uma distração — concluiu Viriato, sentindo o peso do caderno nas mãos. — Precisamos de algo que os obrigue a todos a olhar para o lado errado ao mesmo tempo.
— Algo como um espetáculo? — perguntou Blip-Blip, estufando o peito alaranjado.
— Algo como o caos total — corrigiu Viriato, com um brilho nos olhos. — Como é que conseguimos fazer com que aquele covil inteiro pareça estar a ser atacado por um exército de cenouras gigantes?
— Eu consigo fazer barulhos excelentes — disse Blip-Blip, com a convicção de quem nunca duvidou das suas capacidades.
— Que tipo de barulhos?
— Posso rolar nas pedras e fazer o som do Trovão Cenourítico — explicou Blip-Blip. — É um som entre um trovão e uma cenoura a ser ralada à velocidade da luz. Faz uma vibração que gera uma frequência que os Tomatóides associam a perigo iminente.
— Como é que sabes que eles associam a perigo?
— Porque da última vez que aconteceu, acidentalmente, eles correram todos para dentro do Covil durante seis minutos ou mais.
— Seis minutos é um tempo razoãvel— disse Viriato.
— É tempo suficiente para o Blop-Blop remover a pedra de fecho — disse Plop-Plip.
Todos olharam para Plop-Plip. Que era o mais calado, mas que, quando falava, tinha o hábito de dizer exatamente a coisa certa.
— O Plop-Plip tem razão — disse Blop-Blop.
— Tem sempre — disse Blip-Blip.
— Então aqui está o plano — disse Viriato, abrindo o caderno onde, entre desenhos de máquinas impossíveis e táticas de futebol, traçou o esquema que mudaria o destino da Rainha Bluminda. Mas, para que funcionasse, precisavam de muito mais do que sorte.
Cap. 6 - A Operação Bluminda: O resgate impossível
O plano era o seguinte, tal como Viriato o explicou, sentado atrás da pedra grande com os outros:
Blip-Blip ia ao lado norte do Covil e rodava nas pedras irregulares até criar o Trovão Cenourítico. Os Tomatóides ouviriam, entrariam em modo de pânico e correriam para dentro.
Blop-Blop, que estava do lado sul da entrada do Covil, aproveitava os seis minutos (ou mais) para deslizar até ao Cesto Falso, remover a pedra de fecho, e abrir a porta.
A Rainha Bluminda saía.
Plop-Plip ficava a fazer vigia na Passagem das Pedras Tortas para garantir que ninguém bloqueava a saída.
Viriato e o Flocky ficavam em posição de apoio — que era a forma de dizer que ainda não tinham uma função definida mas estavam prontos para o que fosse necessário.
— É um bom plano — disse Blip-Blip.
— É um plano razoável — disse Viriato. — Que tem pelo menos três coisas que podem correr mal.
— Quais?
— Se o Trovão Cenourítico não funcionar desta vez. Se a pedra de fecho estiver bloqueada por dentro. E se a Rainha Bluminda precisar de ajuda para se mover depois de tanto tempo no Cesto.
— Para o primeiro: funciona sempre — disse Blip-Blip, com uma confiança que era de experiência direta.
— Para o segundo: nunca bloquearam por dentro porque não esperam que alguém tente abrir de fora — disse Blop-Blop.
— Para o terceiro — disse Plop-Plip — a Rainha Bluminda é mais forte do que parece.
Viriato olhou para os três. Depois para o Flocky, que abanou o rabo uma vez.
— Muito bem. Quando Blip-Blip der o sinal — três batidas rápidas numa pedra — começamos.
Blip-Blip foi para o norte com entusiasmo. Plop-Plip foi para a Passagem. Blop-Blop posicionou-se a sul.
Viriato esperou. O Flocky esperou ao lado dele, com a paciência específica dos cães que aprenderam que esperar faz parte do trabalho.
Trinta segundos. Um minuto.
— Flocky — murmurou Viriato — estou a começar a achar que o Blip-Blip não conseguiu chegar a…
BRUM BRUM BRUM BRUM BRU-RRRR-RRUM! BRRRRROOM!
O som não veio do ar — veio do próprio solo. Era uma vibração profunda que subia pelas solas dos sapatos, percorria os ossos e fazia os dentes tremerem. À volta deles, o pó da Lua começou a dançar em círculos perfeitos, como se o chão estivesse a tentar soltar-se da rocha. O Trovão Cenourítico era real, impressionante, e o Viriato percebeu imediatamente o seu poder: não era apenas ruído, era uma força que obrigava tudo a reagir.
Os Tomatóides entraram em movimento. Não era o caos típico de um pânico; era uma coreografia aterrorizante. Centenas de formas redondas e cinzentas colidiram, fundindo-se numa única massa ondulante que deslizava pelo solo lunar, emitindo um clique-claque rítmico e metálico. A massa deslizava como se a própria superfície estivesse a fugir. Entraram no Covil, deixando o exterior num silêncio súbito e pesado.
— Agora — disse Viriato.
Blop-Blop já se movia, rente ao solo, com a velocidade silenciosa de uma cenoura em missão. Chegou ao Cesto Falso, dobrou-se com a sua flexibilidade peculiar e alcançou a pedra de fecho.
Removeu-a.
A porta do Cesto abriu-se com um som que era de cristal a libertar tensão.
A Rainha Bluminda saiu. Saiu como as rainhas saem: sem pressa, mas com um propósito claro, a sua coroa a cintilar intensamente agora que o Cesto Falso não a bloqueava. Ignorou Blop-Blop, focando-se em Viriato e no Flocky, que tinham saído do esconderijo.
— Terráqueos — disse ela. A sua voz era estranhamente melódica, despida da mecanização ruidosa dos seus súbditos.
— Olá — disse Viriato.
— É a primeira vez que vejo terráqueos na Lua — disse ela.
— É a primeira vez que vimos à Lua — disse Viriato. — Chegámos por acidente, mas estamos a tentar ajudar.
A Rainha Bluminda aproximou-se, os seus olhos amarelos brilhando com uma inteligência antiga. Ignorou Viriato por um segundo e inclinou-se graciosamente para o Flocky.
— O teu cão tem orelhas assimétricas — notou ela, com um tom de admiração solene.
— Nunca chegaram a acordo — disse Viriato.
— É bonito — disse a Rainha, com um respeito que não estendeu a mais ninguém. — A assimetria é honesta.
O Flocky abanou o rabo, as orelhas inclinaram-se para a posição de "obrigado, isso foi gentil".
— Precisamos de sair antes que percebam — disse Blop-Blop, nervoso.
— Sim — concordou a Rainha. Depois, parou. Havia uma autoridade na sua voz que obrigou o tempo a congelar. — Espera.
— Majestade… —
— Espera — repetiu ela. — Há qualquer coisa que preciso de fazer antes de sair.
Cap. 7 - O berlinde azul e a rebelião do cristal
— Não temos tempo para mais nada — disse Blop-Blop.
— Temos exatamente o tempo necessário — disse a Rainha Bluminda, com a firmeza de quem não está a negociar. — O Cesto Falso.
— O quê?
— Preciso de o destruir — disse ela. — Se não o destruirmos, os Tomatóides voltam a tentar raptar-me. E isto recomeça.
Viriato olhou para o Cesto Falso. Era uma estrutura sólida: pedra e metal lunar, construída com uma engenharia que era, tem de se admitir, melhor do que a ponte da Cratera Onze.
— Como é que se destrói? — perguntou.
— Com frequência cenourítica — disse a Rainha. — Se eu gerar uma frequência alta o suficiente dentro da câmara, as ligações do Cesto partem. É um material que só resiste a forças externas. Por dentro, a frequência certa destroça tudo.
— E consegue gerar essa frequência?
— Sou a Rainha Bluminda — disse ela, com uma paciência de quem explica o óbvio. — Gero sementes. Gerar frequências é muito mais simples, desde que não me sinta presa.
— Mas se entrar lá dentro outra vez… —
— Entro, gero, saio em dois segundos. — Olhou para Viriato. — Mas precisamos de garantir que a porta não fecha.
Viriato olhou para o Cesto. Para a porta aberta. Para o sulco onde a pedra de fecho tinha estado.
Tirou do bolso do casaco o que tinha: o Caderno das Expedições, o Passaporte Mágico, um lápis, e o seu berlinde azul. Aquele berlinde que encontrara na primeira expedição e que guardava sempre, como se a sua cor profunda fosse um mapa para a calma. Era a sua sorte.
— O berlinde — disse, sentindo um aperto no peito por ter de o usar ali. — Se o pusermos no sulco, a pedra não encaixa e a porta não fecha.
Blop-Blop olhou para o berlinde.
— É azul — disse.
— É o que há.
— Encaixa no sulco?
Viriato foi ao Cesto, olhou para o sulco na parte de baixo, e pôs o berlinde. Ficou. Não perfeitamente, mas o suficiente para bloquear o encaixe da pedra.
— Funciona — disse, com um nó na garganta.
A Rainha Bluminda entrou no Cesto Falso.
Os dois segundos que se seguiram foram os mais longos que Viriato experienciou desde que a aventura começara.
E então:
A frequência começou baixa, abaixo do audível, sentida mais do que ouvida, uma vibração que saía do Cesto e fazia o solo lunar tremer levemente. Depois a frequência subiu. Tornou-se um huuum profundo que fazia os dentes do Viriato vibrarem dentro da boca. O Flocky, com as orelhas coladas ao chão, ganiu baixinho. O ar ao redor do Cesto começou a crepitar com eletricidade estática, fazendo arrepiar o Viriato. O berlinde azul, ali no sulco, começou a brilhar com uma luz ténue, como se estivesse a absorver toda aquela energia, servindo de âncora àquela vibração ensurdecedora.
Houve um segundo de silêncio absoluto. O tipo de silêncio que surge antes de uma tempestade, onde tudo parece prender a respiração.
E então, o Cesto Falso cedeu. Não foi uma explosão, foi um suspiro metálico. As paredes de metal lunar, antes impenetráveis, desfizeram-se como se fossem feitas de açúcar em contacto com água. Os pedaços flutuaram por um instante, suspensos na gravidade lunar, antes de caírem num monte de escombros inúteis.
A Rainha Bluminda saiu do centro da poeira, a coroa ligeiramente torta, mas o olhar firme. Viriato soltou o ar que nem sabia que estava a prender. O berlinde azul tinha funcionado. Mas, ao longe, o silêncio da cratera foi quebrado por um rosnar metálico: os Tomatóides tinham ouvido tudo.
— Pronto — disse ela.
Viriato olhou para os escombros, o seu cérebro já a calcular que, se o metal lunar se partia com aquela frequência, talvez pudessem usar a mesma técnica para outras barreiras no futuro.
— Impressionante — disse Viriato.
— Obrigada. — Olhou para os escombros. — Mas fizemos barulho.
De dentro do Covil, saiu um som: muitos Tomatóides a perceber ao mesmo tempo que algo tinha corrido mal.
— CORREMOS — disse Blip-Blip, que tinha voltado do norte e estava já a apontar para a Passagem das Pedras Tortas.
Cap. 8 - Corrida lunar (e por que tomates não devem rolar)
Correr na Lua não é bem correr; é uma série de voos falhados. A cada passo, o chão parece afastar-se com preguiça, deixando-nos pendurados no ar por um segundo extra, o suficiente para o coração saltar para a garganta. A trajetória de cada salto é uma parábola longa e lenta, esteticamente interessante, mas taticamente inconveniente quando há Tomatóides a aproximar-se por trás. O Flocky tinha aprendido a lição do início e corria com pequenos passos rápidos, o modo correto para parecer que estava a usar meias antiderrapantes invisíveis.
Viriato corria atrás de Blip-Blip, que rolava a alta velocidade e era, de todos os modos de locomoção ali presentes, o mais eficaz. A Rainha Bluminda deslizava com a dignidade de quem nunca na sua vida correu mas que se estava a adaptar muito bem. Blop-Blop ia a par de Viriato com passos de cenoura ritmados. Plop-Plip estava já na entrada da Passagem a fazer sinal.
Atrás deles, os Tomatóides saíam do Covil.
O problema com os Tomatóides a correr era que eram redondos e, portanto, rolavam. E objetos redondos a rolar na superfície irregular da Lua, com pouca gravidade, têm a tendência para ricochetearem de formas imprevisíveis. O que era, do ponto de vista dos Tomatóides, caótico. Do ponto de vista de Viriato, ligeiramente cómico mas com potencial de perigo.
— A Passagem! — gritou Blip-Blip.
— Eu sei onde fica — disse Blop-Blop.
— Eu estou à frente e tu estás atrás — disse Blip-Blip — portanto claramente eu sei melhor.
A Rainha parou subitamente, o seu manto de luz a estabilizar no vácuo, e falou, com uma voz que não levantava o tom mas que silenciava tudo à volta.
— Blip-Blip.
— Majestade?
— Corre. Discutem depois.
Entraram na Passagem.
A Passagem das Pedras Tortas era apertada para Viriato, mas impossível para os Tomatóides. Isso ficou confirmado pelo som que veio de trás: um ploc-ploc-ploc abafado e frenético, como se centenas de bolas de pingue-pongue estivessem a tentar atravessar uma fechadura.
— Presos — disse Plop-Plip, com satisfação.
— Por quanto tempo? — quis saber Viriato.
— Até alguém os ajudar com alavancas — respondeu Blip-Blip. — Já aconteceu antes. Demorou muito mais de seis minutos.
— Então temos bastante tempo? — Animou-se Viriato.
— O Tomato Xuxa sabe outros caminhos — disse a Rainha. — Este foi o mais rápido, mas não é o único.
— Quanto tempo demoram os outros caminhos?
— Mais tempo — disse Blop-Blop. — Mas ele vai tentar.
Viriato parou por um instante, a respiração a acalmar. Estavam agora do lado cenourítico da Lua. As crateras eram mais iluminadas, não porque houvesse luz diferente, mas porque os Cenouríticos tinham decorado as pedras com cristais que refletiam e distribuíam a luz solar de uma forma que tornava o território mais brilhante. Era bonito de um modo que era totalmente não intencional como decoração e completamente intencional como funcionalidade.
E à distância, vindo na sua direção com aquele passo coletivo de multidão em movimento, estavam os outros Cenouríticos.
A Assembleia Extra de Lamentações tinha terminado.
Cap. 9 - A canção que faz a poeira dançar
Os Cenouríticos eram muitos.
Viriato não os conseguia contar exatamente — moviam-se e agrupavam-se e separavam-se com uma fluidez que tornava o número difícil de fixar — mas eram claramente mais do que seis, que era o limite aritmético deles. Eram uma onda azul de formas de cenoura, de diferentes alturas e tamanhos, que se movia em direção à Rainha Bluminda com aquela velocidade de quem esperou muito tempo e já não consegue abrandar.
O que aconteceu quando chegaram foi simultaneamente tocante e ensurdecedor.
Os Cenouríticos faziam barulho ao ficar felizes. Não o tipo de barulho humano, não aplausos nem gritos nem palavras. Era uma frequência que saía de todos eles ao mesmo tempo, que começou baixa e subiu, que era parte vibração de pedra e parte som de cristal, que Viriato sentiu nas costas dos dentes e que o Flocky recebeu nas orelhas com uma expressão de espanto total. A areia aos pés de Viriato começou a vibrar, desenhando padrões geométricos perfeitos, como se a própria terra estivesse a dançar ao ritmo daquela harmonia. As pedras próximas começaram a emitir um brilho suave, ressonando com o som.
A Rainha Bluminda ficou no centro de tudo isso com os olhos fechados e a coroa a cintilar em resposta, e havia naquele momento qualquer coisa que não era traduzível mas era claramente sobre pertencer a um lugar e ser reconhecido nele.
Viriato ficou de lado com Blip-Blip, Blop-Blop e Plop-Plip, sentindo o peito vibrar com a intensidade do som.
— O que é este som? — perguntou, tentando elevar a voz acima da vibração.
— A Canção do Regresso — disse Blip-Blip. — Quando alguém que pertence ao grupo volta depois de ausência, cantamos a frequência do reconhecimento. Cada Cenourítico tem uma frequência própria que os outros guardam. Quando voltas, cantam a tua frequência de volta para ti.
— É como dizer "estávamos à tua espera"?
— É dizer "a tua frequência não desapareceu enquanto estavas fora" — corrigiu Blip-Blip. — É mais específico.
O Flocky encostou-se à perna de Viriato, as orelhas numa posição de «isto é bonito, mas é também muito difícil para as orelhas». Viriato afagou-lhe o pelo, sentindo o cão a tremer levemente em sintonia com a terra.
A canção durou quatro minutos. Quando parou, o silêncio que se seguiu não era vazio — era cheio, denso, como se o ar tivesse ficado mais espesso.
A Rainha Bluminda abriu os olhos e olhou para Viriato.
— Vieste à nossa Lua por acidente — disse ela.
— Sim.
— E ajudaste na mesma.
— Parecia o que era preciso fazer.
— É sempre assim — disse ela, com um sorriso sereno. — As ajudas verdadeiras raramente são planeadas.
Olhou para o Flocky. — E o teu cão também ajudou.
— O Flocky vai sempre onde eu vou — disse Viriato, disse Viriato, sentindo-se subitamente pequeno perante a figura real, mas firme. Apertou o seu Passaporte Mágico, um gesto que sempre o ajudava a ganhar coragem.
— É um cão muito conveniente.
— É um cão muito bom — completou Viriato.
Nesse momento, o Flocky emitiu um ruído que nunca se lhe tinha ouvido: uma mistura de uivo curto e rosnado surdo que parecia uma frequência… "cenoucanínica". A Rainha rasgou um sorriso maravilhado e afagou as orelhas do Flocky com aquela precisão de quem entrega uma distinção importante.
— Mas o Tomato Xuxa ainda está lá — disse Blip-Blip, quebrando o encanto com a sua habitual urgência. — E o Cesto Falso está destruído, mas ele vai construir outro.
— Vai tentar — disse a Rainha. — Mas agora há uma diferença.
— Qual?
— Desta vez temos aliados que sabem como funciona o Cesto Falso — disse ela. — E aliados que cabem na Passagem das Pedras Tortas, que é o único caminho que os Tomatóides não controlam.
Olhou para Viriato.
— Se voltarmos a precisar — disse ela—, podemos contar convosco?
Viriato pensou durante um segundo. O Passaporte Mágico parecia pesado no seu bolso.
— Não sei quando cá consigo voltar — disse ele, com franqueza. — O meu Passaporte Mágico decide.
— Isso é honesto — disse a Rainha.
— Mas se o Passaporte abrir para cá — continuou Viriato — é porque há uma razão. E eu venho.
A Rainha Bluminda inclinou a coroa. Blip-Blip disse qualquer coisa em cenourítico que fez os outros dois rodar uma vez sobre si próprios — concordância máxima.
Cap. 10 - O segredo da pedra comida
Tomato Xuxa chegou ao perímetro cenourítico pelo caminho longo, como a Rainha tinha previsto. A delegação de Tomatóides que o acompanhava parecia uma equipa de futebol a jogar com menos dois jogadores. Os outros, provavelmente, ainda estavam atolados na Passagem das Pedras Tortas, à espera de alavancas que nunca mais chegavam.
Parou a cinquenta metros da Rainha Bluminda e dos Cenouríticos, com aquela expressão de quem tinha um plano sem defeitos que, subitamente, descobrira defeitos em todo o lado.
— Rainha Bluminda — disse ele.
— Tomato Xuxa — respondeu ela.
— Estou a ver que te escapaste.
— Observação correta.
— Isso não muda o problema fundamental — insistiu ele. — Os Tomatóides existem nesta Lua. Os Cenouríticos também. Não há espaço para os dois.
— Esta Lua tem 37 milhões de quilómetros quadrados de superfície — disse a Rainha.
— Exatamente. É pouco.
— É suficiente para todos os Cenouríticos, todos os Tomatóides e ainda sobra espaço para umas quantas espécies que ainda nem descobrimos — retorquiu ela.
— Mas nós queremos toda a superfície.
— Porquê?
Tomato Xuxa abriu a boca. Fechou-a. Abriu-a outra vez.
— Porque sim — disse, com a firmeza de quem não tem uma resposta melhor mas não quer admiti-lo.
Viriato, que estava ao lado da Rainha, não percebia nem uma palavra do que estava a ser dito. Sentia-se um observador num mundo que parecia ter sido desenhado por alguém com uma lógica muito diferente da sua. O tom da conversa, porém, era universal. Deu um passo à frente.
— Posso dizer uma coisa? — disse.
Tomato Xuxa olhou para ele. Era a primeira vez que via um humano e a reação era mais de espanto do que de hostilidade.
— Crrrt! Sshhrrz! Tu és... pequeno — disse Tomato Xuxa, passando do registo lunar para o mesmo idioma mecânico que os cenouríticos usavam com o Viriato.
— Tenho nove anos — disse Viriato. — Ainda estou a crescer.
— De onde vens?
— Da Terra. — Apontou para o planeta azul-verde suspenso no céu. — Ali.
Tomato Xuxa olhou para a Terra. Ficou a olhar durante tanto tempo que o silêncio se tornou pesado. Viriato viu, nos olhos do alienígena, uma sombra de melancolia..
— Que grande — disse ele, com uma voz despojada de qualquer autoridade.
— É grande. E tem muita gente e muitos lugares — explicou Viriato. — Mesmo assim há guerras sobre pedaços dela, porque algumas pessoas acham que o que têm não chega. Que precisam do que é dos outros.
Silêncio.
— E isso funciona? — perguntou Tomato Xuxa.
— Nunca — disse Viriato. — Quem ganha o que é dos outros fica com aquilo mas perde outras coisas. Perde a possibilidade de trocar. De aprender. De ter um vizinho que não é inimigo.
— Os Cenouríticos não são nossos vizinhos — disse Tomato Xuxa, recuperando a postura. — São a nossa competição.
— Competem para quê?
— Para… — Tomato Xuxa parou, o olhar vago. — Para ter a Lua.
— Têm metade da Lua — disse Viriato. — O lado que a Terra não vê. Como é esse lado?
Uma pausa.
— É bom — disse Tomato Xuxa, com relutância. — Tem as melhores formações de poeira cósmica. E as crateras mais antigas. É o lado certo.
— E os Cenouríticos têm este lado. Com os cristais. E a Fonte das Pedras Cinzentas.
— Como sabes isso? — disparou Tomato Xuxa.
— Não sei. — Viriato olhou para a Rainha Bluminda. — Passo.
A Rainha Bluminda, com aquela expressão de quem guardava segredos ancestrais como se fossem segredos de cozinha, interveio:
— A Fonte das Pedras Cinzentas tem as melhores pedras para comer. A nossa base alimentar. Mas também tem as melhores poeiras cósmicas, a vossa fonte preferida. Partilhámos durante muito tempo. Deixámos de partilhar quando um Tomatóide do Norte roubou uma pedra especial.
— Uma pedra — repetiu Tomato Xuxa, como se fosse um detalhe menor.
— Uma pedra — corrigiu a Rainha, os olhos a brilharem com um rigor quase obsessivo. — A minha favorita. Tinha a cor de um pôr-do-sol capturado num cristal, uma textura que vibrava ao toque e um sabor que desafiava a gravidade. Era única.
Tomato Xuxa ficou em silêncio. Um silêncio longo, quase geológico.
— Isso foi há quantas gerações? — disse Tomato Xuxa.
— Muitas — disse a Rainha.
— Ninguém se lembra da pedra.
— Eu lembro-me.
Novo silêncio.
— A minha avó tinha uma pedra assim — murmurou Tomato Xuxa, por fim. — Descreveu-a exatamente da mesma forma. Disse que era a coisa "mais boa" que alguma vez provara.
— Era a minha pedra — disse a rainha, sem raiva, apenas com a calma de quem esperou muito tempo para dizer algo e não iria desperdiçar aquele momento com irritação.
— Eu não a tenho. A minha avó comeu-a.
Pausa.
— Ah — disse a Rainha Bluminda.
— Ah — confirmou Tomato Xuxa.
Viriato olhou de um para o outro. Era o momento em que a história de um conflito interplanetário se resumia a uma revelação absurda — uma pedra comida há gerações. Era ridículo. Era cósmico. Era a coisa mais humana que já tinha visto, mesmo não sendo entre humanos.
O Flocky levantou a cauda, cauteloso.
— Não há maneira de recuperar a pedra — interveio Viriato, tentando não rir. — Mas há maneira de encontrar outras como ela. E se a Fonte das Pedras Cinzentas tem as melhores pedras e as melhores poeiras, talvez valha mais a pena partilhá-la do que perder a Lua inteira a tentar ganhar uma guerra por algo que já foi digerido.
Tomato Xuxa ficou muito quieto. Os Tomatóides ficaram muito quietos. Os Cenouríticos ficaram muito quietos. Até o Flocky, que normalmente não conseguia estar quieto nem para dormir, parecia uma estátua de orelhas em pé. Era o silêncio de um elástico esticado ao máximo: ou partia, ou disparava para um novo rumo.
Cap. 11 - O Acordo improvável das Pedras Cinzentas
O acordo que Tomato Xuxa e a Rainha Bluminda fizeram naquela tarde lunar não tinha nome quando foi feito. Mais tarde chamaram-lhe o Acordo das Pedras Cinzentas, que era um nome simples para uma coisa que não era simples, mas que ficou como as coisas ficam quando há vontade de ambos os lados.
Os termos do Acordo eram três:
Primeiro: a Fonte das Pedras Cinzentas ficava acessível a ambas as espécies, em dias alternados — dias de cenoura, dias de tomate, com uma pedra de fronteira a separar os territórios de acesso.
Segundo: o Cesto Real dos Cenouríticos ficava sob proteção: não podia ser atacado por nenhum Tomatóide. Em troca, as formações de poeira cósmica do lado escuro ficavam protegidas de qualquer intervenção cenourítica.
Terceiro: quando houvesse um desentendimento, em vez de Assembleias Caóticas e planos de rapto, havia uma Reunião na pedra da fronteira — com um representante de cada lado, sem armas, e com a obrigação de ouvir antes de responder.
— Isto funciona? — perguntou Blip-Blip a Viriato, em voz baixa, enquanto os dois líderes faziam o acordo.
— Depende de os dois quererem que funcione — disse Viriato.
— E querem?
Viriato olhou para Tomato Xuxa, que estava a discutir os detalhes com a Rainha com aquela atenção de quem está a pensar em cada palavra. Depois para a Rainha, que ouvia com aquela qualidade de escutar: respeitar o que se ouve mesmo quando não se concorda com tudo.
— Hoje querem — disse. — E depois depende de amanhã.
Blip-Blip deu um salto, frustrado. — Isso é uma resposta que não responde a nada! — reclamou, agitando as orelhas de cenoura.
— É uma resposta honesta — disse Blop-Blop.
Plop-Plip rodou uma vez sobre si próprio. Concordância.
Quando o acordo ficou feito, a Rainha Bluminda voltou-se para Viriato.
— É hora de voltares — disse.
— Como sabe?
— O teu Passaporte está a brilhar — disse ela, apontando para o bolso onde Viriato o tinha guardado.
Viriato tirou-o. De facto, a última página pulsava com aquela luz que era entre prata e ouro. Estava a chamar.
— Tenho de ir — disse.
— Sim — disse a Rainha.
Blip-Blip veio ao lado dele com a velocidade de quem decidiu uma coisa e não quer perder tempo a não a dizer.
— Voltarás?
— Depende do Passaporte.
— Se não abrir — disse Blip-Blip, com uma lógica que era de cenoura — podes tentar o método original.
— Mas… quem te disse? Flocky, linguarudo! Não! — disse Viriato, com toda a firmeza disponível.
— Mas resultou.
— Sim, e não foi planeado e nunca mais voltará a ser.
— Mas..
— Blip-Blip.
— Sim?
— Não.
Blip-Blip ficou quieto. Depois rodou uma vez e meia, que era a posição de «aceito, mas com reservas».
O Flocky foi ter com Blip-Blip, Blop-Blop e Plop-Plip um de cada vez. Farejaram-se calorosa e mutuamente. Depois voltou para o lado de Viriato e as orelhas foram para a posição de "despedida está feita".
A Rainha Bluminda olhou para o Passaporte aberto.
— Posso fazer uma coisa? — disse.
— Claro — disse Viriato.
A Rainha inclinou-se sobre o Passaporte. Tocou a página com a ponta da coroa — com precisão, com delicadeza. A ponta de cristal lunar tocou a página com a precisão de um cirurgião. Onde o cristal roçou, a página não ficou apenas marcada. Começou a emitir um calor suave e um zumbido que parecia uma canção antiga. Viriato sentiu o Passaporte vibrar nas suas mãos, como se estivesse a acordar.
— Para te lembrar de onde estiveste — disse ela.
Viriato olhou para o carimbo. Era bonito do modo que as coisas feitas com cuidado são bonitas.
— É o melhor carimbo que tenho — disse. E depois, porque era verdade e tinha aprendido que a verdade dita em voz alta tem um peso diferente da verdade apenas pensada, acrescentou: — Depois do do Arrebotes. Que foi o primeiro.
A Rainha Bluminda inclinou a coroa de novo.
— Honestidade — disse ela. — É raro.
— É mais fácil do que mentir — disse Viriato, guardando o Passaporte. — Mentir dá um trabalho enorme; tens de estar sempre a inventar desculpas para a tua própria mentira. A verdade é muito mais simples: ela não precisa de ser decorada, porque nunca muda.
O Passaporte brilhou mais forte.
— Vai — disse a Rainha.
Viriato foi.
Cap. 12 - Regresso a casa (e a semente que não devia estar no bolso)
A casa de banho cheirava exatamente ao mesmo.
Isto era, de certo modo, a coisa mais reconfortante do mundo. A Lua cheirava a nada — literalmente, porque não havia ar para transportar cheiro — e, portanto, o cheiro familiar da casa de banho era a confirmação mais direta de que o regresso tinha sido completo.
O Flocky aterrou ao lado de Viriato, olhou em volta com a expressão de confirmação de ambiente conhecido, e foi diretamente beber água da tigela no corredor, porque a Lua não tinha água e mesmo a ausência de gravidade não resolve a sede.
Viriato ficou parado durante trinta segundos.
Depois saiu da casa de banho.
O pai João estava na sala, exatamente onde tinha ficado — mas havia qualquer coisa diferente na sua postura. Estava parado com a chave de fendas na mão, a olhar para a janela.
— Pai — disse Viriato.
— Olá — disse o pai, sem se virar imediatamente. Depois virou-se. A cabeça rapada brilhava com a luz da tarde, que era mais baixa do que quando Viriato tinha entrado na casa de banho. — Demoraste.
— Quanto tempo passou?
— Uma hora e vinte minutos — disse o pai.
Viriato ficou a olhar para ele.
— Sabias?
— Não sabia. — O pai pousou a chave de fendas e olhou pela janela para a auto-caravana estacionada lá fora — Mas a Benilde fez aquele som. O de metal preocupado. Duas vezes, enquanto estavas na casa de banho. O que não faz sentido a não ser que haja uma razão.
— E ficaste à espera?
— Fiquei. — O pai olhou para ele com aquela expressão de "engenheiro terapêutico": a que usava quando a carrinha perdia óleo ou quando Viriato chegava a casa com um joelho esfolado. Ele não precisava de detalhes; só precisava de saber que a estrutura, no fim, ainda se mantinha de pé.
— Quando não temos o esquema da avaria, o que se faz é esperar que a máquina estabilize — continuou o pai, voltando a pegar na chave de fendas. — E confiar que a montagem foi bem feita.
Viriato olhou para o pai.
— Fomos à Lua — disse.
— Eu sei — disse o pai. Não como alguém que sabia antes. Como alguém que ouviu a frase e a aceitou com a mesma qualidade com que aceitava tudo o que não era impossível apenas porque não tinha sido feito ainda.
— Está bem? — disse Viriato.
— Está — disse o pai. — Tens-te desenrascado muito bem até agora. Não tenho razão para achar que desta vez foi diferente.
Viriato, nada surpreendido, pensou: "O meu pai aceitou a ida à Lua como quem aceita que o pneu da carrinha furou. É o seu método: se não podes medir, confia."
O Flocky voltou do corredor, foi ao pé do pai João, e encostou a cabeça à perna dele. As orelhas foram para a posição de "ele está bem" — um leve abanar das pontas que fazia um som suave, como uma folha de papel a roçar na mesa. Era a posição mais direta que o Flocky usava quando queria comunicar algo sem margem para interpretação.
O pai João pousou a mão no pelo do Flocky.
— OK — disse.
Viriato abriu o Caderno das Expedições e sentou-se no sofá. A Benilde Rodinhas, lá fora, fez um som que era inegavelmente de satisfação. A ponta da caneta arranhou o papel com uma firmeza que o acalmou.
Escreveu:
Quem não dá valor ao que tem o que tem não sabe o que lhe convém.
Ficou a olhar para a frase. Depois acrescentou:
O Blip-Blip tem a certeza de que o meu método para chegar à Lua pode ser reproduzido. Espero nunca mais testar a teoria.
Fechou o caderno.
O pai João estava outra vez a trabalhar com a chave de fendas no sistema de aquecimento, com aquela concentração serena de pessoa que tem um problema e sabe que tem solução.
— Pai — disse Viriato.
— Sim.
— A Lua é maior do que parece daqui de baixo.
— A maioria das coisas é — disse o pai.
— E mais habitada.
— Isso é novo.
— E os habitantes são cenouras azuis e tomates cinzentos que passaram gerações a disputar algo que nenhum dos dois precisava de disputar.
O pai João parou o trabalho. Ficou quieto dois segundos.
— Isso — refletiu o pai — parece uma coisa que acontece em mais sítios do que na Lua.
— Parece — disse Viriato.
A Benilde Rodinhas fez um som que era, sem dúvida possível, de concordância profunda.
Viriato levantou-se e foi até à janela. Lá fora, o céu começava a escurecer, mas o brilho da Lua parecia diferente agora. Mais próximo. Mais pessoal. No bolso, sentiu algo que não deveria estar ali: uma pequena semente azul que não trouxera da Terra.
Ele olhou para a semente, depois para o Caderno das Expedições sobre o sofá. Era claro que, a partir de agora, as idas à casa-de-banho teriam de ser feitas com cuidados extra, mas o universo parecia ter acabado de abrir a porta.
FIM