Jardim do Mar

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VIRIATO E A OPERAÇÃO DESFORRA


Plantel

(Ou: Quem É Quem Nesta História, Para Não Haver Confusões Táticas)

Viriato — Capitão dos Xutos Cósmicos e portador oficial de um capacete de bicicleta encarnado (para "proteção tática", embora o maior perigo no campo venha dos balões de água do pai). Especialista em transformar a ciência doméstica em armas de destruição maciça no relvado e em liderar equipas que, à partida, só queriam estar a comer bolachas.

Pai João — Treinador e engenheiro terapêutico. A sua cabeça rapada não só serve de farol para os vizinhos como reflete a luz da sabedoria desportiva. Acredita piamente que o futebol é 90% mental, usa a Arte da Guerra como base para a chávena de chá e tem a perigosa mania de que a plasticina e os balões cheios de água são ferramentas de neurociência de ponta.

Flocky — Cão rafeiro e "analista tático" autoatribuído. Não joga, observa. O seu sistema de ladridos de alta frequência é a única coisa que consegue fazer o Tobias do Ui voar. Coleciona meias roídas e opiniões muito sérias sobre a trajetória imprevisível dos balões de água.

Léo — O cérebro cético da equipa. Tem um medo irracional de aranhas (incluindo cascas de laranja que parecem aranhas) e marca golos épicos de olhos fechados porque imagina que a bola tem patas peludas. A sua maior descoberta? O pânico, quando bem canalizado, é uma excelente ferramenta de precisão.

Tobias do Ui — Guarda-redes e dono do lendário "Ui de Glória". Famoso por usar uma meia verde e outra azul (culpa da máquina de lavar, não da moda) e por dizer "ui" antes de a bola chegar. Na Desforra, provou que o seu instinto funciona melhor quando o cérebro está em modo de pânico absoluto.

Zé Caramelo — Médio criativo e dentição em fase de transição. A sua arma secreta não é o drible, mas sim a Piada do Pato. Capaz de fazer o adversário mais feroz explodir de riso e falhar um livre perigoso. Coleciona piadas de qualidade duvidosa, mas com eficácia tática comprovada.

Nuno Barbinhas — Defesa lateral e geómetra de campo. A sua sobrancelha ligeiramente arqueada confere-lhe um ar de suspeita constante, o que é péssimo para a vida social mas excelente para marcar adversários. Usa o posicionamento milimétrico para bloquear o cérebro dos extremos contrários.

Avô do Benedito (O Árbitro) — 92 anos, duro de ouvido e dono de um apito de plástico que, segundo ele, apitou a final do Mundial de 86. Apita nos momentos mais estranhos e está sempre mais preocupado com o preço das batatas no mercado ou com o arroz ao lume do que com as regras do fora de jogo.


Plantel Adversário: Os Arrebenta Canelas

(Ou: O Pesadelo Geométrico dos Xutos Cósmicos)

Araponga — Capitão dos Arrebenta Canelas e dono de uns pés tamanho 45 que fazem tremer o solo e chutam como mísseis. Escreve desafios com erros ortográficos épicos ("Dezafio ofecial") e perde o equilíbrio se for obrigado a mudar de direção. Odeia perder, mas respeita (lá no fundo, muito no fundo) a ciência alheia.
Zé Caganita — Médio de energia inesgotável e direção zero. Corre em círculos como uma galinha sem cabeça e, por puro acaso cósmico, acaba por marcar golos nos momentos mais improváveis.
Manel Mocho — Defesa que possui o superpoder de desligar e adormecer de olhos abertos no meio do relvado. A sua maior ameaça para os Xutos Cósmicos é a capacidade de se tornar completamente invisível por tédio.
Rui Trovoada — Avançado que parece um robot, mas que entra em curto-circuito total se alguém lhe contar uma piada. A sua queda pelo humor do Zé Caramelo foi o calcanhar de Aquiles da sua equipa.
Chico Gago — Extremo que chuta sempre para a esquerda e que, se for bloqueado desse lado, entra em paralisia existencial a olhar para o próprio pé durante segundos eternos.


Capítulo 1 - O Desafio (escrito por uma aranha)

Na segunda-feira seguinte ao empate épico no Jogo do Século, o Araponga surgiu no recreio com ares de quem tinha passado o fim de semana a tramar algo grande. Trazia na mão um papel dobrado em quatro, sujo de tinta e com uma caligrafia que parecia ter sido traçada por uma aranha com tonturas.

Entregou-o ao Viriato sem dizer palavra, com uma seriedade que teria impressionado qualquer pessoa que não conhecesse o Araponga.

Viriato desdobrou o papel e leu em voz alta, para o Léo, que estava ao lado:

"Dezafio ofecial. Us Arrebenta Canelas dezafiam os Xutos Cósmicos para a Dezforra Difinitinva no próssimo sábadu. Desta vez não á rans. Assinado: Araponga. P.S.: os voços nomes são rediculos."

O Léo abriu a boca para apontar os erros, mas o Viriato cortou-lhe o passo:

— Não te dês ao trabalho, Léo. O Araponga não escreve; ele atira letras para o papel.

O Araponga aguardava uma reação de pânico. Em vez disso, Viriato dobrou o papel, meteu-o no bolso e disse:

— Diz ao teu pessoal que estamos lá.

O Araponga franziu o sobrolho, desapontado com a calma do adversário.

— Então? — insistiu, roendo uma unha. — Não tens medo?

— De quê?

— De perder.

— Da última vez não perdemos. Empatámos.

— Da próxima vez perdem — disparou o Araponga.

— Da próxima vez — disse Viriato, com o sorriso de quem guarda um trunfo na manga — teremos treinador.


Capítulo 2 - O Treinador com Cabeça de Farol

O treinador chamava-se João e era pai do Viriato. Tinha vinte e oito anos e uma cabeça tão rapada que, quando o sol batia, servia de farol para os vizinhos. Possuía uma teoria para tudo, o que era a sua maior qualidade e o seu maior defeito.

Trabalhava em engenharia terapêutica, algo que ninguém na família conseguia explicar bem — "O pai trabalha com conceitos diversos que o ajudam a ele e aos outros" era a versão oficial, embora não fosse rigorosamente verdade nem mentira. O que toda a gente sabia era que o João adorava resolver problemas, construir laços e ler livros sobre temas completamente aleatórios.

O seu escritório era um caos organizado: entre um manual de apicultura que nunca passou da página dez e um livro sobre a Arte da Guerra que usava como base para a chávena de chá, ele acreditava ter algumas chaves do universo.

Quando Viriato lhe pediu para treinar os Xutos Cósmicos, o João coçou a cabeça, olhou para o filho com aquela expressão de "problema interessante" e disse:

— Tenho algumas ideias.

— Que tipo de ideias? — perguntou Viriato.

— Ideias científicas.

— Como assim?

— O futebol — explicou o João, levantando um dedo em riste, como se revelasse o segredo da bomba atómica — é noventa por cento mental e dez por cento físico.

Viriato franziu a testa.

— Não é cinquenta-cinquenta?

— Não.

— Tenho a certeza de que ouvi dizer que é cinquenta-cinquenta.

— Quem disse isso não é engenheiro de sistemas de performance humana. A ciência não mente, Viriato. O campo é apenas um cenário para o que acontece aqui dentro — apontou para a própria testa.

Viriato não pôde evitar um pensamento: "Se o treino for metade tão estranho quanto a explicação do meu pai, o Araponga que se cuide".


Capítulo 3 - O Primeiro Treino: Química, Meias e um Cão Analista

Na terça-feira à tarde, os Xutos Cósmicos reuniram-se no jardim. Eram eles:

Viriato — capitão, capacete encarnado, bola debaixo do braço.
Léo — resmungão, joelhos calejados, cético quanto ao sucesso da missão.
Tobias do Ui — guarda-redes. Recebeu a alcunha devido ao som que emitia ao sofrer um golo: um "ui" invariável, independentemente da força do remate.
Zé Caramelo — médio, dentes de leite a cair em série, sorriso permanente.
Nuno Barbinhas — defesa, sobrancelha ligeiramente arqueada, o que lhe conferia uma expressão de suspeita constante e era uma vantagem técnica para a sua posição.

O João chegou com uma pasta, uma prancheta e o Flocky, que o seguia como se tivesse sido contratado — o que, na prática, era o que tinha acontecido.

— Bom dia, equipa — anunciou o João, batendo palmas.

— Bom dia — responderam os Xutos, sem convicção.

— Hoje começamos com uma sessão de team building e reforço de confiança.

O Léo soltou um suspiro profundo.
Tim o quê? Se for um exercício de matemática, demito-me já.

— É para criar laços, Léo — explicou o João, ignorando o sarcasmo. — Nenhuma equipa ganha sem química.

— A nossa química é a bola — retorquiu o Nuno Barbinhas, mantendo a sobrancelha no lugar. — Se entra, há química. Se não entra, há confusão. Simples.

— Uma equipa tem de aprender a confiar — insistiu o João, abrindo a pasta. — Primeiro exercício: cada um diz ao colega do lado uma qualidade que admira nele.

Silêncio.

— Algo positivo — clarificou. — Nada de críticas.

Mais silêncio.

— Eu começo — disse Viriato. — Léo, admiro que não desistas mesmo quando as coisas correm mal.

O Léo ficou desconfiado.
— Estás a gozar?

— Não.

— Parece que estás.

— Léo, é um elogio.

O Léo processou a informação.
— Ah. Obrigado. — Pausa. — Tobias, admiro que… — hesitou, olhando para os pés do amigo. — …que tenhas a coragem de usar uma meia verde e outra azul. É um estilo muito… arriscado.

— Não é estilo — respondeu o Tobias, sério. — É que a máquina de lavar comeu a outra.

O João anotou qualquer coisa na prancheta com fervor religioso.
Aceitação da imperfeição operacional — murmurou. — Brilhante.


Capítulo 4 - O Primeiro Treino: Reflexos e um Upgrade Cerebral

Na quarta-feira, o João trouxe alguns balões cheios de água.

— Hoje treinamos reflexos — anunciou.

— Com balões? — perguntou o Nuno Barbinhas, a sobrancelha a subir mais um centímetro.

— A teoria é simples — explicou o João, coçando a cabeça. — No futebol, a bola surge quando menos esperamos. O balão tem uma trajetória imprevisível. Se o apanhas, ganhas um aperfeiçoamento cerebral. Se não, ficas encharcado. É ciência aplicada ao desporto.

— Isso é ciência? — questionou o Léo, com o ceticismo de um professor universitário.

— É tecnologia de ponta, Léo. O teu cérebro é um processador. Se o balão rebenta, o processador avaria. Se o apanhas, ganha um upgrade. Simples.

— Parece que vai correr muito mal — reforçou o Léo.

Correu, de facto, de uma forma que foi simultaneamente um desastre e um sucesso científico. O Tobias do Ui parou quatro balões de seis — uma taxa de sucesso que o João anotou com satisfação. O Léo parou um; o outro rebentou-lhe na cara, o que foi um desastre para o seu penteado, mas excelente para os seus reflexos. O Zé Caramelo rebentou o seu próprio balão ao tentar apanhá-lo, recebeu uma carga de água nos sapatos e riu durante três minutos seguidos, celebrando a queda de mais um dente. O Nuno Barbinhas olhou para o balão com tanta suspeita que este, intimidado, secou antes de tocar no chão.

Viriato parou os dois que lhe calharam com uma facilidade que fez o pai sorrir. O primeiro veio em arco, traiçoeiro. Viriato nem pestanejou: um movimento rápido de mãos, um amortecimento perfeito no peito, e o balão ficou imóvel. O segundo surgiu disparado para a sua cara, mas o rapaz desviou-se com a agilidade de um ninja, apanhando o objeto pelas costas, como se tivesse olhos na nuca.

— Reflexos de nível avançado — declarou o treinador.

— O Flocky também pode jogar? — perguntou o Léo.

O cão observava a trajetória dos balões com uma intensidade suspeita, tentando perceber se seriam comestíveis. De vez em quando, soltava um ganido curto, como se estivesse a ditar as notas do relatório final.

— O Flocky é o nosso analista tático — disse o João. — Não joga. Observa.

O Flocky ficou satisfeito. Talvez lhe dessem uma braçadeira de “Analista”, que ele roeria com todo o gosto.


Capítulo 5 - Estratégia de Alto Nível (com Plasticina e Legos)

Na quinta-feira, o João chegou ao jardim com uma grande folha de papel, um conjunto de plasticina colorida e cinco peças de Lego que usou para representar os jogadores adversários.

— Hoje estudamos os Arrebenta Canelas — disse ele, espalhando tudo em cima da mesa de jardim.

O Léo olhou para a plasticina com desdém.
— A sério? Vamos fazer bonequinhos? Eu só queria ganhar o jogo, não ter aulas de artes manuais.

— A plasticina ajuda a visualizar, Léo — explicou o João, imperturbável. — O cérebro retém melhor a informação quando as mãos estão ocupadas. Está provado em estudos de neurociência desportiva.

Ninguém se atreveu a perguntar que estudos eram esses. O treinador distribuiu a plasticina e cada um começou a moldar a sua bola, enquanto ele posicionava as peças de Lego no papel.

— Muito bem. Estes são os Arrebenta Canelas. Vamos analisar os pontos fracos. Nuno, olha para este aqui, o Manel Mocho. O que notaste sobre ele nos jogos anteriores?

O Nuno Barbinhas estreitou os olhos, a sua sobrancelha suspeita a subir ainda mais.
— Ele desliga. Fica a olhar para as nuvens como se estivesse a ver desenhos animados na cabeça.

— Exato — sorriu o João. — Por isso, o nosso plano é simples: vamos fazer o jogo parar. O Manel vai adormecer em pé, e quando ele acordar, já estamos a celebrar o golo.

Viriato apontou para a peça amarela, o Chico Gago.
— E este? Ele chuta sempre para a esquerda, mas às vezes parece que se confunde.

— Boa observação — elogiou o pai. — O cérebro dele entra em curto-circuito se a direita estiver bloqueada. Se o Nuno se posicionar sempre ligeiramente à direita dele, o Chico vai pensar que a única saída é a esquerda. É geometria pura.

— Geometria? — resmungou o Léo, embora estivesse agora a moldar um boneco com cara de poucos amigos. — Eu só queria ganhar, não ter aulas de matemática!

— E o Rui Trovoada? — perguntou o Zé Caramelo, que já tinha feito um boneco com cinco braços. — Ele parece um robot, não para.

— O Rui Trovoada é bom, mas perde a concentração se alguém fizer uma piada — disse o Nuno, olhando diretamente para o Zé.

Todos olharam para o Zé Caramelo, que tinha uma coleção de piadas de qualidade variável, mas quantidade impressionante. O médio da equipa endireitou as costas, sentindo o peso da responsabilidade.

— Tenho uma sobre um pato que entra num café e pede um café com leite, mas o empregado diz que não serve patos… — começou o Zé.

— Guarda essa para o momento certo — interrompeu o João, contendo um sorriso. — O Araponga é o último. Ele é forte, mas desequilibra-se se o obrigarmos a mudar de direção bruscamente.

Os Xutos Cósmicos olhavam para as peças de Lego com uma atenção que raramente davam às aulas na escola. Pela primeira vez, não parecia apenas um jogo de futebol de rua; parecia uma operação de alta precisão.

— Entendido? — perguntou o João.

— Entendido — responderam em uníssono, com uma confiança que, na terça-feira, não existia.

O Zé Caramelo deu um último toque na sua bola de plasticina e murmurou para si mesmo:
— O pato ainda vai ser o nosso melhor jogador.


Capítulo 6 - A Véspera: Wi-Fi Invisível e Músculos de Confiança

Na sexta-feira à noite, o pai João foi ao quarto do Viriato. O filho estava deitado, com o Flocky aos pés da cama. O Viriato tinha os olhos cravados no teto, a contar as sombras das árvores lá fora. O estômago parecia uma máquina de lavar roupa em ciclo de centrifugação. Era a véspera da Desforra.

— Estás nervoso? — perguntou o pai, sentando-se na beira da cama.

— Um bocadinho — admitiu Viriato.

— Bom. É sinal de que te importas.

— E se perdermos?

O João coçou o cabelo imaginário — não porque tivesse comichão, mas porque era o que fazia quando ia dizer algo importante.

— Sabes qual é a diferença entre uma equipa boa e uma equipa que ganha?

— Qual?

— A equipa boa sabe jogar. A equipa que ganha sabe jogar junta. — Pausa. — O teu Léo não é o melhor jogador do mundo.

— Não é mesmo.

— Mas quando marcou aquele golo de olhos fechados, o que é que aconteceu à equipa toda?

Viriato sorriu. — Ficámos todos loucos.

— Porque foi o Léo. Porque foi inesperado. Porque foi dele. — O pai bateu levemente no joelho do filho. — Uma equipa em que todos acreditam uns nos outros não precisa de manuais. Eles jogam como se tivessem um Wi-Fi invisível ligado entre eles. Percebes?

O Flocky remexeu-se aos pés da cama e pousou o focinho em cima do pé do Viriato. Era o equivalente canino de um eu também estou aqui.

— Obrigado, pai — disse Viriato.

— De nada. — O João levantou-se. — Ah — já ia saindo — lembrei-me de mais uma coisa.

— O quê?

— O Tobias do Ui. Antes do jogo, diz-lhe que é o melhor guarda-redes que já viste. Mesmo que não sejas completamente sincero.

— Mas pai, ele deixa passar bolas que vão a dois quilómetros por hora!

O João sorriu, sem tirar os olhos do filho.
— A confiança é um músculo, Viriato. Se não a exercitares no Tobias, ele nunca vai ter força para parar a bola que decide o jogo. Diz-lhe. Acredita tu primeiro, que ele acredita depois.

Viriato suspirou, derrotado pela lógica do pai. — Está bem. É o melhor guarda-redes que já vi.

— Isso mesmo.


Capítulo 7 - O Grande Dia (e o Árbitro do Mundial de 86)

O sábado chegou com sol, cheiro a relva, e uma ligeira brisa que trazia o som das chuteiras do Araponga a bater no chão desde a outra ponta do bairro.

Os Xutos Cósmicos aqueceram em silêncio de alta concentração. Não era o medo habitual; era o silêncio de quem tinha um plano secreto. O Léo, pela primeira vez, não se gastava à procura de aranhas. Já o Nuno Barbinhas parecia um estátua de vigilância, com a sobrancelha a disparar para todo o lado, à procura de perigo. Na linha lateral, o treinador João mantinha a postura de um general, com a prancheta debaixo do braço e o Flocky ao lado, sentado tão direito que parecia ter engolido uma régua. Ele levava a sua missão de "analista tático" muito a sério.

Do outro lado chegaram os Arrebenta Canelas. O Zé Caganita a correr em círculos como se fosse uma galinha sem cabeça. O Chico Gago a chutar para a esquerda durante o aquecimento, como sempre. O Manel Mocho já com cara de sono. O Rui Trovoada a rir de uma piada que o Chico Gago tinha contado. E o Araponga à frente de todos, com os pés enormes a fazerem tremer o chão e o sorriso torto no lugar certo.

— Hoje não há rãs — anunciou o Araponga.

— Não precisamos de rãs — disse Viriato.

— E não há meia nenhuma no meio do campo.

— Podes verificar.

O Araponga verificou. Não havia meia. Ficou levemente desconfiado com isto.

O avô do Benedito tomou o seu lugar de árbitro. Tinha um apito de plástico que, segundo ele, tinha apitado a final do Mundial de 86, e uma expressão de quem estava num campo de futebol, mas que, na verdade, estaria muito mais feliz se estivesse a ver o preço das batatas no mercado. Apitou. O jogo ia começar.


Capítulo 8 - Primeiro Tempo: Geometria, Piadas e um Golo de Ninja

Nos primeiros dez minutos, a estratégia do João produziu resultados que ele anotou na prancheta com crescente satisfação.

O Nuno Barbinhas posicionou-se ligeiramente à direita do Chico Gago em cada jogada, e o Chico Gago chutou para a esquerda em seis das sete ocasiões. Na sétima, chutou para a direita por acidente, ficou confuso consigo próprio, e ficou parado a olhar para o pé durante uns segundos que foram suficientes para o Viriato intercetar a jogada.

O Manel Mocho, apanhado numa paragem de jogo de quarenta e cinco segundos, desligou. Literalmente. Ficou ali, de olhos abertos, a ver o relvado como se estivesse a passar um documentário sobre o nada. O Zé Caramelo apontou para ele, boquiaberto, mas o João fez sinal para não o acordarem.

— É uma vantagem — murmurou o João na linha lateral.

— Está a dormir de olhos abertos — disse o Léo, muito baixinho.

— Exatamente. Parece que está no jogo. Ninguém sabe que não está.

O Zé Caramelo foi colocado perto do Rui Trovoada no momento em que os Arrebenta Canelas tinham um livre perigoso. E contou a piada do pato. Não se conhece o teor exato da piada — o Zé Caramelo nunca a repetiu na totalidade para nenhum adulto — mas o efeito foi imediato: o Trovoada explodiu de riso, o livre foi rematado torto, e o Tobias do Ui agarrou a bola pela primeira vez na história com as duas mãos e sem dizer nem ai nem ui.

Ui — disse ele depois, por hábito.

O primeiro golo dos Xutos Cósmicos veio aos vinte minutos. Viriato recebeu a bola na esquerda. O coração martelava-lhe no peito como um tambor. Viu o Araponga avançar — uma montanha de fúria e pés enormes. O tempo pareceu abrandar. Viriato fingiu que ia para a direita, o corpo do Araponga reagiu, mas os pés… ah, os pés do Araponga eram lentos demais. Num movimento fluido, Viriato cortou para a esquerda. O Araponga tentou corrigir a trajetória, mas o equilíbrio traiu-o. Foi um momento de silêncio absoluto antes de o Araponga aterrar no chão com um baque surdo, olhando para o céu com uma expressão de injustiça cósmica. Viriato, sem hesitar, disparou para o fundo das redes

1-0.

O João riscou a prancheta com um sorriso triunfante: Geometria:1 - Araponga: 0.


Capítulo 9 - Segundo Tempo: O Milagre do Léo

O Araponga, que não era burro — era só um bocadinho mau e de raciocínio lento — percebeu ao intervalo que alguma coisa estava diferente nos Xutos Cósmicos.

— Estão a jogar bem demais — disse ele à sua equipa.

— Têm treinador — disse o Zé Caganita, ofegante, depois de estar sempre a correr em círculos durante trinta minutos sem saber bem porquê e para quê. Estava exausto.

— Nós também podemos ter táticas — disse o Araponga.

— Qual é a-a-a n-nossa tá-tá-tica? — perguntou o Chico Gago.

— Chutamos mais forte.

— Isso não é uma tática.

— É uma tática simples. As melhores táticas são simples.

O Chico Gago pensou nisto durante uns segundos e decidiu que não conseguia contra-argumentar.

A segunda parte foi mais dura. O Araponga passou a chutar de longe, com aqueles pés monumentais, e numa das vezes a bola passou tão perto do Tobias do Ui que ele disse ui antes de a bola chegar — o que era, registou o João na prancheta, um reflexo impressionante.

O relvado improvisado transformou-se num campo de batalha.

O Araponga, irritado por estar a perder, decidiu que a tática era a força bruta: a bola parecia um míssil cada vez que saía dos seus pés enormes e os adversários saiam projetados cada vez que ele se encostava a algum. O Tobias, inspirado pelas palavras de estímulo do Viriato, voava, esticava-se, atirava-se…

Mas o golo dos Arrebenta Canelas acabou por chegar. Veio de um canto em que o Zé Caganita, a correr em círculos como sempre, passava pela área quando, por acidente, no momento certo, a bola lhe bateu na cabeça e entrou.

1-1. Dez minutos para o fim.

O Léo, que tinha passado a segunda parte a tentar não escorregar em nada e a afastar sombras que pareciam aranhas, recebeu a bola no meio-campo numa situação improvável. Tinha à frente o Manel Mocho — que tinha finalmente acordado e estava surpreendido por estar no meio de um jogo de futebol — e o Rui Trovoada, que ainda estava a rir da piada do pato.

O Léo olhou para o treinador João na linha lateral. Este fez-lhe um sinal que queria dizer vai em frente. O Léo entendeu-o como
não sei bem o que isto quer dizer, mas parece positivo.”

E avançou.

O Manel Mocho foi para o intercetar mas escorregou na direção contrária. O Rui Trovoada ia para impedir o Léo de avançar, mas deu uma gargalhada no momento em que o Mocho escorregou e ficou parado a rir. O Léo fechou os olhos por um milésimo de segundo, mas abriu-os logo a seguir. Imaginou a bola com patas peludas de aranha, pronta a fugir. Não ia deixar. Com um grito de guerra que nem ele sabia que tinha, acertou em cheio no centro da bola.

A bola foi direita. Perfeitamente direita. Com uma força e precisão que o Léo não sabia que tinha.

O guarda-redes dos Arrebenta Canelas atirou-se para o lado certo, mas não lhe chegou.

2-1.

O Léo ficou parado no sítio durante três segundos completos.

— Eu… — disse ele.

— LÉOOOO! — berrou o Viriato.

A molhada que se seguiu envolveu os cinco Xutos Cósmicos, o João que invadiu o campo sem se lembrar que era o treinador, e o Flocky que correu para o meio do campo e ladrou para o céu com toda a força dos seus pulmões de cão rafeiro.

— Eu vi para onde chutei — disse o Léo, do fundo da pilha humana, com uma voz abafada mas claramente emocionada. — Desta vez eu vi. E dei cabo da aranha!


Capítulo 10 - O Apito Final e o "Ui" de Glória

O Araponga não era de desistir. Com seis minutos para o fim, o seu rosto estava vermelho como um tomate maduro, e o suor escorria-lhe pela testa, desenhando caminhos na terra que tinha colada à cara. Recebeu a bola na área dos Xutos Cósmicos, sentindo o peso da responsabilidade — e o peso dos seus próprios pés, que pareciam ancorados ao chão.

Levantou o pé enorme. Preparou o balanço. O mundo, naquele campo, pareceu congelar. O ar ficou pesado, carregado de eletricidade estática. O tempo abrandou tanto que o Viriato conseguiu ver uma formiga a atravessar a linha de baliza, alheia ao drama que se desenrolava.

E então, aconteceu o milagre tático.

O Flocky, que até ali tinha mantido uma postura de estátua de jardim, soltou um latido. Não foi um latido qualquer. Foi um som grave, curto, preciso; um sinal sonoro de alta frequência que só um "analista tático" de quatro patas conseguiria emitir. Atenção!

O Tobias do Ui, que parecia estar noutro planeta, reagiu como se tivesse levado um choque. O instinto, esse músculo invisível de que o pai João tanto falava, disparou. O Tobias atirou-se para o canto certo, não porque tivesse calculado a trajetória, mas porque o seu corpo simplesmente sabia que tinha de estar lá.

A bola, disparada como um canhão, bateu nas mãos do Tobias. O impacto foi violento, fazendo-o recuar um passo. A bola ressaltou, mas ele, num movimento de gato, lançou-se sobre ela, abraçando-a contra o peito como se fosse o tesouro mais valioso do mundo.

Silêncio. Um silêncio absoluto, cortante.

O Tobias levantou-se, ainda com a bola agarrada. Olhou para os colegas. Olhou para o Araponga, que estava paralisado. E então, soltou o seu som de marca:

Ui...

Mas desta vez, o "ui" não era de derrota. Era um "ui" de espanto. De glória. De um guarda-redes que, pela primeira vez na sua vida, tinha acabado de salvar o mundo.

O avô do Benedito, que observava a cena com um olhar de quem estava mais preocupado com o facto de ter que ir pôr o arroz ao lume do que com o futebol, levou o apito de plástico à boca. O som estridente cortou o ar, anunciando o fim da partida.

2-1. Vitória dos Xutos Cósmicos.

O campo explodiu. O Léo foi o primeiro a chegar ao Tobias, dando-lhe um abraço que quase lhe partiu as costelas. O Viriato veio logo atrás, seguido pelo Zé Caramelo e pelo Nuno Barbinhas, que, pela primeira vez na história, esqueceu a sobrancelha suspeita e abriu um sorriso de orelha a orelha.

O pai João invadiu o campo, esquecendo-se completamente da sua prancheta, que caiu no chão sem que ninguém notasse. O Flocky corria em círculos à volta da equipa, ladrando para o céu como se estivesse a celebrar uma conquista canina de proporções galácticas.

Do outro lado, o Araponga estava parado, de mãos nos joelhos, a recuperar o fôlego. Olhou para os Xutos, depois para o treinador, e por fim para o seu próprio pé. Não parecia zangado. Parecia… impressionado.

— Vocês… — começou o Araponga, limpando o suor com a manga da camisola. — Vocês foram batoteiros.

O Viriato aproximou-se, ainda a respirar fundo.
— Não. Fomos científicos.

O Araponga olhou para o Viriato, depois para o pai João, e soltou um suspiro.
— A próxima vez… — disse ele, voltando a exibir o seu sorriso torto — a próxima vez, eu também vou arranjar um treinador.

O Viriato sorriu.
— Combinado.

Naquele momento, enquanto o sol se punha no horizonte do recreio, os Xutos Cósmicos perceberam que tinham ganho muito mais do que um jogo. Tinham provado que, com um pouco de ciência, muita amizade e um guarda-redes com um "ui" de glória, não havia desafio que não pudessem enfrentar. E, claro, tinham a certeza absoluta de que, na segunda-feira, o caderno do Araponga teria muito mais do que letras tortas escritas. Teria, provavelmente, o início de um novo manual de táticas.


Epílogo - Depois da Glória (e o Início do Próximo Manual)

O treinador João observava o caos feliz da equipa com a prancheta esquecida sobre os joelhos. Não tomava notas. Não analisava ângulos e tinha no rosto aquela expressão que os pais têm quando alguma coisa corre bem aos filhos. A expressão que aparece antes do sorriso, que ainda não surgiu porque estão ocupados a sentir.

O Viriato deixou-se cair na relva. O Flocky veio também, deu uma volta, e deitou-se entre os dois.

— Funcionou — disse Viriato.

O João sorriu, limpando o suor da testa com a prancheta. — Funcionou, de facto.

— A piada do pato foi a melhor parte — riu-se o rapaz.

— Discordo. A geometria do Nuno foi um golpe de génio. Mas… — o pai suspirou, olhando para o Léo a saltar ao longe — acho que o golo do Léo foi o que valeu a tarde toda.

Do outro lado do campo, o Araponga estava sentado num pneu que alguém tinha deixado ali há três semanas, a olhar para o chão com os pés enormes esticados à frente. O Viriato foi até ele.

O Araponga olhou para cima.

— Bom jogo — disse Viriato, com a mão estendida.

O Araponga olhou para a mão. Olhou para o Viriato. Franziu o sobrolho com aquela expressão de quem suspeita de uma armadilha.

Depois apertou a mão.

— Têm sorte que o vosso treinador é esquisito — resmungou.

— É engenheiro terapêutico — disse Viriato.

— É a mesma coisa.

Não era. Mas havia coisas que não valiam a pena explicar ao Araponga numa tarde de sábado.

O Léo passou por eles com um sorriso que enchia a cara toda.

— Eu marquei com os olhos abertos! — disse, para o Araponga, sem razão aparente além do puro prazer de dizer.

O Araponga não respondeu.

O Flocky latiu uma última vez, o sol começou a descer atrás das árvores do jardim, e os Xutos Cósmicos foram para casa com terra nos joelhos, glória no coração, e a certeza absoluta de que o terceiro capítulo desta história, qualquer que fosse, havia de ser ainda melhor.


Fim da 2ª volta do campeonato

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