
Nota ao Leitor
Recebemos milhões de reclamações de todo o mundo por não termos revelado a piada do pato que só o Zé Caramelo e o Rui Trovoada conheciam.
Mesmo correndo o risco de virmos a sofrer consequências legais por violar um segredo de Estado da Real República da Juventude Feliz, decidimos revelar a perigosa piada.
Não vamos maçar-vos a descrever os perigos que tivemos de enfrentar para desvendar o segredo (isso fica para outra Aventura). Podemos, isso sim, garantir que o Zé Caramelo não perdeu nenhum dente durante as lutas que tivemos de travar com ele para lhe arrancar o segredo.
Portanto, recomendando prudência e uso cuidadoso da piada, poupando a exposição a pessoas sensíveis e maldispostas, aqui vai a bomba:
“Porque é que o pato levou papel e lápis para a escola?
Porque queria aprender a fazer… quá-quá-dros!”
Terrível, não é? O Trovoada ainda está a rir… Mas, vamos ao que importa:
Capítulo 1 - O Prémio Inesperado
Foi numa terça-feira de manhã, durante a aula de Português, que a professora Dª Lurdes foi interrompida por um telefonema do diretor.
Toda a turma ficou em silêncio — o tipo de silêncio que acontece quando os adultos falam em voz baixa e as crianças tentam perceber se alguém está metido em sarilhos.
A Dª Lurdes desligou o telefone. Olhou para a turma. Os seus olhos pousaram no Viriato, que estava naquele momento a desenhar um dragão nas margens do caderno, com o capacete vermelho pousado em cima da mesa. A professora tinha dito que não era permitido usá-lo dentro da sala, mas não tinha dito nada sobre usá-lo em cima da mesa.
— Viriato — disse a Dª Lurdes, com uma voz que era simultaneamente orgulhosa e ligeiramente confusa. — Ganhaste o Concurso de Desenho da Câmara Municipal.
Silêncio.
— Eu? — disse Viriato.
— Tu.
— O concurso de desenho?
— Sim.
O Viriato olhou para o dragão nas margens do caderno. O bicho parecia ter ganhado vida, as escamas a cintilarem com a grafite do lápis. Por um momento, teve a estranha sensação de que o dragão lhe piscava o olho, cúmplice.
— Mas a professora disse que os meus desenhos eram… — Viriato procurou a palavra exata — …"muito criativos, mas…”
A Dª Lurdes tinha dito isso em Outubro, depois de ele ter entregue um trabalho sobre "A minha família" em que o pai parecia um polvo com óculos, a mãe parecia uma nuvem com cabelo, e o Flocky era inquestionavelmente o elemento mais bem desenhado. "Muito criativo" era, naquela altura, a forma diplomática de dizer outra coisa.
Viriato sentiu um frio na barriga. Lembrou-se de como, meses antes, alguns colegas tinham rido do seu desenho do 'pai-polvo', chamando-lhe esquisito. De repente, ganhar o concurso não era apenas um prémio; era como se, finalmente, alguém tivesse conseguido decifrar o código secreto da sua imaginação.
— Disse que eras muito criativo — repetiu a professora, com um sorriso que desta vez era completamente genuíno. — E tinha razão.
O Léo, sentado ao lado do Viriato, levantou a mão.
— O que é o prémio?
A Dª Lurdes fez uma pausa. Foi um momento de suspense tão bem executado que, por um segundo, até o relógio da parede pareceu parar de fazer 'tic-tac'. Para uma professora de Português, ela tinha um talento nato para a dramatização.
— Uma bola oficial do Campeonato do Mundo.
A sala explodiu. Mas, enquanto todos gritavam, Viriato notou um olhar diferente vindo do fundo da sala. Era o Léo, que não gritava. Ele já estava a sonhar com a bola.
Capítulo 2 - O Que o Pai Disse
Nessa tarde, o Viriato chegou a casa com o certificado de vencedor debaixo do braço e uma expressão entre o orgulho e o espanto. O pai João estava na cozinha a fazer ovos mexidos e a ler ao mesmo tempo. Era uma proeza que tinha aperfeiçoado ao longo dos anos, embora a mãe do Viriato insistisse que, na verdade, era uma forma muito eficaz de fazer as duas coisas mal.
— Pai — disse o Viriato, pousando o certificado na mesa. — Ganhei um concurso de desenho.
O João leu o certificado. Leu outra vez. Pôs uns óculos, limpou-os, tornou a pôr. Olhou para o filho.
— É oficial?
— É oficial.
O pai fez aquela coisa que fazia quando estava muito satisfeito, mas tentava não mostrar demasiado — um sorriso apertado, quase contido, que durava exatamente dois segundos antes de se tornar enorme.
Durou um segundo e meio.
— Eu sabia — disse ele.
— A professora não sabia.
— A professora estava errada.
— Ela disse que os meus desenhos eram muito criativos, mas…
— O que é uma forma de dizer que não percebeu o que estava a ver.
O Viriato sentou-se. O Flocky veio pôr a cabeça no seu joelho, como sempre fazia quando havia conversas importantes.
— Mas pai — disse o Viriato, com aquela honestidade direta de oito anos que os adultos perdem algures pelo caminho — os meus desenhos são esquisitos. O polvo que fiz de ti…
— Era extraordinário.
— Não se parecia nada contigo.
— Pareceu-se com a forma como me vês. — O João sentou-se em frente ao filho e ajustou os óculos com aquele gesto de "vou dizer algo importante". — Sabes qual é a diferença entre um desenho certo e um desenho bom?
— Não.
— O desenho certo é aquele que copia a realidade. O desenho bom é aquele que desenha o que a realidade está a sentir por dentro. — Pausa. — O teu polvo com óculos? Quando eu leio, fico com mil pensamentos ao mesmo tempo, todos a apontar para sítios diferentes. Pareceu-me muito verdadeiro.
O Viriato olhou para o pai durante uns segundos.
— Então desenhar é como sonhar?
O João ficou quieto. Aquela não era uma frase que ele tinha dito — era uma frase que o filho tinha construído a partir do que ele disse, e era melhor do que o original.
— É exatamente como sonhar — disse ele. — E ninguém tem o direito de dizer que um sonho está errado.
O Flocky levantou a cabeça do joelho do Viriato e bocejou, o equivalente canino de “concordo! Agora, quando é o jantar?”
Capítulo 3 - A Bola de Ouro
A bola chegou dois dias depois, trazida por um funcionário da Câmara Municipal que usava uma gravata demasiado apertada e exibia a expressão de quem entrega troféus com a mesma indiferença com que entrega faturas de eletricidade.
Era uma peça de engenharia perfeita: branca, com painéis de um dourado que parecia mudar de tom consoante a luz, e o logótipo oficial do Campeonato do Mundo a brilhar como uma insígnia real. Tinha aquele peso específico das bolas profissionais — nem leve como um balão de festa, nem pesada como uma pedra. Quando o Viriato a tirou da caixa, o Flocky sentou-se em posição de sentido, soltando um ganido curto, quase cerimonioso.
O Léo, que acompanhava o momento com a intensidade de um perito a avaliar diamantes, ficou com a boca aberta durante um tempo que, tecnicamente, já era preocupante.
— Essa bola — disse ele, finalmente, recuperando o fôlego — não pode tocar na lama. Nem na gravilha. Nem no alcatrão.
— Vou usá-la.
— Viriato, acorda! É uma bola de museu. É uma peça de coleção
— É uma bola de futebol — retorquiu o Viriato, com uma teimosia tranquila.
— É as duas coisas! Se a levas para o recreio, daqui a uma semana vai parecer um chouriço remendado.
O Viriato ignorou o aviso e deixou a bola cair no chão. O ressalto foi perfeito. O som que produziu ao bater no soalho foi diferente de qualquer outra bola que ele já tivesse tido: um toc seco, limpo e autoritário. O Flocky, contagiado, deu um pequeno salto de aprovação.
— Esta bola vai ver um jogaço — anunciou o Viriato, os olhos a brilhar com a promessa de golos impossíveis.
Ele não fazia a mínima ideia de que, naquele preciso momento, o destino daquela bola já estava traçado por forças que ele ainda não conseguia ver.
Capítulo 4 - O Ricardo Pulmão de Aço
Do outro lado do bairro, nessa mesma semana, o Araponga recebia um primo.
O Ricardo chegou com uma mochila enorme, ténis de marca que ainda cheiravam a loja e um sorriso de quem já viu o mundo todo — ou, pelo menos, as partes que interessam. Tinha oito anos e meio, uma diferença de seis meses que ele fazia questão de sublinhar como se fosse uma patente militar.
O apelido não estava no bilhete de identidade. O apelido tinha sido ganho em campo.
— Porque te chamam Pulmão de Aço? — perguntou o Araponga, no dia da chegada.
— Porque nunca me canso — disse o Ricardo, com a simplicidade de quem diz "tenho olhos castanhos".
— Nunca?
— Nunca.
— Mas toda a gente se cansa.
— Eu não.
O Araponga fez uma cara de dúvida saudável. O primo, para demonstrar, correu à volta do quarteirão quatro vezes sem parar. O Ricardo não corria como os outros rapazes do bairro; ele movia-se com uma precisão mecânica, quase predatória. Enquanto os outros ofegavam, suavam ou tropeçavam nos próprios pés, ele mantinha um ritmo inabalável, como se tivesse um metrónomo escondido no peito a ditar uma cadência que ninguém mais conseguia acompanhar. Quando parou, o silêncio que o rodeava era mais pesado do que o de um campo de batalha após a luta; era a quietude de quem sabia, com absoluta certeza, que o jogo só terminaria quando ele decidisse, e que a bola, fosse ela de ouro ou de trapos, acabaria invariavelmente nos seus pés.. O Araponga ficou a olhar. O Flocky, que passava na rua naquele momento com o Viriato, observou o Ricardo com atenção.
— Aquele — disse o Viriato, baixinho — pode vir a ser um problema.
O Flocky concordou com as orelhas.
O Ricardo viu a bola debaixo do braço do Viriato. Os olhos iluminaram-se — mas era uma iluminação calculista, não admirativa.
— Essa bola é tua?
— É.
— Está bonita.
— Obrigado.
— Posso ver? — O Ricardo esticou a mão, mas os seus dedos pareciam garras prontas a agarrar algo que não lhes pertencia.
O Viriato sentiu um arrepio. Apertou a bola contra o peito, como se ela fosse um segredo que o Ricardo pudesse roubar apenas com o olhar.
— Não — disse o Viriato, surpreendido com a firmeza da sua própria voz.
O Ricardo sorriu. Não era um sorriso mau. Era um sorriso de "está bem, por agora".
Quando o Araponga soube do prémio — soube no dia seguinte, porque estas coisas voam numa terra pequena — ficou quieto durante um tempo que era, para o Araponga, invulgar. O Araponga quieto era sempre mais preocupante do que o Araponga ruidoso.
— Quero aquela bola — disse o Araponga, enquanto observava, da janela, o Viriato a praticar toques com a bola de ouro no quintal.
— Não é tua — lembrou o Zé Caganita, nervoso.
O Araponga não respondeu. Apenas continuou a ver o brilho dourado a saltar, como se estivesse a calcular o ângulo exato de um roubo ou de um desafio que o Viriato não pudesse recusar.
Capítulo 5 - O Desafio Final
O papel chegou na quarta-feira, deslizado por baixo da porta da garagem do Viriato. Desta vez, a letra não era aqueles garranchos habituais do Araponga; era uma caligrafia firme, precisa, quase militar. O Ricardo tinha escrito o desafio, e isso tornava tudo muito mais perigoso.
Viriato leu-o em voz alta para o Léo e para o Zé Caramelo, que se tinham juntado no quintal:
"Desafio final e definitivo. Os Arrebenta Canelas, agora reforçados, desafiam os Xutos Cósmicos para o jogo decisivo, sábado. A bola do Campeonato do Mundo é a aposta. Se os Xutos não aceitarem, toda a gente vai saber que têm medo e são cagarolas. Assinado: Os Arrebenta Canelas e Ricardo Pulmão de Aço."
O silêncio que se seguiu foi pesado. O Léo empalideceu, olhando para a bola que repousava no centro do relvado, a brilhar sob o sol de fim de tarde. Parecia um objeto alienígena, demasiado perfeito para aquele quintal.
— Não temos de aceitar — disse o Léo, a voz a tremer ligeiramente. — O Ricardo não joga futebol, Viriato. Ele joga para destruir. Ele não se cansa, não falha e, pelo que vi, não tem noção de que isto é apenas um jogo.
O Zé Caramelo, alheio ao perigo e mais preocupado com a possibilidade de um jogo oficial, saltava de um pé para o outro.
— Mas vai ser épico! O Pulmão de Aço contra o nosso capitão!
Viriato não respondeu de imediato. Olhou para a bola. Lembrou-se da conversa com o pai. Desenhar é como sonhar. E, de repente, percebeu que um sonho não serve de nada se não tivermos coragem para o defender. O Araponga queria a bola não pelo valor dela, mas para humilhá-lo; queria provar que o "desenhador de polvos" não pertencia ao clube dos verdadeiros jogadores.
— Vamos aceitar — disse o Viriato. A sua voz não vacilou. — Se nos escondermos hoje, eles ganham antes mesmo do apito inicial.
O Léo suspirou, derrotado pela teimosia, mas também contagiado pela firmeza do amigo.
— Esta bola foi um sonho que ganhou forma — continuou o Viriato, olhando para o Léo. — E não há Araponga nenhum, nem Pulmão de Aço, que me faça esconder o que é meu.
O Zé Caramelo deu um grito de guerra que mais parecia um espirro mal dado. O Léo olhou para o horizonte, onde o sol começava a descer, e assentiu.
— Desafio aceite — murmurou o Viriato.
Enquanto o Flocky rosnava baixinho para o portão, como se pressentisse a tempestade que se aproximava, o Viriato soube que, no sábado, o campo não seria apenas relva e terra. Seria o lugar onde ele teria de provar que a sua imaginação era, afinal, muito mais forte do que a força bruta dos Arrebenta Canelas.
Capítulo 6 - O Bruno Cabumba
O camião de mudanças tinha chegado ao número 14 na semana anterior, e desde então havia caixas empilhadas na varanda e aquele cheiro a casa nova que as casas têm nos primeiros dias.
O Viriato tinha visto o miúdo pela primeira vez na quinta-feira: baixinho, com uns ténis amarelos impossíveis de ignorar,
Estava sentado no degrau da porta, mas não estava parado. O pé direito mantinha uma bola de futebol num movimento perpétuo: um drible tão rápido e silencioso que parecia que a bola estava colada à sola do ténis amarelo.
O novo vizinho lia um livro de banda desenhada com a mesma concentração com que o Viriato desenhava os seus dragões, sem nunca desviar os olhos das páginas, enquanto os pés faziam o trabalho pesado.
— É impossível fazer isso sem olhar — soltou o Viriato, sem conseguir evitar.
O Bruno parou a bola com a ponta do pé, num movimento seco, e olhou para cima. O seu olhar não era de quem tinha sido apanhado, mas de quem estava à espera que alguém reparasse.
— Não é impossível — disse ele, com um sotaque que trazia o sol de São Paulo para a rua cinzenta do bairro. — É só uma questão de saber onde a bola está sem precisar de a ver. Sou o Bruno. Bruno Cabumba.
O Viriato sentiu um arrepio. Cabumba. O nome soava a tambor, a ritmo, a algo que podia mudar o peso do jogo de sábado. O Flocky, que até ali rosnava a quase todos os estranhos, aproximou-se do Bruno e deu-lhe uma turrinha na mão, como se estivesse a validar um bilhete de entrada.
— Eu sou o Viriato. Capitão dos Xutos Cósmicos — disse, sentindo uma confiança que não tinha há cinco minutos. — E acho que o destino acabou de nos enviar um reforço.
— Xutos Cósmicos? — O Bruno sorriu, um sorriso pequeno, tranquilo, de quem sabe exatamente o que tem para oferecer. — Nome massa.
— Temos um jogo importante no sábado — explicou o Viriato, baixando o tom de voz. — Contra uns que se chamam Arrebenta Canelas, e que agora têm um reforço chamado Ricardo Pulmão de Aço. Dizem que ele nunca se cansa.
O Bruno levantou-se, apanhou a bola com a nuca e, num movimento fluido, fê-la descer pelas costas até ao calcanhar, onde a prendeu antes de a lançar para o ar.
— O Pulmão de Aço tem fôlego, mas não tem o segredo — disse o Bruno, piscando o olho.
— Que segredo? — perguntou o Viriato, intrigado.
O Bruno aproximou-se e sussurrou, como se partilhasse um código de espião:
— A bola não é um objeto, Viriato. Ela tem um pulso. Se aprenderes a ouvir o batimento cardíaco da bola, ela nunca te deixa na mão. Ela obedece a quem a trata como uma igual.
O Viriato olhou para a bola, depois para o Bruno. Pela primeira vez, a bola de ouro não lhe pareceu apenas um prémio, mas uma entidade que ele ainda não tinha começado a conhecer.
— Eu apareço no sábado — prometeu o Bruno Cabumba. — E vais ver: o Pulmão de Aço pode correr o quanto quiser, mas não se corre atrás de uma coisa que já sabe para onde vai.
Capítulo 7 - O Xadrez do João
No sábado de manhã, três horas antes do jogo, o treinador João espalhou um tabuleiro de xadrez na mesa do jardim.
Os Xutos Cósmicos olharam para ele. O Bruno Cabumba, que tinha chegado dez minutos antes com os ténis amarelos e uma bola desgastada de tanto amor, observava as peças com uma curiosidade serena, rodando um peão entre os dedos com a mesma destreza com que dominava a bola.
— Xadrez? — disse o Léo, franzindo a testa. — Tio João, vamos jogar futebol ou vamos virar intelectuais? O xadrez é um jogo de velhos, nós precisamos de correr!
O João soltou uma gargalhada e pousou a mão no ombro do Léo.
— Precisam de correr, sim. Mas um jogador que corre sem saber porquê é apenas alguém a gastar energia. O xadrez ensina a ver o campo antes de a bola rolar. Há uma diferença enorme entre o movimento e a estratégia.
O Nuno Barbinhas, com a sobrancelha franzida na sua habitual expressão de desconfiança absoluta, aproximou-se do tabuleiro.
— Explique lá isso então.
O João organizou as peças com cuidado. — Peão, peão, peão — uma linha de peças pequenas na frente.
— No xadrez, os peões parecem as peças menos importantes. São os mais pequenos, os mais fáceis de sacrificar. Toda a gente os trata como se fossem descartáveis. Mas os melhores jogadores sabem que um peão que chega ao outro lado do tabuleiro pode tornar-se rainha. A peça mais poderosa do jogo.
O Bruno Cabumba, que era visivelmente o mais baixo de todos, endireitou-se, o olhar fixo no tabuleiro como se estivesse a visualizar o campo de futebol.
— A nossa tática — continuou o João — é o jogo de peões. O Bruno fica na frente, pequeno e rápido, a aparecer onde eles não esperam. O Viriato joga por detrás, a ditar o ritmo como o rei no xadrez — protegido, mas presente. O Léo, o Zé Caramelo e o Nuno formam a linha do meio — não para atacar, mas para cortar espaço. Como os bispos e as torres: controlam as diagonais, fecham as saídas.
— E o Tobias? — perguntou o Zé Caramelo.
O Tobias do Ui estava a praticar mergulhos imaginários para uma baliza invisível, com um empenho que comovia. Quando ouviu o seu nome, quase tropeçou nos próprios pés.
— O Tobias — disse o João, com a seriedade de um general — é o castelo. Inamovível. O nosso muro de betão armado antes da baliza. E desta vez, Tobias, vais usar a voz.
— Eu? — O Tobias parou, a cara a ficar encarnada. — Vou dizer o quê?
— Sempre que alguém se aproximar da tua área, vais dizer, bem alto, para onde te vais atirar. Não para nós — para eles.
O Tobias hesitou, ensaiando uma voz grave que saiu um pouco estridente.
— "Vais para a esquerda… a bola vai para a direita!" — Ele limpou a garganta, tentando parecer mais confiante. — "Vou defender tudo!"
— Exato — sorriu o João. — Eles vão hesitar. E a hesitação é tudo.
O Léo ficou a pensar nisto, olhando para o tabuleiro.
— Isso não é batota?
— É psicologia, Léo. A diferença está na intenção.
O Léo ia responder, mas foi interrompido. Um assobio agudo e agressivo ecoou na rua, cortando o ar da manhã. Os Arrebenta Canelas tinham chegado. A teoria do xadrez ia ser posta à prova.
Capítulo 8 - O Grande Jogo
O campo estava cheio como nunca tinha estado. Havia miúdos de três ruas diferentes, duas avós com cadeiras de jardim, um homem com um cão que não era o Flocky mas que o Flocky cumprimentou com educação, e o avô do Benedito no seu posto de árbitro.
O avô do Benedito não era um árbitro comum. Ele tratava o apito como se fosse uma batuta de maestro e o campo como se fosse um anfiteatro romano. Tinha o cabelo branco penteado para trás com brilhantina, um relógio de bolso que consultava com a precisão de um cirurgião e, pendurado ao peito, um apito de metal que brilhava sob o sol. Ele não queria apenas apitar faltas; ele queria que aquele jogo fosse lembrado como o "Épico da Rua das Flores".
Os Arrebenta Canelas entraram em campo com uma formação nova. Na frente, ao lado do Araponga, estava o Ricardo Pulmão de Aço. O Ricardo fez um sprint de aquecimento do meio-campo à baliza e voltou sem um único sinal de suor, sem um fio de cabelo fora do lugar. O Léo observou-o com o olhar de quem confirma os seus piores pesadelos: ele não era apenas um jogador, era uma máquina.
— Ele não está a suar — murmurou o Léo, a voz quase inaudível.
— Nós também não — disse o Viriato, tentando manter a calma, embora sentisse o coração a bater contra as costelas como um pássaro engaiolado.
— O jogo ainda não começou — insistiu o Léo, nervoso.
— Exatamente. Por isso é que vamos ganhar.
Os Xutos Cósmicos olharam para o Bruno Cabumba. O novo reforço estava a fazer uns movimentos de aquecimento que pareciam uma mistura de capoeira com dança tribal, os ténis amarelos a desenharem figuras geométricas na terra batida. O Ricardo Pulmão de Aço parou de correr e ficou a olhar, com uma expressão de desdém que escondia uma ponta de insegurança.
O avô do Benedito caminhou até ao centro do campo, o passo pesado e solene. Levantou o braço, pedindo silêncio. O burburinho da assistência morreu instantaneamente. Até o Flocky, que costumava ladrar a tudo o que se mexia, sentou-se e ficou em silêncio, como se compreendesse a importância daquele instante.
— O futebol — começou o avô do Benedito, a voz rouca mas clara — é um jogo de cavalheiros. Aqui não se joga com a força do braço, mas com a destreza do pé e a clareza da mente. Qualquer tentativa de jogo sujo será punida com a exclusão imediata. Estamos entendidos?
O Araponga deu um meio sorriso cínico, mas o Ricardo apenas assentiu com a cabeça, os olhos fixos na bola de ouro que o Viriato segurava. A bola parecia pulsar, o dourado a refletir a luz do sol de forma quase hipnótica.
O árbitro caminhou até à marca de centro. Colocou a bola com uma delicadeza quase religiosa. Depois, recuou três passos, meteu o apito à boca e fez uma pausa dramática. O silêncio era tão denso que se podia ouvir o vento a roçar nas folhas das árvores da rua.
O Viriato olhou para os seus companheiros. Viu o Tobias a tremer ligeiramente, mas com os punhos cerrados. Viu o Léo a respirar fundo. Viu o Bruno Cabumba a sorrir, aquele sorriso tranquilo de quem conhece um segredo que mais ninguém sabe.
O apito soou. Um som agudo, cortante, que deu início ao destino.
A bola rolou. O jogo tinha começado.
Capítulo 9 - Primeiro Tempo: O Pulmão Contra o Cabumba
O jogo começou com uma intensidade que fez o chão da rua tremer. O Ricardo era, de facto, uma máquina: corria, desmarcava-se e voltava a correr, sem nunca perder o fôlego. Os Xutos Cósmicos sentiam o peso da pressão, mas mantinham-se fiéis ao plano.
O Bruno Cabumba, contudo, era o caos organizado. Enquanto o Ricardo era uma linha reta, o Bruno era um círculo. Quando recebia a bola, o tempo parecia abrandar. No décimo minuto, cercado por dois defesas dos Arrebenta Canelas, ele não tentou passar. Parou a bola, olhou para o céu como se consultasse as estrelas, e, num movimento fluido e impossível — uma "lambreta" perfeita — fez a bola saltar por cima das cabeças dos adversários.
O Viriato, que já esperava o momento, recebeu o passe de calcanhar e, sem hesitar, disparou para o fundo da rede.
1-0.
O campo fez aquele som que os campos fazem quando acontece algo que as pessoas vão contar ao jantar. O treinador João não escreveu nada na prancheta. Ficou simplesmente parado com a caneta no ar, a processar o que tinha visto.
— O que foi isso? — perguntou o Léo, ao Bruno.
— Lambreta — disse o Bruno Cabumba, com o sorriso sereno.
— O que é uma lambreta?
— Uma coisa boa.
Mas o Ricardo não era de desistir. Aos vinte minutos, aproveitando um momento de distração na defesa dos Xutos, ele arrancou. Correu como se o ar fosse um combustível infinito. Recebeu um passe longo, dominou com o peito e, perante o Tobias, preparou o remate.
O Tobias, lembrando-se da lição do João, gritou com uma voz que saiu mais fina do que pretendia:
— Chuta para a esquerda!
O Ricardo hesitou por um milésimo de segundo, os olhos a vacilarem. O Tobias atirou-se para a esquerda. A bola, infelizmente, seguiu o destino que o Ricardo queria, e não o que o Tobias tinha anunciado.
1-1.
O intervalo chegou com o marcador empatado, mas o ambiente era elétrico. O Bruno limpou o suor da testa com o pulso, sorrindo para o Viriato.
— Ele corre muito — disse o Bruno, ajustando os ténis amarelos. — Mas o coração dele é previsível. No segundo tempo, vamos mostrar-lhe o que é música.
O Viriato olhou para a bola. O dourado parecia agora mais vivo, quase como se estivesse a ganhar pulso. O jogo estava apenas a começar.
Capítulo 10 - O Intervalo e a Peça que Faltava
O treinador João reuniu a equipa sob a sombra de uma árvore, longe dos ouvidos dos Arrebenta Canelas. O campo parecia mais pequeno, o ar mais pesado. João tinha a expressão de um mestre de xadrez que, ao rever o tabuleiro, descobriu a jogada que o oponente não previu.
— O Ricardo nunca se cansa fisicamente — começou João, desenhando círculos e setas na prancheta. — Mas há algo que cansa qualquer jogador, por mais máquina que seja.
— O quê? — perguntou Viriato, limpando o suor dos olhos.
— A incerteza. — João desenhou mais duas setas. — O Ricardo corre em linha reta porque confia no seu fôlego. Se ele sentir que o caminho está sempre bloqueado antes de chegar, ele começa a duvidar. Bruno, tu não vais ao encontro dele. Tu vais ao espaço onde ele quer chegar. Antecipa o movimento. Fecha a porta antes de ele chegar à maçaneta.
Bruno Cabumba assentiu, um brilho de compreensão nos olhos. Ele percebia aquele jogo; era como antecipar um passo de dança.
— E tu, Léo — João olhou para o rapaz, que já parecia exausto. — Tens a missão mais difícil. Vais marcar o Rui Trovoada como uma sombra. Onde ele for, tu vais. Se ele correr, tu corres. Se ele parar, tu paras. Não o deixes respirar.
— E se ele me fizer uma finta? — Léo engoliu em seco.
— Cais para o lado, levantas-te e continuas. A tua persistência vai ser a nossa muralha.
Viriato olhou para os amigos. O Tobias, ainda a ensaiar frases de efeito em voz baixa, parecia mais focado. O Nuno Barbinhas já não parecia desconfiado, mas determinado, com as sobrancelhas mais perto dos olhos.
— E a bola? — perguntou Viriato, sentindo o peso da bola de ouro nos pés, agora um pouco mais suja de terra, mas ainda a brilhar.
— A bola é vossa — disse João, levantando-se. — Se vocês a tratarem como um segredo que só vocês conhecem, ela vai obedecer. Lembrem-se: não se corre atrás de uma coisa que já sabe para onde vai.
— Mas esse é o segredo do… — ia dizer o Viriato.
— Um engenheiro terapêutico também é um perito em segredos — atalhou o pai.
O apito do avô do Benedito soou, ecoando pelo bairro como um trovão. O intervalo tinha acabado. Os Xutos Cósmicos levantaram-se, não como um grupo de amigos assustados, mas como uma equipa que tinha acabado de decifrar o código do adversário.
Viriato caminhou para o centro, a bola debaixo do braço. O Cabumba, ao passar pelo Ricardo, viu-o a olhar para os seus ténis amarelos. O Pulmão de Aço já não parecia tão inabalável. O jogo de xadrez ia entrar na fase final.
Capítulo 11 - Segundo Tempo: A Reviravolta
A segunda parte correu exatamente como o João tinha previsto — com a exceção das partes que não previu, que eram bastantes, mas que a equipa superou com a coragem de quem já perdeu, já empatou, e já ganhou de formas que desafiam as leis do universo.
O Ricardo, o Pulmão de Aço, já não corria com aquela alegria mecânica; corria com a frustração de quem descobriu que, no futebol, a inteligência vence a força.
O Bruno Cabumba era um fantasma. Ele não corria atrás do Ricardo; ele materializava-se exatamente onde o Ricardo pretendia chegar. Fechava o ângulo, trocava o peso do corpo e, com um sorriso sereno, roubava a bola como quem retira um livro de uma estante. O Ricardo parava, olhava para os ténis amarelos do Bruno e, pela primeira vez, o seu olhar de máquina falhou. Era um problema novo e o Ricardo não tinha o software para o resolver.
Na outra ponta, o Léo vivia o seu próprio épico. Marcou o Rui Trovoada com uma tenacidade de terrier. Caiu? Sim. Duas vezes. Uma, ao tropeçar numa pedra, outra em nada que se visse, que era o dom especial do Léo. Mas levantou-se sempre, com os joelhos sujos e os olhos fixos na bola. O Rui Trovoada, frustrado por não conseguir tocar no couro, começou a perder a paciência, o que era a melhor vitória que os Xutos podiam ter.
O segundo golo surgiu de uma jogada que o João não desenhara na prancheta, mas que tinha o espírito do jogo.
O Nuno Barbinhas recebeu a bola na sua área. Tinha o campo à frente e os Arrebenta Canelas a avançar como uma maré. O Nuno, com a sua sobrancelha franzida numa expressão de dúvida que, curiosamente, se tornara a sua maior arma, decidiu não passar. Avançou.
Passou por dois adversários não porque fosse muito habilidoso, mas porque eles estavam à espera que ele passasse para um colega e ele não passou. Às vezes a melhor finta é não fintar.
Já na linha da área, tocou para o Bruno Cabumba. O Bruno, de costas, sentiu a pressão. Rodou sobre o próprio eixo num movimento que desafiava a gravidade, deixando o defesa a agarrar o nada. Com um toque suave, a bola foi ter com o Viriato.
Viriato não pensou. Não desenhou. Apenas sentiu o pulso da bola. Remeteu de primeira, um chapéu perfeito sobre o guarda-redes.
Um som seco e vitorioso: bola na caminha onde gosta de dormir!
2-1.
A alegria inundou o campo. O avô do Benedito, no centro, deixou escapar um sorriso quase impercetível por baixo do bigode. O treinador João, na linha lateral, escreveu apenas uma palavra na prancheta: Xeque.
O peão, finalmente, tinha chegado ao outro lado.
Capítulo 12 - O Golo que Fechou Tudo e o Tobias Falador
Faltavam cinco minutos. O Araponga, com a cara vermelha de fúria, estava com aquela energia de quem vai buscar a última reserva, os pés enormes a martelar o chão. O Ricardo, o Pulmão de Aço, movia-se como um autómato cujas pilhas estavam a acabar: ainda rápido, mas sem a magia, sem a precisão, sem a alma.
O momento decisivo chegou com um livre direto. A bola estava pousada na marca, a brilhar sob o sol poente. O Araponga preparou-se. O silêncio que se abateu sobre o campo era tão pesado que parecia que o próprio bairro prendia a respiração.
O Tobias do Ui, na baliza, sentiu o coração a bater-lhe nos dentes. Lembrou-se do conselho do treinador: "a hesitação é tudo".
— Vou para a esquerda! — anunciou, em voz alta e firme enquanto apontava o dedo, com uma seriedade de general, para o canto inferior direito.
O Araponga olhou para o guarda-redes. Ele tinha dito que ia para a esquerda. Isso era informação. Há pouco tinha feito o contrário do que tinha dito…. Deveria acreditar? Era mentira? Era uma armadilha dupla? Era só parvoíce?
Rematou para o meio. Porque quando a cabeça não decide, o corpo hesita e vai a direito.
O Tobias do Ui, que tinha dito que ia para a esquerda e foi de facto para a esquerda, não chegou à bola. Mas a bola também não entrou na baliza porque bateu na barra e ressaltou para a frente, direitinha aos pés do Viriato.
Ele não perdeu tempo. Lançou-se num contra-ataque relâmpago. O Bruno Cabumba acompanhou-o como uma sombra, os ténis amarelos a rasgar a terra. O Ricardo, mentalmente exausto, tentou correr, mas os seus pés pareciam presos no pó da frustração.
Viriato passou a bola ao Bruno. O Bruno, sem olhar, devolveu-a com um toque de calcanhar que parecia música. Viriato, sozinho perante a baliza deserta, apenas teve de empurrar a bola para dentro.
3-1
O apito do avô do Benedito soou. Não foi um apito qualquer; foi um som longo, solene, que pôs fim a toda a tensão.
O silêncio do bairro foi substituído por um estrondo de alegria. O Léo correu para o Viriato, depois correram os dois para o Bruno, o Zé Caramelo saltava como um canguru, e o Tobias, o herói improvável, dava cambalhotas com o Flocky. Tentaram até carregar o treinador João em ombros por dois segundos, antes de toda a gente perceber que um adulto é muito pesado.
Capítulo 13 - O Que o Flocky Fez
O Ricardo Pulmão de Aço estava parado no centro do campo, a olhar para o chão. O Bruno Cabumba aproximou-se dele. O Ricardo levantou a cabeça, esperando um insulto, uma provocação.
O Bruno apenas lhe estendeu a mão.
— Tens pulmão, Ricardo. Mas o jogo ganha-se com a cabeça e com o coração.
O Ricardo olhou para a mão do Bruno, depois para a bola do Mundial, e finalmente, com um suspiro, apertou-a.
Naquele momento, o Viriato olhou para a bola, agora suja de terra, e sorriu. O dourado da bola brilhava menos que a cara dos seus amigos.
Foi então que o Flocky fez uma coisa que ninguém estava à espera.
Atravessou o campo.
Foi até onde o Araponga estava sentado, sozinho, com os pés enormes à frente e os olhos no chão. Ele deu um pontapé na terra, mas, ao ver o Flocky, o pé parou a meio do movimento e o ombro relaxou.
O Flocky ficou ao lado dele. Não latiu, não saltou, não fez nada de específico.
Apenas ficou ali.
O Araponga olhou para o cão. O cão olhou para o Araponga.
— O que queres? — disse o Araponga.
O Flocky pousou a cabeça no joelho dele.
O Araponga ficou muito quieto. Olhou para a vitória que ainda estava a ser celebrada do outro lado do campo. Olhou para os seus jogadores: o Ricardo que finalmente parecia cansado, mas de uma coisa que não era física; o Zé Caganita que tinha dado tudo e estava esticado na relva com um sorriso; o Manel Mocho que também tinha dado tudo e estava a dormir na relva, que era diferente mas igualmente honesto.
— Joguei bem — disse o Araponga, para o Flocky. Em voz muito baixa. — Joguei mesmo bem hoje.
O Flocky não disse nada, porque era um cão.
Mas levantou a cabeça e lambeu a mão do Araponga uma vez — o gesto mais simples e mais direto que existe no vocabulário canino.
E o Araponga, que era um bocadinho mau e não era muito esperto, mas era um miúdo igual aos outros, ficou ali sentado com o cão do Viriato ao lado e percebeu — sem conseguir explicar como nem porquê, sem palavras para isso — que tinha jogado com tudo o que tinha, e que isso era uma coisa boa, e que a bola ia ficar com o Viriato, e que estava bem assim.
Não diria isto a ninguém. Mas estava.
Capítulo 14 - Depois da Vitória
Dois minutos depois, o Viriato encontrou-o ali.
Ficou parado a olhar para o rival, o Flocky, e a cena improvável dos dois juntos.
— Flocky — disse o Viriato. — Estás a fazer amigos novos?
O Flocky não respondeu, mas abanou o rabo uma vez.
O Araponga levantou-se. Estava prestes a dizer qualquer coisa do tipo "o teu cão é esquisito" ou "da próxima vez ganho eu", que eram as frases que lhe saíam sempre primeiro.
Mas disse outra coisa.
— Foi um bom jogo.
Viriato estendeu a mão.
O Araponga apertou-a. Firme. Sem hesitar desta vez.
— O Ricardo vai-se embora na segunda — disse o Araponga. — O pulmão de aço volta para casa.
— Boa viagem para ele.
— Ele disse que a tua equipa é a melhor que viu cá na vila.
— Nós também achamos.
O Araponga quase sorriu. O sorriso torto chegou a meio e ficou ali, equilibrado, sem saber bem se avançava ou recuava.
— A bola fica bem contigo — disse ele, finalmente. — Tu tratas dela melhor do que nós.
O Viriato ficou em silêncio, espantado. Nunca tinha ouvido o Araponga dizer nada que não fosse um insulto ou uma ordem. Era como se, de repente, o sol passasse a nascer à noite.
Viriato concordou, com a seriedade que o momento merecia.
O Flocky ficou a ver os dois afastarem-se, um para cada lado, e fez aquele som baixo, satisfeito, de cão que resolveu um problema que os humanos ainda não tinham percebido que era um problema.
Epílogo
Nessa noite, o Viriato estava no quarto com a bola do Campeonato do Mundo pousada na secretária, a brilhar ligeiramente à luz do candeeiro. O modo como ela aparecera, a maneira como a arriscara e o alegria de a manter sua, transformava-a no seu troféu mais valioso.
O Flocky estava aos pés da cama, com o focinho pousado nas patas, a sonhar com o jogo de amanhã — ou talvez com a paz que tinha trazido ao campo.
A luz do corredor desenhou uma silhueta na porta, e o pai João apareceu, com aquele sorriso que guardava para o fim do dia.
— Todos a dormir? — perguntou ele.
— Acho que o Léo ainda está acordado a pensar na aranha que viu na saída do campo.
— Era uma aranha?
— Era uma rolha.
— Ah.
Silêncio confortável.
— Pai — disse o Viriato. — O Bruno Cabumba pode ficar na equipa para sempre?
— Isso é com ele.
— E o Araponga?
O pai João ficou quieto. — O Araponga?
— Às vezes pergunto-me se ele não devia jogar connosco.
O João considerou isto com aquela seriedade que dava às perguntas do filho, sem pressa, como se valessem o tempo todo do mundo.
— Talvez a 4ª Parte responda a isso.
— Há uma 4ª Parte?
— Há sempre um próximo capítulo — disse o João. — E pelo que vi hoje, o bairro ainda tem muitos segredos por contar.
Fechou a porta.
O Flocky suspirou de contentamento.
Na secretária, a "Bola de Ouro" parecia pulsar suavemente, como se também ela estivesse a sonhar com o próximo desafio. E, no silêncio do quarto, Viriato sabia: a aventura nunca terminava; apenas mudava de campo.
FIM