
Em Barranquilha não há sinalização. A estrada estreita, torce, hesita — e abre subitamente numa praia de areia branca que parece guardada para quem sabe procurar.
É aqui que Viriato encontra quatro novos companheiros, um mapa de papel amarelado que apareceu no seu caderno sem explicação, e uma escola abandonada desde 1962 escondida no topo dos barrancos.
Lá dentro, os Arrebimbas — o pior grupo musical de que há memória — descobriram um frasco antigo. A Poção do Silêncio pode eliminar toda a música do mundo para sempre. O raciocínio é simples: se ninguém puder ter música, ninguém precisará de se sentir mal por não ser bom.
Viriato tem uma noite para os impedir. Conta com o pai João e a sua cabeça de engenheiro, com os bolsos inesgotáveis do Nuno, com a coragem barulhenta do Chico, e com a Benilde Rodinhas — uma auto-caravana velha que tem as suas próprias opiniões sobre quando intervir.
No fim, todos terão de perceber uma coisa: o problema dos Arrebimbas não é a música dos outros. É a deles.
Às vezes o plano não é vencer. É fazer as coisas pararem antes de se tornarem piores.
CAPÍTULO 1 — A Benilde Rodinhas
A auto-caravana chamava-se Benilde Rodinhas e tinha a sua própria opinião sobre quase tudo o que envolvesse estradas, combustíveis e o sentido da vida em movimento.
Não era uma viatura nova — longe disso. Tinha sido comprada pelo pai de Viriato há tantos anos que a data exata se tinha perdido entre recibos de oficinas e recordações de verões passados. Tinha percorrido tantas estradas que os números no conta-quilómetros tinham dado a volta completa e começado outra vez do zero, como se a Benilde tivesse decidido que a velhice era apenas uma oportunidade para ser jovem novamente. O pai João dizia que era "um sinal de carácter e não de desgaste", mas a avó de Viriato costumava dizer que era apenas teimosia mecânica.
A sua cor era um amarelo-sujo, daquela tonalidade que já foi vibrante mas que o sol e o salitre das praias tinham transformado numa espécie de camuflagem de aventureiro. Uma risca castanha percorria-lhe a lateral; devia ter sido uma decoração intencional de fábrica, mas agora parecia mais a cicatriz de um encontro demasiado próximo com uma árvore numa estrada estreita. A porta do passageiro só abria por dentro e o tejadilho rangia quando o vento soprava de nordeste, produzindo um som que Viriato jurava ser a Benilde a cantarolar baixinho. O motor, ao arrancar, fazia um som que era qualquer coisa entre um suspiro satisfeito e um aviso.
Mas o mais importante sobre a Benilde Rodinhas não era a sua mecânica caprichosa, era a sua intuição. Sempre que surgia um problema verdadeiro — não os pequenos contratempos, que ela ignorava com o desprezo de uma dama antiga — a auto-caravana encontrava uma forma de ajudar.
Viriato lembrava-se de quando se perderam numa charneca sem fim, envoltos num nevoeiro que parecia algodão molhado. Os faróis da Benilde tinham piscado três vezes para a direita, iluminando por um milésimo de segundo uma placa de madeira carcomida que indicava a saída. Ou daquela vez em que uma tempestade súbita molhou o mapa de papel; o aquecimento da Benilde ligou-se sozinho na potência máxima, soprando ar quente exatamente sobre a folha, secando-a no ponto preciso onde precisavam de ler a próxima curva. O pai João dizia que era coincidência. Viriato achava que a Benilde ouvia tudo e decidia quando intervir.
— Benilde — disse Viriato, instalado no banco de trás, que era também a sua cama e o seu escritório de campanha. — Hoje vamos a uma praia secreta.
O motor fez um som que era claramente de aprovação, uma mistura de suspiro e ronrono.
— Ela está entusiasmada — comentou Viriato, abrindo o seu Passaporte Mágico.
— O carburador está apenas a reagir à mudança de altitude e à densidade do ar — respondeu o pai João, sem desviar os olhos da estrada, mas com aquele meio sorriso que Viriato conhecia bem. O pai adorava dar explicações lógicas para coisas que claramente tinham um toque de magia.
O pai João tinha a cabeça completamente rapada. De manhã, quando o sol batia de lado, ela brilhava com uma intensidade tal que Viriato a usava como espelho de emergência para verificar se não tinha restos de pequeno-almoço na cara. Era um homem alto, de ombros largos e mãos que pareciam ter olhos próprios. Ele era "engenheiro terapêutico", do tipo que desmonta, percebe, remonta e melhora. Coisas e pessoas. Não era do tipo de desistir de resolver problemas só porque as soluções pareciam impossíveis.
— Pai — perguntou Viriato, passando a mão pela capa grossa do seu caderno. — O que é que faz, tecnicamente, uma praia ser secreta?
— É uma questão de perspetiva, Viriato. Uma praia é secreta quando não está nos mapas turísticos, quando a estrada para chegar lá não convida ninguém a passar e quando o silêncio de lá é mais alto do que o som dos carros.
— E nós vamos encontrá-la porque tu és um engenheiro terapêutico?
O pai João riu. Ele usava esse título nos formulários oficiais porque o seu trabalho era, de facto, curar coisas que tinham deixado de funcionar. Máquinas, sistemas complexos e principalmente pessoas que se sentiam "encravadas". Ele não apenas as arranjava: ele percebia a alma da coisa ou do problema.
— Vamos encontrá-la porque temos a Benilde e porque temos o teu Passaporte. E porque, às vezes, é preciso querer encontrar o que ninguém mais procura.
Viriato olhou para o seu Passaporte Mágico. Era um caderno pequeno mas pesado. Tinha um brasão na capa já não se percebia muito bem. Agora, era uma forma esbatida que se moldava à luz: ora o norte fixo de uma bússola, ora o segredo de uma chave, ora a vivacidade de um par de orelhas de cão. Era um símbolo que parecia respirar, sempre à espera da próxima aventura. Acompanhara-o em quase todas. Tinha as bordas gastas e páginas cheias de carimbos, mapas desenhados à mão, colagens várias, bilhetes de avião e descrições de coisas que não deviam ser esquecidas. Era o seu mundo em papel.
O que ele ainda não sabia, enquanto a Benilde Rodinhas curvava em direção ao litoral, era que aquele caderno estava prestes a receber uma página que ele não tinha escrito. E que essa página mudaria tudo.
CAPÍTULO 2 — A Areia Branca de Barranquilha
A estrada para Barranquilha não era uma estrada, era um teste de convicção. Começava como alcatrão normal, depois passava a paralelo irregular, e finalmente transformava-se num trilho de terra batida que serpenteava entre pinheiros mansos e arbustos que cheiravam a rosmaninho. A Benilde gemia nas subidas e soltava pequenos estalidos metálicos nas descidas, como se estivesse a estalar as articulações.
— Tens a certeza, Benilde? — murmurou o pai João, quando o trilho se tornou tão estreito que os ramos dos pinheiros roçavam nas janelas laterais.
A auto-caravana respondeu com um solavanco firme para a frente. E então, após uma curva fechada que parecia não levar a lado nenhum, a floresta abriu-se.
Barranquilha era uma meia-lua de areia tão branca que feria os olhos. Estava protegida por dois barrancos altos, de pedra cor de ferrugem, que pareciam sentinelas gigantes a guardar um tesouro. O mar não era apenas azul, era de uma transparência que permitia ver as rochas no fundo, onde os sargos se escondiam.
Havia uma dúzia de pinheiros tortos na areia, quatro ou cinco famílias espalhadas com guarda-sóis e com a tranquilidade de quem encontrou um sítio bom e não tem intenção de contar a ninguém.
— Chegámos — disse Viriato, maravilhado.
Encontraram a sombra de três pinheiros tortos. A Benilde Rodinhas estacionou com uma satisfação audível. Assim que o motor se calou, o silêncio da praia envolveu-os. Era um silêncio vivo, preenchido pelo som rítmico das ondas e pelo grito ocasional de uma gaivota.
— A Benilde gosta daqui — disse Viriato.
— Tem boa sombra para o motor não aquecer demasiado — disse o pai João.
— Pai.
— Sim?
— Pára de explicar a Benilde com mecânica.
O pai João sorriu com toda a cara, incluindo a cabeça rapada.
Foi no segundo dia que o grupo se formou.
Chico Bombas foi o primeiro a anunciar a sua presença. Viriato estava a desenhar a linha do horizonte quando um vulto redondo e veloz passou por ele como um meteoro de calções de banho.
— BOMBAAAAAA! — gritou o vulto.
O impacto na água foi monumental. Uma coluna de água subiu no ar, caindo pesadamente sobre dois pescadores que estavam a uns bons dez metros de distância. Chico emergiu da espuma com um sorriso de orelha a orelha, sacudindo a cabeça como um cão molhado.
— Oitenta e cinco por cento de eficácia — disse uma voz atrás de Viriato. — A dispersão de água foi boa, mas o ângulo de entrada poderia ter sido mais vertical. Isto é o Chico. Ele faz isto desde as oito da manhã.
Viriato virou-se e viu um rapaz com uns óculos tão grossos que faziam os seus olhos parecerem os de um peixe tropical gigante. Ele segurava um quadrante imaginário. Deu um passo para se apresentar, tropeçou numa raiz de pinheiro que estava perfeitamente visível, inclinou-se para a frente num ângulo de 45 graus, parecendo condenado a uma queda facial épica, mas... não caiu. Ficou ali, suspenso, desafiando a gravidade por três segundos eternos, antes de se endireitar com uma calma absoluta.
— Sou o Zé Camolas — disse ele. — Estive quase a cair, reparaste?
— Reparar? — Viriato estava boquiaberto. — Tu estavas praticamente paralelo ao chão!
— Quase. Mas não toquei com nenhuma parte do corpo na areia que não fossem as solas das sandálias. Logo, tecnicamente, mantive o equilíbrio e não caí.
Antes que Viriato pudesse processar a física impossível do Zé Camolas, uma sombra longa e estreita projetou-se sobre eles. Era o Tsé-Tsé. O nome vinha da sua aparente capacidade de dormir em qualquer situação. Era tão alto que parecia ter sido esticado numa máquina de tortura medieval, e os seus braços e pernas eram como juncos que balançavam ao sabor da brisa.
— Oi — disse o Tsé-Tsé, com os olhos semicerrados. — Há sombra aqui?
— Há — respondeu Viriato.
O Tsé-Tsé encostou-se ao tronco do pinheiro e, num segundo, a sua respiração tornou-se lenta e rítmica. Ele não estava sentado; estava a dormir em pé, como um flamingo muito alto e muito magro.
— Ele está acordado? — perguntou Viriato.
— Está — disse Zé Camolas. — O Tsé-Tsé dorme em pé. Quando está deitado, não consegue. Já tentámos perceber porquê.
— E?
— Não percebemos.
Por fim, apareceu o Nuno Limpa Gavetas. O Nuno não andava; ele deslocava-se com o ruído de uma loja de ferragens em movimento. Os bolsos dos seus calções de carga estavam de tal forma cheios que ele parecia ter ancas quadradas.
Tinha a aparência de quem coleciona coisas sem um critério visível, mas com uma convicção firme de que tudo vai ser útil.
— Precisas de um íman? — perguntou o Nuno, mal se aproximou de Viriato. — Ou de um bocado de giz? Tenho também uma mola de roupa que perdeu a pressão, mas pode servir para fazer uma catapulta pequena.
— Eu sou o Viriato. E... por agora não, obrigado.
— Nuno — apresentou-se, estendendo a mão. Da mão saiu, sem querer, um elástico verde que caiu na areia.
— Nunca digas "não" à utilidade — aconselhou o Nuno, tirando do bolso um carretel de fio de pesca sem fio, olhou para ele com desilusão e guardou-o noutro bolso. — Sou o Nuno. Limpa Gavetas. O meu apelido oficial não é esse, mas o meu pai diz que eu sou o destino final de todos os objetos perdidos lá de casa.
Naquela tarde, enquanto o sol começava a descer, os cinco rapazes sentaram-se na areia. Havia algo de estranho no ar. Viriato sentiu uma vibração familiar na mochila. Era o seu Caderno das Expedições. Mas desta vez não era a Benilde a comunicar; era o próprio caderno que parecia mais pesado, mais quente.
— Estás bem? — perguntou o Zé Camolas, ajustando os óculos.
— O meu caderno... — Viriato tirou-o da mochila.
Ao abrir a capa, um cheiro intenso a papel velho, mofo e maresia antiga desprendeu-se das páginas. Não era o cheiro das suas notas de ontem. Era algo que cheirava a 1960.
Viriato folheou as páginas rapidamente. Parou onde deveria estar a descrição da viagem de vinda. A sua folha, escrita com a sua letra habitual, tinha desaparecido. No seu lugar, colada com uma perfeição mágica à lombada, estava uma folha de pergaminho amarelado, com bordas irregulares e manchas de humidade que formavam o desenho de uma costa.
— O que é isso? — perguntou o Nuno, aproximando-se com curiosidade.
— É um mapa — sussurrou Viriato. — Mas não fui eu que o desenhei.
O mapa mostrava Barranquilha, mas uma Barranquilha diferente. Havia caminhos marcados que agora estavam cobertos por mato, e no topo do barranco norte, um edifício retangular estava desenhado com tinta preta carregada. Por baixo, uma legenda escrita com uma caligrafia elegante e tremida dizia:
"Escola da Barranquilha. Onde o silêncio se guarda para que a harmonia não se perca. 1962."
— 1962? — o Chico Bombas aproximou-se, ainda molhado. — Isso é antes dos meus pais nascerem!
Viriato ficou a olhar para o mapa durante um tempo longo. Depois fechou o caderno. Depois voltou a abri-lo, porque às vezes as coisas desaparecem quando não se olha para elas, mas este mapa não desapareceu — ficou ali, real, amarelado, com o caminho ponteado a apontar para qualquer coisa que existia algures por cima dos barrancos.
— Olhem ali — Viriato apontou para o topo do barranco. — O mapa diz que há uma escola lá em cima. Mas nós só vemos pedras e arbustos.
— Talvez — disse o Tsé-Tsé, abrindo os olhos por um instante — o mapa não esteja a mostrar o que se vê, mas o que lá está escondido.
Viriato sentiu um arrepio na espinha. O Passaporte Mágico nunca se tinha enganado. Se o mapa tinha aparecido, era porque a escola os estava a chamar.

CAPÍTULO 3 — O Segredo na Falésia
Nessa noite, o jantar na Benilde Rodinhas foi silencioso. Viriato mostrou o mapa ao pai João. O engenheiro terapêutico não disse "isso é impossível" ou "alguém te pregou uma partida". Ele pegou numa lupa e estudou a textura do papel sob a luz da lanterna a gás.
— O papel é autêntico, Viriato. É fibra de algodão da década de sessenta. E a tinta é ferro-gálica. — O pai olhou para o filho com seriedade. — Coisas que não pertencem ao presente têm sempre uma razão para aparecerem.
— Vamos investigar? — perguntou Viriato.
— Vamos. Mas amanhã. Barranquilha à noite pode ser traiçoeira. E o que quer que esteja naquela escola, pode não estar abandonado de verdade.
No dia seguinte, o grupo reuniu-se cedo. O caminho indicado pelo mapa começava atrás de uma rocha em forma de barbatana de tubarão. O que parecia ser apenas uma fenda na pedra era, na verdade, o início de uma escadaria esculpida na falésia, agora quase totalmente coberta por arbustos e trepadeiras.
— Eu vou à frente — anunciou o Chico Bombas. — Se houver algum urso, eu salto-lhe em cima.
— Não há ursos em Barranquilha, Chico — disse o Zé Camolas, tropeçando num degrau e ficando horizontal sobre o abismo antes de se endireitar milagrosamente. — No máximo, há coelhos bravos. E os coelhos não gostam de bombas.
Subiram durante vinte minutos. O ar tornava-se mais fresco e o cheiro a pinhal mais intenso. Finalmente, chegaram a uma plataforma plana.
Ali, escondida entre pinheiros gigantescos que tinham crescido de tal forma que as suas copas se entrelaçavam como um telhado vivo, estava a Escola.
Era um edifício de um só piso, com janelas altas e uma porta de carvalho maciço. A tinta branca das paredes estava a descascar, revelando a pedra por baixo. O silêncio ali era diferente do da praia; era um silêncio expectante, como se o edifício estivesse a suster a respiração.
— Ali — sussurrou Viriato, apontando para a porta.
A porta estava entreaberta. E de lá de dentro vinha algo que nenhum deles esperava.
Música.
Mas não era uma música bonita. Era um caos sonoro. Alguém estava a tocar um acordeão com uma força desesperada, mas sem qualquer ritmo. Uma guitarra elétrica — ligada a algum gerador barulhento — soltava guinchos de distorção que pareciam gritos de agonia. E uma voz tentava cantar por cima, mas as notas eram como pregos a riscar um quadro de ardósia.
— Quem é que está a torturar os instrumentos? — perguntou o Nuno, tirando um bocado de algodão de um bolso para tapar os ouvidos.
Aproximaram-se de uma janela lateral. Viriato limpou o pó do vidro com a manga.
Lá dentro, na antiga sala de aula, cinco figuras moviam-se com uma energia frenética.
— Estão a ensaiar — disse o pai João.
— Mal — concluiu o Tsé-Tsé, que raramente dizia alguma coisa mas quando dizia era sempre exato.
Eram adultos, mas do tipo de adultos que não tinham chegado lá de forma completamente convicta. Vestiam de preto com detalhes que tentavam ser dramáticos e ficavam apenas confusos. O acordeonista tinha um cachecol em Agosto. O guitarrista tinha um chapéu que era grande demais. A cantora tinha uma capa que varreria o chão se o chão estivesse mais baixo. O baterista tinha dois pares de baquetas e usava as quatro ao mesmo tempo. O quinto elemento parecia ser o líder, um homem baixo com óculos de sol (apesar de estarem dentro de um edifício escuro) e um casaco de cabedal que rangia a cada movimento. Subitamente, parou de gesticular e gritou:
— PAREM! PAREM ESTA MISÉRIA!
O silêncio que se seguiu foi quase tão doloroso como o barulho.
— Não percebem? — continuou o líder, com uma voz trémula de frustração. — Nós nunca vamos ser bons. As pessoas riram-se de nós em Santiago do Caneco. Atiraram-nos tomates em Aljezus. Até os cães uivam quando o Rogério começa a tocar bateria!
O baterista, que parecia ter quatro braços de tantas baquetas que segurava, baixou a cabeça.
— Mas chefe — disse a cantora — nós amamos a música.
— Amar não chega! — rugiu o líder. — Se nós não podemos ter a beleza da música, então mais ninguém terá. Se o mundo nos ignora, nós vamos calar o mundo!
— São os Arrebimbas — murmurou Zé Camolas.
— Conhece-los? — perguntou Viriato.
— Toda a gente os conhece. Tocam em festas e ninguém gosta. Tentaram fazer um disco e ninguém o quis gravar. Foram a um concurso de música e ficaram em último — e havia um grupo que era só um rapaz com um ferrinho. O chefe é o Quim Bugalhão.
O tal Quim caminhou até ao fundo da sala, onde um armário de ferro estava chumbado à parede. Levantou uma tranca e abriu-o. Dentro, engastado na parede, estava um cofre. Rodou o botão umas quantas vezes e abriu-o. No seu interior, sobre um veludo vermelho gasto, repousava um frasco de cristal. O líquido que continha não tinha cor fixa, era como fumo prateado preso em vidro.
— A Poção do Silêncio — sussurrou o líder, e os seus olhos brilharam de uma forma assustadora.
— O quê é que ela faz mesmo, chefe? — perguntou o acordeonista.
— Já expliquei três vezes.
— Eu sei. Mas o Rogério não estava a ouvir na segunda e eu não estava a ouvir na terceira.
— EU ESTAVA — disse o Rogério, que era claramente o baterista.
— Não estavas. Estavas a fazer aquele barulho com as baquetas.
— ERA UM SOLO.
— NO MEIO DE UMA CONVERSA!
— SILÊNCIO — voltou a gritar o chefe — Volto a explicar: encontrei as notas do antigo mestre desta escola. Ele sabia que o som era uma arma. Esta poção, uma vez aberta no ponto mais alto da falésia, espalhar-se-á pelo ar. E em vinte e quatro horas, a música desaparecerá da memória humana. Não haverá canções de embalar, não haverá hinos, não haverá concertos. Apenas... o silêncio que nós merecemos.
Pausa.
— Se ninguém puder ter música — continuou ele — então nós também não precisamos de nos sentir mal por não sermos bons. Ficamos todos iguais.
Lá fora, Viriato sentiu o Passaporte Mágico queimar-lhe a anca. Ele sabia o que tinha de fazer. O plano começou a formar-se na sua cabeça, peça por peça, como as engrenagens que o pai João costumava montar.
— Pessoal — sussurrou Viriato para os amigos. — Temos de agir. Mas não vamos usar a força. Vamos usar as meninges.
CAPÍTULO 4 — O Conselho dos Pinheiros
Desceram o barranco com a rapidez de quem carrega um segredo pesado demais para ser mantido em silêncio. Quando chegaram à clareira dos pinheiros, junto à Benilde Rodinhas, Viriato espalhou o mapa no capô amarelo da auto-caravana. O metal estava quente do sol, e a Benilde soltou um pequeno suspiro hidráulico, como se estivesse a oferecer-se para servir de mesa de operações.
O pai João aproximou-se. Ele olhou para os rostos sérios dos cinco rapazes e percebeu que a brincadeira tinha acabado e a missão tinha começado.
— Eles têm a Poção do Silêncio — disse Viriato, a voz firme apesar do batimento acelerado do coração. — E o plano deles é apagar a música. Não apenas a deles, mas a de toda a gente.
— Isso é impossível — disse o pai João, cruzando os braços. — Quero dizer, cientificamente...
— Pai — interrompeu Viriato, apontando para o mapa que ainda cheirava a 1962. — Este mapa apareceu sozinho no meu caderno. A escola estava escondida atrás de um monte de pinheiros que não deviam estar lá. Se a poção estiver no frasco, e se o frasco for aberto no miradouro, o vento de Barranquilha vai levá-la para todo o lado. Não podemos arriscar a ciência nisto. Temos de arriscar o plano.
O pai João olhou para o filho. Viu nos olhos de Viriato a mesma determinação técnica que ele próprio sentia quando enfrentava uma coisa ou uma pessoa impossível de reparar. Sorriu e fez um gesto para que Viriato continuasse. O comando era dele.
— Nuno — disse Viriato — o que é que tens exatamente nesses bolsos que possa parecer um frasco de poção?
Nuno Limpa Gavetas começou a descarregar o conteúdo dos bolsos sobre o capô da Benilde. O som era o de um museu de curiosidades a ser despejado: uma mola de relógio, três parafusos de latão, duas lentes esquisitas, um apito de cerâmica sem a ervilha interna e, finalmente, um frasco de perfume antigo, de vidro escuro e lapidado, que ele tinha encontrado numa feira de velharias.
— É quase idêntico ao que o líder dos Arrebimbas tinha — observou o Zé Camolas, ajustando os óculos. — Só falta o líquido prateado.
— Eu trato do líquido — disse Viriato. — Pai, se misturarmos limalha de magnésio com glicerina e um pouco de água do mar, conseguimos aquele efeito de fumo prateado?
Todos olharam para ele, espantados.
— O que é que foi? A minha avó é farmacêutica. Eu aprendo coisas.
O pai João assentiu, impressionado, mas não surpreendido — Sim, cria um fluido não-newtoniano com suspensão metálica. Vai brilhar exatamente como a poção original sob a luz da lua.
— Ótimo. Nuno, o que mais tens aí?
— Tenho dois metros de fio de cobre, um íman potente e... isto — disse o Nuno, retirando um estetoscópio de veterinário do bolso. — Era do meu avô. Serve para auscultar vacas, mas também é perfeito para ouvir o clique das engrenagens de um cofre.
O grupo trocou olhares de espanto.
— O que foi? — defendeu-se o Nuno. — Eu vejo filmes de espionagem. Também sei coisas.
Viriato, sentindo a adrenalina subir, começou a esboçar diagramas rápidos no seu caderno.
— O plano chama-se "Operação Sombra e Som". Enquanto os Arrebimbas ensaiam pela última vez, nós entramos pela janela lateral. Zé, precisamos da tua "técnica".
— Técnica? — perguntou o Zé Camolas, que, por puro hábito, estava a inclinar-se perigosamente sobre o capô da Benilde.
— Exatamente. Precisamos que sejas a nossa âncora. O soalho da escola é um desastre de madeira podre, qualquer passo em falso e o edifício range todo. Tu és o único capaz de identificar as tábuas podres sem tocar no chão, usando o teu equilíbrio, guiando o Nuno. Este, com o estetoscópio, descobre a combinação e tu abres o cofre. Trocamos os frascos e retiramo-nos antes que eles se apercebam.
— E a "Sombra e Som"? — perguntou o Chico Bombas, já a preparar-se para o impacto.
— É a nossa distração — explicou Viriato, com um brilho nos olhos. — Pai, consegues ligar o microfone da avó aos altifalantes da Benilde? Queremos gravar o ensaio deles e devolvê-lo amplificado, com um efeito de eco. Vai parecer que a escola está a ser assombrada por fantasmas musicais.
O pai João sorriu, já a abrir o capô da auto-caravana.
— Posso fazer melhor. Se usarmos as lentes que o Nuno tem no bolso e focarmos os faróis da Benilde contra o barranco, criamos uma projeção de sombras. Com a inclinação certa, a silhueta da Benilde vai parecer um monstro mecânico gigante a subir a falésia. Eles vão estar tão ocupados a fugir do "monstro" que nem vão reparar na troca do frasco.
A Benilde Rodinhas soltou um estalido metálico e um ronronar satisfeito. Parecia que a auto-caravana não só aprovava o plano, como estava pronta para representar o papel principal na peça de teatro mais assustadora da história de Barranquilha.
CAPÍTULO 5 — Infiltração entre Notas Erradas
O pai do Viriato passou a tarde a trabalhar com fios, lentes, microfones e nas entranhas da Benilde. Aparentava aquela concentração silenciosa que era a sua forma de comunicar com as máquinas.
A noite caiu sobre Barranquilha como um manto de veludo negro, salpicado de estrelas que pareciam notas de música suspensas. Lá em cima, a escola estava iluminada por uma luz amarela e doentia que saía pelas janelas. O som dos Arrebimbas era agora mais frenético: o acordeão soltava notas agudas como gritos, e o Quim Bugalhão gritava instruções que ninguém conseguia seguir.
— Agora — sussurrou Viriato.
Os cinco rapazes, seguidos pelo pai João que carregava um kit de ferramentas silencioso, subiram a falésia. O Tsé-Tsé, apesar de parecer meio a dormir, movia-se com uma agilidade de gato, os seus membros longos permitindo-lhe ultrapassar obstáculos sem um som.
Chegaram à janela lateral. O pai João aplicou uma gota de óleo (que trazia num frasquinho "para dobradiças rebeldes") no fecho da janela. A madeira deslizou sem um sussurro.
Entraram no corredor. O cheiro lá dentro era de pó antigo e papel queimado. No final do corredor, a porta da sala de aula estava entreaberta. Podiam ver o líder de costas, a polir o frasco da poção.
— O armário está à esquerda dele — sussurrou Viriato. — Zé, é agora.

O soalho da escola era um campo de minas de madeira decrépita. Qualquer passo em falso e o estalido denunciaria a presença deles. O Zé Camolas avançou. Ele não andou; ele executou uma série de desequilíbrios controlados. Tropeçava para a frente, mas antes de cair, o seu corpo torcia-se, mantendo o centro de gravidade num ponto impossível. O Nuno seguia os seus passos de forma cuidadosa e exata.
Chegados perto do armário, o Zé levantou a tranca silenciosamente. O Nuno estendeu o estetoscópio. Colocou os auriculares e encostou a cápsula à fechadura do cofre. O chefe dos Arrebimbas estava a apenas três metros, discutindo com a cantora sobre qual seria o melhor momento para abrir a poção.
— Oitenta e dois... vinte e sete... — sussurrou o Nuno.
O Zé Camolas inclinou-se sobre o armário num ângulo de sessenta graus. O seu rosto estava a centímetros do metal ferrugento. As suas mãos, no entanto, eram firmes como as de um cirurgião. Click.
O cofre abriu-se. Com uma lentidão desesperante, o Zé trocou o frasco de cristal verdadeiro pelo frasco de perfume cheio de fumaça de magnésio. Fechou o cofre.
Nesse momento, o Chico Bombas, que estava a vigiar a porta, sentiu uma picada no nariz por causa do pó. Aguentou. O rosto ficou vermelho. Os olhos lacrimejaram. Ele colocou o dedo debaixo do nariz com uma força tal que quase o achatou. O espirro foi contido, mas transformou-se num pequeno som sibilante, como um pneu a vazar.
O líder dos Arrebimbas parou.
— Ouviram isto?
O grupo congelou. O Zé Camolas estava a meio de um desequilíbrio, um pé no ar, o corpo inclinado para trás. Ele parecia uma estátua de uma queda iminente.
— Foi o vento nas vigas — disse a cantora, impaciente. — Vamos, chefe. A lua está quase no ponto certo. Se não formos agora, o efeito da Poção do Silêncio será menor.
O Quim Bugalhão bufou, pegou na sua capa, foi ao cofre e retirou o frasco falso. Depois caminhou em direção à porta principal. O Nuno e o Zé encolheram-se nas sombras do corredor enquanto os cinco músicos passavam a centímetros deles, cheirando a suor e a frustração.
— Conseguimos — sussurrou Viriato, já segurando o frasco verdadeiro contra o peito. — Mas agora vem a parte difícil. Temos de garantir que eles nunca mais queiram abrir frasco nenhum.
CAPÍTULO 6 — O Teatro de Sombras da Benilde e o Equilíbrio Cósmico
Enquanto os Arrebimbas subiam em direção ao miradouro norte, a plataforma de rocha que se projetava sobre o abismo, Viriato e o pai correram de volta para a Benilde Rodinhas.
— Pai, liga o sistema! — pediu Viriato.
O pai João saltou para o banco do condutor e acionou uma série de interruptores que ele próprio tinha instalado naquela tarde. O microfone direcional, montado no tejadilho da Benilde, tinha capturado um grande bocado do desastroso ensaio dos Arrebimbas. Através de um processador de efeitos que o pai tinha resgatado de um antigo projeto de rock galáctico, o som foi distorcido e amplificado.
Lá em cima, no miradouro, ouviu-se a voz do Quim Bugalhão enquanto levantava o frasco falso.
— O mundo vai finalmente conhecer o silêncio! — gritou ele para o mar.
Nesse momento, a base do barranco rugiu. Não era um rugido animal, era um rugido musical. A voz da própria cantora, gravada momentos antes, ecoou pelas paredes de pedra da Barranquilha, mas soava como se viesse debaixo da terra, profunda e multiplicada por mil ecos.
"...amar não chega... amar não chega... CALAR O MUNDO..."
— O que é isto? — a cantora recuou, aterrorizada. — É o meu eco? Mas eu não disse nada!
— A escola está a responder! — gritou o baterista, largando as baquetas.
Viriato, cá em baixo, acionou os faróis de longo alcance da Benilde. O Chico e o Tsé-Tsé seguravam as lentes esquisitas e recortes de cartão que o Viriato tinha desenhado. A luz atravessou os recortes e projetou-se na parede curva do barranco.
Graças à distância e ao ângulo, a sombra da auto-caravana transformou-se num monstro colossal, com rodas que pareciam dentes de engrenagem e um tejadilho que se assemelhava a uma mandíbula aberta. A sombra parecia estar a escalar a rocha, aproximando-se do miradouro com uma lentidão inevitável.
— UM GIGANTE DE METAL! — berrou o Chico Bombas, esquecendo-se por um segundo que ele fazia parte do plano. — Quer dizer... OLHEM PARA AQUILO!
Os Arrebimbas entraram em pânico. O líder, a tremer como uma folha, olhou para o frasco na sua mão. A fumaça de magnésio e glicerina brilhou intensamente com o reflexo dos faróis, parecendo que a poção estava prestes a explodir.
— A poção está instável! — gritou o guitarrista. — O silêncio vai engolir-nos a nós primeiro!
— LARGA ISSO! — implorou a cantora.
O Quim Bugalhão não precisou que lhe dissessem duas vezes. Atirou o frasco para longe. O vidro embateu na rocha e partiu-se, libertando uma nuvem de fumo prateado que, em vez de se espalhar pelo mundo, apenas brilhou por um momento e desapareceu na brisa marítima.
Os cinco músicos viraram as costas ao miradouro e desceram o caminho oposto a correr, os seus gritos perdendo-se na noite enquanto fugiam do "monstro" e da "poção instável".
Viriato desligou as luzes da Benilde. O silêncio voltou a Barranquilha, mas desta vez era o silêncio bom. O silêncio da vitória.
— Acabou — disse o Zé Camolas, deixando-se finalmente cair na areia, já que tecnicamente a missão tinha terminado e ele podia dar-se ao luxo de um contacto completo com o solo.
— Não acabou — corrigiu Viriato, olhando para o frasco verdadeiro na sua mão. — Ainda temos de decidir o que fazer com a poção verdadeira. E temos de ensinar aqueles músicos que o problema deles não é a música dos outros. Vamos dormir e amanhã encontraremos maneira de resolver isto.
A Benilde Rodinhas ronronou. O motor estava quente, as luzes ainda fumegavam um pouco, e Viriato tinha a certeza absoluta de que a auto-caravana estava a sorrir.

A manhã seguinte em Barranquilha nasceu com uma neblina leve, que subia do mar e se enrolava nos pinheiros como fios de seda. O grupo reuniu-se cedo, ainda antes do sol ter força suficiente para queimar o nevoeiro. Viriato trazia o frasco de cristal verdadeiro, protegido por camadas de fita-cola e enrolado numa camisola velha.
— O que fazemos com isto? — perguntou Nuno.
— Não o podemos guardar — disse o pai João, que tinha subido atrás deles. — E não o podemos destruir simplesmente.
— Posso bebê-lo? — perguntou o Chico que, sobre a maioria das coisas, perguntava sempre se as podia comer ou beber.
— Não! — disseram todos ao mesmo tempo.
— Era só uma ideia…
Foi o Zé Camolas que disse a coisa certa, com aquela serenidade de quem caiu tantas vezes que aprendeu que a maioria dos problemas tem uma solução inesperada:
— E se o devolvermos ao cofre? Com o código alterado? O armário ficou sessenta anos sem ninguém o abrir. Se o equilíbrio do passado for reposto, o segredo fica seguro. Os segredos devem ser guardados, não destruídos, nem revelados.
Todos olharam para ele, espantados.
— Qu’é que foi!? Li num livro.
— E, tecnicamente — continuou ele — isto não é destruir a poção. É guardá-la. No sítio onde estava. O segredo mantém-se.
— O Zé tem razão. Temos de repor o equilíbrio — disse Viriato. — A poção pertence à escola, mas não pode pertencer a mais ninguém.
Subiram a falésia uma última vez. A escola parecia mais pacífica sob a luz da manhã, as janelas agora vazias das luzes artificiais e dos gritos dos músicos. Entraram pela janela lateral, já experientes no atalho.
No cofre, o pai João usou o estetoscópio de veterinário do Nuno para fazer um reset do mecanismo do cofre.
— Vou colocar um código de cem números — murmurou o pai, os dedos movendo-se com precisão milimétrica. — Uma sequência que envolva algoritmos e a data de nascimento da Benilde. Ninguém o abrirá nos próximos cem anos.
Viriato colocou o frasco lá dentro. O vidro prateado parecia brilhar com uma intensidade própria, como se estivesse satisfeito por voltar ao seu refúgio de veludo. Fecharam a porta pesada do cofre. O Nuno tirou do bolso um cadeado enorme, coberto de uma ferrugem que parecia ter a sua própria história.
— Este cadeado — disse o Nuno, com solenidade — estava na arca do meu avô. Tinha um bilhete que dizia: “Nunca fechar. Impossível de abrir.” Acho que é a altura certa para o testar.
Passaram o cadeado pela tranca do armário. CLACK. O som ecoou pela sala vazia, um som final, definitivo.
Foram até ao miradouro norte. O vento soprava fresco, trazendo o cheiro do sal e da aventura terminada.
— O segredo está guardado — declarou Viriato. — E há uma combinação de 100 números que garante que ele fica assim...
Com um gesto decidido, Viriato atirou uma pedra para o mar. Viram-na a descrever um arco no ar e desaparecer nas águas profundas de Barranquilha. O oceano aceitou o presente com um pequeno chapão, como se confirmasse que guardaria o segredo da escola abandonada sob quilómetros de azul.
CAPÍTULO 7 — A Música que Vem de Dentro
Encontraram os Arrebimbas sentados na areia, perto da orla da água. Estavam numa fila, como aves marinhas derrotadas. O Quim não tinha os óculos escuros; os seus olhos estavam vermelhos e cansados. A cantora tinha a capa de veludo cheia de areia.
Viriato aproximou-se sozinho, deixando os amigos a uns metros de distância. O pai João ficou a observar da sombra da Benilde.
— Eu sei quem vós sois — disse o líder, sem raiva. Parecia apenas cansado. — E acredito que trocaram os frascos. Mas nós vimos o gigante — continuou, sem olhar para Viriato. — E ouvimos as vozes. Barranquilha não nos quer aqui.
— Barranquilha só quer que sejam honestos — respondeu Viriato, sentando-se na areia ao lado deles. — Vocês não queriam o silêncio. Vocês só queriam que alguém vos ouvisse sem se rir.
A cantora soltou um soluço seco.
— É assim tão evidente? Nós só queríamos que as pessoas gostassem — disse ela. — Da nossa música. Não pedíamos que fosse a melhor. Só que gostassem.
— É. A vossa música é má porque vocês têm medo dela. Tocam com tanta força para esconder o que sentem, que acabam por não sentir nada. Estão a lutar contra os instrumentos em vez de dançarem com eles. Por isso, o problema não é a música dos outros — disse Viriato. — É a vossa.
— Obrigadinho — disse o líder, com ironia.
— Não é um insulto. É um problema que tem solução. O que não tem é acabar com a música toda.
Houve um longo silêncio, apenas interrompido pelo som rítmico das ondas. O Chico Bombas aproximou-se e, com a sua falta de tato habitual que por vezes era a maior das sabedorias, disse:
— Eu faço bombas porque adoro o PLÓF. Se eu estivesse preocupado em saber se o PLÓF era afinado ou se o meu corpo era elegante no ar, a bomba saía uma porcaria. Eu só... salto.
— As bombas e a música são coisas diferentes — disse o guitarrista.
— São? — disse Chico. — Eu faço barulho. Vocês fazem barulho. A diferença é só se a pessoa gosta do barulho.
O acordeonista olhou para o seu instrumento, que repousava no colo.
— Talvez... pudéssemos tentar saltar. Uma vez.
— Agora — disse Viriato. — Só para nós. Sem capas, sem óculos escuros, sem planos para dominar o mundo. Apenas música.
Eles olharam uns para os outros. O líder acenou com a cabeça. O guitarrista dedilhou uma nota. Não era um guincho de distorção; era uma nota limpa, um pouco trémula, mas real. O acordeão entrou a seguir, uma melodia simples de três notas que parecia imitar o balanço do mar. A cantora começou a cantar, mas desta vez não tentou chegar às notas impossíveis da ópera; usou a sua voz natural, um pouco rouca, mas cheia de uma tristeza que se transformava em esperança.
Era uma música imperfeita. Houve notas ao lado. O ritmo hesitou. Mas, pela primeira vez, as pessoas na praia pararam para ouvir. Não porque estivessem aterrorizadas, mas porque havia algo de humano naquele som.
Quando terminaram, o Tsé-Tsé, que estava acordado e a ouvir com atenção, bateu palmas lentamente. O Zé Camolas e o Nuno juntaram-se a ele. O Chico Bombas soltou um assobio de aprovação.
— Viram? — disse Viriato. — O mundo não precisa de silêncio. Precisa de música que tenha coração. Mesmo que o coração esteja um pouco desafinado.
O líder dos Arrebimbas sorriu pela primeira vez. Um sorriso cansado, mas genuíno.
— Precisamos de praticar. Muito.
— Conheço alguém que vos pode ajudar com o básico — disse o pai João, aproximando-se. — Um antigo engenheiro de som que agora vive numa aldeia aqui perto. Ele gosta de causas perdidas. E acho que vocês são a causa perdida mais interessante que já encontrámos.
CAPÍTULO 8 — O Regresso do Caderno
Na última manhã, Viriato acordou com os primeiros raios de sol a baterem no tejadilho da Benilde. Sentiu uma leveza estranha. Abriu a mochila e tirou o Passaporte Mágico.
Abriu-o na página do mapa.
A folha de pergaminho amarelado tinha desaparecido.
Viriato pestanejou, esfregou os olhos e olhou outra vez. No lugar do mapa de 1962, estava a sua própria folha original. O desenho que ele tinha feito antes de chegar a Barranquilha, as suas notas sobre a pressão dos pneus da Benilde e o inventário inicial da mochila. Estava tudo lá, com a sua letra, como se nunca tivesse saído.
O mapa antigo tinha voltado para onde quer que as coisas do passado moravam quando não eram necessárias no presente. Mas, ao passar o dedo pela página, Viriato sentiu uma pequena irregularidade. No canto inferior direito, quase invisível, havia uma marca de água minúscula: o desenho de uma pequena auto-caravana amarela e uma nota musical.
— Obrigado, Benilde — sussurrou Viriato.
A auto-caravana estalou o metal, como se estivesse a dizer: "De nada, pequeno explorador."
Viriato foi até à água para se despedir. Os amigos já lá estavam. O Chico fez a maior bomba da história de Barranquilha, uma que molhou inclusive o Tsé-Tsé, que estava a uns bons vinte metros de distância. O Zé Camolas tropeçou num grão de areia e ficou suspenso sobre a espuma do mar antes de se despedir com um aceno. O Nuno deu ao Viriato um pequeno parafuso de cobre.
— Para que serve? — perguntou Viriato.
— Para te lembrares que as peças pequenas são as que mantêm as grandes no lugar — disse o Nuno, com uma sabedoria que não cabia nos seus calções.
O pai João chegou por último, com café numa caneca da Benilde e a serenidade de alguém que dormiu bem e acordou com um problema a menos do que tinha na véspera.
— Pronto para partir?
— Quase — disse Viriato. — Só mais um bocado.
Ficaram na areia os seis, a olhar para o mar da Barranquilha que não estava em nenhum mapa normal, com o sol a subir e a Benilde Rodinhas a fazer sombra atrás deles como um sétimo membro da expedição que não cabia na água mas estava lá na mesma.
Despediram-se com promessas de novos encontros, novos dias de praia e de novas expedições. E todos sabiam que Barranquilha seria sempre especial. Era o lugar onde o silêncio tinha sido vencido pela amizade.
CAPÍTULO 9 — A Estrada que Nunca Acaba
A Benilde Rodinhas arrancou com o seu ronco familiar. A estrada de terra batida começou a desenrolar-se atrás deles, devolvendo-os gradualmente à civilização dos sinais de trânsito e dos horários.
Viriato estava sentado no seu banco, o caderno aberto no colo. Começou a escrever a nova entrada.
"Barranquilha ensinou-me que os mapas nem sempre mostram caminhos. Às vezes mostram segredos que precisam de proteção. E que o pai tem razão: as coisas partem-se por fora, mas curam-se por dentro."
Olhou para o pai João. A cabeça rapada do pai refletia a paisagem que passava, transformando-a num filme de cores em movimento.
— Pai — disse Viriato. — Achas que os Arrebimbas vão mesmo ser bons um dia?
O pai João olhou pelo espelho retrovisor e sorriu.
— Eles já são bons, Viriato. Ser bom não é tocar sem errar. Ser bom é ter a coragem de tocar outra vez depois de toda a gente se ter rido. O resto é apenas técnica.
— E a Benilde? Como é que ela sabia que precisávamos daquelas luzes e daquela projeção?
— Física, Viriato. Ângulos de incidência, refração luminosa e uma bateria muito bem carregada.
— Pai.
— Sim?
— Pára de explicar a Benilde com física.
O motor fez um som que era, sem qualquer dúvida possível, uma gargalhada.
O pai João ficou calado por um momento. Depois:
— Ela ri-se de mim.
— Ri — confirmou Viriato. — Mas com carinho.
Viriato encostou a cabeça na janela. Sentiu o calor do sol e o balanço suave da auto-caravana. Sabia que o pai continuaria a explicar tudo com física, mas ele sabia a verdade. Sabia que a Benilde Rodinhas tinha um coração de ferro e uma alma de estrada. E que o seu Passaporte Mágico ainda tinha muitas páginas para serem preenchidas, algumas delas por mãos que não eram as suas.
No horizonte, Barranquilha desapareceu. Mas, no bolso exterior da mochila de Viriato, por um breve segundo, sentiu-se o cheiro a papel velho e a maresia de 1962.
As aventuras iriam continuar.
FIM
Nota do Autor: Os Arrebimbas nunca se tornaram a banda mais famosa do mundo, mas tornaram-se a banda residente do Centro de Atividades Infantis de Barranquilha, que fica na antiga Escola abandonada. Dizem que a música deles, embora imperfeita, tem o poder de fazer as crianças sorrirem e de abrir corações fechados a cadeado.