Plantel
VIRIATO — O nosso herói. Oito anos e meio, joelhos esfolados de série, agora mais alto e bronzeado depois das férias. Já sabe a tabuada do 9 e fazer contas de dividir. Não tem medo de nada neste mundo, exceto possivelmente o que ainda não viu.
LÉO — Melhor amigo do Viriato. Já não tem medo de aranhas, mas entrou numa nova fase de vida em que as formigas o perturbam profundamente. Também receia colossos, mesmo sem saber ao certo o que são.
TOBIAS DO UI — Guarda-redes dos Xutos Cósmicos. Partiu o braço direito a andar de bicicleta durante as férias e defende agora só com o esquerdo. Ficou mais eficaz. A física não explica isto.
ZÉ CARAMELO — Avançado. Chegou ao novo ano letivo com todos os dentes finalmente no lugar, e está a aproveitar a novidade testando sorrisos diferentes em toda a gente que encontra. Alguns são assustadores.
NUNO BARBINHAS — Médio e teórico da equipa. Passou as férias sem sobrancelhas depois de um incidente que envolveu álcool de farmácia, chouriços a assar e uma quantidade indescritível de parvoíce. As sobrancelhas ainda não voltaram. A parvoíce voltou cedo.
TREINADOR JOÃO — Pai do Viriato. Engenheiro terapêutico. Especializa-se progressivamente em piadas secas que só ele considera engraçadas no momento, mas de que toda a gente ri mais tarde, a sós, na cama, e não admite.
FLOCKY — O cão da família. Já não sai muito. Prefere ficar em casa a ver programas sobre animais na televisão. Tem opiniões fortes sobre documentários de suricatas. Comunica exclusivamente com as orelhas.
RUI TROVOADA — Capitão dos Arrebenta Canelas. Herdou do Araponga os piolhos, o remate violento, e a piada do pato, de que ainda se ri sozinho em momentos aleatórios do dia.
JAIME BARRANBANA — Guarda-redes dos Arrebenta Canelas e nova aquisição da temporada. Cento e cinco quilos. Mais alto do que o Viriato e o Léo juntos com um chapéu. Não defende bolas: ou as arrebenta ou as come. O cérebro, em compensação, é de tamanho mais modesto.
AURELIANO NOITE ESCURA — Reforço dos Xutos Cósmicos. Magro mas enorme. Usa óculos mas vê pessimamente com eles e pior sem eles. Só marca golos com os joelhos. Quando começa a correr de olhos esbugalhados, boca aberta e braços esticados, o efeito é comparável ao de um fenómeno atmosférico.
ZÉ CAGANITA — Miúdo da rua. Joga nos Arrebenta Canelas. Corre à toa, em círculos, até ficar tonto ou entontecer os outros. Encontrou a Taça por acidente e não percebeu bem o que era.
O AVÔ DO BENEDITO — O árbitro. Tem a paciência de quem já viu mil jogos e a visão de quem precisa de óculos novos, mas compensa com um apito que soa a comboio em fúria e uma lógica de jogo muito própria.
🌞 CAPÍTULO 1 - O Regresso
O Verão tinha terminado da maneira que os Verões terminam sempre: de repente, com aquela injustiça específica de um dia que ainda cheira a férias mas já tem cara de escola.
A Benilde Rodinhas — a autocaravana da família, com opinião própria sobre tudo e uma paciência de máquina velha que sabe que vai durar mais do que pensam as pessoas à sua volta — estacionou em frente a casa com o som satisfeito de quem completou mais uma expedição. A pintura amarelada brilhava um pouco mais do que o habitual. Ou talvez parecesse, com o Viriato já com saudades da estrada antes de sequer sair do banco de trás.
Viriato desceu com a mochila às costas e o Passaporte Mágico debaixo do braço. Estava mais alto. Tanto que a mãe o mediu na ombreira da porta e fez aquele som de surpresa que as mães fazem quando os filhos crescem durante as férias como se fosse uma traição pessoal. E estava bronzeado, da cor de quem passou semanas entre barrancos de pedra ferrugenta e areia branca.
— Pareces um explorador de verdade — disse a mãe.
— Sou um explorador de verdade — disse Viriato, com toda a calma de quem resolveu um mistério numa escola abandonada de 1962 e não precisa de acrescentar mais nada.
O pai João passou por eles com caixas de material e o ar sereno de engenheiro terapêutico que já processou a aventura e está a pensar na próxima. A cabeça rapada brilhava com o bronzeado de Agosto de um modo que era simultaneamente impressionante e absurdo.
— A Benilde está bem? — perguntou Viriato, olhando para a autocaravana.
— O carburador agradeceu as estradas de terra macia — disse o pai.
— Pai.
— A Benilde está feliz e o carburador ficou contente, sim.
Flocky apareceu na porta de casa com a expressão de quem foi interrompido a meio de um documentário sobre suricatas. O pelo continuava a ser de cores de que se não conhecia o nome. As orelhas continuavam a funcionar como sistema de comunicação completo e autónomo: cada posição transmitia uma mensagem específica, desde «fico contente que estejas cá», até «isso que estás a fazer é parvo mas não vou comentar». Neste momento, as orelhas diziam claramente «estou aqui, olá, mas não me peças para sair porque vai dar um bom programa a seguir».
— Flocky — disse Viriato. — Tive uma aventura enorme.
As orelhas responderam: «Sim. E os suricatas também. Estão a ter uma temporada difícil.»
Viriato sorriu. Estava em casa.
Mas faltava qualquer coisa. Ou melhor, faltavam vários alguéns. A equipa. Os Xutos Cósmicos: O Léo, o Tobias, o Zé Caramelo, o Nuno Barbinhas. O cheiro a terra revolvida e a bola mal chutada. Os treinos malucos do pai. Os Arrebenta Canelas a precisarem de ser batidos outra vez.
Amanhã começava a escola.
Viriato abriu o Passaporte numa página nova.
Escreveu: Novo ano. Mesma equipa. Novos problemas por resolver.
E fechou o pesado caderno com a satisfação de quem já está com saudades do que ainda não aconteceu.
⚽ CAPÍTULO 2 - Os Xutos Cósmicos, Estado Atual
O primeiro dia de escola revelou o estado da equipa.
O Léo apareceu primeiro, ao portão, a olhar para o chão com uma atenção que não era normal.
— Estás bem? — perguntou Viriato.
— Há uma formiga — disse o Léo, sem tirar os olhos do chão.
— Há muitas formigas. São formigas. Existem em todo o lado.
— Exatamente — disse o Léo, com a voz de quem acabou de identificar o problema central do universo. — Em todo o lado. Podias estar a andar e estava lá uma formiga e nem sabias.
— Ó Léo — interrogou-se Viriato — então mas tu não tinhas medo de aranhas?
— Resolvi o problema das aranhas. Agora tenho o problema das formigas. — Pausa. — A vida é um processo contínuo de novos problemas, Viriato.
Viriato ficou a olhar para ele durante um segundo.
— Viste isso na televisão?
— Vi na caixa dos cereais. Mas concordo na mesma.
O Tobias do Ui chegou a seguir com o braço direito engessado e uma expressão de alguém que está completamente bem com isso. O gesso tinha autógrafos, desenhos e o que parecia ser uma receita de bolo escrita pela avó em letras muito pequenas.
— Tobias — disse Viriato. — O braço. Partiste?
— Caí de bicicleta — disse o Tobias, com a leveza de quem cai de bicicleta com alguma regularidade e já chegou a um acordo com o conceito. — Mas defendo na mesma. Defendo melhor, até. O braço esquerdo estava desaproveitado.
— Isso não faz sentido físico nenhum.
— Fez sentido nos três treinos que fiz. Pedi ao meu pai para chutar e agarrei tudo. — Fez uma pausa de guarda-redes satisfeito. — Tudo.
O Zé Caramelo chegou a seguir, sorriu para toda a gente ao pé do portão, e causou um ligeiro desconforto geral.
O sorriso era novo. Não no sentido do aspeto, mas no sentido literal de dentes. O Zé Caramelo tinha chegado ao Verão com uns quantos buracos estratégicos e voltado com a dentição completa. Agora estava claramente a testar as novas possibilidades. Aquele que mostrava agora, era o número quatro da sua coleção pessoal: dentes todos à mostra, olhos semicerrados, cabeça ligeiramente inclinada.
— Zé — disse Viriato — Estás a fazer uma cara estranha.
— É o sorriso de chegada ao campo — disse o Zé, muito sério. — Tenho também o sorriso de golo, o sorriso de falta não assinalada, e o sorriso de confusão estratégica. Ainda estou a decidir qual usar quando a bola sai pela linha lateral.
— Podes simplesmente sorrir de forma normal.
— Isso era o que eu fazia quando não tinha todos os dentes. Agora tenho recursos.
O Nuno Barbinhas foi o último a chegar. Viriato notou o problema imediatamente mas levou três segundos a perceber o que era. O rosto do Nuno estava diferente, mas de um modo que o cérebro demorava a identificar porque era uma ausência e não uma presença.
— Nuno — disse Viriato. — As tuas sobrancelhas!?
— Já sei — disse o Nuno.
— Onde estão?
— Essa é uma pergunta com uma resposta longa.
— Vou ouvir.
O Nuno respirou fundo com a dignidade de quem já contou a história várias vezes e chegou ao ponto de a aceitar como parte da sua identidade.
— Havia chouriços. Havia álcool de farmácia porque o meu primo disse que acendia melhor do que o normal. Havia eu, que concordei. Isso foi o erro fundamental de toda a situação.
— E as sobrancelhas?
— Estiveram lá até ao momento em que o chouriço decidiu explodir para o lado errado.
Silêncio respeitoso.
— Voltam? — perguntou Léo.
— O médico disse que sim. O meu pai disse que espera que não, para eu aprender a lição.
O Nuno encolheu os ombros.
— Por enquanto estou a aprender a usar expressões faciais sem elas. É mais difícil do que parece. Sem sobrancelhas, a cara fica com menos pontuação.
Viriato olhou para a equipa reunida à sua frente: o Léo preocupado com formigas. O Tobias com um braço partido mas inexplicavelmente confiante. O Zé Caramelo a testar o sorriso número quatro. E o Nuno sem sobrancelhas mas com a mesma expressão de sempre — só que mais difícil de ler.
Os Xutos Cósmicos estavam de volta.
Um bocadinho diferentes. Exatamente os mesmos.
🏆 CAPÍTULO 3 - A Taça (e o Zé Caganita)
A Taça de Abertura da Temporada tinha aparecido de um modo que não constava nos regulamentos de nenhum torneio oficial.
O Zé Caganita era um miúdo da rua que jogava na equipa dos Arrebenta Canelas. Passava os dias a correr à toa, geralmente em círculos, com a energia específica de quem não tem nada planeado. Tropeçara na Taça numa segunda-feira de manhã, enquanto atravessava o parque a correr, a caminho de lado nenhum em particular.
— Tropeçaste em quê? — perguntou alguém que passou e o viu no chão.
— Num tubo — disse o Zé Caganita, a olhar para a coisa que o tinha deitado abaixo.
Era de facto um tubo. De metal. Dourado, ou pelo menos com um revestimento que era dourado o suficiente para parecer importante se não se olhasse muito de perto. Tinha umas letras gravadas na lateral que ninguém conseguia ler porque estavam gastas, e uma forma que lembrava vagamente as taças que aparecem nos programas de desporto.
O Zé Caganita pegou no tubo, olhou para ele de um lado e do outro, e decidiu que devia pertencer a alguém que gostasse de metal dourado. Levou-o para o campo e pousou-o em cima do banco dos suplentes, onde ficou a brilhar com aquela modéstia das coisas que não sabem que são importantes.
O Rui Trovoada, capitão dos Arrebenta Canelas, foi o primeiro a vê-la.
Ficou um tempo a olhar.
Depois foi buscar o resto da equipa.
Depois alguém foi buscar os Xutos Cósmicos.
Depois todos ficaram à volta do tubo dourado, com aquela solenidade que as coisas assumem quando ninguém sabe o que são, mas todos decidem ao mesmo tempo que são importantes.
— É a Taça — disse o Rui Trovoada, finalmente.
— De quê? — perguntou o Zé Caramelo, com o sorriso número dois, que era o de curiosidade moderada.
— Da Abertura da Temporada — disse o Rui, com a convicção de quem está a inventar uma tradição em tempo real e faz isso com muita seriedade — Sempre foi. Só não estávamos a usar porque ninguém a tinha encontrado.
Todos olharam para o Zé Caganita.
— Eu só estava a correr — disse ele.
— A Taça de Abertura — repetiu o Rui Trovoada, em tom de anúncio oficial — pertence à equipa que ganhar o jogo entre os Arrebenta Canelas e os Xutos Cósmicos, a realizar no próximo sábado.
Pausa.
— Ninguém te deu autoridade para isso — disse o Nuno Barbinhas.
— Sou o capitão dos Arrebenta Canelas.
— Isso é autoridade sobre os Arrebenta Canelas. Não sobre taças de metal que apareceram no chão.
O Rui ficou a pensar nisso. Depois:
— Mas é uma boa ideia.
Viriato olhou para a Taça. Olhou para o Rui Trovoada. Olhou para os seus Xutos Cósmicos: Léo, com o olhar no chão à procura de formigas; Tobias, a girar o braço bom em círculos de aquecimento; Zé Caramelo, a testar o sorriso de aceitação de desafios; Nuno, sem sobrancelhas mas com ar de… Bom, não conseguimos perceber.
— Aceitamos — disse Viriato.
😱 CAPÍTULO 4 - O Barranbana
Foi o Léo que trouxe a notícia. Chegou a correr ao encontro do Viriato no recreio, com a expressão de quem descobriu algo grave e ainda não decidiu se conta ou foge para casa.
— A Marta disse que os Arrebenta Canelas têm uma arma secreta — começou o Léo, com voz baixa, como se estivessem a conspirar.
— Que tipo de arma?
— Um guarda-redes novo. Chama-se Jaime Barranbana. — O Léo engoliu em seco. — A Marta disse que é um colosso.
— Ó Léo — disse Viriato — tu sabes o que é um colosso?
— Não exatamente. Mas soa a coisa grande e assustadora. E eu, para além de formigas, também receio coisas grandes e assustadoras mesmo sem saber o que são. É uma posição defensiva geral.
Viriato deu uma palmada no ombro do amigo.
— Não temos de ter medo de nada — disse. — Sabes porquê?
— Porquê?
— Porque eu já sei contar até 230.000. E sei fazer contas de multiplicar. Com esses recursos, não há nada neste mundo que me preocupe.
— Porque eu já sei a tabuada do 9. E sei fazer contas de dividir.
O Léo considerou isto.
— Não sei bem como é que isso ajuda contra um colosso.
— Eu também ainda não sei — admitiu Viriato. — Mas estou confiante.
Confiante até à terça-feira seguinte, quando o Jaime Barranbana entrou na escola.
Entrou pela porta principal. A porta era normal. O Barranbana não. A diferença de escala entre ele e a porta causou um momento de confusão visual, como quando se tenta encaixar um sofá numa casa de banho.
Cento e cinco quilos. Mais alto do que o Viriato e o Léo juntos. O Léo confirmou isto imediatamente, porque ele mediria o que fosse preciso se isso o ajudasse a confirmar o grau de preocupação. O Barranbana tinha braços do tamanho de troncos de pinheiro, pés que faziam barulho no chão e uma cara que não era má, era apenas muito grande, como tudo o resto.
— É um colosso — sussurrou o Léo.
— É grande — disse Viriato, que ainda estava a processar.
— É um colosso. Eu não sabia o que era um colosso mas agora sei. É aquilo.
O Barranbana atravessou o corredor com aquela lentidão das coisas muito grandes que não precisam de ter pressa porque, de qualquer maneira, nada as vai ultrapassar. Quando passou ao lado de Viriato e do Léo, fez sombra. Sombra mesmo, como uma nuvem.
— Bom dia — disse o Barranbana, com uma voz que combinava perfeitamente com o tamanho.
— Bom dia — disse Viriato.
O Léo não disse nada. Estava a olhar para cima com o pescoço dobrado num ângulo que sugeria que ia precisar de fisioterapia.
Nas aulas que se seguiram, Viriato foi ficando mais tranquilo. Não porque o Barranbana tivesse encolhido — não encolheu, fisicamente —, mas porque havia outras dimensões a considerar.
Na aula de matemática, a professora pediu a tabuada do seis.
O Barranbana levantou a mão.
— Seis vezes um são seis — disse, com grande confiança. — Seis vezes dois são… — Parou. — São muitos.
— Quantos? — perguntou a professora.
— Muitos seis — disse o Barranbana.
Na aula de geografia, alguém perguntou onde ficava a França.
— Na América — disse o Barranbana, com a certeza de quem não tem dúvidas.
— Tens a certeza? — perguntou a professora.
— Tenho. O Araponga foi para lá. E o Araponga foi para a América.
— O Araponga foi para França — disse alguém.
— Que fica na América — repetiu o Barranbana.
Silêncio na sala.
— Ele só sabe contar até cento e cinco — murmurou o Léo para Viriato. — Que é o peso dele.
— Já reparei — disse Viriato. — E agora sinto-me melhor.
— Continua a ser um colosso.
— É. Mas um colosso que acha que a França fica na América… — Viriato abriu o Passaporte e começou a escrever. — Isso é útil saber.
🎽 CAPÍTULO 5 - O Reforço
O pai João ouviu o relatório completo enquanto preparava o jantar, com a atenção de alguém que sabe que um problema bem descrito já está meio resolvido.
— Cento e cinco quilos de guarda-redes — disse, a mexer o tacho sem olhar para ele.
— Que arrebenta as bolas — disse Viriato. — Ou as come.
— Come as bolas?
— Aparentemente. Segundo o Léo. Que ouviu da Marta. Que viu num treino dos Arrebenta Canelas.
— Informação em terceira mão — disse o pai. — Mas vamos assumir que é substancialmente verdade.
— E o remate dele? O Rui Trovoada herdou o remate violento do Araponga. Imagina o Barranbana com um remate assim.
— Não imagino, porque prefiro não o fazer — disse o pai. — Mas tenho um plano. Um reforço! — Mexeu mais um bocado o tacho. — Conheço um rapaz. Filho de um amigo. O Aureliano Noite Escura.
Viriato esperou.
— Aureliano Noite Escura — repetiu, porque às vezes os nomes precisam de ser repetidos para se tornarem reais.
— É um nome de família longo. Toda a gente lhe chama Aureliano. Ele não gosta mas aceita. — O pai pousou a colher. — É magro. Mas alto. Muito alto. Usa óculos mas vê pessimamente com eles. Só sabe marcar golos com os joelhos, o que é uma limitação técnica invulgar.
— Isso não parece um reforço. Parece um problema adicional.
— Espera. Ele tira os óculos para jogar, assim como assim não vê grande coisa com eles. E quando começa a correr com os olhos esbugalhados, a boca escancarada e os braços esticados para a frente…
— Sim?
— O Léo disse que parece um broncamontes, seja lá isso o que for.
— O Léo já o conhece?
— Treinou uma vez com ele no ano passado, quando estavas em casa da mãe. Ficou traumatizado. Diz que quando o Aureliano arranca a correr parece uma coisa da natureza a acontecer: não sabes bem o que é mas foges para o lado na mesma.
Viriato ficou em silêncio a processar isto.
— Pai, isso é um reforço ou um problema de saúde pública?
— Depende para que lado ele está a correr — disse o pai, com a serenidade de treinador que já fez os cálculos.
O Aureliano Noite Escura apareceu no treino da quinta-feira. Era exatamente como descrito: magro mas de uma altura que parecia excessiva para a magreza, com uns óculos de armação grossa que deslizavam constantemente pelo nariz. Tinha uma expressão de quem está a tentar focar o mundo e o mundo não está a cooperar.
— Vejo melhor sem os óculos — disse, na apresentação. — Só que sem os óculos não vejo nada. É uma situação complicada.
— Como é que marcas golos? — perguntou o Zé Caramelo, com o sorriso número seis, que era o de pergunta técnica genuína.
— Ouço onde está a bola — disse o Aureliano. — O barulho. E depois corro para lá e bato com o joelho.
— Sempre com o joelho?
— Só o joelho funciona. Com o pé não tenho precisão. Com a cabeça é muito alto. Com o joelho… — acertou no ar com o joelho direito num gesto fluido que ninguém esperava — Resulta.
— Mostra como corres — disse o pai João.
O Aureliano tirou os óculos. Guardou-os no bolso. Endireitou-se.
E começou a correr.
O Léo moveu-se para o lado imediatamente, por instinto, antes sequer de perceber porquê. O Tobias recuou dois passos. O Nuno Barbinhas, que estava na trajetória, fez uma coisa que mais tarde descreveu como «a coisa mais rápida que o meu corpo alguma vez decidiu fazer sem me consultar».
O Aureliano corria com os olhos arregalados, a boca toda aberta e os braços completamente esticados para a frente, como um espantalho em modo de emergência, bufando um som rítmico e perturbante, semelhante a uma chaleira velha a ter um ataque de nervos.
O Treinador João não disse nada. Abriu um caderno de capa preta e começou a rabiscar números e gráficos com uma intensidade que sugeria que estava a calcular a órbita de um planeta e não apenas o treino de um miúdo magro.
— É assustador — disse o Léo, do sítio seguro onde tinha chegado.
— É bom — disse o Treinador, continuando com as anotações.
— São coisas diferentes — disse o Léo.
— Raramente — concluiu o pai João.
🧠 CAPÍTULO 6 - Treinos Assustadores
O Treinador João tinha uma filosofia de treino que era simultaneamente inovadora e suficientemente estranha para que a equipa nunca soubesse se estava num campo de futebol ou num laboratório de psicologia experimental.
— O futebol é 50% técnica e 50% psicologia — disse, reunida a equipa no campo na tarde de sexta-feira. — Como só temos um dia, vamos trabalhar a componente psicológica.
— E a técnica? — perguntou o Nuno.
— A técnica é para quem tem tempo. Nós temos criatividade.
O primeiro exercício chamava-se Futebol de Instinto.
Consistia em jogar com os olhos fechados.
— Fechem os olhos — disse o treinador. — Ouçam a bola. Sintam o campo. Comuniquem sem se verem.
— Como é que comunicamos com os olhos fechados? — perguntou o Zé Caramelo.
— Vozes. Sons. Instinto.
Seguiu-se um bailado de confusão. Curiosamente, o Aureliano parecia mais à vontade: sem ver, o seu sentido de audição aguçava-se e ele conseguia localizar a bola pelo som que fazia ao ressaltar no chão. Marcou um golo de joelho ao Tobias, que, com os olhos fechados, defendia o ar com convicção. O exercício só terminou quando o Léo afirmou ter ouvido uma formiga a marchar junto à linha lateral.
— As formigas não marcham, Léo — disse o pai João, sem tirar os olhos do seu caderno de notas.
— Esta marchava. Tinha ritmo. Era uma formiga com treino militar.
O pai olhou para o Léo durante um segundo e meio com a expressão de engenheiro terapêutico a avaliar um problema específico.
— Léo. Não há formigas. E mesmo que houvesse, as formigas não interferem com futebol.
— Podiam estar na bola.
— A bola é de borracha. As formigas não gostam de borracha.
— Como é que sabe?
— Sou engenheiro. — Pausa seca. — E li isso na caixa dos cereais.
O Léo ficou relativamente convencido.
O segundo exercício era o Remate de Surpresa: cada jogador tinha de rematar sem saber quando o treinador ia atirar a bola. A ideia era desenvolver os reflexos. O resultado foi que o Tobias defendeu tudo com o braço engessado, incluindo um remate forte do Aureliano que fez o gesso ranger de um modo preocupante. O Zé Caramelo marcou um golo involuntário quando a bola lhe bateu nas costas, usando o sorriso número sete (de susto verdadeiro). Descobriu-se também que o Nuno, sem sobrancelhas, confundia os adversários (e os companheiros) dado que a expressão de concentração máxima não se distinguia da expressão de sono profundo.
— Isso é uma vantagem — disse o treinador, a apontar para o Nuno. — Usa isso.
— Uso o quê?
— A cara de sono. Eles não saberão se estás a atacar ou a adormecer. Psicologia pura.
O Nuno considerou isto com a expressão de sono/concentração que agora fazia parte permanente do seu rosto.
— Está bem — disse ele. — Mas eu faço isto sem querer…
— O melhor talento é sempre involuntário — disse o pai, usando o tipo de frase que soava como piada, mas que provavelmente não era.
O terceiro exercício era o mais importante e o mais estranho: Correr com o Aureliano.
Cada jogador tinha de correr trinta segundos ao lado do Aureliano Noite Escura. Mas não era uma corrida normal. O Aureliano corria esgazeado, boca escancarada e braços esticados, com aquele resfolegar rítmico que lembrava uma locomotiva a vapor com pressa de chegar a lado nenhum.
— É para perderem o medo do vosso próprio trunfo — explicou o pai.
— Eu não faço isso — disse o Léo.
— Fazes — disse Viriato.
— Parece um broncamontes. Não corro ao lado de um broncamontes.
— É o Aureliano. Conheces o Aureliano. Sabes que é uma pessoa.
— Sei. Mas quando começa a correr assim deixa de parecer uma pessoa e passa a parecer uma catástrofe.
— Léo.
— Sim?
— Corres ao lado dele ou eu passo a próxima hora a fazer listas de factos horripilantes sobre formigas.
O Léo correu ao lado do Aureliano. Aguentou quinze segundos antes de se desviar por puro instinto de preservação.
— Ele não é uma pessoa quando corre, Viriato — sussurrou o Léo, a recuperar o fôlego. — É um fenómeno meteorológico.
Progresso.
Após o treino, enquanto descansavam, o Aureliano sentou-se na berma do campo a limpar os óculos com a camisola.
— Sabem — disse o Aureliano, com uma voz surpreendentemente calma para quem bufava há dez minutos —, eu gosto de marcar com o joelho porque é a parte mais honesta da perna. O pé tenta enganar a bola. O joelho só a empurra com a força da verdade.
Viriato olhou para o novo amigo. O Aureliano não era apenas um "broncamontes" que corria à toa; tinha uma filosofia de impacto.
No fim do treino, o pai João fechou o seu caderno preto com um estalido satisfeito.
— Amanhã — disse — usamos tudo o que trabalhámos. E usamos a estatística.
— Estatística? — perguntou o Nuno Barbinhas, com a sua expressão de sono profundo que na verdade era interesse máximo.
— Uma surpresa — disse o pai. — Uma surpresa que envolve o hábito dos Arrebenta Canelas de gritarem com o árbitro.
Viriato não perguntou mais. Sabia que, com o pai João, as respostas vinham sempre embrulhadas em golos.
🥊 CAPÍTULO 7 - A Batalha do Campo de Terra
O sábado chegou com aquele sol de Setembro que ainda é de Verão mas já sabe que não. O campo cheirava a erva húmida e a expectativa, que é um cheiro difícil de descrever mas fácil de reconhecer. Ouviam-se o som distante de uma campainha e o estalido metálico da vedação quando os Arrebenta Canelas chegaram.
Entraram com as camisolas azuis e aquela postura de equipa que ganhou os últimos dois jogos durante as férias. O Rui Trovoada vinha à frente, com o Barranbana ao lado, o que criava um efeito visual comparável a chegar a um lugar com um frigorífico industrial pela mão.
— Ó Xutos! — gritou o Rui Trovoada, as botas a fazerem barulho no chão duro. — Estão prontos para perder?
Viriato ajustou a braçadeira de capitão, um elástico azul que já tinha visto melhores dias, e sentiu o calor do sol nas costas. Ele tinha memorizado o esquema tático da equipa, mas, à cautela, desenhara-o na palma da mão esquerda: setas, círculos e uma mancha de tinta que devia ser o Aureliano Noite Escura.
— Estamos prontos para o que der e vier — respondeu Viriato, firme.
— Conhecem o Barranbana? — disse o Rui, com o sorriso de quem mostrou o trunfo antes da hora.
O Barranbana acenou. Com educação, mas fazendo o vento parar quando lhe bateu na mão aberta.
— Conhecemos — disse Viriato.
— Ele arrebenta as bolas — disse o Rui. — Ou come-as. Dependendo do humor.
— Hoje está de bom humor? — perguntou o Tobias, com genuína curiosidade profissional de guarda-redes.
— Médio — disse o Barranbana, honestamente.
O jogo começou e, com ele, o som rítmico das sapatilhas a bater na bola e os gritos entusiasmados. Os primeiros dez minutos foram de reconhecimento mútuo. Viriato corria, sentindo o suor a começar a escorrer. Rapidamente verificou que o esquema tático também já tinha escorrido da mão onde o tinha desenhado.
Os Arrebenta Canelas perceberam o Aureliano no segundo em que ele arrancou a correr pela primeira vez. Houve um recuo coletivo da defesa que não era tático, era puro instinto de sobrevivência. O Rui Trovoada parou mesmo. Ele só via o Aureliano de olhos esbugalhados e boca aberta a bufar na sua direção, e teve um segundo de hesitação que fez com que fosse ultrapassado.
— O que é aquilo? — disse o Rui para o colega ao lado.
— É o Aureliano Noite Escura — disse o colega.
— Isso é um jogador?
— É o que nos disseram.
O Aureliano foi ter com a bola pelo som, correu na direção da baliza dos Arrebenta Canelas, e rematou com o joelho direito com uma precisão que contradiz qualquer explicação razoável de como é possível marcar um golo assim. A bola foi direita ao canto superior esquerdo.
GOLOOO!
1 - 0 para os Xutos Cósmicos!
O Barranbana ficou a olhar para a bola na rede com a expressão de quem não viu bem o que aconteceu, mas sentiu o deslocamento de ar.
— Como é que ele fez isso? — disse ele.
— Com o joelho — disse alguém.
— O joelho?
— O joelho.
O Barranbana ficou a olhar para os próprios joelhos como se os estivesse a considerar pela primeira vez como instrumentos válidos de futebol.
Os Arrebenta Canelas responderam com agressividade. A bola voava de um lado para o outro. O Rui Trovoada tinha herdado o remate do Araponga — não a precisão, mas a violência — e quando chutou, a bola foi a direito mas com uma força que fez o Tobias recuar meio passo antes de a apanhar com o braço bom.
— Ui! — disse o Tobias.
— Estás bem? — perguntou Viriato.
— Completamente — disse o Tobias, com a serenidade de guarda-redes que já apanhou coisas piores. — O braço bom aguenta.
O Nuno Barbinhas jogava com a sua cara de sono, que na verdade era uma máscara de concentração absoluta, deixando os adversários na dúvida se ele ia fazer um passe ou cair para o lado para uma sesta. O Léo, entretanto, fazia ziguezagues estranhos.
— Estás a marcar quem, Léo? — gritou o Viriato.
— Uma formiga-leão! — respondeu o Léo, desviando-se de um rasto invisível. — Ela é territorial, Viriato!
Inexplicavelmente, os desvios do Léo confundiam a defesa adversária, que não conseguia prever o seu próximo movimento.
— Este miúdo é impossível de marcar — disse um dos Arrebenta Canelas. — Vai para um lado, vai para o outro, não há padrão.
— Está a desviar-se de formigas — disse outro.
— De quê?
— Formigas. Ele tem medo de formigas.
— Como é que isso é uma estratégia?
— Não é. Mas resulta na mesma.
O segundo golo dos Xutos veio de uma jogada que o Treinador João tinha descrito na véspera como A Corrida do Aureliano com Apoio do Zé.
O Aureliano arrancou da linha do meio-campo com os olhos assustadores e a boca toda aberta. A defesa dos Arrebenta Canelas abriu-se como se faz quando quando se pressente algo que se aproxima, mas que não se percebe bem o que é. O Zé Caramelo ficou livre do lado esquerdo, recebeu o passe do Aureliano — que ouviu o Zé e passou sem olhar, porque de qualquer forma não via bem — e rematou com o sorriso número oito, que era o de golo garantido.
2 - 0!
Mas os Arrebenta Canelas não desistiram e reduziram para 2 - 1 numa jogada do Rui Trovoada que foi mais força do que técnica. Marcou um golo de raiva, com um remate que chegou ao canto da baliza antes que o Tobias conseguisse dobrar o braço na direção certa.
— Ui — disse o Tobias, do chão.
— Estás bem? — perguntou Viriato.
— Pior ou melhor, dependendo da perspetiva. — O Tobias olhou para o braço engessado. — O gesso amorteceu a queda.
A meio da segunda parte, com o sol a começar a ficar cor de laranja, o Treinador João pediu um desconto de tempo. A equipa reuniu-se, ofegante. O cheiro a suor e esforço era intenso.
O Pai João tirou um dispositivo preto do bolso.
— O contador de frequências — sussurrou o Pai. — Viriato, eles estão a gritar «ó árbitro!» a cada dois minutos. Se ativarmos o plano agora, o Aureliano tem o caminho livre.
Viriato olhou para o campo. Olhou para o Léo, que estava exausto de se desviar de insetos imaginários, e para o Aureliano, que limpava os óculos na camisola. Ele sentiu o peso da braçadeira.
Viriato olhou para o campo. Olhou para o Léo, que estava exausto de se desviar de insetos imaginários, e para o Aureliano, que limpava os óculos na camisola. Ele sentiu o peso da braçadeira.
— O.K., pai — disse Viriato. — Vamos a isso.
— A isso, o quê? — perguntou o Nuno, com a cara de sono/atenção máxima.
O pai João tirou o seu pequeno caderno de capa preta do bolso.
— Uma estatística — disse o pai. — Registei a frequência específica dos Arrebenta Canelas a gritar «ó árbitro!». — Pausa. — Sempre que gritam isso, ficam parados cinco segundos. É um hábito. Documentei isso nos últimos jogos que observei deles. Se ativarmos o plano agora, o Aureliano tem o caminho livre.
Silêncio.
— Cinco segundos — disse Viriato.
— Cinco segundos — confirmou o pai. — Que é tempo suficiente para o Aureliano ganhar distância.
— E como é que provocamos isso?
O pai olhou para ele com a expressão de leitor de pessoas que estava à espera da pergunta.
— O Léo — disse.
Todos olharam para o Léo.
— Eu? — disse o Léo.
— Tu — disse o treinador João. — Tens de cair dentro da área deles. Exageradamente. Como só tu sabes fazer.
— Eu não caio de propósito. Caio porque o universo quer.
— Desta vez o universo precisa de ti. E eu preciso que caias na área deles quando o Aureliano estiver a vinte metros da baliza.
O Léo considerou isto.
— E se eu não cair?
— Pensa numa formiga — disse o pai.
O Léo cumpriu o plano perfeitamente: cinco minutos depois, com o Aureliano a vinte e dois metros da baliza — mais dois do que o planeado, mas dentro da margem — o Léo tropeçou no próprio pé com uma convicção e um drama que foi genuinamente impressionante. Ficou completamente horizontal durante um segundo, os braços abertos, a expressão de quem viu uma formiga. Em seguida espalhou-se no chão, levantando uma nuvem de pó.
— Ó ÁRBITRO! — gritaram os Arrebenta Canelas em uníssono.
Como o Pai João tinha previsto estatisticamente, a equipa vermelha parou durante exatos cinco segundos, à espera da decisão do avô do Benedito.
— Aureliano, agora! Ouve bem a bola! — comandou Viriato.
O Viriato chutou, o Aureliano arrancou, bufando como uma máquina a vapor. Sem a oposição dos defesas paralisados, chegou à área e disparou com o joelho esquerdo. A bola entrou como um foguete.
3 - 1!
Os Xutos Cósmicos estavam a ganhar por dois.
💥 CAPÍTULO 8 - O Barranbana em Ação
Faltavam cinco minutos para acabar o jogo quando o Barranbana decidiu que era altura de ser útil.
Não como guarda-redes: saiu da baliza, o que causou visível confusão na própria equipa, e avançou pelo campo com aquela determinação de coisa pesada que atingiu velocidade de cruzeiro.
— O guarda-redes saiu da baliza — disse o Nuno, com a cara de sono/alarme.
— Eu vejo — disse Viriato.
— O que é que fazemos?
— Afastamo-nos do caminho dele, por princípio.
O Barranbana chegou à bola, que estava perto da linha do meio-campo, e rematou. Com os cento e cinco quilos por trás. Com a força que vinha de comer bem, de crescer muito e de não pensar muito na técnica, mas compensar na massa.
A bola foi um borrão de velocidade, deixando um rasto de ar que ficou diferente por onde ela passou.
O Tobias viu-a chegar.
— Ui — disse o Tobias.
E depois aconteceu a coisa:
A bola chegou à baliza dos Xutos. O Tobias estava na linha da baliza. Estendeu o braço, o do gesso, porque era o que estava na direção certa. Fez contacto.
O som foi como o de uma tábua a partir. O gesso estilhaçou-se, mas a bola parou.
Houve um silêncio absoluto no campo durante alguns segundos.
— Defendeste? — disse Viriato.
— Acho — disse o Tobias, a olhar para o gesso partido. — O gesso não resistiu mas a bola também não entrou.
— O Tobias é absurdo – disse o Léo com admiração genuína
— É o braço esquerdo — disse o Tobias, modestamente.
O Barranbana ficou no meio do campo a olhar para a bola parada.
Ficou a olhar para o Tobias.
Ficou a olhar para o gesso partido.
— Boa defesa — disse, finalmente, com aquela honestidade das pessoas muito grandes que não precisam de fingir.
— Obrigado — disse o Tobias.
Faltava um minuto quando o Rui Trovoada conseguiu um golo dos Arrebenta Canelas — 3-2 — e nos trinta segundos que se seguiram o Barranbana tentou marcar mais um. A bola ia direita à baliza, o Tobias defendeu-a com o braço do gesso partido, ela ressaltou e ficou ali, no ar, a pairar durante meio segundo de suspense.
O Barranbana avançou para a fazer entrar.
E então aconteceu a última coisa.
O Barranbana chegou à bola. Não estava de bom humor, afinal. Estava de humor médio, como tinha dito, e esse médio incluía fome. Olhou para a bola. A bola era redonda e de borracha e estava ali à frente. Avançou com toda a força…
Tropeçou nos atacadores dos ténis e... CATAPUMBA! Esbardalhou-se para cima da bola…
PUM!
A bola rebentou e deixou de ser uma bola e passou a ser uma memória de borracha.
O árbitro — o avô do Benedito — olhou para a ex-bola.
— Não há bola — disse.
— Não há bola — concordou toda a gente.
— Sem bola não há jogo — disse o árbitro, com a lógica de quem não foi à escola de árbitros mas percebe o essencial.
— Está 3-2… — disse desanimado o Rui Trovoada.
— Ganhámos! — disse Viriato.
— Ganhámos — confirmou o pai João, com a calma de um treinador que sabia que a estratégia tinha funcionado, mas que o coração da equipa é que tinha vencido o jogo.
Xutos Cósmicos: 3 - Arrebenta Canelas: 2!
🔍 CAPÍTULO 9 - O Mistério do Banco Vazio
A entrega do prémio foi marcada para imediatamente a seguir ao jogo. O sol de Setembro, agora mais baixo, projetava sombras longas e dramáticas sobre o campo, e o cheiro a terra batida e suor vitorioso pairava no ar. Era o momento da glória. Toda a gente se reuniu à volta do banco dos suplentes, onde a Taça deveria estar a brilhar com a sua modéstia dourada.
Só que o banco estava vazio.
Onde antes repousava o tubo metálico, restava apenas uma mancha de humidade e uma carapaça de escaravelho abandonada.
Houve um silêncio de cemitério. O Rui Trovoada foi o primeiro a reagir, cruzando os braços e lançando um olhar de detetive de filme de ação para o Viriato.
— Ó Xutos! — rosnou o Rui. — Onde é que esconderam a nossa Taça?
— Nossa? — saltou o Léo, recuando um passo por precaução. — Nós ganhámos o jogo! Se alguém a escondeu para não a entregar, foram vocês!
— Nós não escondemos nada! — gritou o Zé Caganita, que continuava a correr em pequenos círculos, desta vez de ansiedade. — Eu vi-a ali! Ela tinha reflexos! Agora só lá está um banco!
Viriato deu um passo em frente, assumindo o comando. O seu Passaporte Mágico já estava na mão, aberto numa página em branco.
— Ninguém acusa ninguém sem provas — declarou Viriato, com a autoridade de quem sabe dividir por dois algarismos. — Nuno, análise de campo.
O Nuno Barbinhas aproximou-se do banco com a sua cara de concentração máxima, que era igual a outra cara qualquer. Sem sobrancelhas, a sua expressão era de uma neutralidade aterradora. Ele inclinou-se sobre a madeira, cheirou o ar e ajustou uns óculos imaginários.
— Teoricamente — começou o Nuno — há três hipóteses. Primeira: a Taça ganhou pernas e emigrou para a França, que o Barranbana diz ser na América. Segunda: houve um fenómeno de sublimação metálica devido ao calor do jogo. Terceira: alguém a levou enquanto estávamos todos a olhar para o gesso partido do Tobias.
— Três hipóteses, Nuno? — Viriato coçou o queixo, pensativo. — A da sublimação parece-me pouco provável, a menos que a Taça fosse feita de gelo seco.
— Eu não a levei! — disse o Tobias, levantando o braço saudável. — Eu estava ocupado a ser um herói médico!
— E o Barranbana? — perguntou o Léo, apontando para o colosso. — Ele é grande. Pode ter escondido a Taça num bolso. Ou tê-la comido.
O Barranbana olhou para as próprias mãos, enormes e vazias.
— Eu não como metal — disse, com uma mágoa profunda na voz. — Só borracha. E foi sem querer.
Foi então que um som rítmico de sapatilhas a bater na terra seca interrompeu a discussão. O Zé Caganita estava a correr em círculos tão apertados à volta do banco que já estava a criar um pequeno redemoinho de pó.
— Zé! — gritou o Rui Trovoada. — Queres parar? Já estamos todos tontos só de te ver!
O Zé Caganita travou a fundo, derrapando dois metros até parar exatamente à frente do Viriato. Estava ofegante, mas os seus olhos brilhavam com uma intensidade de quem tinha visto o futuro, ou pelo menos um passado muito recente.
— Eu vi — disse o Zé, entre golfadas de ar. — Quando eu corro... o mundo fica diferente.
— Fica mais desfocado? — sugeriu o Léo, que sabia muito sobre distorções visuais provocadas por medo de insetos.
— Não — explicou o Zé Caganita, gesticulando com as mãos como se estivesse a desenhar o ar. — Quando eu corro em círculos, o meu cérebro fica tonto e eu vejo as coisas ao contrário. Mas foi numa dessas voltas, a olhar para o chão a tentar não vomitar, que me pareceu ver uma coisa.
Viriato inclinou-se para a frente, interessado.
— E o que é que esse "Modo Radar" detetou, Zé?
— Eu estava a dar a minha volta número quarenta e dois — continuou o Zé Caganita, agora mais calmo. — E no momento em que passei pelo ângulo da baliza norte, vi uma coisa. Não era uma pessoa. As pessoas são altas e fazem barulho de sapatos. Isto era baixo. Muito baixo. E fazia um som tipo... fuf-fuf-fuf.
— Fuf-fuf-fuf? — repetiu o Tobias. — Isso é um código?
— Eram orelhas! — exclamou o Zé Caganita, os olhos arregalados. — Vi duas coisas que pareciam antenas de rádio, mas peludas. Uma estava para cima, a outra estava para o lado. Moviam-se assim, tipo periscópios de submarino. A coisa aproximou-se do banco, abocanhou o "tubo" e desapareceu para o meio dos arbustos com a velocidade de um rabo a abanar.
Viriato trocou um olhar cúmplice com o Pai João. O Pai João sorriu e acenou ligeiramente com a cabeça.
— Orelhas de periscópio? — disse o Léo, a voz a subir de tom. — Isso soa a monstro das sombras! Ou a uma formiga gigante com mutações genéticas!
— Não era um monstro, Léo — disse Viriato, com um brilho de compreensão nos olhos. — Era um Sistema de Arquivo Independente.
Zé Caganita endireitou as costas, sentindo pela primeira vez que a sua mania de correr em círculos não era apenas uma forma de gastar energia, mas uma ferramenta de investigação de alta precisão.
— Se não fosse o meu "Modo Radar", nunca tínhamos visto as orelhas — disse ele, com um orgulho legítimo. — Elas passaram por baixo do nível do vosso olhar de gente grande.
— Bem observado, Zé — disse o Viriato, batendo-lhe no ombro. — Agora, Léo, já sabes para onde olhar. Segue o rasto que o Radar indicou!
E foi assim que a equipa, guiada pela observação periférica do miúdo que corria em círculos, se aproximou da verdade enterrada.
— O Flocky — disse o Léo — Onde está o Flocky?
⛏️ CAPÍTULO 10 - O Sistema de Arquivo do Flocky
Um movimento súbito entre os arbustos denunciou o culpado. O Flocky emergiu com as orelhas numa posição que era um tratado de psicologia canina: a orelha esquerda estava dobrada num ângulo que parecia dizer «eu sei o que fiz», enquanto a direita apontava para o céu como se dissesse «mas as minhas intenções eram nobres».
Viriato ajoelhou-se à frente dele, ao nível dos olhos castanhos e sábios do cão.
— Flocky. A Taça. Escondeste a Taça?
As orelhas moveram-se. Primeiro para a frente — surpresa. Depois para trás — hesitação. Depois uma orelha subiu e outra desceu, o que na linguagem do Flocky significava «sim, mas deixa-me explicar».
— Enterraste a Taça? — voltou Viriato a perguntar.
Uma orelha. Depois a outra. Depois as duas em posição intermédia: confirmação com reservas.
— Onde?
O Flocky olhou para o campo. Depois para os arbustos. Depois para o campo outra vez.
As orelhas dele começaram a vibrar. Deu meia volta e começou a caminhar com a dignidade de um bibliotecário que guia um utilizador até à secção de livros raros. Toda a gente o seguiu — uma procissão de miúdos vermelhos e azuis, um treinador engenheiro e um árbitro que já só queria ir lanchar.
O Flocky parou junto à baliza norte. Começou a escavar com uma eficiência frenética, atirando terra para trás.
— Vai aparecer a Taça! — exclamou o Zé Caramelo, testando o sorriso número nove (esperança cautelosa).
O Flocky parou e puxou algo com os dentes. Não era a Taça. Eram duas meias — uma azul, uma verde, de pares diferentes, como se o universo tivesse decidido enviar só metades.
— São minhas — disse o Tobias, a olhar para as meias com reconhecimento. — Desapareceram em Março.
— O Flocky não rouba — explicou o pai João, enquanto o cão se dirigia para o local seguinte. — Ele coleciona. Acha que, se algo é importante e está abandonado, deve ser preservado debaixo de trinta centímetros de terra. É o seu sistema de arquivo.
O segundo buraco revelou três rãs. As rãs saíram a pular com a pressa de quem foi interrompido no meio de alguma coisa e não está satisfeito com isso.
— Ele enterrou rãs vivas? — surpreendeu-se o Barranbana.
— As rãs estão bem — disse o pai João, a observar o estado geral das rãs. — É uma forma de as guardar. O Flocky tem uma lógica.
O terceiro buraco foi o mais estranho: continha uma sanduíche de fiambre perfeitamente embrulhada em papel de alumínio e formigas, que já estava enterrada há tempo suficiente para ser um achado arqueológico.
— Formigas, rãs... este campo é um jardim zoológico de horrores! — protestou o Léo, enquanto se afastava das ameaças.
Quarto buraco: mais meias (três, desta vez, todas do pé esquerdo, o que levantava questões que ninguém quis fazer), um botão de casaco, e uma peça de Lego vermelha.
— A peça do Lego — disse o Nuno. — Andei à procura dela.
— Há quanto tempo? — perguntou Viriato.
— Desde que tinha cinco anos.
O quinto buraco: absolutamente vazio. O Flocky olhou para o buraco com as orelhas levantadas — confusão genuína. Às vezes esquecia o que tinha enterrado.
— Foco, equipa! — ordenou Viriato. — Flocky, a Taça! O objeto dourado! O tubo de metal!
O Flocky parou. Olhou para o Viriato com um ar de «ah, esse arquivo!». Caminhou dez passos na direção da vedação, onde a sombra das árvores tornava a terra mais fresca e húmida. Parou, olhou para o Viriato e deu uma única patada no chão.
Viriato e o Rui Trovoada ajoelharam-se juntos. Começaram a escavar com as mãos, sentindo a terra fria debaixo das unhas. A meio caminho, os dedos de Viriato tocaram em algo duro e frio.
— Tenho-a! — gritou.
Puxou com força. A Taça emergiu da terra, mas não vinha sozinha. O Flocky, num gesto de proteção extra, tinha-a enrolado cuidadosamente numa meia azul de lã grossa que o Léo identificou imediatamente.
— A minha meia da sorte! — disse o Léo. — O Flocky usou-a como estojo!
A Taça estava ali. Suja de terra, mas intacta. O metal dourado brilhava sob o último raio de sol da tarde, parecendo mais importante do que qualquer troféu de campeão do mundo.
— Recuperada — anunciou Viriato, limpando o tubo à camisola.
O Flocky abanou o rabo. As orelhas foram para a posição de «estava em boas mãos, tecnicamente», que era a mais otimista do seu repertório.
— E agora? — perguntou o Nuno Barbinhas — O que é que se faz a uma Taça que já foi enterrada duas vezes e usada como estojo de meia?
Viriato olhou para o troféu e depois para o Barranbana, que observava tudo com uma curiosidade mansa.
— Agora — disse Viriato — vamos tomar a decisão certa.
🤝 CAPÍTULO 11 - A Decisão
Toda a gente ficou à volta da Taça recuperada, que estava agora em cima do banco dos suplentes onde devia ter estado sempre, com a meia azul do Tobias ao lado porque ninguém sabia bem o que fazer com ela.
— A Taça é nossa — disse Viriato. — Ganhámos o jogo.
— É vossa — concordou o Rui Trovoada, que, naquele momento, parecia menos Trovoada e mais apenas Rui.
Viriato olhou para a Taça. Olhou para o Rui. Olhou para os Arrebenta Canelas, que tinham jogado bem para perder apenas por um, e que tinham um guarda-redes que rebentava bolas, mas fazia isso com uma honestidade própria.
Depois olhou para o Barranbana.
Ele estava sentado no banco, ao lado da Taça, a olhar para ela com a expressão de quem não ganhou mas também não perdeu por completo, porque rebentou a bola e isso era uma forma de contribuição. Não havia malícia nisso. Apenas um miúdo gigante que não sabia onde ficava a França, mas que sabia a diferença entre um acidente e uma maldade.
— Barranbana — disse Viriato.
— Sim?
— A França não fica na América.
O Barranbana pensou nisto.
— Onde fica?
— Na Europa. Do outro lado dos Pirenéus.
— O que são Pirenéus?
— Montanhas. — Viriato fez uma pausa. — Se quiseres, explico na escola. Sou bom a explicar coisas.
O Barranbana ficou a olhar para ele com uma expressão que era de avaliação sincera.
— Porquê? — disse. — Somos de equipas diferentes.
— Somos de equipas diferentes no campo — disse Viriato. — Fora do campo somos só miúdos. — Olhou para o Rui Trovoada. — E sobre a Taça.
— O quê? — disse o Rui.
— Foi o Zé Caganita que a encontrou — disse Viriato. — E foi o Barranbana que acabou o jogo.
— E? — disse o Rui.
— E um tubo de metal dourado que apareça no chão não é propriamente de ninguém. — Viriato olhou para o tubo. Depois para o Barranbana. — Mas pode ser útil. Como barra de ginástica. Para treinar. Para ficar mais ágil.
Pausa longa.
O Léo entendeu imediatamente.
— Estás a dar a Taça ao Barranbana para fazer ginástica e perder peso para ser melhor guarda-redes.
— Estou a sugerir — disse Viriato.
— Mas ganhámos.
— Ganhámos o jogo. Não precisamos de uma taça para saber isso.
O Léo ficou a pensar nisto. Depois olhou para o chão, à procura de formigas, que era o que fazia quando estava a processar algo importante. Depois levantou os olhos.
— Tens razão — disse. — E além disso, se o Barranbana treinar e ficar mais ágil, o próximo jogo é mais difícil e por isso mais interessante.
— Isso também — disse Viriato.
O Barranbana olhou para a Taça. Olhou para as próprias mãos. Depois para o tubo outra vez.
— Posso mesmo fazer ginástica com isto?
— Podes — disse o pai João. — E se precisares de ajuda com um programa de treino, sou atleta amador. E engenheiro terapêutico. Faço planos.
O Barranbana ficou em silêncio durante um tempo que correspondia aproximadamente a cento e cinco quilos a processarem uma decisão.
— Obrigado — disse, finalmente.
— De nada — disse Viriato.
O Rui Trovoada ficou a olhar para esta cena com aquela expressão de quem ganhou alguma coisa mas não tem bem a certeza do quê.
— A piada do pato — disse ele, de repente.
— O quê? — disse Viriato.
— Descobri uma! Porque é que o pato atravessou a estrada?
— Não sei.
— Para chegar ao outro lado. — O Rui riu-se sozinho. — Heheh! Hahahaha!
Houve um silêncio.
— Mas é a piada mais simples que existe — disse o Léo.
— Eu sei — disse o Rui. — Mas assim já não preciso de andar sempre a pensar na piada do Zé Caramelo.
E riu de novo. E desta vez toda a gente riu um bocadinho também, não pela piada mas pelo Rui a rir da piada, que era genuinamente mais engraçado do que a piada.
🌅 EPÍLOGO - Os Xutos Cósmicos, Atualização Final
Nessa tarde, Viriato abriu o Passaporte Mágico.
Estava sentado na varanda de casa, com o sol de Setembro a ficar cor de laranja e a Benilde Rodinhas estacionada em baixo a fazer aquele som suave de metal que tanto podia ser de arrefecimento como de satisfação.
O Flocky estava ao lado dele, a espreitar pela janela a televisão da sala onde passava um documentário sobre pinguins. As orelhas estavam em posição de interesse moderado, que era a posição que usava para documentários de aves.
Viriato escreveu:
Os Xutos Cósmicos ganharam a Taça de Abertura da Temporada, que foi descoberta por acidente, enterrada por um cão, e devolvida à equipa errada porque era a decisão certa.
O Tobias defende com um braço e um bocado de gesso. O Léo tem medo de formigas mas jogou bem. O Nuno não tem sobrancelhas mas tem cara de jogador. O Zé Caramelo tem todos os dentes e vai precisar de escolher um sorriso definitivo em breve. O Aureliano Noite Escura marca golos com o joelho de olhos fechados, o que a ciência não explica.
O Barranbana acha que a França fica na América. Mas disse obrigado.
Ficou a olhar para o que escreveu. Depois acrescentou:
A amizade é como um campo de futebol: não é preciso que todos corram para o mesmo lado, desde que todos queiram estar no mesmo jogo.
Fechou o caderno.
Flocky rodou as orelhas na posição de «bem escrito».
— Obrigado — disse Viriato.
A Benilde Rodinhas fez o som de motor satisfeito.
O pai João apareceu na porta da varanda com uma chávena de chá e aquela serenidade de pessoa boa que resolveu o problema do dia e já está a pensar no próximo.
— Bem jogado — disse.
— A tua surpresa resultou — disse Viriato. — A estatística.
— A engenharia é prática — disse o pai. — E os cinco segundos do «ó árbitro» eram estatisticamente fiáveis.
— Pai.
— Sim.
— Obrigado por seres o treinador.
O pai ficou quieto durante um momento — o tipo de momento em que os pais ficam quietos porque o que há para dizer é grande demais para caber numa frase rápida.
— É o melhor cargo que tenho — disse, por fim.
Ficaram os dois na varanda a ver o sol desaparecer atrás dos telhados, enquanto o Flocky escolhia entre o documentário dos pinguins e estar do lado de fora com a família, e decidia que eram as duas coisas ao mesmo tempo se inclinasse a cabeça no ângulo certo.
Os Xutos Cósmicos tinham ganho.
A Taça estava nas mãos certas.
E algures na cidade, o Barranbana estava a descobrir que um tubo de metal dourado, com o ângulo certo e determinação suficiente, pode ser uma ferramenta de transformação.
A temporada tinha começado.
Fim
(Mas não mesmo fim. O próximo jogo ainda não foi marcado. As sobrancelhas do Nuno também ainda não voltaram.)
