Jardim do Mar
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Uma história de meias, buracos negros domésticos, objetos ressentidos e diplomacia têxtil.

Nota Importante ao Leitor

Este livro contém cenas de emoção intensa envolvendo meias de desporto. Se és particularmente sensível ao tema da roupa perdida, recomenda-se a leitura acompanhada de um adulto que já perdeu, pelo menos, três pares de meias na máquina. Ou seja: qualquer adulto.

O autor não se responsabiliza por leitores que, após terminarem este livro, comecem a pedir desculpa às suas meias antes de as meter no cesto da roupa suja.

O Flocky, o cão do Viriato, foi consultado durante a escrita desta história. Mostrou pouco interesse no argumento, mas aprovou o cheiro do papel.


Capítulo 1 - A Tragédia do Par Ímpar

Havia uma coisa que Viriato sabia com toda a certeza do mundo: o Universo era injusto. Não o Universo inteiro, claro. Havia planetas, galáxias e buracos negros que provavelmente estavam a funcionar como deviam. O Universo injusto em questão media precisamente seis metros quadrados e chamava-se O Quarto do Viriato.

Era sábado de manhã. Um sábado especial, na verdade. Um sábado que ficaria para a história da família Maia da Graça, se é que a família alguma vez viesse a ter um historiador oficial. O que era improvável, já que a única pessoa da família com sentido de organização era a Avó Margarida, e ela estava ocupada a procurar as chaves do carro que tinham desaparecido no dia anterior (spoiler: estavam dentro do frigorífico, por baixo dos legumes).

Hoje era dia de jogo. Não um jogo qualquer. Era o jogo decisivo da liga regional dos Bairros Lusos. Os Xutos Cósmicos iam jogar.

Os Xutos eram o clube de futebol de bairro onde o Viriato jogava na posição de avançado-centro, cargo que ele próprio descrevia como "artista criativo da bola". O pai João, treinador com menos poesia, descrevia-o como "um miúdo que corre muito mas que às vezes se esquece onde está a baliza".

— FLOCKY! — gritou o Viriato, ajoelhado no meio de uma avalanche de camisolas, cadernos, peças de Lego (que o pai insistia em pisar às três da manhã), um capacete de ciclismo que raramente tinha sido usado, e aquele puzzle de 500 peças que ficou com 499 depois do desaparecimento misterioso da peça central do bico do pinguim. Flocky era o principal suspeito do crime.

O Flocky — rafeiro cor de sem cor, com a inteligência de um filósofo e a concentração de uma mosca — levantou a cabeça de cima da sua almofada favorita (que tinha usurpado ao Viriato dois anos antes e que ninguém tinha coragem de recuperar). Piscou os olhos com a expressão de quem não tem qualquer intenção de ajudar, mas aprecia a conversa.

— Comeste a minha meia! — acusou Viriato, apontando-lhe o dedo com a solenidade de um juiz.

O Flocky bocejou. Era um bocejo de profunda inocência.

A verdade é que o Flocky nunca comia meias. Era um cão com princípios. Já tinha comido um chinelo (às 8 semanas, crime prescrito), meia dúzia de berlindes, um trabalho escolar sobre plantas (o que obrigou o Viriato a dizer à professora que era vegetariano), e uma vez, em circunstâncias que nunca foram totalmente esclarecidas, metade de um comando de televisão. Mas meias? Nunca. Apenas as lambia, roía e escondia.

A meia em questão era Lendária. Assim, com L maiúsculo, como toda a gente na família já sabia que devia escrever quando se referia a ela. Era uma meia azul, ou já tinha sido azul numa vida anterior, com listas vermelhas que agora pareciam mais cor de barro antigo do que vermelho vivo. O elástico estava cansado, não cansado como uma pessoa que dormiu pouco, mas cansado como alguém que já deu demasiadas voltas ao mundo e decidiu reformar-se. A meia dobrava ligeiramente para o lado esquerdo quando estava no pé, como um velho sábio que inclina a cabeça quando está a pensar.

Era a Meia da Sorte. E o Viriato não conseguia encontrá-la.

A história da Meia da Sorte era simples: no jogo em que o Viriato a tinha calçado pela primeira vez (por engano, porque a outra estava molhada), tinha marcado dois golos. Um deles foi com o pé esquerdo, o que era quase um milagre dado que o pé esquerdo do Viriato normalmente servia apenas para andar e não cair. Desde esse dia, a meia tinha estatuto de relíquia desportiva.

— Pai! — berrou o Viriato em direção ao corredor.

— O que foi?! — respondeu a voz do pai, vinda algures da direção da casa de banho.

— Não encontro a minha meia da sorte!

Uma pausa.

— O quarto está organizado?

Viriato olhou em redor. Um par de botas de futebol estava em cima da secretária. Um blusão pendurava-se na ventoinha do teto. Havia uma pilha de revistas que, se fosse mais alta, teria código postal próprio.

— Está... razoavelmente organizado.

— Viriato.

— Há um sistema. Só eu é que percebo o sistema.

— O sistema inclui meias?

— O sistema inclui tudo.

O pai João apareceu na porta do quarto, segurando uma chávena de chá com as duas mãos, como quem carrega um objeto sagrado. João era engenheiro de “tudo e de nada”. Segundo ele, isso significava que entendia "a lógica profunda de todas as coisas e pessoas". Segundo o Viriato, significava que ele passava demasiado tempo a arranjar coisas que não estavam partidas e a partir acidentalmente coisas que estavam intactas.

— Perdeste uma meia? — perguntou o pai, com o tom de quem está prestes a dar uma explicação muito satisfatória para si próprio.

— A meia da sorte. Para o jogo. Que começa daqui a hora e meia.

— Interessante. — O pai deu um gole do chá. — Muito interessante.

Viriato conhecia aquele "muito interessante". Era o começo para uma teoria que provavelmente iria demorar vinte minutos a explicar e acabar com o universo completamente desmontado.

— Pai, não tenho tempo para ... —

— Senta-te, Viriato. Deixa-me explicar-te o que aconteceu à tua meia.


Capítulo 2 - A Teoria do Pai João

O pai João entrou no quarto com a pompa silenciosa de um professor que está prestes a mudar a vida de um aluno. Com o pé, afastou um monte de t-shirts do Viriato e sentou-se na beira da cama, enquanto o Flocky se mudava para o outro lado da almofada, levemente ofendido com a intrusão.

— Viriato, diz-me uma coisa. Quando é que lavaste essa meia pela última vez?

— Não sei. Na semana passada? O mês passado?

— Hmm. Na máquina de lavar?

— Acho que sim. A avó pôs junto com a roupa.

O pai assentiu lentamente, como se isto confirmasse uma teoria que ele tinha desde há muito tempo.

— Como sabes, sou engenheiro de pessoas e algumas coisas. E de pessoas com coisas.

— Sei.

— E como tal, compreendo coisas que os outros não compreendem sobre o funcionamento da realidade doméstica.

— Pai...

— Deixa-me acabar. — O pai João depositou a chávena de chá com cuidado na secretária, por cima de um livro de matemática. — As máquinas de lavar, Viriato, não são o que parecem.

O Viriato suspirou. O Flocky também suspirou, em solidariedade.

— Toda a gente pensa que são apenas tambores que rodam com água quente e detergente. Errado. Completamente errado. — O pai levantou um dedo. — Uma máquina de lavar a funcionar a 1200 rotações por minuto gera um campo eletromagnético equivalente ao de um acelerador de partículas doméstico de baixa potência.

— Um acelerador de partículas? — repetiu o Viriato.

— Exatamente. E o que acontece quando aceleras partículas suficientemente pequenas a velocidades suficientemente altas dentro de um tambor de aço inoxidável?

Silêncio.

— Crias micro-buracos negros, Viriato. Pequeninos. Do tamanho de... bem, do tamanho de uma meia. Mais especificamente, do tamanho de uma meia de algodão, porque as fibras de algodão têm exatamente a massa crítica necessária para interagir com o campo gravitacional gerado pelo tambor em rotação.

O Viriato olhou para o pai com uma expressão que misturava ceticismo, incompreensão e a preocupação de quem sabe que o jogo começa daqui a uma hora e vinte minutos.

— Estás a dizer que a máquina de lavar criou um buraco negro que comeu a minha meia?

— Micro-buraco negro. A terminologia é importante.

— Mas isso é impossível.

O pai piscou os olhos com a paciência de um professor que já ouviu esta objeção muitas vezes.

— Era impossível antes de eu perceber o mecanismo. Agora é apenas... improvável. E bem documentado. — Fez uma pausa. — Por mim.

— Documentado onde?

— Num caderno amarelo que está algures na garagem.

— E como é que isso me ajuda a encontrar a meia?

O pai João ficou em silêncio por um momento. Era o silêncio de quem teve uma teoria brilhante mas que talvez não tenha chegado à parte das soluções práticas.

— Esse é um ponto interessante — admitiu.

Enquanto o pai murmurava para si próprio sobre "campos gravitacionais reversos" e "física quântica de tecidos", o Viriato desceu as escadas até à cozinha onde a máquina de lavar estava. Era uma máquina branca, modelo "Tornado Silencioso 3000" (nome que, pensando agora, deveria ter levantado suspeitas desde o início).

O ciclo de lavagem tinha terminado há horas. A porta estava fechada. O Viriato aproximou-se e abriu-a devagar, como quem abre um cofre.

Dentro: duas camisolas, um par de meias listadas às riscas verdes (do pai João, evidentemente — ninguém mais na família usava meias às riscas verdes), uma toalha pequena, e uma meia azul com riscas vermelhas.

Só uma.

A outra — a Meia da Sorte — não estava lá.

Viriato vasculhou o tambor com a mão. Não havia nada. Verificou o bordo de borracha da porta. Nada. Olhou debaixo da máquina (o que requereu uma lanterna e uma flexibilidade que ele não sabia ter).

A meia tinha desaparecido.

O João apareceu na porta da cozinha, ainda com a chávena de chá.

— Vês? — disse ele, com a satisfação suave de quem tinha razão. — Micro-buraco negro.

— Ou caiu atrás da máquina.

— Isso também é possível — admitiu o pai. — Mas é muito menos interessante.


Capítulo 3 - O Mergulho no Tambor

Depois de o pai ter demonstrado a sua força arrastando a máquina e confirmado que não havia meia nas traseiras, Viriato decidiu montar uma operação de resgate. Durou sete minutos e envolveu os seguintes materiais: um arame roubado à garagem (para fazer de gancho improvisado); uma lanterna de cabeça (da mochila de campismo do pai, onde estava guardada para "emergências de sobrevivência" como esta era claramente); e o Flocky como assistente técnico, função que ele interpretou como "ficar a lamber o chão à frente do Viriato".

— Flocky, sai da frente.

O Flocky mudou-se dez centímetros para a direita.

— Obrigado.

Viriato estava ajoelhado no chão da cozinha, a tentar enfiar o arame dentro do tambor da máquina. Mas a física estava a tornar a missão impossível. Cheirava bem, a maçã ácida do detergente. E até havia prémios: 15 cêntimos em moedas que tilintavam quando o tambor rodava. A lanterna de cabeça iluminava o interior do tambor com uma luz implacável que revelava alguma esponja suja acumulada, um botão de camisa de origem desconhecida, e o nada absoluto onde devia estar a meia.

— Não está aqui — disse o Viriato para ninguém em particular.

— Micro-buraco negro — disse o pai João da sala, claramente a ouvir.

Viriato suspirou fundo. Depois lembrou-se e apalpou o bolso do pijama que ainda usava por cima da roupa de futebol (numa camada que o Pai acharia "claramente errada"). Antes de sair do quarto, tinha enfiado no bolso o seu Passaporte Mágico: um pequeno caderno vermelho-escuro com o símbolo de uma bússola na capa, que o tinha acompanhado nas suas aventuras anteriores. Não sabia bem porque o tinha levado. Às vezes o Passaporte pedia para ir a sítios. Ainda lá estava. Uf! Só lhe faltava perder também o Passaporte.

Enquanto tentava uma última abordagem com o arame, inclinando o tronco para dentro do tambor a tentar alcançar o fundo, duas coisas aconteceram ao mesmo tempo.

Primeiro: o Flocky, entusiasmado com o movimento do Viriato, saltou para cima das suas costas com o entusiasmo descontrolado de um cão que acha que está a começar uma brincadeira.

Segundo: o Passaporte Mágico — aquecido pela humidade residual do tambor e pela eletricidade estática que a lã das meias do Pai João tinha gerado no último ciclo de centrifugação — acendeu-se com uma luz suave azulada.

O tambor da máquina começou a rodar.

— Espera — disse o Viriato. — Eu não liguei nada

Mas o tambor estava a acelerar. E o Viriato, metade do corpo já dentro da máquina, sentiu algo que só podia ser descrito como a gravidade a decidir que "para baixo" era agora uma direção completamente diferente. O Flocky, em cima das suas costas, encheu o ar com um latido de surpresa genuína. Era a primeira coisa genuinamente surpreendida que o Flocky tinha feito em dois anos.

A cozinha desapareceu.

O tambor desapareceu.

Houve um breve instante em que o Viriato viu, ou achou que viu, o pai na porta da cozinha com a chávena de chá, a dizer algo que parecia ser "vejam lá o ciclo de centrifugação" — mas depois tudo ficou branco, e depois azul, e depois cor de detergente. A sensação de vertigem rodopiante e sugadora era mais forte do que qualquer atração da Eurodisney.

O Viriato ficou tão tonto e abismado que nem conseguiu gritar. O Flocky era só língua, orelhas e rabo a rodopiar.

E depois aterraram.


Capítulo 4 - A Terra de Algodão e Metal

A aterragem foi suave, o que foi uma surpresa, porque o Viriato tinha esperado algo mais dramático. Em vez disso, pousou num chão fofo, macio, ligeiramente elástico, como um colchão feito de... algodão.

Que era exatamente o que era.

O chão era algodão. Não algodão de t-shirt ou algodão de almofada, mas algodão de máquina de lavar — aquele cotão cinzento esponjoso que se acumula no filtro e que ninguém limpa o suficiente. Aqui, esse cotão tinha o tamanho de um deserto. Dunas suaves de fibras entrelaçadas estendiam-se até ao horizonte em todas as direções, com tons que iam do branco-hospital ao cinzento-filosofia.

O céu era cor de detergente azul.

Não era uma metáfora. Era mesmo aquela tonalidade específica de azul-químico que o frasco de detergente da marca "Brilha Sempre" tinha. Um azul que a natureza nunca inventou mas que a indústria química abraçou com entusiasmo.

Havia montanhas feitas de comandos de televisão. Milhares de comandos empilhados uns sobre os outros, de todas as épocas: os antigos, grandes como tijolos, com botões que clicavam a sério; os modernos, finos e frágeis que escorregavam de todas as superfícies; os intermédios, com aquele botão "AV" que nunca ninguém usou mas que estava sempre lá.

Entre as dunas de cotão, havia objetos dispersos: chaves-de-fendas solitárias que "estavam aqui mesmo há bocado"; canetas sem tampa (só tampas, sem canetas, e só canetas, sem tampas, nunca correspondentes); botões de camisas; aquelas tampas de Tupperware órfãs de caixa; elásticos de origem indeterminada; e, aqui e ali, meias. Meias sozinhas. Meias que tinham perdido o seu par e que tinham acabado aqui.

O Flocky aterrou ao lado do Viriato com uma elegância que desmentiu completamente a confusão da partida. Farejou o chão, olhou em volta, e fez aquela coisa que os cães fazem quando encontram um sítio novo: deu uma volta completa sobre si próprio e sentou-se, como se sempre tivesse vivido ali.

— Onde estamos? — sussurrou o Viriato.

Abriu o Passaporte Mágico. No interior, onde normalmente havia as notas das suas aventuras anteriores, apareceu um carimbo novo, que ele não percebia bem o que era, e uma legenda:

_O REINO DA LÃ-MÚRIA

onde vão as coisas que não estão perdidas para sempre mas que ainda não foram encontradas

— Faz sentido — murmurou o Viriato. — Num universo marado.

Um vento quente e suave atravessou as dunas de cotão, transportando partículas leves de fibra que brilharam no ar azul como neve ao contrário. O Flocky farejou o ar com interesse. Depois apontou o focinho em direção a uma das montanhas de comandos.

Havia algo a mexer-se lá em cima.

O Viriato apertou o Passaporte e avançou.


Capítulo 5 - O Crime de Estar Calçado

A lógica daquele lugar era como um baralho de cartas baralhado por um furacão: os reis estavam na cozinha a lavar a louça, os setes tinham ido para a praia com óculos de sol e ninguém sabia onde estava o joker, embora todos suspeitassem que ele estivesse a fingir ser uma nota de cinco euros no bolso de um casaco de inverno.

Viriato e Flocky caminhavam sobre o deserto de cotão, que fazia um som de "puff-puff" a cada passo. O céu azul-detergente parecia estar a ficar mais brilhante, como se alguém tivesse carregado no botão de "Brilho Cósmico" do universo.

De repente, o chão começou a tremer. Ou melhor, a agarrar.

— Uh? — Viriato tentou levantar o pé esquerdo, mas sentiu uma resistência feroz. — Flocky, acho que pisei pastilha elástica gigante.

Não era pastilha. Do meio das dunas de cotão, emergiu uma figura que parecia um cruzamento entre um ouriço-cacheiro e um rolo de tirar borbotos das camisolas. Era um boneco baixo, atarracado, coberto inteiramente por tiras de velcro preto. Cada vez que ele se mexia, ouvia-se o som caraterístico de mil pequenos ganchos a descolarem-se da realidade: Crrrruuuck.

— PARADOS EM NOME DA LEI DA UNIDADE! — gritou a criatura, apontando um dedo feito de um clipe de papel esticado.

Flocky, fiel ao seu treino de "cão que não percebe o perigo", tentou cheirar o recém-chegado. Foi um erro. O focinho do Flocky ficou imediatamente colado ao peito de velcro da criatura.

— Au? — disse o Flocky, com a voz abafada.

— Eu sou o Inspetor Velcro — declarou o boneco, ignorando o cão pendurado no seu tórax. — Polícia de Fronteira das Coisas Sozinhas. E vocês… vocês cheiram a algo proibido. Cheiram a... completude.

O Inspetor Velcro aproximou-se de Viriato (arrastando o Flocky consigo) e olhou para os pés do rapaz com um horror que só um objeto órfão poderia sentir.

— DUAS! — berrou o Inspetor. — ELE TEM DUAS MEIAS! É UM PAR! TEMOS UM CASO DE CONTRABANDO DE PARES NA ZONA 4!

Viriato deu um passo atrás, ou tentou, porque o chão de cotão estava agora cheio de pequenas tiras de velcro que tentavam agarrar os seus atacadores.

— Mas eu preciso das duas meias! — explicou Viriato. — O chão está frio e... e eu sou um ser humano, nós costumamos usar coisas aos pares. Olhos, orelhas, meias...

— Aqui na Lã-múria — disse o Inspetor, fazendo um som de crrrruuuck dramático ao cruzar os braços — a simetria é um crime de lesa-pátria. Se tens duas, significa que não perdeste nada. E se não perdeste nada, não tens lugar no Reino das Coisas Perdidas. Serás sentenciado a... Ser Lavado a 90 Graus com Camisolas de Lã Vermelhas!

Viriato empalideceu. Ele sabia o que acontecia a 90 graus. Era o fim. Ele tornar-se-ia uma miniatura de si próprio, apertado e impossível de vestir.

— Esperem! — gritou Viriato, enquanto outros pequenos agentes velcro (os Velcrinhos) começavam a saltar das dunas como pipocas pretas. — Houve um erro de contagem!

— Erro? Eu conto muito bem! Um, dois! — disse o Inspetor, apontando para os pés de Viriato.

Viriato pensou depressa. A sua mente trabalhava como uma centrifugação em modo rápido. Precisava de quebrar o par. Precisava de ser "ímpar".

Num movimento desesperado, Viriato descalçou a meia esquerda.

— Vejam! — disse ele, levantando o pé nu, que ficou imediatamente coberto de cotão cinzento. — Eu não tenho um par. Eu tenho uma meia na mão e um pé com frio. São duas situações completamente diferentes!

— Mentira! — disse o Inspetor. — Isso ainda conta como posse de par!

Viriato olhou para o Flocky, que ainda estava colado ao peito do Inspetor, parecendo agora uma espécie de mochila peluda frontal.

— E se... e se eu não for um dono de meias? — Viriato enfiou a meia esquerda na cabeça do Flocky, cobrindo-lhe uma das orelhas como se fosse um gorro de pirata mal ajustado. — Vejam! Agora eu tenho UMA meia. E este cão tem UMA meia. Somos dois indivíduos solitários, cada um com a sua meia órfã. Não há par nenhum aqui. Apenas dois tristes destinos desencontrados.

O Inspetor Velcro parou. O som de crrrruuuck cessou. Os Velcrinhos inclinaram as cabeças de clipe, confusos.

— Uma meia para o rapaz... — murmurou o Inspetor. — Uma meia para a... o que quer que seja esta coisa que lambe velcro...

Flocky deu uma lambidela entusiasta no rosto de velcro do Inspetor.

— Isso é... aceitável — decidiu o Inspetor Velcro, descolando o Flocky com um som de rasgão épico. — Por um momento, pensei que estivessem a tentar introduzir lógica e organização no nosso caos sagrado. Podem passar. Mas cuidado: o Barão das Pilhas Gastas não é tão compreensivo com seres sem cargas eléctricas faiscantes.

O Inspetor e os seus agentes voltaram a enterrar-se no cotão.

Viriato suspirou, aliviado, embora agora tivesse um pé cheio de cotão e um cão que parecia um artista de hip-hop dos anos 90 com uma meia na cabeça.

— Vamos, Flocky. Temos de encontrar a outra meia antes que alguém nos tente lavar a seco.


Capítulo 6 - O Vale das Energias Moribundas

O Vale das Energias Moribundas era um lugar onde o silêncio era interrompido apenas por um som metálico e rítmico, como se milhões de pequenos relógios estivessem a tentar dar o último tique-taque das suas vidas ao mesmo tempo.

Viriato caminhava com um pé descalço (que agora parecia uma chouriça empanada em cotão) e o outro ainda calçado. Flocky, por sua vez, exibia a meia na cabeça com a dignidade de um embaixador de um país onde o chapéu oficial é, de facto, uma meia de algodão azul com riscas vermelhas.

— Tens de admitir, Flocky, que isto é o mais perto que já estivemos de um filme de ficção científica — disse Viriato, desviando-se de uma pilha de pilhas AA que pareciam estar a tentar formar uma pirâmide.

À medida que avançavam, as pilhas tornavam-se maiores. Havia pilhas alcalinas que pareciam colunas gregas caídas, e pequenas pilhas de botão que brilhavam no chão como moedas de prata desbotadas. No centro do vale, sentado num trono feito inteiramente de comandos de televisão (aqueles que o Viriato vira antes, mas aqui empilhados com precisão arquitetónica), estava o Barão.

O Barão das Pilhas Gastas não era uma criatura de cotão ou velcro. Era uma figura alta e magra, vestida com um casaco longo feito de folhetos de instruções de aparelhos que já ninguém fabricava. Na cabeça, usava uma antena de rádio partida que emitia um ruído estático constante: Bzzzt... pshhh... canal 4... bzzzt.

— Quem ousa entrar nos meus domínios com tanta... voltagem? — trovejou o Barão, embora a sua voz soasse um pouco fraca, como se ele próprio precisasse de ser esfregado no pijama para ganhar energia estática.

— Eu sou o Viriato — apresentou-se o rapaz, tentando não rir do casaco de instruções. — E este é o Flocky. Estamos à procura de uma meia. Azul. De futebol. É a minha preferida.

O Barão levantou-se, o seu casaco de papel a fazer um ruído de folhas secas. Ele desceu do trono e aproximou-se de Viriato, segurando um comando de televisão como se fosse um cetro.

— Meias... meias são acessórios — disse o Barão com desdém. — Aqui, o que importa é o Poder Residual! Eu coleciono as Energias que Restam. Sabes aquela pilha que já não faz o comando funcionar, mas que se a esfregares nas calças ou a aqueceres nas mãos ainda dá para mudar de canal mais duas vezes? ESSAS são as minhas favoritas! A energia da esperança desesperada!

O Barão apontou o comando para Viriato e carregou no botão "Mute".

Viriato tentou falar, mas não saiu som nenhum da sua boca. Ele abriu a boca, as cordas vocais vibraram, mas o silêncio foi absoluto. Flocky tentou ladrar, mas o seu "Au!" transformou-se num balão de banda desenhada vazio que flutuou para longe.

— Ah, o silêncio — suspirou o Barão. — É tão... descarregado.

Viriato entrou em pânico por três segundos. Depois, lembrou-se do que o seu pai dizia sobre eletrónica: "Às vezes, o problema não é a falta de energia, é o mau contacto."

Ele tirou o Passaporte Mágico do bolso. O caderno brilhava agora com uma intensidade que parecia incomodar o Barão. Viriato não conseguia falar, mas podia escrever.

Abriu o Passaporte e, com uma caneta de feltro que tinha encontrado no caminho (uma daquelas que "não escrevia", mas que na Lã-múria funcionava perfeitamente), escreveu em letras grandes:

"EU TENHO UMA PILHA DE 9 VOLTS NO BOLSO QUE NUNCA FOI USADA."

Era mentira, claro. Mas o Barão, cujos olhos eram feitos de lentes de binóculos velhos, deu um salto de alegria que quase lhe desfez o casaco de papel.

— Uma 9 Volts? — a voz do Barão tremeu de ganância. — Uma daquelas retangulares? Com os dois conectores em cima que dão um choque na língua se os encostarmos? O Santo Graal da energia portátil! Dá-ma! Dá-ma e eu deixo-te passar para a Lavandaria Central!

Viriato fez sinal de "espera". Apontou para o comando e depois para a sua garganta.

O Barão, apressado, carregou no botão "Unmute".

— ...e é por isso que mentir às vezes é uma necessidade técnica! — concluiu Viriato, a voz a voltar a sair em pleno volume. — Mas não a tenho aqui. Está... está dentro do Flocky.

— O quê? — o Barão olhou para o cão com novos olhos.

— Sim — disse Viriato, inventando à medida que as palavras saíam. — Ele é um protótipo. Um cão-robô disfarçado de cão-estúpido. Para a pilha sair, ele precisa de correr em círculos exatamente dez vezes enquanto alguém canta um hino nacional.

O Barão, que não tinha uma pilha nova há décadas, não hesitou.

— Eu canto! Eu sei o Hino Nacional da Lã-Múria! — gritou ele. E começou a entoar uma melodia que soava a estática de rádio: "Ó Lã-múria, ó terra de fios soltos... bzzzt... onde o par é um insulto... pshhh..."

Enquanto o Barão cantava com os olhos fechados e o Flocky já iniciava o seu tonto percurso circular (achando que era uma brincadeira nova), Viriato chamou-o e correram juntos para fora dali. Atravessaram o trono de comandos e entraram num túnel que cheirava intensamente a amaciador de roupa "Sonho de Primavera".

A voz do Barão foi ficando para trás: "...e a 9 volts brilhará… bzzzt... espera... dez voltas? Ele já deu onze! VOLTEM AQUI!"

Mas Viriato e Flocky já estavam longe, a deslizar por um escorrega de espuma que os levaria ao coração do mistério.


Capítulo 7 - A Lavandaria Central e o Incidente das Chaves

A Lavandaria Central não era bem o que Viriato esperava. Ele imaginava um sítio com máquinas de lavar gigantes, talvez algumas tábuas de passar a ferro que servissem de pontes, mas o que encontrou foi um autêntico parque aquático de sabão.

Havia rios de espuma azul que cheiravam a "Brisa do Ártico" e cascatas de água morna que faziam um barulho relaxante, se ignorássemos o facto de que, de cinco em cinco minutos, um par de calças voador passava por cima das suas cabeças como se fosse um pterodáctilo de ganga.

— Isto é... húmido — observou Viriato, espremendo a ponta da sua t-shirt. — Flocky, para de tentar comer as bolhas. São feitas de detergente, vais ficar a ladrar bolas de sabão durante uma semana.

Flocky, que já tinha uma bolha gigante presa no nariz, ignorou o aviso. Mas o seu entusiasmo foi interrompido por um som que não era de água, nem de máquinas. Era o som de alguém a dar pontapés num metal sólido.

PUUUM! PÁÁÁ!

— Máquina estúpida! Abre-te, sésamo de lata! Devolve as chaves ou juro que te transformo num grelhador de sardinhas!

Viriato congelou. Ele conhecia aquela voz. Era uma voz que parecia um ralador de queijo a passar por cima de um quadro negro. Ele espreitou por trás de uma montanha de toalhas turcas (que pareciam dunas de um deserto felpudo) e viu-o.

Ali, à frente de uma máquina de secar que parecia ter o tamanho de uma garagem, estava o Araponga.

O Araponga tinha nove anos, mas parecia ter sido esculpido em granito por alguém que se esqueceu de lhe dar um pescoço. Tinha o cabelo rapado, o que fazia com que a sua cabeça parecesse uma bola de bowling muito zangada, e pés tão grandes que Viriato sempre suspeitou que ele comprava os sapatos em lojas de barcos.

— O Araponga? — sussurrou Viriato para Flocky. — O que é que ele está aqui a fazer? Ele nem sequer usa meias! Ele diz que "sufocam os dedos".

Araponga deu mais um pontapé na máquina.

— Eu sei que estás aí, Viriato! — rugiu o Araponga, sem se virar. — Consigo cheirar o teu medo e aquele perfume de "Meia de Futebol Esquecida" a quilómetros de distância!

Viriato saiu de trás das toalhas, tentando parecer mais alto do que realmente era (o que era difícil, considerando que ainda lhe faltava uma meia).

— Não é medo, Araponga. É... é humidade atmosférica — retorquiu Viriato. — E o que é que tu estás aqui a fazer? Este é o meu mistério.

Araponga virou-se. A sua cara estava vermelha como um tomate cozido. Nos seus pés gigantes, ele usava uns chinelos de enfiar no dedo que pareciam estar a sofrer debaixo do peso da sua indignação.

— O teu mistério? — Araponga soltou uma gargalhada que fez as bolhas de sabão no ar explodirem. — Eu perdi as chaves do carro da minha mãe! Ela deixou-as em cima da mesa, eu achei que eram um brinquedo novo, e quando as tentei "esconder" dentro da máquina de lavar para pregar uma partida, ZÁS!. A máquina fez um barulho de quem estava a engolir um esquilo de metal e vim parar a este sítio maluco!

— Espera — disse Viriato, os olhos arregalados. — A máquina da tua mãe... era uma "Tornado Silencioso 3000"?

Araponga parou de bufar por um segundo.
— Sim. Com o botão de "Centrifugação Quântica". Porquê?

— É a mesma marca da minha! — exclamou Viriato. — Foi assim que eu e o Flocky viemos aqui parar. Estamos à procura da minha meia azul de futebol.

Araponga olhou para o pé descalço de Viriato e depois para o Flocky, que ainda tinha a meia na cabeça.

— Estás a dizer-me que te meteste nesta estapafurdice... por causa de uma meia? — Araponga começou a rir-se tanto que teve de se apoiar numa pilha de amaciadores. — Tu és mesmo um tótó, Viriato! Eu estou aqui por algo importante! Se eu não levar as chaves de volta, a minha mãe vai pôr-me de castigo até eu fazer dezoito anos! Sem videojogos! Sem sobremesa! Vou ter de comer brócolos... cozidos!

Viriato não se deixou intimidar.
— Pois, mas parece que o "Grande Araponga" também não consegue abrir a máquina. E se queres que te diga, aqui as máquinas não funcionam com pontapés. Funcionam com lógica. Marada, mas lógica.

Araponga preparava-se para responder com um dos seus insultos clássicos (provavelmente algo relacionado com o tamanho das orelhas de Viriato), mas um som metálico vindo de dentro da máquina de secar interrompeu-o.

Tlint... tlint... tlint...

Eram as chaves. Mas elas não estavam sozinhas. Através do vidro circular da máquina, Viriato viu algo azul e elástico a saltitar lá dentro.

— A minha meia! — gritou Viriato.

— As minhas chaves! — berrou Araponga.

O problema é que a máquina de secar estava trancada por um código de cores que brilhava no painel: Amarelo, Azul, Vermelho, Verde. E por cima do painel, estava escrito: "Para abrir o tambor, é preciso inserir a pista do Grande Sabonete."

Araponga olhou para os seus punhos enormes. Viriato olhou para o seu Passaporte Mágico.

— Ouve lá, espécie de "Big Foot" — disse Viriato, seriamente. — Tu és forte, mas eu sei ler manuais de instruções e tenho um cão que consegue detetar cotão a cem metros. Se queres sair daqui antes da hora do jantar, temos de trabalhar juntos.

Araponga olhou para a máquina, depois para o Viriato. Ele odiava perder. Mas odiava brócolos cozidos ainda mais.

— Está bem — resmungou Araponga, estendendo uma mão que parecia uma pá de pedreiro. — Mas se contares a alguém na escola que eu cooperei contigo, eu esmago-te como uma uva passa.

Viriato apertou a mão de Araponga.
— Negócio feito. Agora, Flocky, ativa o modo "Faro de Sabonete"! Temos um código para decifrar!

E assim, o duo improvável (e um cão com meio chapéu de lã) começou a sua jornada pela Lavandaria Central, onde as bolhas de sabão escondiam segredos mais escorregadios do que o habitual.


Capítulo 8 - O Desafio do Grande Sabonete

Caminhar pela Lavandaria Central com o Araponga era como tentar passear com um trator que tinha opinião própria sobre tudo.

— Porque é que temos de ir por aqui? — resmungava o Araponga, desviando-se de um jato de vapor com cheiro a alfazema. — Eu podia simplesmente dar uma cabeçada naquela máquina e ela abria-se toda.

— Já tentaste os pontapés e a única coisa que conseguiste foi um hematoma no dedo grande do pé — recordou Viriato, sem tirar os olhos do Passaporte Mágico, que agora vibrava sempre que passavam perto de uma bolha de sabão especialmente brilhante. — Além disso, estas máquinas parecem protegidas por uma espécie de "Magia de Amaciador de Terceira Geração". A força bruta aqui só serve para te deixar mais amarrotado.

Flocky, que liderava a expedição, parou subitamente à frente de uma cortina de espuma espessa. Ele começou a ladrar, mas em vez de som, saíram pequenas bolhas em forma de osso.

— Chegámos — anunciou Viriato.

Eles atravessaram a cortina e deram por si numa espécie de spa para objetos de higiene. No centro, mergulhado numa banheira de porcelana dourada que flutuava sobre um mar de esponjas, estava o Grande Sabonete.

Ele era... bem, ele era um sabonete. Mas um sabonete do tamanho de um puff de sala, de um tom rosa-pérola e tão liso que a luz refletida nele parecia estar a tentar fugir para não escorregar. Tinha uns óculos de natação na testa e segurava uma escova de costas como se fosse um cetro real.

— Visitantes! — exclamou o Grande Sabonete, com uma voz borbulhante e melodiosa. — E que visitantes tão... texturizados! Vejo fibras de algodão, vejo suor de futebol e... — ele apontou a escova para o Araponga — vejo um potencial enorme para uma esfoliação profunda.

Araponga deu um passo atrás, os punhos cerrados.
— A mim ninguém me esfolia, ouviste, ó esponja gigante?

— Calma, Araponga! — Viriato interveio. — Grande Sabonete, nós precisamos do código para a máquina de secar Super-Turbo 3000. A minha meia e as chaves dele estão presas lá dentro.

O Grande Sabonete soltou um suspiro de vapor.
— Ah, a máquina de secar. O purgatório dos tecidos. Eu posso dar-vos a sequência das cores, mas primeiro, têm de me provar que são dignos da Pureza Suprema.

— O que é que temos de fazer? — perguntou Viriato, já a preparar a caneta.

— É simples — disse o Sabonete, deslizando graciosamente para fora da banheira. — Têm de atravessar a Pista do Pavimento Escorregadio sem cair nem uma única vez. E para tornar as coisas mais... limpas, o cabeçudo terá de te carregar às cavalitas, enquanto o cão equilibra esta pastilha de cloro no nariz.

Araponga olhou para Viriato com uma expressão que sugeria que ele preferia passar o resto da vida a comer brócolos recheados com couves de Bruxelas.
— Eu? Cabeçudo!? E carregar o Totó-Viriato? Estás a brincar comigo, ó Bolha de Sabão?

— Sem cooperação, não há chaves — cantarolou o Sabonete, fazendo uma pirueta e deixando um rasto de espuma perfumada. — E sem chaves, há... como era mesmo?... brócolos cozidos?

Araponga bufou tanto que o seu cabelo rapado parecia estar a tentar arrepiar-se.
— Sobe, Viriato. Mas se caíres, eu juro que te uso como esfregão.

Viriato subiu para as costas largas de Araponga. Flocky, percebendo a seriedade do momento, sentou-se e deixou que o Sabonete colocasse a pequena pastilha branca no seu focinho.

A pista apareceu à frente deles: um corredor feito de mármore polido e coberto com uma camada generosa de gel de banho extra-deslizante.

— Agora! — gritou o Sabonete.

Araponga deu o primeiro passo. As suas pernas de granito vacilaram. O chão era mais escorregadio do que uma enguia num balde de óleo.
— Isto... é... impossível! — grunhiu Araponga, fazendo força com os dedos dos pés.

— Usa os teus pés grandes como se fossem ventosas! — aconselhou Viriato, agarrado ao pescoço do rival. — Não tentes andar, tenta deslizar com ritmo! Um-dois, um-dois!

Araponga, surpreendentemente, ouviu. Ele começou a mover os pés num movimento circular, como se estivesse a patinar no gelo. Viriato, por sua vez, usava os braços para equilibrar o centro de gravidade de ambos, inclinando-se para a esquerda e para a direita conforme a necessidade.

Flocky patinhava ao lado deles com a concentração de um monge budista, a pastilha de cloro imóvel no seu nariz.

Estavam quase a chegar ao fim quando um jato de "Amaciador Concentrado" disparou da parede, atingindo a orelha do Araponga.
— AIII! ESTÁ-ME A FAZER COCEGUINHAS! — berrou o gigante, começando a rir-se e a perder o equilíbrio.

Viriato não pensou duas vezes. Ele esticou a mão e agarrou-se a uma corda de estender roupa que estava por cima deles, estabilizando o Araponga no último segundo.

— Continua, Araponga! Só mais três passos! — incentivou Viriato.

Com um último esforço de patinagem artística involuntária, o trio atravessou a linha de chegada e caiu num monte de toalhas limpas e fofas.

O Grande Sabonete bateu palmas (o que produziu uma nuvem de bolhas).
— Magnífico! Equilíbrio, força e um toque de comédia física! Como prometido, aqui está o segredo do tambor: Amarelo é o sol que seca, Verde é o campo onde a meia brinca, Vermelho é a raiva do cabeçudo e Azul é o mar onde todos se lavam.

Viriato anotou rapidamente no Passaporte: Amarelo - Verde - Vermelho - Azul.

— Espera — disse Araponga, limpando o gel de banho da cara. — O painel da máquina tinha as cores numa ordem diferente. Tu deste-nos a sequência correta?

O Sabonete deu uma piscadela de olho espumosa.
— A ordem é o segredo. Agora corram! A centrifugação final está prestes a começar, e se as chaves e a meia ficarem presas no nó do tempo… bem, digamos que a tua mãe vai precisar de um carro novo e tu de um pé de lã tricotado à mão.

Viriato e Araponga trocaram um olhar de pânico. Sem mais discussões, desataram a correr de volta para a Lavandaria Central, com o Flocky a liderar a carga, ainda a equilibrar a pastilha de cloro no seu nariz convencido de que era um prémio de mérito.

O mistério estava prestes a ser resolvido, ou então a tornar-se muito, muito mais complicado.


Capítulo 9 - A Centrifugação do Caos e o Resgate Metálico

Se um terramoto tivesse decidido abrir uma discoteca dentro de uma lata de sardinhas, o barulho não seria tão ensurdecedor como o que Viriato e Araponga encontraram ao regressar à Lavandaria Central.

A máquina de secar não estava apenas a funcionar; ela estava a entrar em órbita. Vibrava com tanta força que as toalhas em redor pareciam estar a dançar o "twerk", e o painel de luzes piscava como uma árvore de Natal que tinha bebido demasiado café.

— ESTÁ A EXPLODIR! — berrou o Araponga, protegendo a cabeça com os braços enormes. — VAMOS TODOS SER TRANSFORMADOS EM COTÃO!

— NÃO ESTÁ A EXPLODIR! — retorquiu Viriato, tentando manter o equilíbrio enquanto o chão parecia uma passadeira rolante avariada. — É O CICLO DE CENTRIFUGAÇÃO QUÂNTICA! SE NÃO INSERIRMOS O CÓDIGO AGORA, A MEIA E AS CHAVES VÃO SER ENVIADAS PARA A DIMENSÃO DAS CUECAS PERDIDAS, E DE LÁ NINGUÉM VOLTA!

Flocky, por sua vez, tinha desistido de ser um cão pisteiro e estava a tentar "caçar" as vibrações do chão, saltando de um lado para o outro como se estivesse a pisar pipocas quentes.

Viriato aproximou-se do painel. Os botões de cores estavam à sua frente: Amarelo, Azul, Vermelho, Verde. Mas havia um problema. Com a vibração da máquina e do chão, os botões não paravam quietos. Era como tentar acertar num alvo móvel enquanto se anda de montanha-russa.

— Araponga! — gritou Viriato. — Preciso que segures a máquina! Usa os teus músculos de gigante para a manter minimamente parada por dez segundos!

Araponga olhou para a máquina, que parecia um touro mecânico enfurecido.
— Estás maluco? Aquilo dá choques! E se eu ficar com os dedos encaracolados?

— ANTES QUERES OS BRÓCOLOS? — a pergunta de Viriato foi o argumento final.

Araponga deu um rugido de guerra, atirou-se à máquina e abraçou-a como se fosse um urso a tentar imobilizar uma colmeia.
— AGUENTA... RÁPIDO... ESTOU A... SENTIR O MEU... CÉREBRO... A FAZER... BATIDO DE... BANANA! — conseguiu articular o Araponga entre dentes, enquanto todo o seu corpo tremia como uma gelatina.

Viriato posicionou-se. O dedo tremia, mas a memória do Grande Sabonete era clara.
— Amarelo! — Ele carregou no primeiro botão. Um som de campainha soou: Ding!
— Verde! — Ding!

Faltavam dois. Mas a máquina, sentindo que estava a ser domada, deu um solavanco extra. O Araponga foi quase cuspido para trás.
— NÃO CONSIGO… MAIS! — gritou ele, as veias do pescoço a parecerem cordas de violino.

Nesse momento, Flocky, num rasgo de inspiração canina (ou talvez apenas porque viu uma mosca imaginária), saltou para cima do painel e, com as patas traseiras, empurrou o braço de Viriato na direção certa.

— Vermelho! — Ding!
— E... AZUL! — DONG!

Houve um silêncio súbito e absoluto. Tão repentino que o Araponga, que ainda estava a fazer força, acabou por dar um abraço demasiado apertado à máquina e caiu de rabo no chão, levantando um monte de meias órfãs à sua volta.

A porta da Super-Turbo 3000 abriu-se com um suspiro de vapor que cheirava a "Brisa Marinha com um toque de metal".

Lá dentro, em cima de um pequeno monte de cotão cinzento, estavam elas. A meia azul de futebol, impecavelmente seca e sem um único fio puxado, e o molho de chaves do carro da mãe do Araponga, a brilhar como se tivessem sido polidas por fadas mecânicas.

Viriato pegou na meia com a reverência de quem segura um tesouro arqueológico.
— Conseguimos, Flocky. O par vai ser reunido.

Araponga levantou-se, limpando o pó das calças e tentando recuperar a sua dignidade de "durão". Ele pegou nas chaves e pesou-as na mão.
— Até que não correu mal, Totó-Viriato — resmungou, embora houvesse um pequeno brilho de respeito nos seus olhos. — Mas não te habitues. Se contares a alguém que eu "abracei" uma máquina de lavar, eu... eu...

— Eu sei, eu sei. Esmagas-me como uma uva passa — completou Viriato, a sorrir. — Mas agora temos um problema maior.

— Qual? — perguntou Araponga.

Viriato apontou para o fundo da máquina de secar. Onde antes estava o tambor de metal, agora via-se um portal giratório que mostrava, lá ao fundo, o azulejo branco da lavandaria de casa do Viriato. Mas o portal estava a encolher.

— O portal está a fechar! — exclamou Viriato. — Temos de saltar! AGORA!

Flocky não esperou por um convite e mergulhou de cabeça. Viriato foi logo a seguir. Araponga, olhando para os seus pés gigantes e depois para o buraco que encolhia, soltou um último grito:
— SE EU FICAR PRESO COM O CÚ DE FORA, JURO QUE TE ESMIGALHO, VIRIATOOOO!

E com um som de POP!, a Lavandaria Central ficou em silêncio, deixando para trás apenas o cheiro a amaciador e o eco de uma amizade que ninguém, na escola, iria alguma vez acreditar.


Epílogo - O Par Perfeito e o Pacto da Lavandaria

O regresso à realidade foi marcado por um som que Viriato nunca pensou que soasse tão bem: o bip-bip eletrónico de uma máquina de lavar que acabou o ciclo.

Viriato, Araponga e Flocky aterraram no chão frio de azulejos da lavandaria da casa de Viriato. O ar já não cheirava a "Sonho de Primavera" mágico, mas sim ao detergente de marca branca que a avó de Viriato comprava em promoção.

— Estamos vivos? — perguntou Araponga, verificando se os seus pés gigantes ainda estavam ligados às pernas. — Eu sinto que fui mastigado por um transformador e cuspido por uma torradeira.

— Estamos em casa — disse Viriato, levantando-se e segurando a meia azul como se fosse uma medalha olímpica. — E olha, Araponga, ainda tens as chaves.

Araponga olhou para o molho de chaves na sua mão. Ele soltou um suspiro de alívio tão grande que quase fez voar o cesto da roupa suja.
— Se eu tivesse ficado lá, a minha mãe ia vender a minha consola para pagar as chaves. Tu salvaste a minha vida social, Totó... quer dizer, Viriato.

Viriato sorriu. Pela primeira vez, o sorriso do Araponga não parecia o de um tubarão prestes a atacar, mas sim o de alguém que tinha acabado de descobrir que a cooperação era um pouco mais útil do que um pontapé bem dado.

— Ouve lá — disse Araponga, recompondo-se e assumindo a sua postura de "durão de escola". — Sobre aquilo da patinagem artística no gel de banho e do abraço à máquina...

— Já sei — interrompeu Viriato. — "Se eu contar a alguém, esmagas-me como uma uva passa".

— Exato — assentiu Araponga. — Mas... se precisares de ajuda com o jogo de futebol daqui a bocado, talvez eu possa aparecer. Sabes, para garantir que não perdes a outra meia. Alguém tem de manter os teus pés no chão.

— Ficamos combinados — aceitou Viriato, estendendo o punho para um "fist bump".

Araponga retribuiu o gesto com tanta força que o braço de Viriato ficou a vibrar por cinco segundos, mas desta vez era uma vibração de amizade lavada de fresco.

Flocky, entretanto, tinha-se dirigido ao cesto de roupa lavada. Com um movimento ágil, ele saltou e aterrou lá dentro. Quando saiu, trazia na boca a outra meia azul de futebol — aquela que o Pai João tinha guardado "por segurança".

Viriato pegou nas duas meias e juntou-as. Elas encaixavam na perfeição. O par estava completo. A tragédia do par ímpar tinha chegado ao fim.

— Sabes o que isto prova, Flocky? — perguntou Viriato, enquanto o cão abanava a cauda com tal entusiasmo que parecia uma ventoinha desgovernada. — Prova que, sozinhos, somos apenas uma meia perdida no fundo da gaveta. Mas juntos... bem, juntos conseguimos enfrentar até o Grande Sabonete.

Naquele momento, a porta da lavandaria abriu-se. Era a avó Margarida.
— Viriato? O que é que o Araponga está aqui a fazer? E porque é que cheiram os dois a amaciador concentrado e a pastilha de cloro?

Viriato trocou um olhar cúmplice com o Araponga.
— É uma longa história, avó. Digamos que estávamos apenas a certificar-nos de que a máquina não tinha… fugas quânticas.

A avó olhou para eles, depois para o Flocky (que ainda tinha um resto de espuma no focinho), e abanou a cabeça.
— Miúdos malucos… Deixem-se de fantasias e venham lanchar. Fiz torradas.

Enquanto subiam para a cozinha, Viriato sentiu o peso do Passaporte Mágico no bolso. Sabia que a Lã-múria ainda estava lá, algures entre o tambor e a centrifugação, à espera do próximo objeto desaparecido. Mas, por hoje, o mistério estava resolvido.

E na semana seguinte, na escola, o Araponga não empurrou ninguém na fila da cantina. Pelo contrário, até partilhou a sua sobremesa com um rapaz do 5.º ano que tinha perdido o lanche.

Afinal, quem sobrevive a uma Pista de Pavimento Escorregadio com o rival às cavalitas, aprende que a vida é muito melhor quando se tem alguém para ajudar a manter o equilíbrio. Mesmo que esse alguém use meias azuis de futebol que brilham um pouco mais do que o normal.

FIM

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