Uma aventura entre dunas, ladrões confusos, um autocarro com opiniões próprias e um dromedário que não é um camelo
Elenco
(Ou: Quem É Quem Nesta História, Para Não Haver Confusões)
Viriato — Nove anos, dono do Passaporte Mágico (Volume II, ainda fresco) que abre portas que não se espera que existam. Também possuidor de um instinto especial para encontrar problemas, o que seria preocupante se não fosse acompanhado de um instinto igualmente forte para os resolver.
Pai João — Engenheiro terapêutico, cabeça rapada que brilha como um farol em dias de sol, rei das piadas secas de que ninguém ri na hora mas de que toda a gente ri sozinho mais tarde. Tradutor automático de idiomas que nunca estudou (com um método que envolve muita confiança e pouca gramática), e recentemente matriculado num curso de hipnose por correspondência da Universidade de Badajoz. Descobridor profissional de coisas encobertas.
Ahmed Abdul — Dez anos, natural de Marraquexe, guia turístico autoimposto sem licença nem mapa fixo. Criador de problemas em série, que resolve com uma velocidade que sugere treino, e investigador de mistérios com um método baseado em intuição e velocidade. Encantador de camelos certificado pela sua avó. (Não tem certificado escrito. A avó disse. Isso chega.)
Mustapha-Fá-Fá — Autocarro turístico de 1987, temperamental como um primo nervoso, climatização com opiniões próprias sobre a temperatura ideal (que nunca coincide com a dos passageiros). Dono de um sistema sonoro exclusivamente sintonizado na Rádio Zoo (sons da selva, a tempo inteiro) com uma exceção: a Estação 2, dedicada unicamente a pragas e palavrões em francês. Lealdade absoluta aos que o tratam com respeito. Inimizade instantânea com quem não fecha a porta com cuidado.
Leocádio — Dromedário, uma bossa, oito anos. Irritabilidade acima da média quando confundido com um camelo (o que acontece com uma frequência que ele considera um insulto pessoal), facilmente distraído por coisas brilhantes, borlas, barulhos estranhos e rododendros (ninguém sabe porquê). Herói improvável quando as circunstâncias não lhe deixam outra opção.
Ali Babalu — Vilão de competência variável, chefe do Bando dos 31 Ladrões (que gostariam muito de chegar aos 40, pois seria um número mais respeitável). Facilmente impressionável, com um plano para cada situação e nenhum deles bom, e uma convicção inabalável de que desta vez vai correr bem.
Capítulo 1 — O Passaporte Azul
Este Passaporte Mágico não era grande. Não brilhava. Não fazia sons. Tinha uma capa azul, desbotada de um modo que sugeria muitas viagens, e as letras douradas na capa, que uma vez tinham dito qualquer coisa, estavam agora suficientemente gastas para dizerem tudo e nada ao mesmo tempo.
Viriato já tinha um Passaporte Mágico, vermelho-escuro, que o tinha levado a outos mundos e aventuras. Mas este, tinha-o encontrado no fundo da mochila da escola no início do ano, embrulhado num jornal de outra língua, com uma nota manuscrita que dizia apenas: Quando for a hora, já sabes para onde. O que não era uma instrução muito útil.
Em Julho, ele e o pai João decidiram que as férias seriam viajadas. Discutindo os possíveis destinos, quando o Viriato insistia no seu fascínio em visitar o deserto, aconteceu uma daquelas coisas que só acontecem a proprietários de Passaportes Mágicos: da gaveta de baixo da cómoda do Viriato, saiu uma nuvem de qualquer coisa. Parecia pó. Dourado.
— Pai! A gaveta está a soprar! — Viriato saltou para a cama, os olhos arregalados.
O pai, com a calma de quem já viu quase tudo, espetou um dedo no pó dourado que escapava pela fresta.
— Areia. — anunciou, abrindo a gaveta.
— Cuidado! E se for um lagarto? — Viriato inclinou-se, torcendo para que fosse, de facto, um lagarto.
Não era um lagarto. Era o Passaporte azul.
O pai pegou no Passaporte e ele abriu-se espontaneamente. As páginas exibiam um carimbo e uma foto de uma cidade que o pai João reconheceu imediatamente:
— Marraquexe. Com sotaque. A vogal do meio é longa.
— Como sabes?
— Não sei — disse o pai, com a serenidade de quem já aceitou que às vezes as coisas simplesmente se sabem. — Mas sei.
Quando for a hora, já sabes para onde. Afinal a instrução era não só útil como definitiva. Estava decidido: Marraquexe era o destino.
Capítulo 2 — O Autocarro Temperamental
O Mustapha-Fá-Fá esperava-os no aeroporto.
Não de propósito — ou pelo menos não de uma forma que qualquer um fosse capaz de explicar. Era um autocarro turístico cor de laranja desbotada, estacionado numa fila de autocarros cor de laranja desbotada, com um cartaz no pára-brisas que dizia EXCURSÃO DESERTO — 2 LUGARES DISPONÍVEIS.
Nenhum passageiro se aproximava. Provavelmente porque o Mustapha-Fá-Fá emitia, em volume máximo, uma gravação de um hipopótamo a ressonar, que a maioria das pessoas confundia com uma avaria mecânica grave.
— É este — disse o Passaporte. Ou não disse, porque os passaportes não falam, mas voou exatamente nessa direção quando Viriato o tirou do bolso.
— É este — traduziu o Viriato.
— Não há motorista — observou o pai João.
A porta do Mustapha-Fá-Fá abriu-se com um suspiro metálico.
— Tem motorista — corrigiu Viriato.
Entraram. A porta fechou-se com um estalo satisfeito, como se o autocarro estivesse finalmente a acomodar-se. O hipopótamo parou de ressonar e foi substituído por um som de pássaros tropicais. O Mustapha arrancou com a suavidade de quem está habituado a transportar pessoas que não sabem bem para onde vão.
— Pai — disse Viriato, instalado no primeiro banco, com o Passaporte Mágico aberto nos joelhos.
— Sim.
— Isto é normal?
— Define normal.
— Um autocarro que se conduz sozinho numa cidade em Marrocos.
— Tecnicamente é um autocarro turístico — disse o pai João, olhando pelo vidro para as palmeiras que começavam a substituir o aeroporto. — E tecnicamente estamos a fazer turismo. Portanto há uma lógica.
O Mustapha-Fá-Fá mudou de estação. Da selva passou para um fluxo de palavras em francês que não eram, definitivamente, descrições de paisagens.
— O que está a dizer? — perguntou Viriato.
— Está a praguejar — disse o pai João, com a naturalidade de quem já traduziu coisa pior. — Com bastante criatividade, na verdade.
— Porquê?
— Porque o carro à frente não fez pisca.
O Mustapha-Fá-Fá tinha opiniões fortes sobre a condução dos outros.
Capítulo 3 — Ahmed Abdul, Guia Sem Licença
Sem aviso, o temperamental autocarro parou e abriu a porta.
Ahmed Abdul surgiu da medina de Marraquexe com a velocidade de algo que foi lançado com combustível e saltou para dentro do Mustapha.
Era pequeno, com dez anos e uma energia que sugeria que dormia pouco e gostava disso. Os olhos eram da cor do café forte e moviam-se em todas as direções ao mesmo tempo, e usava uma djellaba cor de areia com uma mancha de hena no bolso esquerdo que ele dizia ser de um trabalho de investigação anterior. A tiracolo, carregava uma bolsa decorada com missangas e que parecia prestes a rebentar pelas costuras.
Falava todas as línguas de que necessitava para dominar as ruas de Marraquexe. O português quase perfeito, herdara-o do avô poeta que, turisticamente, visitara a cidade e acabou por se casar com ela e com a sua avó.
— Viriato! — disse ele, como se já soubessem os dois quem era o outro.
— Como sabes o meu nome? — perguntou Viriato.
— O Leocádio disse.
— Quem é esse?
— Um dromedário. Ele não fala — esclareceu Ahmed, com cuidado, como se fosse importante estabelecer isto. — Mas quando está contente, ou descontente, cospe em direção a uma coisa e eu aprendi a interpretar. Desta vez estava a cuspir para o aeroporto. Calculei o resto.
— Isso não é... — começou o pai João.
— Tradução de cuspo de dromedário — interrompeu Ahmed, muito sério. — É uma competência específica. A minha avó ensinou-me.
— Essa competência tem muito de avó — disse o pai João, enquanto pensava, de si para si: _"Engenharia de fluidos aplicada a camelídeos. Fascinante, se bem que um pouco... húmida."
— As avós sabem as coisas importantes — confirmou o Viriato.
O Mustapha-Fá-Fá emitiu um som de aprovação: um rugido de jaguar que, no contexto, parecia positivo.
Ahmed olhou para o autocarro com o respeito específico de quem reconhece uma entidade com carácter.
— O Mustapha está bem. É sempre bom sinal quando ele usa o jaguar.
— Também conheces o autocarro? — perguntou Viriato.
— Toda a gente da medina conhece o Mustapha-Fá-Fá. Ele existe há mais tempo do que a maioria dos edifícios. E tem mais opiniões do que qualquer um deles.
Ahmed instalou-se, sentando-se no banco da frente com a naturalidade de quem tem um lugar reservado. Abriu uma bolsa que devia ter dentro dela uma quantidade de coisas impossível para o tamanho que tinha, e retirou o que parecia ser um mapa desenhado à mão num guardanapo de papel.
— O plano é este — disse Ahmed, desdobrando o guardanapo com o cuidado de quem manipula um documento importante. — O Oásis Azul fica a três horas de caminho para sul, pelo deserto. No seu coração, a Fonte das Bossas. É o lugar mais sagrado da região. Sagrado para os dromedários, claro, mas também para autocarros turísticos com vocabulário francês duvidoso. — Ele deu dois toques no volante do Mustapha. O autocarro respondeu com um som de buzina que, traduzido, soava a um "eu sei, eu sei, vamos a isso!".
— Por que é que é sagrado? — perguntou Viriato, já interessado no que parecia ser uma nova aventura.
— Porque tem o segredo.
— Que segredo?
— O segredo do equilíbrio — disse Ahmed. — A fórmula que mantém o oásis com vida. Sem ela, a água seca, as palmeiras morrem, e qualquer coisa com bossas ou com rodas perde o sentido de direção. Literalmente — acrescentou. — Os dromedários ficam desorientados. E os autocarros turísticos perdem a memória dos caminhos.
O Mustapha emitiu um som prolongado de floresta noturna, que na escala dos sons do Mustapha era claramente preocupação.
— E o segredo ainda está lá? — perguntou o pai João.
Ahmed dobrou o guardanapo. Ficou calado dois segundos.
— Estava — disse. — Até ontem à noite.
Capítulo 4 — Ali Babalu e os 31 Ladrões
Ali Babalu tinha um talento único: criava planos brilhantes e, no segundo seguinte, destruía-os com a mesma dedicação. Para qualquer pessoa, isto seria um desastre. Para ele, eram duas competências distintas que ele orgulhosamente chamava de "estratégia" e "improviso".
Era magro. O bigode tentava ser imponente, mas ficava-se pelo meio caminho. A djellaba vermelha era demasiado comprida e fazia-o tropeçar a cada passo. E os olhos? Estavam sempre a calcular algo, embora os cálculos nunca dessem em nada..
Chefiava o Bando dos 31 Ladrões com uma energia que compensava a incompetência e uma voz que usava em volume alto porque achava que soava mais convincente.
— CAMARADAS — disse ele, de pé no meio da tenda, ao amanhecer, com o Pergaminho do Segredo nas mãos. — TEMOS O SEGREDO DA FONTE DAS BOSSAS!
Os 31 Ladrões aplaudiram com o entusiasmo de quem aplaudiu muitos outros planos do chefe e esperava que este fosse aquele que finalmente corria bem.
Eles ainda estavam cansados por, na noite anterior, o aspirante a estratega os ter obrigado a gastar todas as suas forças ao tentar arrastar a Pedra do Céu para decorar a sua tenda. O esforço tinha dado em nada exceto aquele Pergaminho, portanto era melhor que servisse para alguma coisa.
— O que fazemos com ele, chefe? — perguntou o número Dois, que se chamava Mustafão. Ele era o maior, o mais leal e também o mais frequentemente confuso do bando.
— VENDEMOS — disse Ali Babalu. — A quem quiser o Oásis Azul para si! Quem tiver o segredo controla a fonte. Quem controla a fonte controla a água. Quem controla a água no deserto controla o deserto!
Silêncio de admiração.
— Isso é muito bom, chefe — disse o número Três, que se chamava Hicham e era o mais inteligente do grupo, o que num grupo assim era um cargo de grande solidão.
— Obrigado, Hicham.
— Posso fazer uma pergunta?
— Podes.
— Quem vai comprar, chefe?
Pausa.
— Alguém que queira o deserto.
— Especificamente?
— ESPECIFICAMENTE — disse Ali Babalu, com a confiança de quem está a improvisar mas não quer que se note — qualquer pessoa com dinheiro e gosto por areias e palmeiras e fontes!
— Isso é uma descrição muito larga, chefe.
— É uma rede larga. As redes largas apanham mais peixe.
— Estamos no meio do deserto, chefe. Peixe é a única coisa que não vamos apanhar.
— APANHAM MAIS COISAS! — disse Ali Babalu, com a irritação de quem está a perder o fio condutor. — O que interessa é que temos o Pergaminho e sem ele o Oásis Azul vai morrer aos poucos e toda a gente vai dar por falta e então vão pagar o que eu pedir para o ter de volta!
— Ah — disse Mustafão. — Então é chantagem.
— É... negociação criativa.
— Tenho quase a certeza de que o dicionário chama a isso chantagem, chefe — insistiu Mustafão, enquanto coçava a cabeça.
— São coisas IMENSAMENTE diferentes, Mustafão, e é exatamente por isso que eu sou o chefe e tu és o número Dois.
Hicham, no canto, escreveu no seu diário: "Dia 847 de trabalhar para o Ali Babalu. O plano de hoje tem pelo menos 4 falhas estruturais. Não as vou mencionar porque da última vez fui para a tenda da cozinha fritar rissóis durante uma semana. É melhor ficar calado e esperar pelo chá".
Fechou o caderno, suspirando fundo. "Às vezes, a inteligência é um fardo pesado demais para carregar num acampamento de bandidos," pensou ele, enquanto observava o chefe a tentar ler o pergaminho ao contrário.
Lá fora, o vento do deserto soprava em direção ao oásis que começava, lentamente, a perder cor.
Capítulo 5 — O Oásis Azul Muda de Cor
O Mustapha-Fá-Fá seguiu pela estrada de terra para sul com a determinação de um veículo que conhece o caminho mesmo quando o caminho discorda.
A climatização ligou-se de repente, soprando um ar gelado, como se viesse diretamente da Sibéria. Depois, desligou-se. Voltou a ligar-se com uma temperatura própria do verão europeu e, de seguida, decidiu por conta própria que o ideal seria uma temperatura intermédia, criando um microclima interior vagamente subtropical.
— Não consigo perceber se está quente ou frio aqui dentro — queixou-se Viriato.
— Depende de onde estás sentado — disse Ahmed, sem tirar os olhos do deserto lá fora. — O banco da esquerda é sempre dois graus mais frio. O da direita ao fundo aquece mais. O do meio é imprevisível.
— Como sabes isso?
— Já viajei muito no Mustapha.
O Mustapha emitiu um som de tucano satisfeito, que na escala da Rádio Zoo era de afeto incondicional.
Quando chegaram à entrada do oásis, a realidade confirmou o pior. O Oásis Azul tinha o nome porque a luz que era filtrada pelas palmeiras e pela superfície da água da fonte criava um tom azulado único. Era uma combinação perfeita de minerais, ângulo do sol e magia. Mas, agora, algo estava profundamente errado.
Uma rocha de metal e granito, com um brilho estranho de outro mundo, tinha sido arrastada, deixando um rasto profundo na areia. Era a Pedra do Céu. Alguém a tinha movido, e o equilíbrio do sítio parecia ter estalado com ela. A água da fonte — aquele azul-turquesa mágico que parecia conter o próprio céu — estava a tornar-se cinzenta e pesada, como se estivesse a perder a vontade de brilhar. As palmeiras jovens, antes verdes e firmes, curvavam-se como se estivessem a murchar por uma sede impossível.
— Quanto tempo temos para resolver isto? — perguntou o pai João, com os olhos de engenheiro a avaliar o desastre.
— A minha avó diz que sem o segredo o oásis dura três dias — disse Ahmed. — Já passou um.
— Dois dias — disse Viriato, com a urgência a apertar-lhe o peito. — Temos apenas dois dias.
— Dois dias — confirmou Ahmed. — E o Leocádio está por aqui, em qualquer lado. Quando o oásis começa a mudar, ele sente. E fica…
Um baque surdo fez o tejadilho do Mustapha vergar. O autocarro soltou uma série de insultos em francês tão rápidos e criativos que o Pai João, por uma questão de decência profissional, informou que o motor estava a ter um ataque de tosse. Depois, murmurou para si mesmo: "Isto não é uma avaria, é um desabafo existencial..."
— É ele — disse Ahmed, com um brilho nos olhos. — O Leocádio está… perturbado.
Capítulo 6 — Leocádio e a Taxonomia
Leocádio desceu do tejadilho do Mustapha-Fá-Fá com a dignidade de alguém que não estava no tejadilho voluntariamente mas fez questão de sair de lá como se fosse um plano.
Era um dromedário de tamanho considerável, com a bossa única e bem definida de quem come bem e não faz ginástica, um pelo cor de areia com manchas mais claras que podiam ser naturais ou podiam ser o resultado de se ter encostado a uma parede recentemente pintada, e uma expressão de irritação permanente que era o seu estado de repouso.
— Pela minha análise visual e pela estrutura daquela bossa… isto é claramente um camelo! — exclamou o pai João, ajeitando os óculos.
Leocádio parou de mastigar. Virou o pescoço noventa graus, encarando o pai João com uma expressão que não era de animal, mas de um professor que acaba de ouvir um aluno dizer que dois mais dois são cinco.
— Não diga isso — sussurrou Ahmed, recuando um passo. — Ele odeia ser confundido.
— Mas, Ahmed, a classificação taxonómica é clara… — insistiu o pai João.
— PAI!
— O que foi?
— Camelos têm duas bossas — disse Viriato, com a rapidez de quem estudou antes da viagem. — Dromedários têm uma. O Leocádio só tem uma bossa. É um dromedário.
Leocádio voltou o pescoço para a frente com um bufo de satisfação, como se tivesse acabado de ganhar um debate parlamentar.
— Ele percebe o que dizemos? — perguntou o pai João.
— Percebe o tom — disse Ahmed. — O que normalmente chega.
— Desculpa, Leocádio — disse o pai João, com a seriedade com que pedia desculpa aos sistemas que tinha ofendido sem querer. — Tecnicamente reconheço agora que eras claramente um dromedário desde o início. A bossa única é um indicador inequívoco.
Leocádio considerou isto. Depois aproximou-se do pai João e cheirou-lhe a cabeça rapada por um longo momento.
— Ele aceita as desculpas — traduziu Ahmed.
— Como é que sabes?
— Se não aceitasse, cuspia.
— Ah. Fico contente por me ter desculpado.
Leocádio deitou-se ao lado do Mustapha-Fá-Fá com uma proximidade que sugeria camaradagem antiga. O Mustapha emitiu um som de elefante satisfeito. Leocádio respondeu com um som de nariz que era claramente recíproco.
— São amigos? — perguntou Viriato.
— São ambos meios de transporte com carácter forte — disse Ahmed. — Entendem-se.
Viriato abriu o Passaporte e escreveu no topo da página nova: "Leocádio. Dromedário. Uma bossa. Não é um camelo. Importa". Era o tipo de nota que depois ia precisar de explicar melhor, mas que, no momento, era a mais importante a registar.
Capítulo 7 — O Plano do Ali Babalu (E Os Seus Problemas)
O acampamento do Bando dos 31 Ladrões ficava a dois quilómetros do oásis, atrás de uma duna suficientemente grande para esconder trinta e uma pessoas e os seus pertences, exceto quando o vento soprava do norte, o que acontecia regularmente. Quando isso se verificava, o vento deslocava a duna o suficiente para o acampamento ficar visível da estrada. Hicham tinha sugerido mudar de lugar três vezes. Das três vezes Ali Babalu tinha dito que a duna não se move. Ele teimava que a duna era um marco geográfico imóvel, o que obrigava Hicham a passar metade do dia a explicar por que, subitamente, o acampamento tinha ficado exposto ao sol e aos olhos de quem passava.
Ali Babalu estava sentado na sua tenda com o Pergaminho do Segredo aberto na sua frente, a tentar lê-lo.
O problema era que estava escrito em Tachelhit, que é um dialeto berbere falado nas montanhas do Atlas, com anotações em árabe clássico. Ali Babalu só falava árabe marroquino comum e um pouco de francês que não era suficientemente bom para praguejar corretamente, mas que chegava para os menus de restaurante.
— Hicham — disse.
— Sim, chefe.
— Tu sabes ler tachelhit?
— Não, chefe. E nem o senhor, nem o Mustafão, nem o resto do bando. A menos que alguém tenha aprendido secretamente durante o chá, continuo a ser o único que sabe fazer contas básicas..
— Então para que serves?
— Para o lembrar das coisas de que se esquece, apontar as falhas estruturais dos planos, em silêncio, e fazer o chá — disse Hicham, com uma calma que vinha de anos de prática.
— Ah. Sim. Faz chá.
Ali Babalu voltou ao Pergaminho. Era claramente algo importante — tinha um selo em cera com a forma de uma bossa, o que era um nível de detalhe que poucos documentos tinham — mas o conteúdo estava completamente fora do seu alcance.
— Mustafão — chamou.
— Chefe! — apresentou-se o número Dois.
— Vais ao mercado de Zagora e encontras alguém que leia tachelhit e esteja disposto a traduzir um documento sem perguntar demasiadas perguntas.
— Como é que sei quem isso é?
— Perguntas à volta.
— A perguntar "quem é que lê tachelhit e não faz perguntas?"
— Exatamente.
— Isso não é um pouco... óbvio, chefe?
— Mustafão.
— Sim?
— Vai.
Mustafão foi. Hicham serviu o chá enquanto observava o chefe de novo a tentar ler o pergaminho ao contrário, com uma expressão de quem esperava que as letras, por puro medo, se organizassem numa língua que ele compreendesse.
Não aconteceu.
Lá fora, atrás da duna que tinha voltado a mover-se, dois olhos observavam o acampamento com cuidado. Depois mais dois. Depois mais dois e uma bossa.
Capítulo 8 — A Operação Descoberta
O pai João tinha dois métodos para descobrir coisas encobertas.
O primeiro era a engenharia terapêutica: analisar o sistema, mecânico ou psicológico, identificar o bloqueio e encontrar a forma de o libertar sem partir nada. Era o método que preferia, e preferia executá-lo desenhando esquemas rápidos na areia com um pau, gesticulando com a energia de quem resolve um puzzle impossível.
O segundo era a hipnose. Era o método novo, aprendido por correspondência da Universidade de Badajoz (Curso Intensivo de Hipnose Terapêutica e Revelação de Verdades Encobertas, Volume 1 de 3). Era o método que usava quando o primeiro não chegava e havia algum sistema humano com informação importante que precisava de ser revelada.
— O que sabemos — disse o pai João, agachado na sombra do Mustapha, desenhando um círculo na areia que representava o acampamento — é o seguinte. O Pergaminho foi roubado ontem à noite. O Bando dos 31 está a dois quilómetros. Ali Babalu não consegue lê-lo. Portanto, ainda está intacto. E temos dois dias antes de o oásis secar.
— Também sabemos que o Mustafão vai ao mercado buscar um tradutor — disse Ahmed, que tinha acabado de voltar da sua expedição de reconhecimento com areia nos joelhos. — Ouvi-os à beira da duna.
— Como passaste pela duna sem seres visto? — perguntou o pai João, levantando-se.
— Fui com o Leocádio — disse Ahmed. — No deserto, uma pessoa ao lado de um dromedário não se nota. Uma pessoa sozinha nota-se sempre.
O Leocádio, que estava à sombra do lado oposto do Mustapha, emitiu um som de nariz que era, sem dúvida, de concordância.
O Mustapha, sentindo a importância do momento, soltou um rugido de leão que ecoou pelo deserto, um aviso mecânico de que o tempo estava a esgotar-se.
— Então temos uma janela de oportunidade — disse o pai João. — Antes de o Mustafão voltar, o Pergaminho não tem utilidade para eles. É a altura de agir.
— Para agir precisamos de entrar no acampamento — disse o Viriato. — Trinta ladrões.
— Trinta — corrigiu Ahmed. — O Mustafão foi ao mercado.
— Trinta ladrões — disse o pai João. — Contra dois adultos, dois miúdos e um dromedário.
— E o Mustapha — disse Ahmed.
O Mustapha emitiu uma praga em francês com tanta intensidade que até a areia pareceu vibrar.
O pai João retirou o manual de hipnose da mochila. Abriu-o numa página que continha uma ilustração bizarra de um relógio de bolso a derreter. Leu um parágrafo, franziu a testa, e murmurou: "Isto parece mais uma receita de culinária do que hipnose, mas vamos tentar." Guardou o livro.
Ficou em silêncio, o tempo de um engenheiro a arquitetar uma ideia. O Mustapha soltou outro aviso, mais urgente: guinchos de macacos e cheiro a óleo queimado.
O pai João fechou o manual com um estalo, guardou-o na mochila e limpou o pó da testa com o lenço. Olhou para o Viriato, depois para o Ahmed, e finalmente para o autocarro, que parecia estar à escuta.
— O plano não é perfeito — admitiu, com um sorriso de quem gosta de desafios. — Mas, se o Mustapha estiver disposto a cooperar, é o melhor que temos. Preparem-se.
O Mustapha voltou ao francês macarrónico que, traduzido pelo pai João, significava aproximadamente: "Estou pronto para #&$# a º#%/& daqueles espécies de ectoplasmas!"
Capítulo 9 — Mustapha-Fá-Fá Entra em Cena
O Mustapha-Fá-Fá aproximou-se do acampamento do Bando dos 31 às três da tarde, com o sol no máximo e o calor do deserto a criar aquele efeito de ondulação no ar que faz as coisas ao longe parecerem incertas.
Vinha com o sistema sonoro no volume máximo.
A estação era a Rádio Zoo, que naquela tarde tinha um programa especial de animais da savana africana que incluía o que parecia ser uma manada completa de búfalos, dois leões e algo que ninguém conseguia identificar mas que era muito grande e muito barulhento.
Trinta ladrões saíram das tendas.
— O QUE É ISTO? — gritou o número Quatro, que estava a dormir.
— É um autocarro — disse o número Doze, que era mais calmo.
— POR QUE ESTÁ A FAZER ESTA BARULHEIRA?
— Não sei.
— É um ataque?
— Os ataques normalmente não usam autocarros turísticos.
— ENTÃO O QUE É?
O Mustapha travou em seco, levantando uma cortina de areia que envolveu os ladrões. A porta abriu-se com um suspiro metálico dramático. O silêncio que se seguiu só foi quebrado pelo som distante de uma girafa a arrotar (escolha artística duvidosa, que o Mustapha decidira ativar). O pai João desceu os degraus com a calma de alguém que chegou de propósito e tem todo o tempo do mundo, com uma pasta de couro debaixo do braço e os óculos de leitura na cara.
— Boa tarde — disse, em árabe marroquino, que não estudou mas que sabia porque às vezes as línguas chegam quando são precisas. — Sou especialista em gestão de ecossistemas e património histórico. Ouvi dizer que têm um pergaminho que, francamente, está a sofrer de uma má otimização de conservação. Vim oferecer os meus serviços de tradução e restauro.
Ali Babalu saiu da sua tenda com os olhos a brilhar com a intensidade específica de alguém que tem um problema e acabou de aparecer uma solução.
— Tradução? — disse.
— Tachelhit, árabe clássico, berbere tifinagh — disse o pai João, com a confiança de alguém que leu os termos numa qualquer enciclopédia. — Especialmente pergaminhos de valor histórico. Especialmente da região do Atlas.
— E como é que sabe que eu tenho um pergaminho?
— Não sei se tem — disse o pai João. — Pergunto a toda a gente. Às vezes há.
Ali Babalu considerou isto. Era possível. Era conveniente. Era exatamente o que precisava. Três coisas que eram suspeitas individualmente mas que juntas pareciam um milagre.
— Entre — disse.
O pai João entrou.
O Mustapha-Fá-Fá mudou de estação para os palavrões em francês, que no contexto da tarde de deserto funcionavam como música de fundo intensa.
Do lado de fora, atrás da duna deslocada, Viriato e Ahmed trocaram olhares. Ahmed fez um sinal com a mão. Leocádio levantou-se.
— Fase dois — disse Viriato.
Capítulo 10 — A Hipnose (Com Resultados Variáveis)
A tenda de Ali Babalu tinha uma decoração que era o resultado de muitos anos de ladrão com gosto, que não é a mesma coisa que bom gosto: havia tapetes sobrepostos em padrões que discordavam, lanternas de cores que não comunicavam entre si, e uma mesa baixa coberta de objetos que podiam ter valor ou pareciam ter valor. Essa era uma distinção que Ali Babalu não sabia fazer mas achava que sim.
O pai João sentou-se na almofada indicada. Ali Babalu sentou-se em frente. Entre eles, o Pergaminho do Segredo, aberto.
— Pode ler? — disse Ali Babalu.
— Posso — disse o pai João, inclinando-se para ver. — Mas antes da tradução, se me permite — tirou da pasta um fio de prata grosso, de aspeto antigo, do qual pendia um pequeno espelho redondo, com a moldura manchada pelo tempo. Segurou-o na linha de visão do Ali Babalu. — Há uma prática que uso com todos os clientes. Uma breve sessão de alinhamento de foco. Melhora a retenção da informação em setenta e dois por cento.
— Setenta e dois por cento? Isso é muito específico.
— É uma percentagem de estudo — disse o pai João. — Muito específico.
— E o que é que eu tenho de fazer?
— Olhar para o reflexo no espelho. E ouvir a minha voz.
Ali Babalu, fascinado pelo brilho do fio, fixou o olhar no espelho. A cabeça rapada do pai João refletia-se nele, criando um efeito de profundidade circular que era, objetivamente, hipnótico. O pai João, entretanto, retirara o seu Volume 1 da pasta e começou a ler com a voz calma recomendada pelo manual:
— Está relaxado. A tenda é fresca. O deserto está lá fora mas não entra aqui. Vai sentir uma sensação de abertura e clareza. Quando eu perguntar uma coisa, vai querer responder com honestidade total. É uma sensação agradável de partilha…
Ali Babalu piscou os olhos muito devagar. Uma vez. Duas vezes. O seu ego, habituado a ser o centro das atenções, lutava contra o relaxamento, mas a monotonia da voz do engenheiro era poderosa.
— Onde guarda as coisas importantes? — perguntou o pai João.
— No baú vermelho — murmurou Ali Babalu, com a voz embaciada. — Com o cadeado que tem a forma de camelo…
— De camelo?
— De camelo. Mas eu acho que é um dromedário. Tem só uma bossa.
— Interessante. E o Pergaminho…
— Está na mesa — disse Ali Babalu. — Bem à frente da sua cara.
O pai João olhou para a mesa. De facto.
Houve uma pausa. O pai João, sentindo-se vitorioso, deixou escapar um suspiro de alívio que Ali Babalu ouviu. O vilão abriu os olhos completamente, o pai João mexeu-se, o reflexo do espelho perdeu o foco e uma rajada do vento norte entrou na tenda e arrancou-lhe o fio da mão da mão. O espelho caiu no tapete.
— Espere aí. — Ali Babalu levantou-se num salto, a djellaba vermelha a prender-se no pé da mesa. — Você está a tentar hipnotizar-me com um manual de instruções? E, pelo que percebi, com apenas o primeiro volume?
O pai João fechou o livro, tentando manter a compostura de um engenheiro apanhado com a ferramenta errada.
— Tecnicamente, o Volume 2 está retido na alfândega.
O rosto de Ali Babalu, antes sonolento, estava agora vermelho de pura indignação.
— GUARDA! — berrou ele, a voz a ecoar pela tenda como um trovão.
A fase dois tinha acabado de se transformar num problema de proporções épicas.
Capítulo 11 — Leocádio, Herói Improvável
A fase dois era: enquanto o pai João distraía Ali Babalu na tenda, Viriato e Ahmed entravam pelo lado de trás do acampamento, encontravam o Pergaminho (que estava na mesa, confirmado por hipnose parcial) e saíam antes que alguém desse conta.
O problema era que "saíam antes que alguém desse conta" tinha deixado de ser uma opção no momento em que Ali Babalu gritou GUARDA e o guarda em questão (número Oito, entusiasta e rápido) saiu da tenda ao lado exatamente quando Viriato chegava à entrada da tenda principal.
Viriato congelou. O coração deu um salto, mas o instinto de sobrevivência (ou talvez apenas a teimosia) falou mais alto.
— Olá — disse, com um sorriso que esperava ser mais corajoso do que parecia.
O número Oito, que estava a meio de uma sesta, arregalou os olhos. A sua mão foi à cintura, mas apenas encontrou uma bolsa de moedas vazia.
— INTRUSO! — berrou ele, a voz a falhar um pouco na nota aguda.
— Turista — corrigiu Viriato, mantendo a calma. — Com mapa, aliás.
— TURISTAS NÃO SÃO PERMITIDOS AQUI! — O guarda era um gigante desajeitado, e a diferença de tamanho entre ele e Viriato era quase cómica.
O acampamento entrou em polvorosa. Tendas começaram a ser abertas com puxões violentos e ladrões tropeçavam uns nos outros, saindo para o exterior com a velocidade frenética de formigas cujas casas foram subitamente descobertas.
Ahmed, na sua velocidade supersónica, apareceu do lado oposto com o Pergaminho na mão.
— JÁ O TENHO — disse. — ELE NEM ME VIU!
— ÓPTIMO — disse Viriato. — AGORA SAÍMOS.
— COMO?? —
Era uma boa pergunta. Havia vinte e oito ladrões entre eles e o Mustapha, que estava do outro lado do acampamento e que tinha ligado novamente a manada de búfalos, o que era barulhento mas não útil de imediato.
Depois do barulho dos búfalos veio um barulho diferente.
Um barulho de bossa a colidir com a parede de uma tenda.
Depois de bossa a colidir com outra tenda.
Era Leocádio, que tinha sido deixado fora do acampamento, porque dromedários não são discretos ao entrar num acampamento. Ele entrou como se fosse uma manada de búfalos, honrando a sonoplastia do Mustapha-Fá-Fá. Ele reparara numa coisa brilhante no interior do acampamento: um botão de latão numa djellaba, e tinha avançado em direção ao botão com a determinação de qualquer ser que se distrai com coisas brilhantes.
Essa determinação levou-o, no caminho para o botão, a passar por cima de quatro tendas, por entre seis ladrões e diretamente pelo meio do acampamento na direção de Viriato e Ahmed.
— LEOCÁDIO — disse Ahmed.
Leocádio parou. Olhou para Ahmed. Olhou para o botão. Olhou para Ahmed outra vez. A expressão de um dromedário que está a gerir prioridades em tempo real.
— Temos de sair — disse Ahmed.
Leocádio cheirou o Pergaminho. Depois cheirou o Ahmed. Depois virou-se de costas com a velocidade de alguém que tomou uma decisão e não está para perder tempo.
Subiram.
A bossa de Leocádio acomodava dois miúdos com algum aperto mas com uma segurança que era de estrutura sólida. Atravessou o acampamento na direção oposta à da entrada, com a velocidade de um dromedário motivado, que é uma velocidade que a maioria das pessoas subestima até apanhar com ela.
Trinta ladrões ficaram para trás, a olhar para uma nuvem de areia e dois miúdos que desapareciam em cima de uma bossa única.
— Era um camelo — disse o número Quatro.
— ERA UM DROMEDÁRIO — disse Ali Babalu, que tinha saído da tenda a tempo de ver a saída. — UMA BOSSA! MAS QUANTAS VEZES …
Mas Leocádio já estava longe demais para ouvir o ralhete. O que era talvez melhor para toda a gente.
Capítulo 12 — A Tradução (E a Descoberta)
Reunidos debaixo do Mustapha, com o motor a trabalhar ao ralenti e a Rádio Zoo num programa de pássaros amazónicos que era surpreendentemente tranquilo, o pai João abriu o Pergaminho.
— Posso ler? — perguntou Viriato.
— Tachelhit — disse o pai João. — Mas há sempre uma forma.
Abriu a pasta. Tirou um livro de capa gasta: Dicionário Prático de Línguas Berberes para o Viajante Curioso. Era uma relíquia de 1961, cheia de notas marginais rabiscadas à pressa. Viriato observou o pai a concentrar-se. Não era apenas tradução; era como se ele estivesse a montar um puzzle onde as peças eram sons antigos e segredos esquecidos. Ao fim de um momento, o pai levantou o olhar, com um brilho de descoberta nos olhos.
— São instruções — disse, ao fim de um momento. — Não é um segredo abstrato. É uma receita.
— Uma receita de quê? — perguntou Ahmed.
— Da mistura de minerais que se adiciona à nascente da Fonte das Bossas uma vez por ano, na lua cheia de Julho. Sem ela, os minerais diluem e a água perde as propriedades que fazem o oásis ter a cor que tem. E sem essa cor, o ecossistema que depende dela — plantas, animais, a orientação dos dromedários que usam o azul como referência de navegação…
— Perde o sentido de direção — disse Ahmed. — Tal como a minha avó diz.
— Exatamente — disse o pai João. — E a lua cheia de Julho é...
— Amanhã à noite — disse Ahmed.
Silêncio.
— Isso é muito apertado — disse Viriato.
— É — concordou o pai João. — Mas ainda temos tempo. E temos a receita.
— Os ingredientes?
— Um óleo, óleo de tâmara-rainha — disse o pai João. — E mais dois que talvez sejam minerais, mas que eu não consigo identificar.
Ficou a olhar para duas palavras que o dicionário de 1961 não tinha.
— Ahmed — disse.
— Sim?
— A tua avó… sabe de minerais?
— A minha avó sabe de tudo — disse Ahmed, com a convicção de quem nunca foi contrariado nisto.
— Boa. Vamos visitá-la.
O Mustapha-Fá-Fá, que há já uns momentos estava a dar umas aceleradelas impacientes, apitou, fez uma derrapagem e apontou em direção à medina antes de receber qualquer ordem, o que era o tipo de iniciativa de que precisavam naquele momento.
Capítulo 13 — A Avó de Ahmed
A avó de Ahmed chamava-se Fatima Oulhaj e ocupava o andar de cima de uma casa da medina de Marraquexe. Cheirava a especiarias e a livros velhos e a qualquer coisa que era difícil de nomear mas que o pai João descreveu como o cheiro de alguém que sabe mais do que conta. Era pequena, com cabelo branco preso num lenço verde, e uns olhos que eram da mesma cor de café do Ahmed mas com décadas adicionais de observação incorporadas.
— Ahmed — disse, sem surpresa quando o viu chegar com um pai careco-atlético, um miúdo com um caderno, e um pergaminho berbere. — Então aconteceu.
— A avó sabia?
— Sabia que ia acontecer. Não sabia quando.
— Por que não avisou?
— Avisei. Tu não estavas a ouvir. Estavas a investigar o mistério do açougue do mercado da Djemaa el-Fna.
— Esse também era importante!
— Discutimos isso depois. Agora — estendeu a mão, e o pai João, com a naturalidade de quem reconhece autoridade quando a vê, deu-lhe o Pergaminho — precisam da mistura para salvar a Fonte.
Leu. Leu outra vez. Assentiu.
— Azurite — disse. — Azul dos minerais, do cobre. Cresce nas rochas do Anti-Atlas. Havia muito, mas foi-se usando ao longo dos séculos e agora é difícil de encontrar no mercado. — Olhou para Viriato. — Mas eu tenho. Pó de rosa-do-deserto, também tenho. E óleo de tâmara-rainha, toda a gente tem.
— Tem tudo? — disse Viriato.
— Tenho coisas para todas as eventualidades — disse Fatima, com uma expressão que era exatamente a mesma que o Nuno Limpa Gavetas tinha quando dizia a mesma coisa.
Viriato escreveu isso no Passaporte. Era o tipo de coincidência que merecia ser guardada.
A avó de Ahmed foi a uma caixa de madeira no canto da sala, retirou um frasco de pó azul escuro, outro que parecia conter azeite e um saquinho de pano minúsculo. Antes de os pôr na mão do pai João, interrogou-o.
— Isto não se entrega a quem quer apenas para guardar. Entrega-se a quem percebe que isto é o sangue da terra. Estás pronto para essa responsabilidade, Engenheiro?
O pai João corou, hesitou um segundo, mas antes que respondesse, Fatima entregou-lhe os frascos e o saquinho.
— Sinto o teu coração puro. És digno e valente. Isto está bem entregue. A quantidade a usar está no Pergaminho: 10 gotas de cada e duas pitadas; misturar bem na tigela sagrada — sentenciou ela. — A hora é o nascer da lua. E não esquecer de repor o Pergaminho debaixo da Pedra do Céu e recolocá-la no lugar.
O Pai João, com reverência, desenrolou o pergaminho até ao fim. O texto ali era minúsculo, quase um sussurro em tinta. Ele ajustou os óculos, forçando a vista. — Aqui — sussurrou ele, apontando para uns arabescos que antes pareceram apenas um borrão. — Sempre esteve aqui.
E leu: "O Guardião despeja 10 pingos de azul na nascente quando se faz a lua cheia. Só o guardião que conhece os segredos da areia pode lançar a magia".
— O Guardião? Mas quem é ele? O pergaminho fala de alguém que conhece os segredos da areia, alguém com paciência de pedra… — Ahmed olhou para a avó, depois para o João. O silêncio na sala tornou-se pesado. Fatima apontou com o queixo para a janela, onde Leocádio mastigava calmamente uma erva seca.
— O Leocádio? Guardião da Fonte? Paciência de pedra? Nah, não pode ser… — riu-se o Ahmed.
— O Leocádio — disse a avó. — É sempre um dromedário que guarda a Fonte. Isso também está no Pergaminho, se lerem bem a terceira coluna.
Todos olharam para Leocádio, que, indiscretamente, tinha metido o focinho pela janela da velha senhora. Ele ia ruminando com uma expressão que aparentava… Bem, aparentava cara de camelídeo, mas ciente da importância do seu papel.
— Isto vai ser complicado — disse Viriato.
— Porquê? — disse Ahmed.
— Porque os ladrões ainda querem o Pergaminho. Vão tentar impedir.
Silêncio. Depois a avó de Ahmed disse, com uma calma que era a de alguém que conhece muito bem os problemas e a sua solução:
— Então têm de os ocupar com outra coisa, não têm?
Capítulo 14 — O Plano Final (Com Menos Hipnose e Mais Autocarro)
O plano era simples. Que era o tipo de plano que o pai João preferia, não porque os planos simples eram sempre melhores, mas porque os planos complicados tinham mais pontos de falha e o tempo estava curto.
— O Mustapha leva Ali Babalu e o bando numa excursão — disse o pai João.
— É uma ideia corajosa — observou Ahmed, franzindo a testa. — O Mustapha não obedece a gente que cheira a ladrão. Ele tem um olfato apurado para o caráter das pessoas.
— Não obedece. Mas pode ser convencido a transportá-los para um destino específico se acreditar que é a coisa certa a fazer.
Todos olharam para o Mustapha-Fá-Fá, estacionado na rua estreita da medina. O autocarro parecia estar a dormir, mas um dos seus faróis piscou, como se estivesse a ouvir a conversa.
— Como o convencemos? — perguntou Viriato.
— Dizemos-lhe que há um festival de música tradicional berbere em Zagora — disse o pai João. — Com canções que têm sons de animais da savana incorporados. E que vai ser transmitido na Rádio Zoo em direto.
— Isso existe? — perguntou Ahmed.
— Provavelmente não — admitiu o pai João. — Mas até chegarem a Zagora e descobrirem que, no máximo, podem visitar o museu, já nós terminámos o que temos de fazer.
— E como convencemos os 31 ladrões a entrar no autocarro? — perguntou Viriato. — Eles não são propriamente turistas.
Ahmed sorriu, aquele sorriso de quem conhece cada canto da medina e cada truque de vendedor.
— Deixem isso comigo. Eu não vou vender apenas uma viagem: "excursão ao Festival de Zagora, preço raso, saída imediata". Vou também prometer-lhes o segredo da fama.
— Fama? — repetiu o pai João.
— É bem visto. O Ali Babalu não quer o Pergaminho pelo dinheiro — disse Viriato, observando o pai. — Ele quere-o porque quer ser importante. Se lhe fizermos sentir que o festival de Zagora o pode tornar famoso, ele salta logo para o autocarro.
O pai João olhou para o filho, impressionado.
— Quando ficaste tão bom a ler as pessoas, Viriato?
Viriato hesitou, olhando para o pai. O perigo daquela aventura era real, e ele sentia o peso da responsabilidade, mas ao ver o sorriso cúmplice do pai, sentiu-se mais seguro.
— Aprendi a observar. Alguém que eu conheço ensinou-me que os problemas mais difíceis resolvem-se com a estratégia certa, não com força bruta.
O pai João riu-se, um som genuíno que quebrou a tensão.
— O Volume 2 do meu curso de hipnose chega na semana que vem. Acho que não vou precisar de o ler. Tu já tens o jeito todo.
— E eu já sei qual o engodo que vamos usar com o Ali Babalu: dizemos-lhe que o festival de Zagora precisa de um apresentador. Alguém com presença, com voz de comando, com autoridade natural. Ele não vai resistir — lançou o Ahmed.
— Isso é muito lisonjeiro e muito falso — disse Viriato.
— É exatamente o equilíbrio certo para o Ali Babalu — respondeu o Ahmed.
Ele já estava a caminhar para o Mustapha. O autocarro emitiu um som de motor a aquecer, um rugido que soava estranhamente a um "estou pronto para a música!".
— Vamos a isto — disse Ahmed, ajustando a sua djellaba. — Vou vender-lhes uma excursão exclusiva, com ar condicionado "estilo realeza" e um lugar reservado para o maior líder que este deserto já viu.
O pai João olhou para o Mustapha, depois para o filho.
— Se isto funcionar, merecemos todos um chá com muita hortelã.
O Mustapha-Fá-Fá, parecendo adivinhar o que se estava a preparar, ligou a sua ventoinha interna na máxima velocidade e soprou um ar fresco e perfumado, como se estivesse a ensaiar o papel de autocarro de luxo. A aventura estava prestes a entrar na sua fase mais arriscada.
Capítulo 15 — O Maior Festival Que Nunca Existiu
Explicado o destino da viagem e os seus objetivos, não foi difícil convencer o Mustapha-Fá-Fá. Ele emitiu uma buzinadela que era claramente de entusiasmo. Um festival de som de aves exóticas! Melhor que dez palavrões franceses, mesmo cabeludos.
Convencer o bando dos 31 ladrões foi surpreendentemente fácil. O regateio sobre o preço da viagem durou um bom bocado, seguindo a tradição marroquina de que, se não houver discussão, a viagem não tem valor. Mas a arte de rei da rua do Ahmed facilitou o negócio.
Ali Babalu subiu para o Mustapha-Fá-Fá com a dignidade de alguém que foi reconhecido. Parou junto ao espelho retrovisor, ajustou o colarinho da djellaba vermelha e lançou um olhar de aprovação ao seu próprio reflexo. "Um apresentador precisa de presença", murmurou para si mesmo, endireitando o bigode que, apesar de tudo, se recusava a ser imponente.
— Apresentador — disse para Mustafão, que o seguia com a mala. — Eu sempre soube que tinha presença.
— Sim, chefe.
— Uma voz de comando.
— Sim, chefe.
— Autoridade natural.
— Sim, chefe. — Pausa. — Que festival é este mesmo, chefe?
— Um festival… — disse Ali Babalu, com o tom de quem não sabe os detalhes mas está convicto de que não importam. — Um festival importante. Em Zagora. Com música e animais da savana.
— Isso é uma combinação estranha, chefe.
— A arte é imprevisível, Mustafão.
O Mustapha fechou a porta com um estalo que foi satisfatório para si. Os 31 ladrões estavam a bordo com as malas e as expectativas.
A climatização ligou-se no nível simulação de brisa do Mediterrâneo, que era o nível de humor mais benigno do Mustapha. O som de mochos a chamar amigos encheu o autocarro. Ali Babalu instalou-se no banco da frente com a postura de um apresentador a caminho do seu destino glorioso.
— E o rapaz-guia? — perguntou, olhando para trás, onde Ahmed devia estar. — A cara dele pareceu-me familiar…
— Ficou para tratar do equipamento — disse Hicham, do banco do meio, com a neutralidade de quem sabia que estava a dizer uma meia-verdade e que, no fundo, só queria que o chefe parasse de tentar ler o pergaminho ao contrário.
— Equipamento, claro — disse Ali Babalu, voltando-se para a janela. — Isto é mesmo profissional.
O Mustapha arrancou em direcção a Zagora.
Ninguém pensou que o festival podia não existir.
Hicham escreveu no seu diário: Dia 848. Viajo para Zagora num autocarro que pragueja em francês e para um festival que provavelmente não existe. Talvez seja altura de mudar de emprego. Fechou o caderno. Olhou pela janela. O deserto era bonito, ao menos.
Capítulo 16 — A Lua Cheia da Fonte das Bossas
A lua cheia de julho nasceu sobre o Oásis Azul às 22h14, que era precisamente a hora indicada pelo Pergaminho e confirmada pelo pai João através de uma aplicação astronómica no telemóvel, que chegava ao mesmo resultado por dois métodos completamente diferentes.
O oásis estava mais cinzento. Mas não completamente. As margens tinham perdido cor mas o centro, onde a nascente borbulhava, ainda tinha um resquício de azul que era como uma memória do que tinha sido.
Leocádio estava ao lado da Fonte.
Chegara antes de todos, percorrendo o caminho que apenas os dromedários conheciam desde a época em que estes se orientavam pelo cheiro da água da fonte, tal como os navegantes se orientavam pelas estrelas. Estava calmo, o que não era comum no Leocádio, com uma atitude que era diferente da do dia-a-dia: não o Leocádio irritável que cuspia e se distraía com brilhantes, mas algo mais antigo, mais solene, que havia na sua espécie desde ainda antes dos humanos terem nomes para os lugares.
— Está diferente — murmurou Viriato, ao pé do pai João.
— Está em casa — disse o pai João. — É diferente.
Ahmed preparou a mistura. Os produtos dos frascos e do saquinho da avó foram medidos com a precisão que o Pergaminho indicava e misturados na tigela de pedra que estava junto à nascente. Estava lá há séculos para esse propósito exato.
— E agora? — disse Viriato.
— Agora damos ao Leocádio — disse Ahmed. — E esperamos.
Leocádio cheirou a tigela. Depois olhou para Ahmed. Depois olhou para a tigela outra vez. Ahmed fez um sinal com a mão, suave, o gesto de quem faz isto há gerações mesmo que seja a primeira vez nesta vida específica.
Leocádio pegou na tigela com os lábios, com uma delicadeza que surpreendeu toda a gente. Leocádio não caminhou; ele deslizou, com uma solenidade que parecia desmentir a sua bossa desajeitada. Ao chegar à borda da nascente, baixou o pescoço longo com uma precisão cirúrgica, inclinando a tigela de pedra com a delicadeza de quem serve um banquete real. E despejou a mistura na água: precisamente dez pingos.
O silêncio esticou-se por dez segundos — dez segundos que pareceram uma eternidade, onde a única coisa que se ouvia era a respiração acelerada de Viriato. Então, um som grave, como o de um suspiro profundo da própria terra, subiu da nascente. A água não borbulhou apenas; ela despertou.
A água ficou diferente — não de um momento para o outro, mas com a subtileza de uma luz que muda de ângulo e ilumina qualquer coisa que estava lá mas não se via. O azul-turquesa, antes baço, começou a pulsar como um coração. Voltou primeiro ao centro, depois às margens. Onde chegava, as folhas das palmeiras mais pequenas ficavam com uma cor que era de coisa viva e recuperada.
Depois, colocado o Pergaminho no exato local donde tinha sido roubado, foi só esperar que a força conjugada do Leocádio e do pai João repusessem o pesado meteorito no sítio original. O equilíbrio fora restabelecido.
Leocádio voltou para o lado de Viriato, sentou-se na areia, e encostou a bossa ao ombro de Viriato com a leveza de alguém que fez o que tinha de fazer e está contente com isso.
— Obrigado, Leocádio. Foste muito competente — disse Viriato, com um sorriso de alívio.
Leocádio respondeu com um som esquisito, meio fungadela, meio assobio: PTCHUI!
Ahmed riu-se, limpando uma gota de saliva que lhe tinha saltado para a testa.
— Não percebo cuspo no escuro, mas pelo brilho nos olhos dele, acho que ele aceita o elogio.
Capítulo 17 — Zagora e o Destino de Ali Babalu
O Mustapha-Fá-Fá, movido por uma indignação mecânica que só os autocarros com alma possuem, conduziu toda a noite. O silêncio dentro do autocarro era absoluto, interrompido apenas pelo ressonar rítmico de 31 ladrões, um som que lembrava uma serração de madeira a trabalhar a meio gás. Ali Babalu, no banco da frente, sonhava que estava a receber um Óscar, um Grammy e um Prémio Nobel da Paz, todos ao mesmo tempo, enquanto usava uma djellaba feita de ouro puro.
O despertar foi brutal. O Mustapha travou a dois quilómetros do centro de Zagora, não por uma paragem de autocarro, mas porque o seu sistema sonoro, sintonizado na Rádio Zoo, tinha acabado de detetar a ausência total de "música berbere com sons de animais da savana" no horizonte.
O autocarro emitiu um guincho de travões que soava a uma crítica literária severa. Depois, mudou para a Estação 2. O volume estava tão alto que Ali Babalu saltou do banco, com o bigode a vibrar de susto.
— O QUE É ISTO? — berrou ele, tentando manter a pose de apresentador. — ONDE ESTÁ A MÚSICA? ONDE ESTÁ O PÚBLICO?
O Mustapha respondeu com uma rajada de palavrões em francês tão criativos que até o Mustafão, que não percebia uma palavra, se sentiu ofendido. O autocarro abriu a porta com um estalo seco e recusou-se a andar mais um centímetro.
— Ele diz — traduziu Hicham, que trazia um dicionário de francês de bolso — que o festival é uma farsa e que não quer ser cúmplice de um crime cultural. E mais uns palavrões cabeludos que me recuso a traduzir.
Ali Babalu olhou em volta. Estavam no parque de estacionamento do Museu Regional de Música e Cultura Berbere de Zagora. O edifício era imponente, silencioso e, o mais importante, tinha uma faixa enorme à entrada: "PROCURA-SE APRESENTADOR. URGENTE. O ANTERIOR FOI DESPEDIDO POR TENTAR TOCAR TAMBOR COM UM PIASSABA."
Ali Babalu sentiu o destino a chamar pelo seu nome. Esqueceu o festival, esqueceu o pergaminho e esqueceu que, até cinco minutos atrás, estava a sonhar com ouro.
— Apresentador — sussurrou ele, alisando a djellaba vermelha que estava amarrotada da viagem. — O destino não se questiona, Mustafão. Ele apenas se cumpre.
Entrou no museu com a confiança de quem é dono do lugar. O responsável, um homem de óculos redondos e desespero nos olhos, viu Ali Babalu a entrar.
— É o candidato? — perguntou o responsável.
— Sou o homem que o seu museu precisa — declarou Ali Babalu, com uma voz de barítono que ele tinha inventado há dez segundos.
— Sabe algo sobre música berbere?
— A minha vida é uma composição complexa — respondeu Ali, sem fazer a menor ideia do que estava a dizer.
O responsável suspirou de alívio.
— Ótimo. Suba ao palco. O público está impaciente.
Ali Babalu subiu ao palco, tropeçando na bainha da djellaba, mas recuperando com um gesto elegante. À sua frente, trinta pessoas esperavam. Ele olhou para o Mustafão, que lhe fez um sinal de "polegar para cima".
Hicham, no canto da sala, abriu o seu caderno. Escreveu: "O Ali Babalu é apresentador num museu. Ninguém foi preso. O autocarro escolheu o destino melhor do que nós. Estudar possibilidade de mudar de emprego para sector cultural".
E, enquanto Ali Babalu tentava explicar, com gestos largos e convicção inabalável, que a música berbere era, na verdade, uma forma de comunicação secreta com as estrelas, o Mustapha-Fá-Fá, lá fora, ligou o rádio. Pela primeira vez em anos, sintonizou uma estação de música clássica. Parecia estar finalmente satisfeito.
Ali Babalu, pelo menos por aquela noite, tinha encontrado o seu palco. E, como Hicham anotou no diário, foi a primeira vez que o chefe não tentou roubar nada — exceto, talvez, a atenção de todos na sala.
Capítulo 18 — A Última Manhã em Marraquexe
Na última manhã em solo marroquino, Viriato acordou com o sol ainda baixo e foi até à varanda da casa da avó de Ahmed, onde tinham ficado.
Marraquexe acordava devagar. A medina cheirava a pão e a especiarias e a qualquer coisa que era de pedra antiga e história acumulada. Os pombos nas cúpulas faziam barulho de pombos, que é o mesmo barulho em todo o mundo. Ao fundo, o Mustapha estava estacionado na rua, ligeiramente inclinado para um lado porque a rua era estreita e o Mustapha era largo e havia um equilíbrio a ser negociado.
Ahmed chegou com chá numa bandeja.
— A medina não deixa ir embora quem já aprendeu a ouvir o que ela sussurra nas esquinas. A minha avó diz que podes ficar. — disse ele.
— Tenho de voltar.
— Ela diz que podes sempre voltar.
— É diferente.
— É — concordou Ahmed. — Mas é melhor do que nada.
Viriato folheou o Passaporte Mágico (Volume II). As páginas, antes brancas, estavam agora povoadas por uma sucessão de memórias: a areia que parecia ter vontade própria, a voz rouca do Mustapha, o olhar solene do Leocádio. Cada palavra era um fragmento daquela semana que parecia ter durado um ano.
Escreveu no fundo da página: "Às vezes as coisas sagradas precisam de guardiões que não sabem que o são. E os heróis improváveis são heróis exatamente porque ninguém os esperava".
Fechou o Passaporte de capa azul. Parecia agora um passaporte normal. Era o sinal de que tinha chegado onde tinha de chegar e estava descansado. Mas não fechado. Nunca completamente fechado.
— Vais continuar a ser guia? — perguntou Viriato a Ahmed.
— Continuo — disse Ahmed. — Mas talvez tire a licença. A minha avó diz que faz diferença.
— Ela tem razão.
— Ela tem sempre razão. É muito inconveniente.
O pai João apareceu na porta com o chá na mão e a cabeça a brilhar com o sol da manhã.
— Prontos?
— Quase — disse Viriato. — Só mais um bocadinho.
Ficaram na varanda os três, a olhar para Marraquexe que acordava, com o Mustapha a emitir pássaros tropicais lá em baixo e o Leocádio sentado ao seu lado na rua estreita com a paciência de quem está habituado a esperar e não se importa.
A avó de Ahmed apareceu atrás deles com mais chá que ninguém tinha pedido mas que toda a gente queria.
— Voltam — disse, mais afirmação do que pergunta.
— Voltamos — disse o pai João.
— O Passaporte sabe o caminho — disse a avó, sem desviar os olhos do horizonte, como se lesse um mapa invisível. — Quando a poeira assentar e o coração pedir outra aventura, ele volta a abrir.
— Como sabe? — perguntou Viriato.
— As avós sabem as coisas importantes — disse Ahmed, antes que a avó respondesse.
Fatima sorriu, um sorriso que não era de surpresa, mas de quem já tinha lido o final daquela história antes mesmo de ela começar.
Lá em baixo, o Mustapha dava pequenos estalidos metálicos, como se estivesse a aquecer os motores para a despedida, enquanto o Leocádio, na sua pose de estátua de areia, parecia vigiar a rua.
O Mustapha ligou o motor e mudou dos pássaros para uma nota de praguejamentos em francês que o pai João, desta vez, traduziu como: "Que saudades já de vos ter cá, mas o #@%& do avião não espera e eu já sei que vou apanhar uns $#*%# de ectoplasmas no trânsito. Allons-y."
Epílogo — Visto do Ar
Já no avião, Viriato abriu o Passaporte numa página nova.
Escreveu no topo: Marraquexe. Oásis Azul. Leocádio.
Viriato hesitou um momento, ponderando o que escrever a seguir. Decidiu-se: "Os guardiões de lugares sagrados nem sempre sabem que o são. O Leocádio guardava a Fonte há anos sem saber que era isso que fazia. E quando chegou a hora, soube exatamente o que fazer".
— Pai — disse.
— Sim.
— Achas que o Leocádio sabia sempre?
Silêncio de dois segundos.
— O que é saber? — disse o pai João, que era a forma como começava as respostas às perguntas que não tinham resposta simples. — Se sabia ou não, fez. E fazer é a parte que fica.
— O Mustapha escolheu o melhor destino — disse Viriato.
— Escolheu.
— Sem que nós pedíssemos.
— Às vezes os melhores caminhos são os que não escolhemos mas que as coisas que nos conhecem bem escolhem por nós.
Se o Mustapha andasse de avião emitiria um som de leão satisfeito.
— Ele estava sempre a ouvir-nos — disse Viriato.
— O sistema de som tem uma acústica invulgar. É quase como se ele tivesse um delay de...
— Pai.
— Sim?
— Não expliques o Mustapha com física.
O pai João ficou calado.
Depois riu. Uma risada seca e real, do tipo que às vezes demora tempo a chegar mas quando chega é das melhores.
Viriato voltou ao caderno. Escreveu a última linha da entrada de Marraquexe, que era a linha que passaria a encerrar sempre os registos do Volume II:
"O Passaporte está no bolso. A história está escrita. E há sempre mais estrada à nossa espera do que aquela que conseguimos ver à primeira.".
Fechou o caderno azul. O deserto ficou para trás, mas a promessa de uma nova aventura parecia vibrar no ar.
Dias mais tarde, à sombra do oásis agora novamente azul, Leocádio descansava junto ao Mustapha-Fá-Fá, contemplando o horizonte com a serenidade de quem cumpriu a sua missão, sem precisar de outro reconhecimento que não o brilho da água que recuperara a vida.
Fim
