
Meia-Bola e Força
Plantel
(Atualizado, Afinado e Pronto para Problemas)
VIRIATO — Nove anos. Joelhos esfolados de série. Sabe fazer multiplicações de cabeça e contas de dividir — o que raramente é útil, mas quando é, resolve tudo. É dono de um Passaporte Mágico e dum Caderno das Expedições que o ajudam a pensar, a viajar e a recordar. Tem um talento especial para encontrar problemas… e outro, ainda mais raro, para os resolver.
LÉO — Melhor amigo desde sempre. Resolveu o problema das aranhas. Agora são as formigas. Cai quando menos se espera e levanta-se como se tivesse sido de propósito.
TOBIAS DO UI — Guarda-redes. O gesso do braço direito partiu-se e ele considera isso uma melhoria. Defende com o esquerdo, com a testa e, em casos extremos, com o equipamento inteiro. A ciência observa em silêncio.
ZÉ CARAMELO — Avançado. Todos os dentes no sítio e doze tipos de sorriso catalogados. A versão “golo em campo neutro” ainda está em testes.
NUNO BARBINHAS — Uma sobrancelha perfeita. A outra a tentar. Tem sempre exatamente o que é preciso nos bolsos. Ninguém sabe como.
TREINADOR JOÃO (pai João) — Pai do Viriato. Engenheiro terapêutico. Fala trinta e duas línguas e tem ideias que parecem absurdas… até funcionarem.
RUI TROVOADA — Capitão dos Arrebenta Canelas. Remate violento. Piada do pato com efeito semanal (continua a rir-se sozinho).
JAIME BARRANBANA — Ex-guarda-redes. Cento e cinco quilos de convicção. Agora dobra os joelhos ao rematar. É progresso.
ARAPONGA — Voltou de França. Sabe quatro palavras em francês e usa-as todas. O remate ficou ainda mais forte.
AURELIANO NOITE ESCURA — Corre como um fenómeno meteorológico. Marca golos com o joelho. Não há explicação.
ZÉ CAGANITA — Corre em círculos. Vai ao torneio. Está feliz com isso.
FLOCKY — O cão de Viriato e assistente técnico dos Xutos Cósmicos. Comunica com as orelhas. Tem opiniões fortes e, estranhamente, quase sempre certas.
ZÉ CAMOLAS — Organizador. Tropeça, mas não chega a cair. Fez o telefonema.
CHICO BOMBAS — Especialista em bombas molhadas. Orgulhoso.
TSÉ-TSÉ — Dorme em pé. Decide coisas importantes sem acordar ninguém, nem a si mesmo.
NUNO LIMPA GAVETAS — Bolsos úteis. Com areia incluída.
AVÔ DO BENEDITO — Árbitro. Foi escuteiro em 1974. Menciona sempre.
BRUNO CABUMBA — Voltou do Brasil. Rei das lambretas, canetas e cabritos.
BASÍLIO PICOLÉ — Primo do Cabumba. Fala pouco. Cabeceia muito.
BENILDE RODINHAS — Auto-caravana. Tem opinião. E razão.
ALMANÇOR — Autocarro. Em situações de stress, pragueja em árabe.
OS DONOS DA BOLA — Adversários. Muito grandes. Segundo parece, já fazem a barba.
📞 CAPÍTULO 1 — O Telefonema
O Verão não tinha começado a sério, mas o calor de Junho já fervilhava no ar, como se o mundo estivesse a prender a respiração à espera de algo importante.
Viriato estava na varanda, com o Caderno das Expedições aberto. O papel estava coberto de colunas, sublinhados e cálculos nervosos. O empate era uma ferida aberta na sua lógica:
Xutos Cósmicos: 5 vitórias, 2 empates.
Arrebenta Canelas: 5 vitórias, 2 empates.
Diferença de golos: zero.
Viriato tamborilou os dedos na capa do caderno.
— Tem de haver uma saída — murmurou para si próprio. — Alguma regra estranha, um regulamento perdido, um erro de contagem… isto não pode ficar assim.
Na cozinha, com uma lupa, o pai João observava uma formiga a carregar uma migalha de biscoito, mantendo a calma de quem já sabia o fim da história.
— O equilíbrio é apenas uma pausa antes do caos, Viriato — disse o pai, sem levantar os olhos.
Viriato fechou o caderno com um estrondo que fez o chá do pai oscilar na chávena.
— Isso não me ajuda a ganhar o campeonato, Pai. É insatisfatório.
O pai pousou a lupa. O seu olhar era enigmático, como se visse peças de um puzzle que mais ninguém conseguia encontrar.
— Não. Mas o telefonema que está prestes a chegar, sim.
Viriato franziu a testa, os sentidos em alerta. O seu "sentido aranha" para problemas começou a formigar.
— Que telefonema? Como é que sabes?
— Equilíbrios perfeitos nunca duram — respondeu o pai, voltando ao seu chá. — Basta uma perturbação.
Nesse momento, o telemóvel em cima da mesa vibrou como se tivesse vida própria. Viriato olhou para o aparelho, depois para o pai. O seu estômago deu um salto. O caos tinha chegado.
Era o Zé Camolas.
— Viriato! Estás bem?
— Estou. E tu? — Viriato tentou manter a voz firme, apesar da pulsação acelerada.
— Ótimo. Quase caí das escadas, mas recuperei a meio. — Pausa. — Ouve: em Agosto há um Torneio Internacional de Futebol Jovem em Barranquilha. É o pai do Tsé‑Tsé que organiza porque tem um carimbo de associação desportiva que ninguém sabe de onde veio.
Viriato endireitou-se, o caderno esquecido na varanda.
— A sério?
— Precisamos de dezoito jogadores.
— Quantos têm?
— Oito. Ou sete, porque o Chico quer entrar com uma bomba e isso pode ser proibido.
Viriato fez as contas mentalmente, à velocidade da luz.
— Precisam de onze jogadores.
— Conto contigo para resolver isso.
Viriato desligou e ficou em silêncio por um segundo, a processar a informação. Depois, entrou na cozinha.
— Pai. Há um torneio. Precisam de jogadores. Mesmo juntando os Xutos, não chega.
O pai pousou a chávena, um sorriso quase invisível a curvar-lhe os lábios.
— E se juntarem os Xutos… com os Arrebenta Canelas?
Viriato congelou.
— Somos rivais.
— Na Rua de Cima. Fora disso, são todos miúdos do mesmo bairro.
— O Rui Trovoada nunca aceitará.
— Vai aceitar — disse o pai, com a certeza de um engenheiro que já testou a ponte. — Porque ele quer jogar mais do que quer ter razão.
Nesse momento, o Flocky apareceu à porta. As orelhas estavam em modo: ideia importante detetada. O cão sabia. O Viriato também. O campeonato da Rua de Cima tinha acabado de ficar pequeno demais…
🤝 CAPÍTULO 2 — O Acordo de Barranquilha
O Rui Trovoada ouviu tudo sem interromper.
Trinta segundos a pensar. Uma eternidade.
— Barranquilha.
— Barranquilha.
— Torneio internacional.
— Sim. Seis equipas de várias regiões.
Silêncio.
— E nós… juntos?
— Sim. Xutos, Arrebenta Canelas e os meus amigos de Barranquilha. O Bruno Cabumba voltou do Brasil e traz um primo — exatamente dezoito jogadores.
O Rui Trovoada encarou-o. Tinha os braços cruzados, os músculos dos ombros tensos, como se estivesse pronto para uma placagem, não para uma negociação. O sol de Junho batia em cheio no campo da Rua de Cima, tornando o ambiente ainda mais pesado.
Mais silêncio.
— Quem é o capitão?
Pergunta perigosa.
Viriato pensou.
— Dois capitães. Tu e eu. Um para cada metade do campo.
— Dois capitães? — Rui soltou uma gargalhada curta e seca. — Isso é como ter dois guarda-redes na mesma baliza. Vai acabar em confusão.
— Ou em golo — retorquiu Viriato, sem desviar o olhar. — O campo é grande, Rui. Barranquilha não é a Rua de Cima. Lá, os nossos rivais não usam camisolas que conhecemos. Eles não sabem que tu rematas de bico quando estás nervoso ou que eu calculo o ângulo do sol antes de cruzar.
O Rui parou. A provocação atingiu o alvo. Ele olhou para o campo de terra batida, para as balizas tortas que tinham visto tantas batalhas entre Xutos e Arrebenta Canelas. O silêncio prolongou-se, pesado, apenas interrompido pelo som distante do Flocky a perseguir um lagarto perto dos arbustos.
— Quem é o capitão? — insistiu Rui, a voz a subir um tom. — Porque eu não sigo ordens de um Xuto, nem que o torneio fosse na Lua.
Viriato respirou fundo, tentando manter a calma que o pai João sempre lhe ensinava.
— Ninguém segue ordens de ninguém. Dividimos o campo. Tu tratas da tua metade, eu da minha. Se precisarmos de decidir algo, decidimos juntos.
O Rui olhou para o Viriato, avaliando se aquela era mais uma das "ideias absurdas" do pai dele. Mas, no fundo, ele sabia que o Viriato tinha razão. O torneio era uma oportunidade única.
— Só desta vez — disse o Rui, finalmente, estendendo a mão. A pele estava áspera, marcada por mil quedas. — Se a coisa correr mal, a culpa é tua.
— Se correr mal — corrigiu Viriato, apertando-lhe a mão com força — é porque não jogámos como uma equipa.
— O campeonato da Rua de Cima ainda está por decidir. Voltamos a isso assim que chegarmos. — Lembrou o Rui, com um brilho desafiante nos olhos.
— Setembro é Setembro — concordou Viriato. — Agosto é Barranquilha.
— Falta o Araponga — disse o Rui, mudando de assunto. — Voltou de França e ele tem de concordar.
— Como é que está o Araponga?
— Diz merveilleux a tudo. É a terceira palavra que sabe. — Pausa. — O remate ficou pior, fisicamente.
— Pior como?
— Mais forte, mais violento, mais imprevisível.
— Então ficou melhor para nós e pior para todos os outros.
O Rui considerou isto e um sorriso raro surgiu no canto dos lábios.
— Merveilleux — disse ele, rindo-se com aquele riso de quem acabou de inventar uma nova piada.
Ao fundo, o Léo tropeçou num buraco invisível e caiu de cara na terra. Levantou-se logo a seguir, a limpar os joelhos como se tivesse sido de propósito.
O Flocky inclinou uma orelha, observando a cena.
Tradução interna canina: Vai correr exatamente como deve.
**⚽CAPÍTULO 3 — O Primeiro Treino Conjunto (Onde a Física Falhou e o Flocky Tomou o Comando)
O primeiro treino em conjunto começou com um problema fundamental: ninguém queria passar a bola ao colega adversário. Era como se a bola estivesse carregada de eletricidade estática que, ao tocar num jogador da equipa rival, causasse um curto-circuito imediato.
— Ele é dos Arrebenta — disse o Zé Caramelo, desviando-se de um passe do Rui Trovoada como se a bola fosse uma granada ativa.
— Ele é dos Xutos — respondeu o Rui, devolvendo o desdém com um olhar gélido.
O Viriato, no centro do campo, suspirou. Tinha calculado que o tempo de adaptação seria de vinte minutos. Estavam a chegar aos trinta e o marcador continuava nos zero golos, mas nas trocas de insultos já iam em vinte e cinco.
— Agora somos da mesma equipa — insistiu o Viriato, tentando manter a voz calma.
— Temporariamente — corrigiu o Rui, cruzando os braços.
O silêncio que se seguiu foi preenchido apenas pelo som do vento a levantar poeira no campo de terra. O Léo, sempre com uma perspetiva única sobre a logística do futebol, levantou o braço:
— Posso passar a mim próprio?
— Não! — gritaram os outros dezassete em uníssono.
O treino recomeçou, e o caos instalou-se. Foi uma coreografia de mal-entendidos. O Nuno Barbinhas tentou um passe de classe, mas o Zé Caramelo desviou-se e, ao fazê-lo, atingiu a canela do Jaime Barranbana, que soltou um grito de guerra digno de um filme de piratas.
A seguir, o Tobias, guardião dos Xutos, fez uma defesa espantosa… contra um remate do seu próprio colega de equipa, o Nuno Barbinhas.
— Reflexo — explicou o Tobias, ajeitando o gesso com uma seriedade clínica. — A trajetória da bola era uma ofensa à geometria, tive de a anular.
O Nuno Barbinhas tirou um apito do bolso, embora não fosse o árbitro.
— Sugiro organização.
— Sugiro menos sugestões — respondeu o Rui Trovoada, a ferver.
O ambiente aqueceu. O campo da Rua de Cima transformou-se num formigueiro zangado. Ninguém se entendia, ninguém confiava e, o pior de tudo, ninguém queria ser o primeiro a admitir que, sozinhos, eram apenas dezoito miúdos a correr em direções opostas. O Zé Caganita estava nas suas sete quintas: correr desgovernadamente era o que sabia fazer melhor.
— Isto não vai funcionar — disse o Rui, atirando a camisola para o chão.
— Vai — disse o Viriato, embora a sua voz começasse a tremer.
— Não vai.
— Vai.
— Não vai.
— Vai.
O impasse era total. Foi então que o Flocky, que observava o desastre com a paciência de um filósofo, decidiu que já tinha visto o suficiente. Caminhou calmamente para o centro do relvado, ignorando os gritos, e sentou-se exatamente em cima da bola.
O cão soltou um longo bocejo, quase humano, e fechou os olhos.
O silêncio que se seguiu foi absoluto. Os dezoito jogadores pararam. Olharam para o cão. Olharam uns para os outros. As orelhas do Flocky, em posição de alerta máximo, pareciam transmitir uma mensagem clara: "Ou jogam juntos… ou não jogam."
O Rui Trovoada olhou para o Viriato. O Viriato olhou para o Flocky. A tensão, que antes parecia um muro intransponível, começou a desmoronar-se perante o absurdo daquela cena.
O Rui, finalmente, suspirou e apanhou a camisola do chão.
— Vamos tentar outra vez — murmurou ele, evitando olhar diretamente para os olhos do Viriato.
E, pela primeira vez, começaram a correr na mesma direção. O Flocky levantou-se, abanou a cauda uma única vez e foi a trotar para a sombra de uma árvore, satisfeito com o seu trabalho de assistente técnico.
******🏆CAPÍTULO 4 — O Nome da Equipa (A Grande Conferência de Barranquilha e da Rua de Cima)
O problema de juntar três equipas era o nome. Cada uma tinha o seu e nenhum dos três servia para a nova equipa unificada. Os Xutos Cósmicos eram dos Xutos. Arrebenta Canelas era dos Arrebenta Canelas. E Tsé‑Tsés era do Tsé‑Tsé, que tinha sugerido o nome a meio de um sono e ninguém se lembrava de ter dito que não.
O Treinador João, num golpe de génio logístico, organizou uma telechamada. De um lado, a sala da casa do Viriato, na Rua de Cima, apinhada com metade do plantel. Do outro, o telemóvel do Zé Camolas, apoiado numa rocha em Barranquilha, com o resto da equipa a amontoar-se à volta do ecrã, tentando não cair na areia.
— Estão a ouvir-me? — perguntou o Viriato, a voz a sair pelo altifalante, com o som do mar de Barranquilha a interferir.
— Ouvimos! — gritou o Zé Camolas do outro lado, enquanto tropeçava num caranguejo e se mantinha, milagrosamente, de pé. — Mas o Chico está a tentar fazer uma bomba na areia aqui ao lado e isso está a estragar o sinal!
— Foco! — ordenou o Treinador João, a sua voz de comando a cortar a estática. — Trinta segundos para propostas. Se não houver nome, a equipa chama-se "Os Ideias Zero".
O pânico foi instantâneo, tanto na sala como na praia.
— Os Guerreiros do Barranco! — sugeriu o Nuno Limpa Gavetas, do lado de Barranquilha.
— Não rima com bomba! — protestou o Chico Bombas, a meio de uma corrida para a água, usando um critério que só ele tinha e que defendeu com uma teimosia admirável.
— Os Grandes Joelheiros! — gritou o Barranbana, fazendo o telemóvel abanar com a vibração da sua própria voz. Era uma homenagem ao Aureliano Noite Escura. O Aureliano achou a homenagem tocante e o nome impraticável — combinação honesta.
— Les Étoiles du Champ! — sugeriu o Araponga, com uma elegância que fez o Nuno Barbinhas revirar os olhos. Nenhuma delas era uma das quatro que ele conhecia, o que levantou questões sobre a autoria que ele não esclareceu.
A lista de sugestões era um desastre. O Tsé‑Tsé, que tinha acabado de acordar, propôs "Dormentes Futebol Clube", o que gerou um coro de protestos que quase fez o telemóvel cair na areia. O Avô do Benedito, através de uma chamada à parte, insistiu em "Os Escuteiros", o que foi rejeitado com tal rapidez que nem sequer chegou a ser debatido.
O caos era total. O sinal de vídeo oscilava, mostrando ora a sala da Rua de Cima, ora o céu de Barranquilha.
— Isto não vai resultar — resmungou o Rui Trovoada, do lado da Rua de Cima. — É impossível escolher um nome através de um ecrã partido!
Havia quinze propostas na mesa quando o frustrado Viriato olhou para o Flocky. O cão estava no sofá, a televisão ligada num documentário sobre focas. As orelhas em posição neutra de repouso ativo.
Uma foca fez um som agudo. O Flocky levantou uma orelha e começou a roer a meia que quase sempre trazia na boca.
Viriato olhou para o ecrã. O Zé Camolas estava a tentar equilibrar-se num pé só. O Bruno Cabumba olhava para o horizonte, em silêncio.
— Meia — disse o Viriato, o cérebro a ligar os pontos.
— O quê? — perguntou o Rui, incrédulo.
— A meia. — Pôs o dedo no queixo, pensativo. — Os Meia Bola!
Silêncio total na sala.
— Não faz sentido nenhum — disse alguém.
— Não faz. Mas é impossível de esquecer.
— Nenhuma equipa no mundo se chama Meia Bola — disse o Zé Caramelo com o sorriso número onze.
— Exatamente. Portanto, se alguém perguntar quem ganhou o jogo, a resposta é inesquecível.
— É curto — resmungou o Araponga, com força.
— E força**!** — gritou o Bruno Cabumba. — Meia‑Bola e Força!
Do outro lado da chamada, em Barranquilha, o sinal falhou por um segundo. Quando a imagem voltou, o Chico Bombas já corria para a água a gritar "Meia-Bola e Força!" CATCHAPUM!
O Flocky voltou à posição neutra e largou a meia. As focas continuaram a fazer foquices. O silêncio na sala foi tão súbito que se ouvia o relógio da parede a bater. No ecrã, os miúdos em Barranquilha olhavam-se uns aos outros.
— É impossível de esquecer — reconheceu o Araponga, finalmente.
— É o que fazemos — disse o Nuno Limpa Gavetas, a voz a chegar clara através da estática. — Damos pontapés nela. Com força.
Por doze votos a favor, dois contra e quatro abstenções — contadas à pressa entre a Rua de Cima e a areia de Barranquilha —, a nova equipa ficou a chamar‑se:
Meia‑Bola e Força.
O Flocky abanou a cauda. O nome estava decidido. Agora, só faltava ganhar.
🌊 CAPÍTULO 5 — O Almançor, a Benilde e a Viagem para o Sul
O transporte para Barranquilha era um problema logístico que o Treinador João dividiu em partes mais pequenas — o método que usava para todos os problemas aparentemente impossíveis:
- Iriam acampar.
- A Benilde serviria de base de acampamento, como sempre.
O problema era simples: dezoito jogadores, mais o Avô do Benedito (árbitro convidado) e o Flocky… não cabiam na Benilde.
Ao telefone, matando saudades do seu amigo Ahmed, Viriato foi presenteado com uma solução para o problema. Ahmed tinha um contacto: o Almançor.
O Almançor era um autocarro turístico português de 1989, verde‑acinzentado, que passara os últimos três anos numa quinta no Alentejo enquanto o dono decidia o que fazer com ele. Cansado de esperar, o Almançor, primo do Mustapha-Fá-Fá, chegou à conclusão de que o Alentejo não era o tipo de lugar onde um autocarro com personalidade devia passar o resto da vida. Assim, através da Rádio Zoo, foi fácil para o Mustapha-Fá-Fá recrutá-lo para a missão.
Chegou à Rua de Cima numa terça‑feira de manhã, com Hip‑Hop chinês no volume máximo, e parou em frente à casa do Viriato.
Quer dizer, ele não apenas chegou: ele impôs-se. O motor emitiu um ruído que misturava um bocejo de gigante com o som de uma serra elétrica e o volume da música fez vibrar as janelas da casa do Viriato. Quando parou, a suspensão cedeu com um suspiro de quem acabou de suportar o peso do mundo.
— É verde — disse o Barbinhas, ajustando a sobrancelha perfeita.
— Verde‑acinzentado — completou o Zé Caganita.
— É da cor de uma coisa a recuperar de uma doença — concluiu o Léo, e era verdade.
Uma voz que não era de nenhum dos presentes respondeu pelo sistema sonoro do autocarro:
— Bom dia. Sou o Almançor, ao vosso serviço. Espero que gostem de Hip‑Hop chinês. Peço desde já desculpa, mas é melhor avisar: praguejo muito quando me enervo, mas em árabe. A língua árabe é muito adequada para situações de trânsito intenso.
A Benilde Rodinhas, estacionada na rua paralela, soltou um estalido metálico indignado. A sua suspensão chiou e os faróis piscaram em protesto. O Almançor respondeu imediatamente, soltando uma nuvem de fumo que formou um ponto de exclamação perfeito no ar.
O Treinador João, que parecia compreender perfeitamente a discussão, suspirou:
— Calma, meninos e meninas. O Almançor só está a tentar impressionar. Benilde, não te atrevas a perder óleo por causa disto.
O Léo deu um passo atrás, cauteloso. O Barranbana aproximou‑se devagar, avaliando o autocarro com uma expressão silenciosa.
— Caibo lá dentro?
— Cabes — respondeu o Almançor, a música baixando ligeiramente. — Já transportei um boi para uma exposição agrícola em 2003. Tens menos peso do que um boi.
— Mas sou mais alto.
— Os bois também eram altos. De pé é que não cabiam. Senta‑te.
O Nuno Barbinhas tentou examinar a grelha frontal, mas o autocarro emitiu um som de aviso.
— Não me toques no capô, rapaz. Tenho cócegas.
O Nuno continuava desconfiado.
— Onde posso colocar a minha bagagem em segurança?
O autocarro pareceu ofendido.
— Esses sacos cheios de traquitana são o que chamas bagagem? Na minha opinião, isso era tudo para a reciclagem, mas se insistes em montar uma feira de velharias, só tenho um lugar para elas: o porão.
A Benilde Rodinhas, estacionada à sombra, fez um som entre aprovação e ligeiro ciúme. O Almançor respondeu com uma fase em árabe que o Treinador João optou por não traduzir.
— Estão a apresentar‑se — resumiu ele.
— A Benilde gosta dele? — perguntou o Viriato.
— A Benilde vai aprender a gostar. São colegas de expedição. O importante é que cheguemos todos a Barranquilha.
A Benilde fez um som satisfeito, aceitando o seu papel, mas mantendo um farol virado para o Almançor, como quem vigia um estranho. O Almançor voltou ao Hip‑Hop chinês, que, no contexto de uma partida para um torneio internacional, soava estranhamente adequado. O Flocky, sentado no banco do condutor da Benilde, observava tudo, inclinando a cabeça para um lado e para o outro, analisando a negociação entre os motores.
— Tudo a bordo! — ordenou o Treinador.
O Viriato subiu os degraus do Almançor, sentindo o cheiro a borracha antiga e a algo que lembrava especiarias. A viagem para o Sul tinha começado.
🌊 CAPÍTULO 6 — Barranquilha: Mesma Areia, Novas Pessoas
Barranquilha não era apenas um destino. Era um estado de espírito feito de pedra ferrugenta, areia fina que se metia em todo o lado e um vento constante que parecia ter a missão de nos despentear as ideias. O campo de futebol da praia, desenhado por alguém que claramente não gostava de linhas retas, tinha uma inclinação que prometia batalhas épicas.
— É aqui? — perguntou o Léo, limpando o pó dos olhos.
— É perfeito — respondeu o Viriato, o cérebro já a calcular golos.
— Tem inclinação.
— Dá emoção.
— Tem formigas?
— Não.
— Tem areia.
— Dá estratégia.
— Tem uma cabra.
A cabra, que mastigava um pedaço de corda com o desdém de uma crítica de arte, encarou-os. O Flocky, cão de poucas palavras mas de muito caráter, encarou a cabra. Houve um respeito mútuo, quase diplomático.
Também havia tendas montadas e um cartaz caseiro afixado numa rocha: TORNEIO INTERNACIONAL DE FUTEBOL JOVEM — 1.ª EDIÇÃO.
O Almançor estacionou no areal com uma precisão cirúrgica que deixou o motor a soluçar de espanto. Por um segundo, o Hip-Hop chinês pareceu hesitar, como se o próprio autocarro estivesse a digerir a proeza, antes de se calar num estalo de estática. As portas abriram-se com um suspiro pneumático, convidando o ar salgado a entrar e a expulsar o cheiro a borracha antiga e especiarias.
A Benilde, depois de dar duas voltas à procura da sua sombra preferida, também terminou a viagem, emitindo um som metálico indignado, como se estivesse a queixar-se do lugar de estacionamento escolhido pelo parceiro grande.
Dezoito jogadores, o Avô do Benedito e o Flocky desceram para Barranquilha com aquela mistura de excitação e sono que só três horas de Hip‑Hop chinês no volume máximo conseguem produzir.
O Zé Camolas apareceu por trás de um barranco. Ao tentar acenar, deu um passo em falso na areia fofa, inclinando-se num ângulo que faria com que até a Torre de Pisa sentisse inveja. Porém, por um milagre da gravidade, endireitou-se no último segundo.
— Vieram! — disse, com a surpresa de quem organizou tudo, mas não acreditava até ver.
— Viemos — confirmou o Viriato.
O Zé inclinou‑se para dar um aperto de mão, tropeçou na areia, ficou horizontal durante um segundo e meio num ângulo que desafiava a mecânica… e recuperou.
— Não caí. — Disse ele, orgulhoso.
— Vimos — respondeu o Rui Trovoada, seco.
O Chico Bombas surgiu a correr com a trajetória inevitável de um cometa gordito.
— BOMBAAAA! — anunciou, a correr para a água.
**PLOF!
O Tsé‑Tsé veio do outro lado da praia com os olhos meio abertos, em pé e em repouso simultâneo. O Nuno Limpa Gavetas chegou com os bolsos a tilintar, enquanto o Nuno Barbinhas o avaliava com o reconhecimento profissional de quem percebe de organização de carga.
— Dois Nunos — disse o Nuno Barbinhas.
— Dois Nunos — confirmou o Nuno Limpa Gavetas.
— Isso é o dobro dos bolsos — reparou o Viriato.
— Em engenharia terapêutica, chamamos-lhe "sistema robusto" — explicou o Treinador João, ajeitando a mochila.
O Avô do Benedito, com a mochila de escuteiro de 1974, olhou para o areal, para os barrancos e para as tendas com a confiança de alguém que não se lembra de nada mas não deixa esse detalhe atrapalhá‑lo. Da mochila, retirou um apito de latão, um mapa desenhado num guardanapo e uma bússola que apontava invariavelmente para o sítio onde estivesse o almoço.
— Acampar! Sei tudo sobre isto. Tendas, fogueiras, orientação pelo sol. Estejam completamente descansados.
— Ótimo. Começamos pela sua tenda.
Quarenta minutos depois, a tenda do Avô do Benedito estava montada com uma inclinação esquisita que desafiava a física, a lógica e qualquer ciência que usasse o bom-senso.
— Parece um joelho torto — analisou o Léo.
A imagem era arquiteturalmente interessante, mas meteorologicamente arriscada. O Avô do Benedito estava muito satisfeito.
— É uma tenda de ventilação cruzada. Técnica dos escuteiros do Algarve de 1974.
— Não existia isso em 1974 — lembrou o Viriato.
— Existia. Fui eu que inventei.
O Basílio Picolé, primo do Bruno Cabumba, observava tudo em silêncio. Era uma pessoa completamente presente e completamente fechada, como se guardasse energia para o momento em que fosse preciso.
O Zé Camolas aproximou-se dele.
— Como te chamas?
— Basílio.
— De onde vens?
— Brasil.
— Jogas em que posição?
— Cabeça.
— Isso não é uma posição.
— A minha é.
O Tsé-Tsé abriu os olhos durante três segundos, olhou para o Basílio e voltou ao repouso. Era reconhecimento de igual para igual. O torneio podia começar.
🏆Capítulo 7 — A Crise das Cores (Ou: Como Vestir Dezoito Miúdos Sem Parecerem Uma Colcha)
O nome estava decidido. "Meia-Bola e Força". Soava a vitória, a mistério e, sobretudo, a algo impossível de esquecer. No entanto, como o Viriato rapidamente aprendeu, o nome era a parte fácil. O verdadeiro pesadelo logístico começou quando, à noite e reunidos à volta de uma fogueira, o Nuno Limpa Gavetas abriu o seu bloco de notas, que mais parecia um inventário de uma loja de ferragens.
— Temos nome — disse o Nuno, com ar científico. — Agora precisamos de uma pele. Dezoito jogadores. Três equipas diferentes. Três conjuntos de camisolas que não combinam entre si nem por decreto.
O silêncio à volta da fogueira foi perturbado apenas pelas manobras do Flocky a tentar decidir se a sua meia preferida ainda cheirava a vitória ou apenas a cão molhado.
— Podemos usar as dos Xutos — sugeriu o Zé Caramelo, com o sorriso número cinco: o da "sugestão óbvia".
— E os Arrebenta Canelas? — retorquiu o Rui Trovoada, cruzando os braços como se estivesse a proteger a sua honra cromática. — Achas que vamos vestir vermelho-cósmico? Nem morto.
— E nós? — perguntou o Tsé-Tsé, que tinha acabado de acordar de um sonho sobre polvos com sapatos. — Queremos algo que não atraia mosquitos.
O Treinador João, que observava a cena com a paciência de quem já viu colegas a discutir a cor de ecossistemas ecológicos, levantou-se
— O problema não é a cor. É a identidade. Se escolhermos uma cor de uma das equipas, as outras duas sentem-se anexadas. Se escolhermos uma cor nova, gastamos o orçamento que mal existe.
O Nuno Barbinhas, puxando um dos seus sacos de traquitanas, tirou de lá um punhado de retalhos de tecido. Havia verde-limão, rosa-choque, azul-turquesa e um castanho que o Léo descreveu como "cor de cocó".
— Podemos fazer um mosaico — propôs ele, com seriedade.
— Um mosaico? — o Rui Trovoada pareceu horrorizado. — Íamos parecer uma colcha de retalhos a ser sacudida.
A discussão degenerou rapidamente. O Chico Bombas sugeriu camisolas que mudassem de cor com a humidade (ideia descartada por ser tecnologicamente impossível e, segundo o Limpa Gavetas, "ridícula"). O Avô do Benedito insistiu que, em 1974, os escuteiros usavam cinzento-tropa e que isso "dava respeito".
— Respeito? — bufou o Bruno Cabumba. — Íamos parecer um exército de formigas sem cor.
Foi então que o Flocky interveio. Até então um espectador silencioso, o cão levantou-se, caminhou até junto da fogueira e começou a brincar com uma meia que tinha acabado de desenterrar e que estava estranhamente limpa. Atirava-a ao ar, apanhava-a, corria com ela na boca, voltava a atirá-la e, por fim, ladrou-lhe. Uma meia branca.
Branca. Neutra. Limpa.
O silêncio que antecipa a atividade intensa, instalou-se novamente.
— Branco? — arriscou o Viriato.
— Branco é a ausência de cor — reclamou o Araponga.
— Na verdade é a soma de todas. É a tela perfeita. — disse o Treinador.
— O meu pai tem algumas dezenas de t-shirts brancas que sobraram de uma atividade que nunca chegou a acontecer — informou o Tsé-Tsé, acordando do seu transe.
— E como é que nos distinguimos? Todos de branco, vamos parecer vendedores de gelados — escarneceu o Rui Trovoada.
O Nuno Barbinhas sorriu, a sobrancelha boa a subir para o patamar da genialidade. Levantou-se, foi buscar outro saco cheio de tralhas e e tirou de lá um conjunto de marcadores para têxteis e três rolos de fita-cola colorida.
— Cada um desenha a sua própria marca no peito. E usamos a fita-cola para criar duas faixas nas costas — sugeriu.
— É a cara da nossa equipa — concluiu o Viriato, sentindo o "radar" dos problemas a acalmar-se. — Branco com a nossa marca.
O Basílio Picolé estava a olhar para o céu estrelado com os olhos semicerrados, como se estivesse a calcular alguma coisa que não precisava de ser dita em voz alta até estar pronta.
— Branco dá força — disse ele, com a sua voz de quem sabe segredos do universo.
Ninguém perguntou porquê. Se o Basílio dizia que o branco dava força, quem eram eles para duvidar da física das cores?
Naquela noite, a praia transformou-se num atelier de arte caótico. Havia manchas de marcador nas mãos, na cara e até nas orelhas do Flocky. Quando terminaram, as dezoito t-shirts eram todas diferentes, mas todas iguais. Eram a prova de que, mesmo sendo rivais, mesmo sendo diferentes, eram agora uma única coisa.
Eram os Meia-Bola e Força. E, por incrível que pareça, o branco ficava-lhes muito bem.
🧪 CAPÍTULO 8 — O Laboratório de Areia
O pai do Viriato tinha passado os últimos tempos a aperfeiçoar os métodos de treino. Onde antes havia criatividade disfarçada de ciência, havia agora ciência que tinha evoluído para um ponto que ninguém conseguia classificar. Criatividência, garantia o Treinador João.
O treino começou às sete da manhã. O sol ainda estava a despontar sobre o mar de Barranquilha, pintando a areia de um dourado que prometia problemas.
— Hoje vamos fazer a Avaliação de Recursos— anunciou o Treinador, enquanto ajustava um cronómetro que, na verdade, era um temporizador de cozinha em forma de tomate.
— Recursos? — o Barranbana olhou para os próprios braços. — Só tenho estes dois.
— Exatamente. O teu tamanho, Barranbana, é um recurso. Em campo aberto és um obstáculo, mas numa área pequena, onde a bola ressalta como um bicho vivo, és uma parede.
— Sou uma parede!? Eu não quero ser parede! — protestou o Barranbana, achando que aquilo era um insulto.
— Uma parede com iniciativa, que defende de forma ativa.
— Uma parede com iniciativa? — o rosto do Barranbana iluminou-se. — Ah, 'tá bem, isso pode ser. Soa a superpoder.
O segundo exercício foi a Física da Bola Aplicada ao Carácter. O Treinador João colocou os jogadores em fila. O objetivo era rematar à baliza enquanto ele lia factos perturbantes sobre o universo, testando a capacidade de foco sob pressão existencial.
— O universo tem 13,8 mil milhões de anos — disse, enquanto o Araponga rematava.
O Araponga, focado na magnitude do tempo, rematou com tanta força que a bola quase saiu da praia.
— Incroyable— murmurou ele, a olhar para o céu como se esperasse ver o Big Bang.
O Zé Caramelo parou o movimento a meio, olhou para o sol e depois para a bola.
— Cinco mil milhões de anos? — perguntou ele. — Isso dá tempo para quantos campeonatos?
— Infinitos, Zé. Remata!
O Zé rematou e marcou com o sorriso número onze — o de quem percebeu que, face ao fim do universo, um golo é uma vitória absoluta.
Quando chegou a vez do Léo, o Treinador lançou a bomba:
— As formigas existem há cem milhões de anos e estão a planear a nossa queda.
O Léo falhou a bola de forma espetacular, tropeçando no próprio pé.
— Estão a planear o quê? — perguntou, olhando para o chão freneticamente.
— Foco, Léo! — riu o Treinador. — O objetivo é aprenderes a desestabilizar os outros sem seres tu o desestabilizado.
— E se eu não conseguir?
— Então usamos a tua tendência a desviares‑te de coisas no chão como tática ofensiva. Já funcionou anteriormente.
O momento mais alto, porém, foi o teste do Basílio Picolé. O Treinador João aproximou-se dele com o cronómetro-tomate.
— Basílio, quanto tempo aguentas sem respirar?
— Muito — respondeu o rapaz, com a calma de uma rocha.
— Demonstra.
O Basílio fechou os olhos. O treino parou. O Nuno Barbinhas parou de medir ângulos, o Chico Bombas esqueceu-se da bomba que estava a preparar e até o Flocky, que roía uma meia, ficou imóvel. O tempo passou. Dez segundos. Vinte. Trinta. O Treinador João, fascinado, começou a suar frio.
Aos cinquenta e dois segundos, o Basílio expirou calmamente. A bola, que ele tinha equilibrado na testa durante todo o tempo, caiu suavemente aos pés do Treinador.
O Pai João anotou no bloco: “Basílio — Foco universal. Não limitar. Deixar funcionar.” Era a nota mais curta e mais completa de todo o caderno.
O último exercício era o mais científico e o mais estranho: doze metros de fio elástico, um transferidor de plástico gasto e a convicção de que o ângulo de entrada na área adversária podia ser otimizado matematicamente.
Passaram quarenta minutos a entrar na área por treze ângulos diferentes.
Foi determinado que o ângulo ideal era de trinta e sete graus a partir da linha lateral esquerda.
— Isto é a perfeição geométrica — explicou ele, desenhando um triângulo na areia com um pau. — Se entrarem por aqui, o defesa não chega e o guarda-redes não vê.
Passaram quarenta minutos a tentar encontrar o ângulo. O Nuno Barbinhas, com a sua mania da organização, usou um chinelo para marcar o ponto exato. O Rui Trovoada tentava, mas falhava sempre por centímetros.
— C’est… confusion… — resmungou o Araponga, frustrado.
— Não é confusão, Araponga — disse o Treinador, pousando o pau no chão. — É intuição. Quando estiverem em dúvida, vão sempre mais para a esquerda do que pensam. O espaço vazio é o melhor amigo de quem sabe pensar.
No final, estavam todos exaustos, sujos de areia e com a cabeça cheia de números e teorias. Mas, enquanto caminhavam para o Almançor, o Viriato olhou para a equipa. Já não eram apenas miúdos que corriam em direções opostas. Eram um sistema em movimento. E, na melhor das hipóteses, um sistema que funcionava.
⚽CAPÍTULO 9 — O Primeiro Jogo: Areia, Física e o Sorriso Número Nove
O primeiro jogo do torneio foi contra os Vientos del Norte, uma equipa da Galiza que vestia camisolas azul-escuras. Jogavam com uma organização que parecia exagerada para um torneio de praia, movendo-se como se estivessem a seguir um manual de instruções invisível.
O campo não era apenas um retângulo de areia; era uma frigideira. O sol de Junho batia impiedoso nas camisolas dos galegos, fazendo-as brilhar como se fossem feitas de aço. O Viriato sentia o suor a escorrer-lhe pelas costas, mas não era apenas o calor — era o peso da responsabilidade de liderar aquela equipa de retalhos.
— A Galiza é onde? — perguntou o Barranbana, limpando a areia das sobrancelhas.
— Em Espanha — respondeu o Nuno Barbinhas, sem desviar o olhar do posicionamento adversário.
— Ah, já sei. Isso fica na América.
O Basílio Picolé passou os primeiros dez minutos no meio-campo, imóvel, a observar o jogo com os olhos de quem calcula trajetórias de planetas. No décimo primeiro minuto, a bola veio de um canto. O Basílio não correu. Ficou onde estava, olhou para cima e, no momento exato em que a bola atingiu o ponto mais alto da sua trajetória, desviou-a com a cabeça.
A bola viajou para o canto direito da baliza dos galegos com uma precisão cirúrgica. Três segundos de silêncio absoluto. Depois, o grito.
— GOLOOOO! — berrou o Chico Bombas do banco, com um entusiasmo que levantou uma nuvem de areia.
— UI! — confirmou o Tobias, numa reação clínica, enquanto ajustava o gesso.
Meia‑Bola e Força 1 — Vientos del Norte 0.
O empate veio no segundo tempo, num livre direto traiçoeiro. O Tobias defendeu mal, distraído a verificar se o gesso ainda estava firme na articulação.
— Ui — disse ele, desta vez com uma tristeza técnica, como se o gesso tivesse falhado um cálculo de resistência.
Meia‑Bola e Força 1 — Vientos del Norte 1.
O jogo tornou-se um duelo de nervos. Aos cinquenta e seis minutos, o Léo mudou de direção por razões que ninguém entendeu, menos ele: havia um montinho de areia que lhe pareceu um formigueiro. Passou aos tombos por dois defesas e cruzou para o Zé Caramelo.
O Zé estava pronto. Tinha ensaiado o "Sorriso Número Nove — golo em campo neutro", que já lhe desenhava os cantos da boca. Viu a bola a chegar, calculou o ângulo e sentiu o impacto perfeito no pé. Por um milésimo de segundo, o tempo parou. A bola parecia um míssil teleguiado em direção à rede.
Porém, num capricho cruel da física, o poste de madeira — torto e gasto pelo sol — decidiu que não seria hoje. Pang! O som seco do impacto ecoou por toda a praia. A bola desviou-se, preguiçosamente, para fora. O sorriso do Zé vacilou. Ele tentou retê-lo, mas a máscara caiu, dando lugar ao sorriso número doze, aquele que dizia: "Por que razão o universo odeia os meus pés?"
Ficou 1‑1.
O Treinador João anotou no bloco:
“Empate. Pontos positivos: a cabeça do Basílio funciona realmente; a imprevisibilidade do Léo tem valor tático. Pontos de melhoria: o Tobias não pode verificar o gesso durante o jogo. O sorriso número nove precisa de mais treino.”
— É um bom resultado para o primeiro jogo? — perguntou o Cabumba, limpando a areia do pescoço.
— É um resultado que nos mantém no torneio. É o que precisamos agora — respondeu o pai João.
O PLÓF da bomba comemorativa do Chico foi de média satisfação — não de derrota, mas de vitória por completar. A jornada em Barranquilha estava apenas a começar.
💧CAPÍTULO 10 — Segundo Jogo: A Derrota Pesada (e o Que Se Aprendeu Com Ela)
O segundo adversário eram os Força da Areia, do Algarve. Antes mesmo de entrarem em campo, percebia-se que eram diferentes: moviam-se com a facilidade de quem nasceu com os pés na areia e o sol como bússola.
O jogo começou mal. Logo no aquecimento, o Almançor, estacionado fora do campo, decidiu que aquele era o momento perfeito para praguejar em árabe. O Treinador João teve de intervir, a voz firme por baixo da calma habitual.
— Almançor. Não agora.
— Desculpe, Treinador, mas o condutor dos algarvios estacionou fora de mão.
— Isso não é razão.
— Para um árabe é suficiente.
— Guarda as pragas para depois. Precisamos de foco — impôs o Treinador João.
Mas o foco parecia ter ficado na sombra da Benilde. Os Força da Areia marcaram logo no segundo minuto, num lance rápido que apanhou o Tobias a verificar se o gesso não estava a ficar mole com a humidade.
A seguir, o Araponga tentou dois remates de força titânica. O primeiro enterrou a bola na areia, o segundo deslocou as traves dois centímetros. A areia mostrava-se traiçoeira e absorvia toda a energia dos Meia-Bola como se fosse uma esponja. O Rui Trovoada, tentando assumir o comando, fez um passe de "capitão" para o Zé Caramelo, mas a bola morreu num montículo de areia traiçoeiro, deixando-os expostos ao contra-ataque.
O Basílio desviou uma bola de cabeça no início da segunda parte que devia ter sido golo, mas o guarda‑redes algarvio estava no único sítio onde não se espera que um guarda‑redes esteja.
A cada golo sofrido, a esperança dos Meia-Bola parecia derreter como gelado ao sol. O Araponga, frustrado, procurava dizer palavrões em francês, mas não sabia nenhum.
O jogo terminou com um apito que soou como uma sentença: 3–0.
Enquanto os algarvios celebravam com a naturalidade de quem domina o seu terreno, os nossos miúdos pareciam estátuas de sal. O Bruno Cabumba, ainda a arfar, olhava para os pés como se estes o tivessem traído. O Tobias, com o gesso sujo de areia, nem se mexeu quando o Rui Trovoada passou por ele, arrastando os pés com uma frustração que não cabia na sua camisola branca.
Ninguém disse nada por um momento. Era o silêncio de quem aprendeu alguma coisa e ainda não sabe ao certo o quê.
O Treinador João aproximou-se. Não houve gritos, nem sermões. Apenas o som do vento a bater no Almançor, que, por uma vez, se manteve em silêncio. O Flocky, pressentindo o ambiente, encolheu-se perto da Benilde, observando a cena com as orelhas baixas.
— Três a zero — disse o pai, a voz calma, mas com um peso novo. — É um resultado que dói. E deve doer. Se não doesse, significaria que não nos importamos.
O Léo, que tentava limpar a areia do joelho com um ar perdido, olhou para cima.
— Foi o vento? Ou as formigas? Eu juro que vi formigas… — interrogou-se ele, a voz a tremer ligeiramente.
O Treinador João sorriu, um sorriso pequeno que não chegou aos olhos.
— Foi a realidade, Léo. A realidade é um adversário muito mais difícil do que qualquer equipa do Algarve. Mas a vantagem da realidade é que ela nos diz exatamente onde estamos. E agora, sabemos que estamos no chão. A boa notícia? É o melhor sítio para começar a subir.
O Rui Trovoada, que estivera em silêncio absoluto, levantou a cabeça. O brilho desafiante, que parecia ter desaparecido após o terceiro golo, voltou a acender-se, lento, mas firme.
— Amanhã — disse o Rui, com a voz rouca. — Amanhã a areia vai ser nossa.
O Treinador abriu o bloco e anotou, com precisão terapêutica: “Derrota pesada. Pontos positivos: Basílio manteve a calma. Tobias teve três defesas de nível profissional. Pontos de melhoria: Araponga precisa de direção, não apenas força. Almançor: menos árabe, mais foco.”
— E agora? — perguntou o Nuno Limpa-Gavetas, ajustando os bolsos.
— Agora — disse o Treinador, guardando o bloco — descansamos. Amanhã ganhamos o terceiro jogo.
— Tens a certeza? — duvidou o Viriato.
— Tenho a certeza que é o que precisamos de fazer. O que é diferente, mas é suficiente para começar.
O Flocky, vendo a mudança no tom do Treinador, levantou as orelhas e soltou um latido curto. A esperança, afinal, não tinha ficado enterrada na areia.
⚽ CAPÍTULO 11 — Terceiro Jogo: A Vitória (A Física do Improvável)
O terceiro adversário eram os Maré Viva, do Alentejo. Eram altos, queimados pelo sol e jogavam com uma paciência irritante. Precisavam de ganhar para passar à final, tal como os Meia-Bola. Quando duas equipas jogam com urgência, o jogo deixa de ser desporto e passa a ser uma luta pela sobrevivência.
O Treinador João reuniu a equipa antes do nascer do sol, na areia fria que ainda cheirava a maresia. Ele não usou um quadro tático, mas um pedaço de madeira à deriva que encontrou na margem. Desenhou uns riscos na areia.
— O plano é o seguinte: temos que ganhar — anunciou ele.
— Isso não é um plano. Isso é o problema — corrigiu o Barbinhas.
— O plano para ganhar — insistiu o Treinador, riscando o chão com força — é ocupar o espaço que eles não querem.
— O espaço que eles não querem? — perguntou o Aureliano, limpando o orvalho dos óculos. — Isso soa a terreno baldio.
— A solução está na cabeça do Basílio, no joelho do Aureliano, no remate do Araponga dirigido para dentro da baliza em vez de ir para o Alentejo, e nos trinta e sete graus — persistiu o Treinador.
— Que ninguém ainda consegue perceber o que é — queixou-se o Léo.
— Sempre mais para a esquerda ou para a direita do que pensas. Há sempre um lado vazio porque todos só pensam na bola e vão atrás dela. Não há razão para isso. É para o lado vazio que nós devemos querer ir — aconselhou o Treinador João.
E, como instrução final, recordou:
— O Basílio vai ser o nosso farol. Aureliano, tu és o vento. E Araponga… — ele apontou para o rapaz — …hoje não vais destruir a bola. Vais tratá-la como se fosse um ovo de cristal que tens de entregar na baliza deles.
O Viriato tentava visualizar o triângulo. Trinta e sete graus. Ele olhou para o campo, depois para o sol que começava a pintar o céu de laranja. "Mais para a esquerda", pensou ele. "Sempre mais para a esquerda do que parece correto."
O apito soou e, desta vez, o campo parecia mais pequeno. Não porque tivessem crescido, mas porque agora sabiam exatamente onde colocar os pés. Onde antes havia correria cega, agora havia uma dança calculada. O Viriato sentia o pulsar do jogo no peito. O Treinador João não precisava de gritar. Bastava-lhe um olhar, um dedo apontado para o espaço vazio — aquele lugar onde os 37 graus faziam toda a diferença.
O Flocky, sentado na linha lateral, como bom assistente técnico, não ladrava. Observava. Quando um jogador dos Maré Viva se preparava para fazer um passe longo, o Flocky soltou um latido curto e agudo, olhando para a esquerda. O Viriato, ouvindo o cão, antecipou o movimento e intercetou a bola antes que ela chegasse ao destino.
— Lindo menino! — murmurou o Viriato. O Flocky retribuiu o elogio escavando alegremente um buraco donde retirou qualquer coisa. Viriato levantou a cabeça e levantou a bola, lançando um passe para o Basílio.
O Basílio não correu. Ficou onde estava e calculou a trajetória com a paciência de quem sabe que a bola vai chegar ao sítio certo se ele lá estiver. Com um movimento subtil de cabeça, enviou a bola para o canto.
Meia-Bola e Força 1 — Maré Viva 0.
O empate veio rápido, um erro de cálculo do Tobias, que estava mais preocupado em aliviar a comichão por baixo do gesso do que em seguir a bola.
1 — 1.
Aos dez minutos, um momento crítico. O Nuno Barbinhas foi abalroado por um defesa alentejano. A sua camisola branca, orgulhosamente decorada com marcadores, rasgou-se no ombro. Ele olhou para o rasgão, depois para o adversário, e um brilho de determinação surgiu no seu rosto. Correu até ao banco de suplentes. Usou a fita adesiva que tinha na sua mochila para prender o tecido e voltou a correr para o jogo. Aquela camisola rasgada era agora a bandeira da equipa.
Dois minutos depois, o Araponga recebeu a bola. Lembrou-se do "ovo de cristal". Em vez da força bruta habitual, tocou na bola com uma delicadeza surpreendente. O guarda-redes dos Maré Viva, esperando o habitual tiro de canhão, ficou congelado, hipnotizado pela trajetória suave da bola, que descreveu um arco perfeito antes de beijar a rede.
2 — 1.
O terceiro golo foi de penálti e resultado direto da teoria dos trinta e sete graus. O Léo entrara na área pela esquerda, mais para a esquerda do que pensava. Encontrou o espaço vazio, um adversário encostou-se a ele e o Léo caiu muito bem. Cair era uma coisa que ele sabia fazer como ninguém.
O árbitro assinalou a falta. Viriato bateu o penálti rasteiro, para o canto, sem hipóteses de defesa.
Resultado final: Meia‑Bola e Força 3 — Maré Viva 1.
Quando o apito final soou, o Chico Bombas fez a sua bomba de celebração, criando um repuxo tão grande que tapou o sol por uns segundos.
— PASSÁMOS! — gritou ele, do meio da espuma.
Ainda não estava confirmado, mas o Chico nunca desperdiçava uma oportunidade de fazer bombas festivas.
🍀 CAPÍTULO 12 — A Meia do Flocky Volta a Atacar
A passagem dos Meia‑Bola e Força para a final não foi confirmada naquela noite no quadro de resultados que o pai do Tsé‑Tsé tinha pendurado num pinheiro junto ao areal.
Tinham quatro pontos. Havia três equipas com pontos suficientes para passar e eles eram a terceira. O desempate fazia‑se por diferença de golos — e isso era desfavorável para os Meia‑Bola.
Viriato sentia um aperto no estômago que nenhum cálculo matemático conseguia aliviar. O grupo estava reunido à volta de uma fogueira que o Avô do Benedito tentava atear, insistindo em técnicas de 1974 que envolviam mais paciência do que fogo.
— Estamos fora, Treinador? — perguntou o Rui Trovoada, com a voz baixa. O capitão dos Arrebenta Canelas parecia ter envelhecido cinco anos em cinco minutos.
— Matematicamente, sim — respondeu o Treinador João, a voz calma, mas carregada de uma honestidade que doía. — A não ser que haja um milagre. E milagres, como devem saber, não se convocam para jogos de futebol.
O silêncio foi absoluto. O desapontamento era físico; pesava nos ombros de cada um daqueles dezoito miúdos que tinham aprendido a jogar como um só.
Entretanto, o Flocky estava estranhamente agitado. O cão corria em círculos, farejando o chão com uma intensidade maníaca, ignorando a comida e o calor da fogueira. Viriato observou-o de perto. O cão afastou-se e parou junto a um tacho vazio onde tinha sido servido o jantar dos Cavalos da Crista, soltou um ganido baixo e começou a escavar naquela zona. O Viriato não estranhou: afinal de contas, aquele era o Flocky. "Estranho" deveria ser o seu nome do meio.
,Na manhã seguinte, a notícia caiu como um raio no areal.
Os Cavalos da Crista, a equipa que tinha ficado à frente dos Meia‑Bola, não apareceu. Ou melhor, apareceu, mas de forma catastrófica, apenas com oito jogadores.
O nono estava com febre. O décimo tinha ido buscar água e perdeu-se. O décimo primeiro, que era doido por pássaros, tinha sido visto a perseguir uma gaivota e ninguém conseguiu confirmar se regressara.
— Problemas com o jantar de ontem— disse o capitão deles, enquanto corria aflito para a casa-de-banho, onde já estavam todos os suplentes da equipa.
Os Cavalos da Crista decidiram desistir, por falta de jogadores e de papel higiénico.
O pai do Tsé-Tsé, que parecia estar sempre a meio de uma sesta, ajeitou os óculos, que estavam presos com fita-cola, e consultou o seu bloco de notas, que era, na verdade, uma série de faturas de supermercado de 2012.
— Bem… — disse ele, com uma voz que parecia vir debaixo de água — o regulamento é uma coisa curiosa. Diz aqui, na linha do leite e dos cereais, que uma equipa sem oito jogadores é um fantasma. E fantasmas não jogam finais.
Em seguida, consultou os árbitros e o livro de regras dos escuteiros que o Avô do Benedito insistiu em ler a todos, e tomou uma decisão inspirada:
— O torneio precisa de uma final… e, bem… eu odeio finais com uma equipa só…
Por isso, e por desistência dos Cavalos da Crista, a Final fica adiada para as 17 horas de hoje e será disputada pelos Donos da Bola e pelos Meia-Bola e Força.
Portanto, os Meia-Bola e Força, afinal, estavam na final.
A equipa foi informada. Houve um momento de surpresa, seguido de euforia, seguido da consciência de que não era correto celebrar pela doença alheia.
— Que a recuperação deles seja rápida — desejou o Treinador João.
— E que o nosso arroz de pato de hoje não seja igual ao que eles comeram ontem.
— Léo!
— O que foi? É uma preocupação justa.
O Flocky, ouvindo falar em preocupação, lembrou-se que, desde o dia anterior, não conseguia encontrar uma das suas meias lambidas. A última vez que a vira foi perto de um tacho onde se estava a cozinhar o jantar dos Cavalos de Crista… Bah, não valia a pena pensar mais nisso: ainda tinha duas ou três escondidas.
Viriato aproximou-se do seu cão e fez-lhe uma festa nas orelhas.
— É hoje, Flocky — sussurrou Viriato.
O cão abanou a cauda, uma única vez, firme. Estava decidido. Agora, só faltava ganhar.
🦍 CAPÍTULO 13 — Os Donos da Bola
Ainda durante a manhã, os Donos da Bola chegaram ao areal como quem chega a um estádio cheio. Já que o jogo fora adiado, aproveitaram para treinar.
Eram do Porto e eram muito grandes. Tão grandes que era difícil acreditar que algum deles tivesse doze anos ou menos, como exigia o regulamento. E tinham camisolas pretas com um logótipo que parecia ter sido desenhado por alguém que queria assustar primeiro e jogar depois.
— Aquele de barba. Quantos anos terá? — perguntou o Léo, a voz a sair num sussurro, os olhos arregalados enquanto observava o aquecimento.
— Os documentos dizem onze — respondeu o Treinador João, a voz firme, embora os seus olhos observassem a equipa adversária com uma atenção quase cirúrgica.
— Os documentos devem estar a gozar connosco — retorquiu o Zé Caganita, nervoso. — Aquele tem onze em cada perna.
Eles não aqueciam como miúdos. Eles faziam flexões sincronizadas, saltos que faziam a areia tremer e olhavam para o vazio com uma intensidade militarista. O contraste era brutal: de um lado, a máquina de guerra preta; do outro, dezoito miúdos de camisola branca, marcada por canetas e fita-cola colorida.
— Há crianças de onze anos com barba… — pausa — Quer dizer, raramente… — outra pausa — Muito raramente. — Refletia o Treinador João.
— São três. Três com barba — reforçou o Léo.
— Três com barba, dois com cara de pessoas que já têm carta de condução, e um que ou tem vinte anos ou uma doença de crescimento que a medicina devia estudar. — Concluiu o Tsé Tsé, no meio do seu sono acordado.
— Isto é assustador — murmurou o Tobias.
— Isto é desnecessário — completou o Barbinhas.
O capitão deles, Garruço, aproximou-se. Ele não caminhava; ele desfilava. Tinha braços como troncos e uma barba que parecia ter opiniões próprias. Quando parou à frente do Viriato, a sombra que projetou pareceu cobrir o capitão dos Xutos Cósmicos por inteiro.
— Então, vocês são os tais "Meia-Bola e Força" — disse Garruço. A voz era um trovão contido, grave e lento. Ele olhou para o Viriato de cima para baixo, como se estivesse a avaliar um brinquedo que encontrara no parque. — O nome é engraçado. Mas, no campo, o engraçado costuma acabar rápido.
O Viriato deu um passo em frente, os punhos cerrados, o peito inchado, apesar da diferença de altura.
— No fim, o nosso nome é o que vai estar no troféu, Garruço.
Garruço soltou uma gargalhada curta, seca, que não chegou aos olhos. Ele deu uma palmada no ombro do Viriato — um gesto que quase o fez vergar os joelhos — e inclinou-se.
— Admiro a coragem, miúdo. Mas coragem não ganha jogos. Estrutura, sim. — Ele virou-se para os seus colegas, que continuavam a sua rotina robótica, como se estivessem a preparar‑se para levantar um carro... — Vemo-nos logo à tarde. Tentem não se magoar.
O Flocky, que estava sentado perto do Viriato, emitiu um rosnado baixo, profundo, quase inaudível, mas carregado de aviso. O cão sabia. Aquilo não era uma equipa: era um muro.
O Treinador João aproximou-se, sentindo a tensão que corria entre os seus jogadores. Ele não tentou fingir que os Donos da Bola eram pequenos ou fracos.
— Tomem nota — disse ele, a voz calma, cortando o medo no ar. — Eles são maiores, mais fortes e mais rápidos.
— Isso é suposto ajudar? — perguntou o Camolas, enquanto tentava equilibrar-se num pé só, falhando por pouco.
— Sim. Porque nós somos mais inteligentes e mais imprevisíveis. — O Treinador olhou para cada um deles, pousando a mão no ombro do Tobias, que ajeitava o gesso sujo de areia. — Eles têm estrutura. Mas vocês têm algo que eles não têm: vocês são vocês. E cada um de vocês tem algo que os Donos da Bola não conseguem calcular.
O Basílio não disse nada. Limitou-se a olhar para o céu, como se estivesse a calcular a trajetória de uma bola que ainda não tinha sido chutada, imperturbável perante a demonstração de força dos adversários.
— Agora, vamos almoçar e descansar — decretou o Treinador, fechando o bloco com um estalo seco. — Logo à tarde, a final é nossa.
O silêncio que se seguiu foi preenchido apenas pelo som do mar e pelo rosnar distante do Almançor, que, em árabe, parecia estar a insultar a barba do Garruço. O Viriato olhou para a areia lavrada onde os Donos da Bola tinham treinado. Eram máquinas. Mas, pela primeira vez, acreditou que até as máquinas podem ser desligadas se souberes onde está o botão.
🏟️ CAPÍTULO 14 — A Final Começa (Com Nervos, Areia e Estratégia)
À hora da final, sentia-se um silêncio estranho. Não era um silêncio de medo, mas uma eletricidade suspensa no ar. O tipo de concentração que aparece quando todos sabem que o momento é maior do que o campo onde se encontram.
O areal de Barranquilha parecia ter encolhido. O vento, que antes era uma brisa de jogo, agora trazia o som dos cânticos dos apoiantes dos Donos da Bola e o cheiro a sal e nervosismo. A areia, sob os pés descalços, parecia mais quente, mais pesada. E os Donos da Bola já estavam lá, alinhados como uma parede humana que alguém tinha decidido pôr no meio da praia.
O Almançor estacionou com menos precisão do que o habitual: sinal claro de nervosismo mecânico.
— Isto hoje vai ser duro — murmurou o Barbinhas, ajustando a sobrancelha perfeita.
— Vai — confirmou o Treinador João, sem tirar os olhos da muralha preta. — Mas duro não significa impossível.
O Flocky, o assistente técnico de quatro patas, caminhou calmamente até ao centro do areal. Farejou a areia, olhou para o vento e, quando Garruço — o capitão dos Donos da Bola — se aproximou com a sua barba imponente, o cão não recuou. Pelo contrário, sentou-se exatamente entre o Viriato e o gigante, olhando para ele com a indiferença de quem já viu "monstros" muito maiores nas suas expedições. O Garruço parou, confuso por um segundo, antes de desviar o olhar.
— O que é que isto quer dizer? — perguntou o Léo, com os olhos arregalados.
— Quer dizer que está tudo alinhado — disse o Treinador João, como se fosse óbvio.
O Avô do Benedito foi indicado como árbitro da final e aproximou‑se com o apito na mão, tentando lembrar-se de como se apitava uma final em 1974.
— Final! Capitães, aqui! — anunciou ele, com a solenidade de um explorador.
O Garruço aproximou-se. Sorriso trocista. Barba em modo ameaça.
Viriato juntou-se, aos saltinhos para parecer mais alto.
— Prontos? — perguntou o árbitro.
— Sempre — respondeu o Viriato, com coragem a disfarçar o nervosismo.
O Treinador João reuniu a equipa num círculo apertado.
— Olhem para as vossas camisolas. Cada marca, cada rabisco, cada pedaço de fita-cola foi feito por vocês. Aquele muro preto ali? Eles são uma máquina. Vocês são uma história. E hoje, vamos escrever o capítulo final.
— O que é "capítulo"? É melhor do que ser parede com iniciativa? — interrogou-se o Barranbana.
Os risos que se seguiram ajudaram o grupo a descomprimir um pouco. Eles uniram-se mais, dezoito pares de ombros encostados, dezoito respirações aceleradas. O sol poente tingia o areal de um laranja quase irreal, mas ninguém olhava para o mar. Todos olhavam para o Treinador.
O pai João, apontou para a muralha preta que se erguia a poucos metros.
— Eles treinaram para ser uma máquina. Mas máquinas não têm coração, não têm o Léo a tropeçar e a marcar, nem o Tobias a defender com um gesso partido. Eles são a força mecânica. Vocês… vocês são o imprevisto.
O Rui Trovoada olhou para a própria camisola, rabiscada a marcador, e depois para os colegas. O medo, que antes pesava como chumbo, começou a transformar-se em algo mais elétrico.
— O que é que vamos ser então? — sussurrou o Viriato.
O Treinador sorriu, um brilho de desafio nos olhos.
— Vamos ser o caos que eles não conseguem calcular.
— O que é "caos"? É pior do que "capítulo"? — voltou o Barranbana a querer esclarecer.
As gargalhadas que se seguiram surpreenderam os Donos da Bola: aquele grupo de miúdos parecia estranhamente bem-disposto.
O Basílio Picolé levantou a mão.
— A bola hoje vai andar mais baixa — disse ele, como quem anuncia o estado do mar.
— Porquê? — perguntou o Cabumba.
— Vento.
Ninguém discutiu. Quando o Basílio dizia uma coisa sobre a bola, era melhor aceitar.
O Treinador respirou fundo.
— Muito bem. Primeira parte: contenção. Segunda parte: criatividência. E se tudo falhar…
— Trinta e sete graus — completou o Viriato.
O pai sorriu.
— Exatamente.
O Avô do Benedito ergueu o apito. O vento levantou a areia. Os Donos da Bola avançaram. Os Meia‑Bola e Força alinharam-se.
O apito soou. A final começou.
**💥CAPÍTULO 15 — Primeira Parte: A Derrota Anunciada (Mas Não Confirmada)
Os Donos da Bola não corriam; eles avançavam como uma máquina de triturar. Cada passo dos seus pés pesados na areia não soava como uma corrida, mas como um martelo a bater no chão. A areia, que para crianças e jovens era um parque de diversões, para eles parecia uma passadeira de ferro.
O primeiro embate foi entre o Barranbana e o Garruço. O Camolas, mais tarde, diria que parecia o choque de um prédio contra um frigorífico em queda livre. A areia voou. O Barranbana, com os joelhos dobrados como molas de aço, aguentou o impacto. Garruço recuou um passo, com os olhos arregalados de surpresa. Pela primeira vez na vida, o 'gigante' tinha encontrado algo que não se movia. Foi a vitória não da força bruta, mas de fazer a força no sítio certo. Tal como o Treinador João lhe explicara no treino: "dobra os joelhos! É o que distingue um bloco de pedra de uma parede ativa."
Aos dois minutos, o primeiro remate deles. O Tobias defendeu com o braço avariado, o que surpreendeu toda a gente, incluindo o próprio Tobias.
— Ui! — disse ele, num reflexo clínico, enquanto tentava perceber se o gesso ainda estava no lugar.
O segundo remate foi aos três minutos. O terceiro aos quatro. O quarto aos quatro e meio.
— Isto não é futebol — murmurou o Léo. — Isto é chuva torrencial.
O Basílio Picolé estava no meio‑campo, imóvel, a observar. O vento soprava para a esquerda. A areia levantava‑se em pequenas nuvens. Os Donos da Bola avançavam como se tivessem sido construídos para aquilo.
Aos seis minutos, aconteceu o inevitável: golo dos Donos da Bola. Um remate do Garruço, carregado de eletricidade, que o Tobias viu chegar e se preparou para defender. O remate foi tão forte que o Almançor, estacionado ao lado, praguejou em árabe sem sequer perceber que o tinha feito.
O gesso do braço direito, que sobrevivera à Taça de Abertura e a três jogos do Torneio, não resistiu. Ouviu-se um 'CRACK' seco, como um galho velho a partir-se sob um pé. O Tobias olhou para o braço, agora com o gesso pendurado como uma asa partida, e a bola, impulsionada por aquele impacto monstruoso, atravessou a linha de golo.
— Ui. O gesso foi desta para melhor. — Verificou o Tobias.
— Estás bem? — preocupou-se o Viriato.
— Completamente. Agora o braço dobra-se. É mais prático.
0 — 1.
O jogo continuou. Os Meia‑Bola tentavam sair da defesa, mas cada passe parecia uma aventura. O Rui Trovoada conseguiu avançar pela direita, mas foi travado por um ombro que parecia uma parede de tijolo.
— Isto é legal? — perguntou ele ao árbitro.
— Em 1974 era — respondeu o Avô do Benedito, limpando o apito com um ar distraído.
O jogo não parava e os Meia‑Bola estavam a ser empurrados para trás como se o campo tivesse inclinação.
Mas a resposta veio de modo inesperado, como era habitual nos Meia-Bola: o Aureliano Noite Escura abriu a boca e os olhos, começou a correr e a arfar, e quem estava à sua frente desviou-se como pôde.
Os Donos da Bola ficaram confundidos durante uns segundos.
A bola chegou ao Bruno Cabumba, que cruzou com perfeição. Lá estava ele: o Basílio Picolé. O tempo pareceu abrandar. O Basílio não saltou; ele apenas inclinou a cabeça no momento exato em que a bola atingia o ponto de encontro perfeito.
CABEÇA. GOLO!
1 — 1.
Aos vinte e dois minutos, o segundo golo dos Donos. Um remate cruzado, forte, impossível.
1 — 2.
Intervalo.
Silêncio.
O vento aumentou. A areia levantou-se. O Flocky, sentado ao lado da Benilde, observava a cena com as orelhas baixas.
O Treinador João chamou a equipa. Ele pegou num punhado de areia, deixou-a escorrer pelas mãos e disse, com a voz calma, mas firme:
— Se tentarem agarrar a areia com força, ela foge. Se a deixarem assentar, ela molda-se. Parem de tentar esmagar o jogo. Deixem o jogo vir até vocês.
— Isso ajuda? — perguntou o Léo, limpando o suor da testa.
— Ajuda quando começarmos a usar a cabeça. Eles estão a ganhar por um. Empatar é possível. — Olhou para o Araponga — Tens de parar de tentar destruir a bola. Força não é direção.
— C'est impossible — afrancesou o Araponga.
— C'est necessaire! — retorquiu o pai João.
O Araponga ficou a processar o francês do Treinador durante um segundo.
— Não percebo espanhol.
— Mas percebes a ideia.
O Basílio Picolé levantou os olhos para o céu.
— O vento vai mudar — disse ele, com a sua calma habitual.
— Quando? — perguntou o Viriato.
— Agora.
Uma rajada atravessou o campo. A areia mudou de direção. Os Donos da Bola protegeram os olhos.
O Treinador João reuniu a equipa num círculo apertado.
— Eles estão a jogar contra o vento. Nós estamos a jogar com ele. É simples.
— Nada disto é simples — murmurou o Léo.
— É simples se acreditarem que é — respondeu o Treinador, com aquela lógica que só fazia sentido quando ele a dizia.
Sorriu e decretou:
— Segunda parte. É aqui que começamos.
O Avô do Benedito apitou para o recomeço.
**🌪️CAPÍTULO 16 — Segunda Parte: O Vento Muda (E o Jogo Também)
De facto, o vento, antes um inimigo que empurrava as bolas para longe, virou-se subitamente. A areia soprava agora contra os rostos dos Donos da Bola, obrigando-os a semicerrar os olhos e a lutar contra o próprio ar que respiravam. Os Meia‑Bola e Força sentiram o alívio imediato: o ar parecia mais leve, mais fácil de respirar.
O Avô do Benedito apitou para o reinício. A bola rolou.
O Bruno Cabumba assumiu o comando, fazendo os adversários correrem atrás de sombras, enquanto a equipa de camisolas brancas, agora unida por uma estratégia invisível, começava a encontrar espaços onde antes só havia solidez.
Garruço, o gigante barbudo, soltou um rugido de frustração quando o vento desviou um passe que ele julgava milimétrico. Pela primeira vez, a máquina parecia ter areia nas engrenagens.
E, novidade no jogo, os Meia‑Bola começaram a avançar com intenção.
O Basílio Picolé foi o primeiro a perceber o novo ritmo. Recebeu a bola no meio‑campo, levantou a cabeça e fez um passe longo que o vento empurrou como se fosse um aliado invisível.
O Aureliano Noite Escura correu atrás da bola como uma catástrofe em movimento — rápido, imprevisível, assustador. Os seus braços agitavam-se como pás de um moinho desgovernado. Os defesas, confundidos pela trajetória errática, recuaram por puro instinto de sobrevivência.
Aureliano chegou antes do defesa. Chegou antes do guarda‑redes. Chegou antes de toda a gente perceber o que estava a acontecer.
E rematou… com o joelho.
A bola descreveu uma curva estranha, empurrada pelo vento, e entrou no canto superior da baliza.
2 — 2.
O areal explodiu. O Chico Bombas levantou‑se tão depressa que caiu outra vez, mas não importava. O Almançor, lá ao fundo, praguejou em árabe, mas o tom era inconfundivelmente de celebração.
Os Donos da Bola olharam uns para os outros, atordoados. Não estavam habituados a isto: a imprevisibilidade.
O jogo recomeçou.
O vento continuava a soprar. Não era um sopro suave, era uma mudança de maré. A areia, que antes picava a pele dos Meia-Bola, agora era uma cortina de proteção que soprava contra as caras dos Donos da Bola. Garruço, o gigante, limpou os olhos pela terceira vez, a barba emaranhada em pó. A máquina de guerra estava a tossir.
O Araponga recebeu a bola na direita. Olhou para a baliza. Olhou para o vento. Olhou para o Treinador, que fez um gesto simples:
“Agora!”
O Araponga rematou. Um remate tão forte que, por um instante, pareceu que ia parar ao Alentejo outra vez. Mas o vento empurrou a bola para baixo, para dentro, para o sítio certo.
O guarda‑redes dos Donos da Bola, paralisado, só viu a bola passar.
3 — 2.
Silêncio. Depois gritos. Depois areia no ar.
— INCROYABLE! — gritou o Araponga.
— P’ra ti também! — respondeu o Barranbana, sem saber bem a quê.
O Treinador João fechou o bloco.
— Agora sim. Agora o jogo é nosso.
O Flocky levantou as duas orelhas ao mesmo tempo. Era raro. E era o melhor sinal de todos.
**⚡CAPÍTULO 17 — O Golo Impossível (E a Jogada Que Não Estava no Plano)
O jogo estava virado, mas a tensão era palpável. Os Meia‑Bola e Força sentiam o peso da areia nas pernas, enquanto os Donos da Bola, feridos no seu orgulho de "máquina", avançaram com uma ferocidade que fazia o próprio ar vibrar.
O Treinador João fechou o bloco e bradou:
O Treinador João, percebendo que a força física já não bastava, fechou o bloco com um estalo e bradou:
— Ok, agora é que é: hora da criatividência.
— Mas isso quer dizer o quê, exatamente? — perguntou o Zé Caramelo, limpando o suor que lhe ardia nos olhos.
— Fazer aquilo que não treinámos. O caos que eles não conseguem calcular.
— Mas… isso não é o contrário de um plano? — Continuava a duvidar o Caramelo.
— Exatamente.
O Avô do Benedito apitou para o recomeço. O sol, agora um disco laranja quase a tocar o mar, parecia observar o duelo.
Os Donos da Bola atacaram como uma avalanche. Puseram os três barbudos em campo ao mesmo tempo. O Garruço, o capitão gigante, rodou sobre o seu eixo, ignorando a marcação dupla, e disparou um míssil. A bola assobiou, cortando o vento, e estalou na rede.
3 — 3.
A dez minutos do fim, o Basílio Picolé teve uma cabeçada fantástica, enviando a bola para o canto inferior da baliza. O guarda-redes mergulhou, tocou-lhe com a ponta dos dedos. A bola bateu no poste e saiu. O som do impacto ecoou como um lamento por toda a praia.
— Esteve lá dentro — disse o Viriato, o coração a falhar uma batida.
— Esteve no poste. Dois centímetros de diferença que mudam o mundo — respondeu o Basílio, imperturbável.
A resposta dos Donos da Bola foi impiedosa. Numa cavalgada desordenada, Garruço e os seus tratores atropelaram quem lhes apareceu à frente. O Avô do Benedito, tentando posicionar-se para o lance, foi abalroado e deixou cair o apito. Sem o som do árbitro, o jogo seguiu o caos, e a bola, num ressalto confuso, acabou no fundo da baliza.
O Viriato e o Trovoada protestaram:
— Foi falta!
O Avô do Benedito, depois do empurrão, ainda andava à procura do apito e mandou seguir.
3 — 4.
O silêncio que se seguiu foi pesado. Faltavam dois minutos para o fim. O sol estava quase abaixo da linha do horizonte, e as sombras dos gigantes pareciam engolir o campo. O cansaço era um manto de chumbo sobre os ombros dos Meia-Bola. O Viriato olhou para os colegas: estavam exaustos, mas não derrotados.
— Ainda não acabou! — gritou o Rui Trovoada, a voz rouca.
Os Donos da Bola insistiam na cavalgada. Catapum, catapum, remate para golo…
O Basílio, como uma rocha inabalável, intercetou o remate: a bola bateu-lhe na testa e voltou para trás. Viriato recuperou-a, passou ao Rui, que a entregou ao Léo. O Léo desviou‑se de uma coisa que não era uma formiga mas podia ter sido e lançou o Aureliano.
O Aureliano corria. Os pulmões ardiam, as pernas pesavam como se estivesse a arrastar âncoras. À sua frente, a muralha preta dos Donos da Bola parecia impenetrável. Três defesas. Três gigantes.
Então, o inesperado aconteceu.
Aureliano, no auge da corrida, cravou os pés na areia e parou. Estático.
O mundo pareceu congelar. Os defesas, habituados a perseguições, travaram com um esguicho de areia, confusos, os olhos arregalados. O que é que aquele miúdo estava a fazer?
Fez-se um segundo de silêncio que o destino parecia pedir. Aureliano não olhou para a baliza; olhou para o lado. O Bruno Cabumba vinha disparado, invisível para os gigantes. Com um toque de joelho, sublime e delicado, Aureliano elevou a bola por cima das cabeças confusas.
Bruno não pensou. Ele não rematou; ele descarregou toda a frustração, toda a areia e toda a vontade da Rua de Cima num único pontapé. A bola subiu, apanhou o vento que soprara a favor durante toda a tarde e mergulhou no ângulo, como se tivesse um íman.
O guarda-redes saltou, mas era como tentar apanhar um raio. A rede estalou.
4 — 4!
O areal explodiu. O Chico Bombas fez a maior bomba da sua vida na areia, levantando uma nuvem de pó que tapou o sol poente. O Treinador João fechou o bloco com uma única frase:
"Criatividência funciona".
O Flocky abanou a cauda. Uma vez. Devagar. Aprovação máxima. O impossível tinha acabado de acontecer.
**🛡️CAPÍTULO 18 — A Defesa Impossível (E o Minuto Mais Longo da História de Barranquilha)
Ainda faltava um minuto — mais o tempo de compensação — para o apito final, mas o areal parecia ter mudado de dimensão. Os Meia-Bola e Força sentiam os músculos a vibrar com a exaustão, enquanto os Donos da Bola, feridos no orgulho de "máquina", lançavam-se num ataque desesperado e brutal. O vento continuava a soprar como se tivesse escolhido um lado.
Os matulões voltaram a avançar com tudo. Garruço parecia ter crescido mais cinco centímetros desde o último lance. Os defesas deles subiram. Os médios deles subiram. Até o guarda‑redes parecia pronto para vir marcar.
— Isto não é futebol — murmurou o Léo. — Isto é sobrevivência.
O Treinador João, com o bloco de notas apertado nas mãos, não desviava o olhar.
— Concentração total! — gritou. — Cada centímetro conta. Respiração controlada. Cabeça!
O Basílio Picolé ouviu a palavra “cabeça” e posicionou‑se como se fosse um monumento nacional.
O primeiro ataque dos gigantes foi travado pelo Barranbana. Ele não tentou ganhar na força. Em vez disso, dobrou os joelhos, baixou o centro de gravidade e transformou-se numa barreira humana. Garruço, o capitão adversário, chocou contra ele e, pela segunda vez, recuou. O Barranbana aguentou. Era, definitivamente, uma parede com iniciativa.
Segundos depois, um cruzamento venenoso surgiu da direita. O Tobias, com o gesso já quase desfeito pela areia e pelo esforço, lançou-se. Defendeu com o braço bom, a bola sobrou, ele atirou-se de novo, desta vez protegendo a baliza com o braço partido por puro instinto.
— Ui! — exclamou, mais pelo esforço do que pela dor.
O terceiro ataque parecia o golpe final. Garruço recebeu a bola na entrada da área com a calma de um predador. Rodou sobre o próprio eixo, ignorando a marcação dupla, e preparou o remate. O ar pareceu vibrar. Quando o pé dele encontrou a bola, o som foi o de um canhão a disparar. A bola subiu, imparável, cortando o vento como um meteoro em direção ao ângulo superior da baliza.
O Basílio não correu. Ele calculou. Ele previu. Quando a bola atingiu o ápice da trajetória, ele inclinou a cabeça num ângulo cirúrgico.
A bola bateu-lhe na testa com um estalo seco e disparou para o céu, perdendo toda a força, antes de cair inofensivamente fora de campo.
Silêncio. Depois gritos. Depois mais areia no ar.
Um silêncio sepulcral caiu sobre o areal. Depois, o caos.
— Sorte! — gritou o Garruço, incrédulo.
— Milagre! — exclamou o Tobias, ajeitando o gesso.
— Física aplicada — corrigiu o Treinador João, anotando algo freneticamente no bloco.
O relógio avançava a passo de caracol. O árbitro deu mais dois minutos de compensação. Os Donos da Bola tentavam tudo: passes longos, empurrões, gritos de intimidação. Nada passava. O Nuno Barbinhas e o Nuno Limpa Gavetas formavam um bloco coordenado. Os seus bolsos cheios de tralha, à medida que iam chocalhando, pareciam conter toda a determinação do mundo.
O Tobias ia defendendo com o braço bom, com a testa, com o joelho esquerdo, com o braço mau… defendeu tudo e com tudo.
O vento soprava. A areia levantava‑se. E os Meia‑Bola defendiam como se estivessem a proteger a última baliza do mundo.
Faltava meio minuto.
O Avô do Benedito olhou para o relógio com a expressão de quem está a tentar lembrar‑se se o relógio está certo desde 1974.
— Falta pouco — informou, com solenidade.
O último ataque dos gigantes. Um cruzamento alto. Um dos barbudos saltou, elevando-se acima de todos. Cabeceou com toda a alma.
E então…
E então… o Flocky, sentado atrás da baliza, soltou um ladrar. Curto, agudo, preciso.
O Tobias, como se tivesse sido programado por aquele som, mergulhou para o lado oposto ao que a lógica ditava. A bola foi exatamente para lá, para a esquerda.
E ele defendeu.
DEFENDEU!
O areal vibrou com alegria. O Almançor, lá ao longe, soltou uma salva de pragas em árabe que pareciam vivas. A Benilde apitou com orgulho. O Chico Bombas apareceu sentado na areia sem sequer ter saltado.
O Avô do Benedito, com a clareza de quem finalmente recuperou o espírito de 1974, ergueu o apito.
O som longo e estridente do apito final cortou o vento. 4 — 4.
O empate forçava o desempate por grandes penalidades. A final seria decidida na marca dos onze metros, onde a areia não perdoa e o coração tem de ser mais forte que a gravidade.
**⚽Capítulo 19 - As Grandes Penalidades (e a Benilde, Que Sabe Quando Ligar os Faróis)
Os penáltis no futebol de praia têm uma qualidade diferente. A areia, instável sob os pés, rouba a certeza da corrida, há mais hesitação no momento decisivo. O silêncio que se instala entre cada remate é denso, quase palpável, como se o tempo estivesse a tentar decidir de que lado da história quer ficar. Até o som da bola quando entra na rede é mais suave, como se o ponto final fosse escrito com tinta diferente.
O Treinador João definiu a ordem dos marcadores: Basílio, Araponga, Rui Trovoada, Bruno Cabumba e Viriato.
A ordem dos Donos da Bola (batizados pelo Tsé Tsé): Garruço, Barba Preta, o Onze Anos em Cada Perna, o Barba Suja e o Monte de Tijolos.
O guarda-redes dos Donos da Bola era enorme. Mas havia uma coisa sobre guarda-redes enormes que o Treinador João sabia: ocupam mais espaço, mas demoram uma eternidade a chegar ao chão. "A chave é o tempo", sussurrou ele. "Não o vosso, mas o deles."
O Basílio avançou. Sem balanço, sem nervos. Olhou para o gigante, calculou a trajetória como quem observa as estrelas, e tocou na bola com a precisão de um relógio suíço. Golo. Bola rasteira, canto inferior esquerdo, exatamente onde queria.
Garruço, o capitão dos Donos da Bola, respondeu com um pontapé que quase levava a rede. Tobias foi ao lado certo, mas a bola era um cometa. Golo.
1-1 nas penalidades.
Araponga respirou fundo. Pensou nas palavras do Treinador: “menos força, mais direção; mais para a esquerda do que estás a pensar”. O pé tocou na bola com a suavidade de um violoncelista. O guarda-redes ainda se esticou, mas a bola entrou no ângulo. Golo.
O Barba Preta dos Donos da Bola não deu hipóteses: Tobias para um lado, bola para o outro. Golo dos Donos.
2-2.
Rui Trovoada correu como se estivesse a fugir de um touro. O remate foi um estrondo, um trovão que fez a areia saltar. Golo.
3-2.
O "Onze Anos em Cada Perna", como o Tsé-Tsé batizou, tremia. Tobias leu o medo naqueles olhos. Tobias leu o nervosismo, atirou-se para o canto esquerdo… a bola foi para o meio. Golo.
3-3.
Bruno Cabumba fez o seu truque habitual: bola a girar no dedo, olhar fixo no guarda-redes, um sorriso de quem sabe um segredo. Bola na marca, sem balanço, aponta com um dedo para a direita, chuto para a esquerda, guarda-redes paralisado… Golo!
O Barba Suja dos Donos da Bola rematou com a frieza de um adulto. Tobias tocou-lhe, mas a força era demasiada. Golo.
Estava 4-4. Chegara a vez de Viriato.
Caminhou para a marca. A areia parecia movediça, como se quisesse engolir os seus pés. À sua frente, o guarda-redes dos Donos da Bola parecia um portão, bloqueando quase toda a luz do horizonte. O coração de Viriato batia tão forte que ele temia que o som denunciasse o seu medo.
"É só um pontapé", pensou ele, mas a sua cabeça dizia que era o peso de todo o Verão.
Não havia plano. O pai dissera-lhe, na véspera, que em penáltis não há plano — há só a pessoa, a bola e a decisão. Viriato olhou para os barrancos. Para o pinheiro mais torto. Para o mar. "E se o pai estiver errado? E se eu não for a pessoa certa?"
Desesperado, desviou o olhar para o pinhal. Lá estava ela. A Benilde. A sua velha carrinha, estacionada como um farol de esperança na penumbra.
Por um breve segundo, os faróis da Benilde piscaram. Não foi um erro elétrico; foi um sinal. Um segredo partilhado entre dois velhos amigos. Os faróis iluminaram exatamente o canto superior direito da baliza durante dois segundos. O guarda-redes dos Donos da Bola olhou, por instinto, para o lado onde apontava a luz. Viriato percebeu. O canto superior direito não era o destino; era a isca.
Viriato correu. Rematou. Para o canto superior esquerdo — o oposto do que a luz indicava, o oposto para onde o guarda-redes tinha olhado e para onde se lançou.
A rede estalou. Golo. 5-4.
Faltava o último. O Monte de Tijolos dos Donos da Bola, o último rematador, avançou. A pressão era um manto de chumbo sobre os ombros de todos.
O Tobias pôs-se na baliza com os dois braços abertos — o bom e o avariado — como se fossem suficientes para cobrir toda a largura do mundo. Não eram. Mas o Monte de Tijolos hesitou ao ver aquele guarda-redes com o gesso sujo de areia e, por meio segundo, perdeu o foco. Rematou para o meio.
Tobias não se mexeu. A bola bateu-lhe no peito e caiu morta na areia.
— UI, UI, UI! — gritou ele, mais pelo alívio do que pelo impacto.
Por um instante, o silêncio foi absoluto, uma pausa sagrada antes da explosão. Nada se ouvia: nem os Meia‑Bola, nem os Donos da Bola. Nem o público. Nem o vento. Era como se o universo tivesse parado para confirmar se aquilo tinha mesmo acontecido. Depois, o grito coletivo:
MEIA-BOLA E FORÇA CAMPEÕES DO TORNEIO INTERNACIONAL DE BARRANQUILHA!
🏆 CAPÍTULO 20 — A Vitória Épica
A confusão que se seguiu foi um caos de braços no ar, joelhos esfolados a colidirem em abraços e gritos que fizeram as gaivotas levantar voo em pânico. O Chico Bombas, fiel ao seu estilo, não perdeu tempo: lançou a maior bomba da sua carreira a partir de um rochedo próximo. O PLÓOOF foi tão monumental que foi ouvido em Barranquilha toda e possivelmente nas aldeias vizinhas.
s Xutos Cósmicos e os Arrebenta Canelas, que há semanas trocavam insultos na Rua de Cima, formavam agora um emaranhado de camisolas brancas, impossível de distinguir quem era de que equipa. O Almançor, lá ao fundo, praguejava em árabe com um entusiasmo contagiante e misturava tudo com um rap chinês que punha toda a gente a dançar. A Benilde, sempre fiel, piscava as luzes como se estivesse numa discoteca de 1987, enquanto o Avô do Benedito apitava dois apitos em simultâneo, sem se importar com a cacofonia.
Viriato desligou-se do barulho. À sua volta, o mundo era um borrão de euforia, mas ali, no centro do campo, o silêncio era absoluto. O coração ainda batia ao ritmo da adrenalina, mas a respiração, finalmente, acalmava. Ele ficou ali parado, a olhar para o campo, para a areia, para a baliza onde o Tobias tinha defendido o impossível.
O Flocky aproximou-se, sentou-se ao seu lado e encostou a cabeça na sua perna.
— Ganhámos — sussurrou Viriato.
Flocky levantou uma orelha. A confirmação absoluta.
Os Donos da Bola, vencidos, observavam a cena em silêncio. Garruço, o capitão gigante, aproximou-se do Viriato, estendeu a mão e, num gesto de rara humildade, admitiu:
— Jogaram bem. A vossa "criatividência" apanhou-nos desprevenidos.
O Viriato apertou a mão, sentindo a força bruta daquele aperto, agora despida de arrogância.
— Foi um jogo inesquecível.
— Quantos anos tens, miúdo? — perguntou Garruço, olhando para o Tobias com o gesso sujo e estilhaçado.
— Nove.
— Nove… — repetiu o gigante, com um sorriso de quem acabara de aprender uma lição sobre a natureza das coisas imbatíveis. — Voltem no próximo torneio. E tragam esse cão.
O Treinador João reuniu a equipa num círculo vitorioso. Todos estavam sujos, exaustos, mas incrivelmente vivos.
— Isto — disse ele, com a voz embargada — é o que acontece quando param de jogar com a cabeça e começam a jogar com o coração. O impossível torna-se apenas uma questão de tempo.
O Araponga levantou o braço.
— Incroyable.
— Essa é a quinta palavra — disse o Treinador. — Progresso.
O Basílio Picolé olhou para o céu.
— O vento vai parar — disse ele.
E o vento parou, como se estivesse à espera daquele momento.
O Avô do Benedito ergueu o apito uma última vez.
— Meia‑Bola e Força… CAMPEÕES!
A areia levantou-se. Os gritos de festa encheram o areal. O Flocky ladrava. O Almançor tocava Hip‑Hop chinês no volume máximo. A Benilde apitava no mesmo ritmo. Era a entrega do troféu.
Viriato e Trovoada, capitães, levantaram-no — um troféu improvisado, torto, pesado, feito de madeira e fita-cola, com os nomes das equipas toscamente gravados. Naquele momento, era o objeto mais bonito do mundo.
A Benilde tornou a apitar com entusiasmo.
O Almançor disse algo em árabe que o Papa John traduziu depois, em privado, como qualquer coisa entre ‘parabéns’ e ‘eu sabia desde o início’.
— Não sabias desde o início — rosnou-lhe o motor da Benilde Rodinhas.
— Suspeitava.
— Também não — voltou ela.
— Tinha esperança.
— Isso é a coisa mais honesta que disseste. — E apitou de novo.
O Almançor voltou ao Hip-Hop chinês. Naquele final de tarde de Agosto, em Barranquilha, soava de forma completamente diferente daquela que se ouviu quando partiram da Rua de Cima.
Era a mesma música. Mas o mundo parecia outro.
⭐ CAPÍTULO 21 - Última Noite em Barranquilha
A última noite foi à volta de uma fogueira que o Avô do Benedito conseguiu atear, ao fim de dez tentativas.
Toda a gente estava presente: Xutos, Arrebenta Canelas, Tsé-Tsés. Dezoito jogadores, o Treinador João e o Avô do Benedito a fazer nós com os atacadores. O Flocky estava deitado no colo do Basílio Picolé, que era a única pessoa fora da família que o Flocky tinha escolhido para colo, e o Basílio aceitara com um monossílabo que era claramente de satisfação.
— E o campeonato da Rua de Cima? — interrogou-se o Trovoada.
— Setembro. — Disse o Viriato.
— Setembro. Ainda empatados. — Pausa — Mas desta vez o Araponga sabe rematar para dentro da baliza. Prepara-te.
— O Tobias defende tudo, até com o gesso partido.
— O Tobias defende com tudo o que tiver! — completou o Zé Caramelo.
Era verdade. Ninguém discutiu. O Chico Bombas, do outro lado da fogueira, estava a planear mentalmente a última bomba da expedição — havia um barranco que ele ainda não tinha usado como plataforma de lançamento.
O Tsé-Tsé acordou durante vinte segundos — um recorde —, olhou para o mar, e disse:
— Já estávamos aqui antes de perceber que éramos nós — e voltou ao repouso. Aquela frase era de uma profundidade que ninguém investigou porque aquele momento não requeria investigação.
O Treinador João estava do outro lado da fogueira, com o bloco quadriculado fechado — o que era raro — a olhar para o mar com a serenidade de engenheiro terapêutico que resolveu o problema do dia e sabe que amanhã há outro. Mas amanhã é outro dia.
— Pai — chamou Viriato.
— Sim.
— Fizemos uma equipa de dezoito jogadores de três equipas que mal se conheciam e ganhámos um torneio. Como é que sabias que ia funcionar?
O pai ficou calado o tempo de duas estrelas cadentes, que passaram naquele momento com a pontualidade do universo a fazer o que faz.
— Eu não sabia, Viriato. Mas, pela primeira vez, não precisava de saber. Eu só precisava de estar lá para ver se vocês conseguiam.
— E se a mistura corresse mal? — interrogou o Viriato.
— Então voltávamos a Setembro com a Rua de Cima empatada e tínhamos a história de termos tentado. Que também é uma boa história.
Viriato abriu o Caderno das Expedições na última página escrita. Passou o dedo por uma mancha de areia seca na página. A areia que o Flocky trouxe colada no focinho no primeiro treino. Aquilo não eram apenas registos num caderno; eram o mapa de como tinham deixado de ser estranhos para se tornarem uma equipa.
Escreveu: Uma equipa é quando todos dão o melhor de si para ajudar os outros a jogar melhor.
Ficou a olhar para a frase. Depois acrescentou uma segunda linha: E quando o momento é mesmo importante, a Benilde sabe. Fechou o caderno.
A Benilde, estacionada perto dos pinheiros, emitiu um estalido mecânico que parecia um suspiro de contentamento. O pai João sorriu, como se tivesse entendido o que a carrinha dizia.
— O carburador da Benilde funcionou muito bem nesta viagem.
— Pai.
— Sim?
— Não tentes explicar a Benilde com o carburador. Ela é mais do que isso.
A carrinha fez um som que, sem qualquer dúvida, era uma gargalhada metálica.
— Está a rir-se de mim outra vez — reconheceu o pai João.
— Ri. Mas com carinho.
A fogueira durou mais uma hora. As histórias foram das bombas do Chico aos cabeceamentos do Basílio que a ciência ainda não conseguia descrever. Quando a fogueira começou a baixar, o Chico Bombas levantou-se.
— ÚLTIMA BOMBA DE BARRANQUILHA — anunciou, a correr.
O barranco norte. O Chico voou. O PLÓF foi de uma grandeza que o Avô do Benedito descreveria como tendo atingido o nível de registo no livro dos escuteiros de 1974. Do meio da espuma, no escuro de Barranquilha, Chico Bombas gritou:
— ATÉ SETEMBRO!
E toda a gente sabia o que isso significava. Setembro era o campeonato da Rua de Cima. Mas Agosto era Barranquilha. E Barranquilha era deles.
🌅 CAPÍTULO 22 — O Regresso a Casa
Na manhã seguinte, o acampamento desfez-se com uma "eficiência" que seria discutível para qualquer engenheiro. O Avô do Benedito descobriu que a tenda de ventilação cruzada de 1974 era muito mais teimosa do que o seu manual de escuteiro previa, acabando por ficar presa num arbusto. O Zé Caganita lutava contra um saco-cama que parecia ter vontade própria, enrolando-se nele como um casulo, enquanto o Nuno Barbinhas supervisionava a tarefa, guardando cada estaca e corda nos seus bolsos mágicos, por ordem de tamanho e utilidade.
O Almançor ficou à espera com a porta aberta e o Hip-Hop chinês a meio volume — o nível de despedida. A Benilde Rodinhas ficou à sombra dos pinheiros até ao fim, como sempre fazia, deixando que toda a gente partisse antes, como o dono de uma casa que é o último a apagar a luz.
O Treinador João observava tudo com o seu bloco de notas, o coração de engenheiro terapêutico a registar não apenas a logística, mas a forma como cada um se movia agora, com uma confiança que não existia no primeiro dia.
O Zé Camolas foi o último a despedir-se. Tentou dar um passo firme em direção ao Viriato, mas o seu pé esquerdo decidiu seguir um caminho diferente e ele oscilou, braços em hélice, antes de se equilibrar no último milímetro de gravidade.
— Não caí — declarou ele, o rosto a brilhar com aquele orgulho de quem desafia as leis da física.
O Viriato soltou uma gargalhada curta, mas sentiu um nó apertar-lhe a garganta. O Zé continuava o mesmo, mas a praia de Barranquilha, atrás deles, parecia subitamente mais vazia, como se o cenário de um filme tivesse sido desmontado.
— Voltam? — perguntou o Zé, o sorriso a vacilar.
— Voltamos — prometeu o Viriato, apertando-lhe a mão com força. — Sempre que houver uma razão.
Abraçaram-se com aquela rapidez de pessoas que não têm jeito para despedidas longas, mas que sentem o peso delas da mesma forma.
A viagem de volta começou com o Almançor agora a tocar Hip‑Hop chinês no volume máximo, como se fosse a banda sonora oficial da vitória. A Benilde seguia atrás, com as luzes a piscar em modo celebração.
A viagem de volta começou com o Almançor a tocar Hip‑Hop chinês num volume que fazia vibrar os dentes. A Benilde seguia atrás, com as luzes a piscar em modo celebração. À medida que os quilómetros passavam, o ritmo frenético da música começou a contrastar com o silêncio que se instalava no interior do autocarro. Um a um, os jogadores foram vencidos pelo cansaço. O Léo adormeceu com a testa encostada ao vidro, o Barranbana ocupava dois lugares com a serenidade de um rei, e até o Basílio Picolé, com os olhos semicerrados, parecia estar a sonhar com trajetórias perfeitas.
Na Benilde, o pai João conduzia, absorto. "Não estou distraído. Estou a escrever mentalmente", costumava ele justificar-se.
O Viriato aproximou‑se.
— O que estás a escrever "mentalmente"?
— O futuro — respondeu o pai, sem tirar os olhos da estrada.
— O futuro de quê?
— Da equipa.
O Viriato sentou‑se ao lado dele.
— Achas que vamos conseguir repetir isto?
O Treinador fechou o bloco.
— Não. Repetir, não. Repetir é impossível. Mas podemos fazer outra coisa.
— O quê?
— Podemos fazer algo diferente. E diferente é sempre melhor do que repetir.
O Viriato pensou naquilo.
— Achas que somos mesmo bons?
O pai sorriu.
— Não. Vocês não são bons. Vocês são… vocês. E isso é muito mais difícil de encontrar.
O Almançor interrompeu a conversa com uma praga em árabe que, pelo tom, significava “detesto buracos na estrada”.
O autocarro abanou. O Flocky ladrou uma vez. A Benilde fez um biip preocupado.
O Viriato riu.
— Somos mesmo uma equipa estranha.
— As melhores são assim — disse o Treinador.
A Benilde pareceu suspirar, um chiar metálico que, naquele momento, soou estranhamente a uma gargalhada carinhosa.
— O carburador? — perguntou o Viriato.
— Estava a pensar nisso, mas não. Acho que era o coração — disse o pai, sorrindo.
Viriato abriu o seu Caderno das Expedições. A página estava em branco, mas ele não a via como um vazio. Via como o início de algo novo. Escreveu no topo: Barranquilha, segunda vez. Ficou a olhar para a página, sentindo que o Viriato que ali estava já não era o mesmo que, semanas antes, tentava desesperadamente encontrar maneiras de resolver um empate.
Os Meia‑Bola e Força iam para casa com um troféu torto, embrulhado num casaco no fundo do autocarro e que seria o novo centro de gravidade do bairro. A estrada abriu-se, infinita e promissora. Setembro estava ao virar da esquina, com o campeonato da Rua de Cima por resolver. Era exatamente o que precisavam.
🏡 EPÍLOGO — A Meia
A meia estava em cima da secretária do Viriato.
Não era uma meia especial. Não era uma meia bonita. Não era uma meia nova. Era apenas a meia que o Flocky estava a roer no primeiro dia. A meia que tinha dado nome à equipa. A meia que tinha decidido o concurso de ideias. A meia que, de alguma forma, tinha estado presente em todos os momentos importantes. Não era a meia que tinha ficado dentro do arroz de pato dos Cavalos da Crista.
O Viriato pegou nela.
Estava gasta, tinha um buraco no calcanhar e cheirava, inconfundivelmente, a cão molhado e a areia de Barranquilha. Cheirava a vitória.
O Flocky entrou no quarto, devagar, como quem sabe que está a entrar num lugar importante.
Sentou-se. Olhou para a meia. Depois para o Viriato.
— Queres? — perguntou o Viriato.
O Flocky não se mexeu.
O Viriato sorriu.
— Achas que isto tudo aconteceu por tua causa?
O Flocky não respondeu com latidos. Aproximou-se e deu uma lambidela rápida no polegar do Viriato. Era a sua forma de dizer: "Eu só dei o pontapé de saída. O resto foi convosco."
O Viriato sorriu e pousou a meia na prateleira, como se fosse uma peça de museu. Ao lado do troféu torto. Ao lado de uma concha que o Léo tinha apanhado. Ao lado de um papel com um desenho do Barranbana que parecia um frigorífico com pernas. Ao lado de um bilhete do Araponga que dizia apenas Incroyable.
Era o sítio certo. Aquele quarto já não era apenas um quarto; era o quartel-general de uma história que, ele sabia, estava longe de terminar.
O Viriato sentou-se na cama. O Flocky deitou-se ao lado, com a cabeça nas pernas dele.
— Achas que vamos ter mais aventuras? — perguntou o Viriato.
O Flocky fechou os olhos. Respirou fundo. E abanou a cauda uma vez: “claro que sim”.
Deitou-se e olhou para o teto. O campeonato da Rua de Cima começava em Setembro. O Rui Trovoada ia querer desforra. O Tobias ia precisar de um gesso novo. E o Flocky… bem, o Flocky provavelmente já estava a planear a próxima expedição.
Viriato fechou os olhos, sentindo o peso do troféu a protegê-lo. O futuro podia ser imprevisível, podia ter buracos na estrada como o Almançor dizia, mas uma coisa era certa: ia ser, no mínimo, incroyable.
FIM
